Ao jovem que pretende fazer Ciências Sociais

Leonardo de Lucas da Silva Domingues Via Espaço Acadêmico

De repente você está lá com os seus 17/18 anos e se depara com a decisão crucial sobre o futuro de sua vida: qual curso superior escolher? É um momento em que se misturam anseios distintos e indecisões juvenis com pressões familiares e preocupações financeiras. Tudo acontece ao mesmo tempo. O candidato a uma vaga no ensino superior dificilmente faz um questionamento prévio sobre todas essas questões. Mas, enfim, você tem que escolher alguma coisa. E aí, sabe-se lá por que cargas d’água, razões, decisões ou motivações você escolhe fazer o quê? Ciências Sociais.

Não é simples identificar o que faz alguém escolher um determinado curso. Fatores subjetivos podem se sobrepor aos objetivos, tornando a explicação ainda mais complexa do que aparenta ser. No caso de uma escolha para o curso de Ciências Sociais, pode-se dizer que talvez a pessoa já tenha alguma inclinação para a área desde pequena ou talvez apenas a escolha por não se enquadrar em nenhuma das outras categorias disponíveis. As constatações podem ser as mais diversas.

Atualmente, há muitos recursos cibernéticos para buscar informações sobre a área de Ciências Sociais. Na internet, encontram-se textos e mais textos, livros digitalizados, vídeos educativos, páginas eletrônicas dos cursos de graduação e de pós-graduação, entre outros. A inserção da Sociologia como matéria obrigatória para o ensino médio também ajuda imensamente o aluno a já ter um contato com o mundo acadêmico, com as leituras e com outros aspectos que são próprios desse universo.

É claro que tudo isso ajuda, mas o certo é que você só vai saber mesmo o que é fazer Ciências Sociais, quando já o estiver fazendo. Tal fato não é nenhuma anomalia, se comparado aos outros cursos. Há uma surpresa com a escolha tão bem pensada. Talvez, só depois de terminada a graduação é que você vai perceber o que aquela escolha realmente significou para seu futuro. Quando essas mediações não estão bem construídas na cabeça do estudante em fim de curso, esse choque de realidade, abrupto, pode ser um problema. Antes de adentrar nesse campo, como você pode chegar e o que vai fazê-lo chegar a escolher esse curso?

Você fez seu ensino médio e viu que só as matérias de humanas lhe interessaram. História, Filosofia e Sociologia foram os pontos altos no boletim. Você se vê como uma pessoa engajada, interessada nos destinos do mundo; parece que a maioria de seus outros amigos não consegue ao menos entender os verdadeiros problemas humanos que você levanta em conversas e bate-papos. Você já deve ter defendido os palestinos, os tibetanos, os cubanos, os indígenas, os haitianos, os sem-terra, os sem-teto, os animais em extinção… Certamente participou de passeatas e de todo tipo de manifestação. Talvez já tenha visto filmes-cabeça, dos quais mais ninguém gosta. Geralmente esse tipo de contexto e de trajetória de vida, mais outros tantos elementos não destacados aqui, é que levam alguém a escolher Ciências Sociais.

Essa não é uma condição necessária. Fora os que escolhem por esse lado mais politizado, há também aqueles que, por várias razões, têm uma inclinação para um viver chamado de alternativo. Nessa categoria inserem-se roqueiros, hippies, punks, straight edge, poetas e “malucos” de toda estirpe. Em qualquer universidade de médio ou grande porte, é possível notar que os alunos de Ciências Sociais são tidos como uns dos mais estranhos e acabam, muitas vezes, recebendo nomes muito “carinhosos” da “comunidade” universitária como os “bicho-grilo”.

Essa representação caricatural pode se explicar, em termos, e com o devido distanciamento crítico, pelo visual diferente dos alunos. Dreadlocks, barbas compridas, piercings, cabelos coloridos, vestimentas de tendências distintas e adereços diversos adornam a alteridade do grupo.

O que em cursos como Design Gráfico, Comunicação, Jornalismo, Marketing e Propaganda é visto muitas vezes como uma demanda de mercado, o “ser alternativo” (ter estilo despojado, criativo), lá nas Sociais é uma realidade não-fabricada (com seu grau de autenticidade que o afasta da gravitação mercadológica). Talvez nenhum outro curso o coloque tão próximo da diversidade, em seu sentido mais amplo e pleno. Por trás de cada uma dessas pessoas existe uma complexa teia de relações com os submundos da cultura não-convencional. Vozes díspares e antagônicas vão querer falar e você vai aprender a conviver com elas, a ouvi-las e a interagir com elas.

