O negacionismo como narrativa catártica e perversa nos corações e mentes dos brasileiros.

Ilustração: Daniel Medina

Estamos vivendo uma época ímpar no Brasil e no mundo. Em meio à uma pandemia de Covid-19, trancados em nossas casas, buscamos na ciência uma solução para o combate ao vírus. Dia após dia, vemos notícias de médicos e enfermeiros na linha de frente para salvar vidas. Nos bastidores, temos os cientistas de diversos ramos da Biologia, Infectologia entre outros na corrida por remédios e vacina. Cada vez mais, artigos científicos são publicados em revistas especializadas e notícias esparsas de testes e mais testes são veiculadas nos canais de comunicação. Enquanto o remédio e/ou vacina não chega, qual é a recomendação? Isso já estamos cansados de ouvir: ficar em casa e só sair se estritamente necessário. Os únicos lugares permitidos são os chamados “essenciais” como supermercados, farmácias e hospitais, para quem tem algum procedimento de emergência, por exemplo.

Uma grande parte da população não dispõe dessa vantagem, pois precisa trabalhar. Seja porque o trabalhador não possui vínculo empregatício fixo e se ele não sair para ganhar seu sustento, não coloca comida em casa; seja porque ele possui, sim, registro em carteira, mas a empresa não o permite ficar em casa, e os motivos são diversos, mas não me aprofundarei aqui. Do outro lado, existem aqueles que mesmo no conforto dos seus lares e com algumas condições financeiras e mentais, preferem ecoar o discurso da negação. Ou seja, tal epidemia não é o bicho papão que estão pintando, afinal, já temos doenças que matam muito mais e que existe um plano muito bem estruturado pelo governo (aí você decide de qual esfera estou falando) de prender as pessoas em casa e retirar o direito constitucional de “ir e vir” (seja lá o que signifique isso).

Existem outras narrativas mais, que transformaria esse singelo escrito em uma tese de doutorado, mas vou me ater em alguns temas e no final, tentarei explicar o motivo de tal insistência nossa em negar certas realidades.

Negação no cinema

Parte do meu interesse em escrever sobre o negacionismo teve a ajuda valiosa de um filme estreado em 2016 de nome Negação. A película é baseada em fatos reais[1] e mostra o caso da historiadora e escritora Deborah Lipstadt, que em 1993 publicou o livro Denying the Holocaust: The Growing Assault on Truth and Memory (Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória). Nesse livro, a autora expõe casos de pessoas sustentando a teoria de que o massacre perpetuado pelo governo nazista aos judeus na Segunda Guerra Mundial simplesmente não aconteceu. Não só isso: os números são bem menores do que 6 milhões de judeus mortos, entre outros argumentos. Deborah cita, por exemplo, o caso do escritor britânico David Irving; segundo ele, até aquele presente momento (anos 90), não tinha sido encontrado nenhum documento escrito por Adolf Hitler autorizando o extermínio sistemático de judeus. As câmaras de gás de Auschwitz não tinham a função de matar e sim, a de fumegar cadáveres; além disso, o Zyklon B (composto poderosíssimo usado originalmente para eliminar ratos) foi usado, segundo ele, para eliminar os piolhos causadores de tifo.

Irving, ao ser exposto, resolve processar Deborah por difamação e, pasmem, todo o processo decorre do fato da historiadora ter a missão de provar para o juiz que o holocausto realmente aconteceu, pois, no Reino Unido, não existe a presunção da inocência. Caso ela não tivesse respondido o processo, Irving teria ganho o caso.

Todo o processo correu por longos seis anos. O filme mostra como Deborah e sua equipe de advogados tiveram que ser extremamente habilidosos em relação a reunir documentos confiáveis e não caírem na armadilha falaciosa de Irving, pois, no que tange a processos judiciais, argumentos mal construídos podem levar a derrotas irrecuperáveis.

Diante desse filme, poderíamos questionar: se um assunto exaustivamente abordado como o Holocausto, mesmo assim é alvo de revisionismos em seus acontecimentos e ainda por cima, ganha a atenção e adesão das pessoas ao redor do mundo, por que isso acontece? Qual o interesse por trás daqueles que defendem a tese contrária à do genocídio das minorias na Alemanha? E por que algumas pessoas validam esse argumento sem questionar?

Vacinas

Atualmente, no século XXI, já temos provas contundentes que a vacina é um composto capaz de prevenir diversas doenças. A consequência da aplicação das vacinas é que um bom número de doenças tinham sido erradicadas (como a febre amarela e o sarampo). E por que não é mais?

Desde tempos remotos, populações eram contra em um primeiro momento a adesão da vacina. O medo do desconhecido sempre permeou nossas mentes. Um exemplo claro foi a Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, no Rio de Janeiro[2]. Na época, a cidade, mesmo sendo capital do Brasil, não era muito desenvolvida. O sistema de saúde era precário e o presidente Rodrigues Alves resolveu adotar uma série de reformas sanitárias, além de modernizar a cidade, claro.

Quando os cariocas viram que várias determinações arbitrárias foram tomadas como demolições de prédios, estabelecimentos fechados porque não atendiam os requisitos sanitários, o estopim foi um projeto de lei que obrigava a vacinação compulsória contra a varíola, o que acarretou em protestos, onde as pessoas depredavam delegacias e prédios públicos, tombavam bondes etc. O cenário mudou quando o governo voltou atrás quando optou por conscientizar a população dos benefícios da vacina, o que não era pregado na época.

Entretanto, ainda hoje vemos céticos propagarem inverdades sobre a vacina, dizendo que ela seria a causadora do autismo[3]. Personalidades como o ator Jim Carrey aderiu à campanha nos Estados Unidos.

Cada lugar com seu louco de estimação. Aqui no Brasil, temos como maldição