Depois de todas essas etapas, você quer saber, afinal, que curso é esse? O que ele representa? Qual a atuação das pessoas que passam por esse tipo de formação? Calma, a história é longa. Até você entender o que é um cientista social vai algum tempo (o que faz, então, demora mais ainda). Talvez, até lá você já vai ter passado por boas crises existenciais e por muitas experiências inesquecíveis. Você vai se deparar, em algum momento dessa empreitada, com célebres perguntas: até que ponto suporta seguir? É realmente intelectual o bastante para ser um acadêmico? Quais opções existem sem ser a vida universitária? Trabalhar como cientista social profissional, ser professor ou se engajar em alguma causa? Dinheiro…dinheiro…dinheiro….

Vai perceber que tudo aquilo que demora a compreender, será ainda mais complicado para explicar aos outros, principalmente aos que o rodeiam. Se, para descobrir a diferença entre Serviço Social e Ciências Sociais bastam algumas semanas, para todo o resto leva quase a totalidade de uma existência. Enfim, essa não é uma tarefa fácil. Descobrir o universo que representa esse curso de graduação leva muito mais do que seus quatro anos de duração.

Na sua consistência bruta, Ciências Sociais é um daqueles cursos dentre os quais a leitura é um hábito indispensável. Gostando ou não, querendo ou não, o certo é que você vai se cansar de ler. No início isso pode ser muito tortuoso. As leituras são difíceis, os temas algumas vezes são indecifráveis, assim como os termos e o linguajar próprios.

Apesar dos pesares, decifrar as teorias pode ser muito prazeroso. Além de ler, também é essencial fazer leituras críticas. Não se importe em gastar o tempo que for necessário para entender um trabalho intelectual. Sua confecção pode ter demorado anos ou, às vezes, até décadas. Nesse caminho, você pode encontrar matérias que não o agradam, temas que não tem nada a ver com suas pesquisas ou intenções futuras, mas isso não o impede de aproveitar o mínimo possível e o mentalmente necessário dessa experiência incomum.

Ao longo dos anos, dificilmente irá se manter o mesmo. Certamente, o estudante do início do curso não se confunde com o que se forma. E tal mutação não se dá só por uma questão heraclitana do fluir do rio ou de alguma outra coisa parecida, vai muito além disso. Não há naturalidade nesse processo (aliás, o natural, como verá, não existe na sociedade). Essa graduação o fará pensar e repensar muitas coisas: certezas se reduzirão a pó em pouco tempo e um novo leque de possibilidades se abrirá diante de seus olhos. A leitura sobre as teorias será a bagagem fundamental a ser utilizada nessa viagem sem destino fixo ou provável.

Somando-se a isso, provavelmente você vai começar fazendo disciplinas muito diferentes entre si, lendo livros, algumas vezes, com séculos de distância uns dos outros. Vai ser uma salada de compreensões e de reflexões. Nesse ponto, a melhor saída é recorrer à Filosofia. Para estudar Ciências Sociais é preciso ter alguma base sobre as correntes do pensamento filosófico.

E tudo isso vai gerar muita mudança. Talvez essa seja uma das marcas indeléveis de alguém que passa pelo processo de graduação em Ciências Sociais. Há mudança porque, na realidade, há um mudar em diversos sentidos. Mesmo para os alunos que não tenham lá tanta simpatia com o curso ou que estejam mais interessados somente no diploma irão ser provocados a saírem do lugar.

Isso acontece principalmente se você passa a viver numa cidade universitária distante de sua família. Todo esse ambiente de novidade estimula ainda mais a necessária desconexão com o mundo diário dos problemas corriqueiros. Ainda que tenha de trabalhar para se manter nessa nova morada, como boa parte dos alunos acaba fazendo, isso não vai alterar sua jornada de reconstrução do mundo social que o cerca por meio das diversas orientações teóricas.

Talvez tal fato até potencialize seu distanciamento crítico em relação ao emaranhado de relações entre pessoas e coisas que se pulverizam numa apreensão imediata do cotidiano. O certo é que, de uma maneira ou de outra, independente de sua origem social, de seu credo e todas as outras coisas que nos distinguem/diferenciam uns dos outros, a despeito disso tudo, você vai repensar sua vida; vai questionar seu mundo; vai parar, nem que for por alguns instantes, para pensar sobre coisas que, por circunstancias das mais diversas (e que irá estudar sobre elas), dificilmente pensaria.

É lógico que cada um terá o seu modo de vivenciá-la. Alguns viverão essas mudanças de modo extremamente intenso, outros já irão percorrer o caminho com moderação. Em todo caso, tudo será novo. Por isso é interessante estudar em uma cidade distante da sua de origem. Também é importante escolher uma universidade com muitos cursos diferentes; esse contato com grupos distintos é fundamental.

Paris, maio de 1968

No que diz respeito especificamente ao curso de Ciências Sociais, as mudanças incluem não só o contato com novas visões de mundo, mas, também, a conexão com uma miríade de formas de vida alternativa. Se sua sala for realmente representativa nesses quesitos, uma genuína classe de Sociais, prepare-se para tomar contato com vegetarianos, marxistas, hinduístas, feministas, crentes (padres, pastores), anarquistas, liberais, dentre outros. Em paralelo às mudanças de rotas, uma série de crises se sucederá, uma atrás a outra: existenciais, psicológicas, teórico-metodológicas, religiosas, financeiras…. Não há quem não passe por elas (a que trata da existência material será, certamente, a mais problemática).

Muitas dúvidas podem surgir. Todo questionamento vai levá-lo ao movimento. Não há nada mais básico em um trabalho de reflexão. Não importa o quanto isso vá contra seus próprios pensamentos ou convicções, duvide, questione, problematize. O conforto no campo das ideias não é para os que lidam com os problemas do pensamento, muito menos para os que refletem sobre a realidade social.

Criticar parece ser uma resposta simples para problemas complexos. Não é bem assim. A crítica é um elemento fundamental nesse processo (assim como a autocrítica). Lembre-se que os pensamentos só servem para fazê-lo pensar e para continuar pensando. Não cultue os pensamentos de modo a se fixar inflexivelmente em certas ideias, principalmente as que abstratamente (no campo lógico) pareçam perfeitas. Pense agindo concretamente, transformando sua realidade.

Desde o primeiro momento na graduação, tente abarcar em suas inquietações o máximo de referenciais distintos. Leia sobre tudo. Converse muito com professores de matérias diametralmente opostas. Procure saber, já no primeiro ano, quais os projetos desenvolvidos nas pesquisas do corpo docente. Mergulhe no erro. Teste suas afinidades teóricas. Discuta. Quando sentir que as ideias não saem de certo limite de segurança, provoque-as, remova obstáculos; jogue os pensamentos contra si mesmos. A realidade não vai até onde se estende a racionalidade lógica de meros conceitos abstratos.

Se for instigado a pensar, fará do mundo uma grande experiência criativa. Verá que a mudança que se materializa em você se expressa antes na realidade que o cerca. Esse movimento o levará a investigar sobre o que está inscrito no universo social que nos rodeia. Por trás de explicações supostamente óbvias sobre cada coisa que existe no mundo, apreenderá o jogo contraditório das relações que constituem esse agora antagônico mundo.

Portanto, ao jovem que pretende ingressar nesse ramo do saber, nessa gama de experiências humanas, fica o alerta de que este pode ser um caminho sem volta: a realidade nunca mais será a mesma (ou melhor, sua percepção sobre essa realidade não será a mesma), depois que você passar por uma graduação em Ciências Sociais.

LEONARDO DE LUCAS DA SILVA DOMINGUES é Graduado em Ciências Sociais pela UEL e mestre em Sociologia pela UFRGS; membro do Laboratório de Divulgação de Ciência, Tecnologia e Inovação Social (LaDCIS/UFRGS). E-mail: leonardo_delucas@hotmail.com

O Futebol como reprodução do Status Quo educacional brasileiro

Anthony Cardoso

Não há como negar que no Brasil, o futebol é o esporte mais acompanhado, mais jogado e o mais desejado, desde crianças até os mais idosos. O homem que pelo menos uma vez na vida não jogou bola na rua ou no campinho, ou então nunca escolheu seu time ou seleção preferida no video game  que atire a primeira pedra. Nos dias de hoje, mesmo as mulheres vem adquirindo um interesse pelo esporte; é verdade que tanto os times profissionais quanto a Seleção Brasileira não dão o devido apoio, seja por falta de interesse ou sobretudo pela cultura machista imponente que ainda paira em nosso território, afinal, “mulher não sabe nem o que é um impedimento”.

Mas a questão não é essa. Quando eu assisto um jogo de futebol ou algum programa esportivo, os jogadores geralmente dizem a mesma coisa. Um exemplo básico:

O time A está ganhando do time B; no intervalo, o repórter lança a pergunta (que costuma ser a mesma também) para o jogador A, que responde:

-Vamos continuar nesse ritmo para ganhar os 3 pontos.

O repórter lança uma pergunta um pouco diferente, pelo fato da derrota provisória para o jogador B, que diz:

-Vamos voltar para o 2° tempo para fazer os gols e empatar ou ganhar.

Ao final do jogo, o time A mantém a vitória sobre o B. O mesmo repórter se aproxima do jogador A. Resposta:

-Agora é trabalhar para manter o ritmo.

Resposta do jogador do time B:

-Agora é trabalhar para recuperar os pontos perdidos.

Seja na vitória, no empate ou na derrota, nos treinos, entrevistas em geral, como testemunha ocular diária eu digo: o jogador de futebol adquiriu um vício por falar a mesma coisa. Porque?

O que me chama a atenção é pelo fato do futebol não ser somente o esporte em si, onde o aprimoramento físico e tático é o principal objetivo. Ele envolve vários aspectos. Pela visibilidade que o esporte alcançou ao longo das décadas, o papel social e porque não, político que ele exerce é significativo. Na final da década de 60, Pelé juntamente com o time do Santos promoveu um jogo em prol do fim da guerra civil no Congo. Na ditadura militar, a Seleção Brasileira amainou por uns dias o horizonte negro que pairava no país com a conquista da Copa do Mundo.

Hoje em dia, alguns jogadores participam de jogos beneficentes no período de férias para arrecadar fundos direcionados a instituições de caridade. Volta e meia também vemos clubes realizarem doações para essas mesmas ONG’s. Ou seja, mesmo não sendo o objetivo de tais grupos, mas o empenho de cunho social praticado no futebol em uma escala global é louvável, no entanto, porque esse poder de engajamento não se transformou em esclarecimento lógico-comunicativo nos jogadores brasileiros?

Mesmo o futebol alcançando tal repercussão no país e os jogadores sendo obrigatoriamente formadores de opinião, graças a exposição rotineira e cansativa da mídia, não cabe ao esporte formar ativistas prontos a defender um ponto de vista, um ideal politico em seu clube. Eu vejo a parca comunicação dos atletas como um reflexo da educação que temos no país. Elementos como falta de professores nas escolas, baixos salários, consequente desinteresse do profissional diante das más condições de trabalho como locais distantes, falta de educação dos alunos e negligência da direção em relação a problemas com drogas e de abusos sexuais etc. Todos essas barreiras podem ser encaradas por aquele aluno apenas como uma fase, em que o único objetivo é obter o diploma, sair desse lugar e alcançar o sonho de ser jogador de futebol.

É interessante que muitos pais ao descobrirem o desejo dos filhos de ingressarem no futebol, os veem como uma oportunidade de ascensão social. No entanto, assim como em diversas profissões, existem o bom profissional e o mal profissional e se em uma profissão há uma procura excessiva, poucos são os destaques e muitas as decepções. E assim, aquele jovem que sonhava com os holofotes e as facilidades que o futebol proporciona, ao receber o “não” na peneira, não vê outra saída senão se sujeitar a trabalhos com baixo salário e alta exploração, tal como a lógica capitalista nos presenteia. É possível que se tivéssemos uma educação qualificada, disposta  realmente a inserir no adolescente tanto o conhecimento como forma de se entender e entender os mecanismos da sociedade quanto formá-lo profissionalmente, o cenário seria diferente. Não é à toa que no final da carreira, alguns jogadores procuram uma qualificação acadêmica como forma de expandir o leque profissional, para além das quatro linhas.

No futebol em geral, obviamente o trabalho e dedicação constantes de uma equipe geram bons frutos ao final da temporada, seja ela o título ou a vaga para uma competição internacional; todavia, fatores como uma bola desviada do time adversário que termina na rede, o craque do time se machuca, ou uma péssima arbitragem influenciam no projeto final.

Na educação é a mesma coisa. Não basta o Estado ter dinheiro e não investir no lugar certo ou investir mal, assim como não adianta haverem bons professores se não há condições suficientes para darem uma aula de qualidade. Tem de haver uma mudança de mentalidade do Estado, priorizar a educação e entendê-la como um dos pilares para a evolução de um país. Porque, como resultado desses problemas, o Brasil amarga o Z-4 do ranking global de qualidade na educação. Periga ficar nas divisões inferiores por um bom tempo; por isso, é necessário nos dizeres dos jogadores, “trabalhar para recuperar os pontos perdidos”

Agonia e Fim da Educação

Ricardo Santos é professor de História

Neste fim de semana fui até uma farmácia, no centro da cidade, para comprar Ácido acetilsalicílico e Cloridrato de fexofenadina. O primeiro custou R$ 0,59 a cartela e o outro R$ 23,57. Antes de comprar, confirmei os preços no balcão.

Para minha surpresa, na hora de pagar, o valor do ácido era de R$ 0,99. Obviamente, protestei e pedi o cancelamento. A atendente reconheceu o erro e digitou novamente no computador.

Peguei 5 cartelas de ácido, portanto, o valor a pagar era de R$ 2,95. Em seguida, percebi que começou a procurar alguma coisa. Vi que não sabia fazer a conta. Precisou recorrer à calculadora.

Antes que ela terminasse de fazer a conta, na calculadora, dei-lhe o valor correto. Não quero e nem desejo crucificá-la, afinal, atendeu-me educadamente.

Por um lado, o ocorrido mostra que a educação brasileira está falida. Jovens, com raras exceções, não conseguem fazer operações básicas como: multiplicar, dividir, subtrair e somar sem o uso de uma calculadora.

Por outro lado, critica-se os professores por um ensino ruim. Mas, a verdade é que os professores estão de mãos atadas, afinal, dificilmente há reprovação e são reféns de uma legislação educacional retrógrada e conservadora, que não impõe limites aos alunos. No entanto, ninguém nega que, nesse ambiente, não existe motivação para estudar e aprender realmente. Deixo claro que não defendo a reprovação como solução para a aprovação automática.

Tem mais, os tucanos governam São Paulo há mais de vinte anos e não conseguiram melhorar a educação pública. Em nosso entendimento, para eles educação não é prioridade. Podem fazer muito mais e melhor. Começar pela valorização de professores e alunos. Outro dado importante: o ex-presidente FHC ficou na presidência da República, de 1995 a 2003. O que ele fez de concreto pela educação pública neste país? Em seus oito anos de governo, praticamente, não houve expansão das universidades públicas. Quem nega?

Quanto às escolas públicas, de São Paulo e demais estados, vale dizer que estão abandonadas e faltam professores das diversas disciplinas. Com raras exceções. Em vista disso, em algumas escolas, os tiranetes das drogas reinam soberanamente. Exigem, de professores e alunos, obediência e silêncio.

Há julgar pelo que se vê, está claro que o nosso futuro educacional é sombrio. Porque sem educação não há progresso. Ou seja, quando abandonamos a educação, tudo vai mal. Então, num mundo globalizado, como fica o caso de jovens, que não conseguem fazer as quatro operações, ler e escrever?

Outra coisa, também, não adianta fazer concurso público, caso de São Paulo e outros estados, e oferecer salário baixo para tentar atrair os professores. Isso é o mesmo que tentar tapar o sol com a peneira.

A atualidade brutal de Hannah Arendt

Ladislau Dowbor via Outras Palavras

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Adolf Eichmann, criminoso nazista. Mas, também, um burocrata preocupado apenas em cumprir ordens…

Filme de Margarethe von Trotta sugere que totalitarismo pode assumir faces “normais” e parece indispensável num cenário de democracia esvaziada e guerra iminente

O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.

A banalidade do mal, no entanto, é central. O meu pai foi torturado durante a II Guerra Mundial, no sul da França. Não era judeu. Aliás, de tanto falar em judeus no Holocausto, tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, esquece-se que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que torturaram o meu pai? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.

Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.

Entre os que me interrogaram no DOPS de São Paulo encontrei um delegado que tinha estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde eu tinha estudado nos anos 1950. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a nos amar uns aos outros. Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica.

Um torturador na OBAN me passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos meus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que eu visse os depoimentos dos outros, e fizesse o meu confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou que eu escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo ele, se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.

O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que dirige uma nota aos exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios sejamharsher, ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.

Adolf Eichmann em seu julgamento em Jerusalém, (Julho 17, 1961), por Ronald Searle

A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.

O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.

Quando exilado na Argélia, durante a ditadura militar, conheci Ali Zamoum, um dos importantes combatentes pela independência do país. Torturado, condenado à morte pelos franceses, foi salvo pela independência. Amigos da segurança do novo regime localizaram um torturador seu, numa fazendo do interior. Levaram Ali até a fazenda, onde encontrou um idiota banal, apavorado num canto. Que iria ele fazer? Torturar um torturador? Largou ele ali para ser trancado e julgado. Decepção geral. Perguntei um dia ao Ali como enfrentavam os distúrbios mentais das vítimas de tortura. Na opinião dele, os que se equilibravam melhor, eram os que, depois da independência, continuaram a luta, já não contra os franceses mas pela reconstrução do país, pois a continuidade da luta não apagava, mas dava sentido e razão ao que tinham sofrido.

No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.

Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica (1906-1975)
Hannah Arendt, filósofa política alemã de origem judaica (1906-1975)

O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores.1 No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.

Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.

O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.2

O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.

Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.

Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na resenha do livro que fiz em 2002, escrevi que o que deve assustar no totalitarismo, no fanatismo ideológico, não é o torturador doentio, é como pessoas normais são puxadas para dentro de uma dinâmica social patológica, vendo-a como um caminho normal. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.

O próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará Heil como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.

2 Melhor do que qualquer comentário, é ver o filme O Fantasma de Abu Ghraib, disponível no Youtube em http://www.youtube.com/watch?v=_TpWQj0MjvI&feature=youtube_gdata_player ; ver também a pesquisa da BBChttp://guardian.co.uk/world/2013/mar/06/pentagon-iraq-torure-centres-link ; sobre Guantanamo, ver o artigo do New York Times de 15/04/2013

3 Sebastian Haffner – Defying Hitler – http://dowbor.org/2003/08/defying-hitler-a-memoir.html/

Matamos Amarildo

Matheus Pichonelli via Carta Capital

Tropa de Elite
Quando a plateia vibrou com a cena final de Tropa de Elite, ela não percebeu que a escopeta estava voltada para ela

Quando o Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”, entregou a escopeta nas mãos do Soldado Mathias e determinou a execução do bandido com um balaço no rosto, as salas de cinema do Brasil vibraram como torcida em final de campeonato. Como em uma arquibancada, houve quem se levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema. O Brasil que pedia direitos humanos para humanos direitos estava vingado.

José Padilha precisou praticamente desenhar, em Tropa de Elite 2, que aquela escopeta estava voltada, na verdade, para o rosto da plateia. Mas a plateia, em sua sanha punitiva, parecia incapaz de refletir e entender que a tortura, os sacos plásticos e a justiça por determinação própria eram a condenação, e não a redenção, de um país de tragédias cotidianas. Nos dois filmes, todos estavam de alguma forma envolvidos na criminalidade – corruptos e corruptores, produtores e consumidores, eleitos e eleitores – mas só alguns iam para o saco de tortura. As consequências dessa indignação seletiva estavam subentendidas, mas muitos não as captaram: nas camadas superficiais da opinião pública, o apelo a soluções simples é sempre tentador. (Em uma das cenas do segundo filme, Nascimento é aplaudido de pé ao chegar a um restaurante de bacanas após comandar o massacre em um presídio. Padilha mostrava ali que a que violência denunciada em Tropa de Elite não era só caso de policia, mas uma chaga aberta e diariamente cutucada por quem recorre, no discurso ou na ação, a soluções arbitrárias contra um caos legitimado).

É possível que este mesmo Brasil que transformou em heroi um personagem complexo e vacilante como o Capitão Nascimento, personagem interpretado por Wagner Moura, não tenha sequer franzido a testa, na vida real, pelo sumiço do ajudante de pedreiro Amarido de Souza, de 47 anos. Para quem não sabe, Amarildo desapareceu no dia 14 de julho após ser levado para a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Ninguém sabe ninguém viu o que aconteceu desde então (repita-se: em uma unidade PACIFICADORA). Isso porque as câmeras de monitoramento da região, estranhamente, não registraram a movimentação. Segundo um inquérito aberto pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil fluminense (e encaminhado ao Ministério Público do Rio), Amarildo, que era epilético, foi torturado, morto e seu corpo, ocultado. Foram indiciados dez policiais militares lotados à época na UPP, entre eles o ex-comandante da unidade, major Edson dos Santos.

Na Justiça, todos terão direito a se defender, e é bom que assim seja. Direito que o ajudante de pedreiro não chegou a vislumbrar – seu erro fatal, segundo a investigação, foi ter se negado a fornecer informações sobre traficantes do morro, a quem supostamente preparava churrascos. Sua versão da história será sempre um mistério: no método de depoimento informal aplicado supostamente pelos PMs – com direito a choques elétricos, de acordo com o inquérito – a verdade dos fatos é a primeira a morrer sufocada.

Amarildo não foi a primeira e fatalmente não será a última vítima. Nem da violência nem do descaso nem da ignorância. Os aplausos da plateia abobada de Tropa de Elite são reforçados todos os dias, inclusive quando o governador diz: “E daí? Antigamente havia muito mais Amarildos do que hoje”. Tanto Amarildo como o governador não são pontos fora da curva. São uma legião, porque são muitos.

No país das indignações seletivas, a aceitação da tortura é a manifestação inequívoca de um estado de guerra e barbárie permanente no qual a convivência humana é simplesmente inviável. No filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick criou uma alegoria para ilustrar a origem deste estado: quando um grupo de macacos identifica em uma ossada um arsenal de guerra e provoca uma dissidência; com os ossos na mão, passam a agir como base na violência, na coação, na briga pelo território, pelo privilégio, pela dominação de uns pelos outros. É quando os animais se humanizam.

Ao longo dos anos, esta humanidade barbarizada caminhou em direção ao que se chama civilização, em que pese o fato de alguns dos maiores morticínios terem sido praticados nos séculos XX e XXI (a morte por gás sarin não é menos dolorosa que um golpe de machado). Em outros termos, significa que entre um símio e outro há uma regra de conduta, baseada em lei, que impede o uso dessa arma para a imposição da força. Essa lei, em tese, é o que evita o aniquilamento humano. Inevitavelmente, esta cortina frágil é rasgada todos os dias por quem não consegue identificar a humanidade no outro. Voltamos um pouco ao estágio pré-civilizatório toda vez que testemunhamos um crime motivado por ciúmes, por território, por controle, por motivo fútil, por necessidade. Mas, em vez de distribuir ossos e oficializar o aniquilamento, optamos por criar o Estado, a legalidade e armamos a polícia, a detentora do monopólio legítimo da violência. Mais do que ninguém, ela é a força responsável por impedir que os símios espalhados pelo mundo ajam conforme seus instintos – e sejam punidos em casos de infração. Tem as armas para isso.

Quando aplaudimos a tortura policial, no entanto, a mensagem passada aos nossos supostos guardiões é que esta arma pode ser usada como bem entenderem, e não em favor de uma paz possível prevista em lei. É como se a plateia exultante de Tropa de Elite, iguais aos macacos de 2001, dissessem: “danem-se as leis, somos todos neandertais”.

O apelo à tortura como consequência da segurança é, portanto, a confissão e a aceitação de uma incapacidade ancestral. Em vez de segurança, o que ela produz é pânico: aceitamos que a polícia se comporte não como o agente público a nos proteger de símios ensandecidos com ossos na mão, mas exatamente igual aos animais retratados no filme.

Nesses termos, o estado completo de vulnerabilidade está criado. Ontem, mais precisamente em 14 de julho de 2013, foi a vez de Amarildo. Amanhã pode ser eu. Ou você. Enquanto aplaudimos as soluções arbitrárias, que aniquila tanto o bandido como o inocente, é a sorte, e não a lei, o elemento a impedir que um animal armado (fardado ou não) com arma na mão, pelo simples fato de acordar num belo dia de mau humor, coloque nossas cabeças em um saco plástico e nos sufoque até a morte.

Guia de Profissão 2013 – Ciências Sociais

Anthony Cardoso

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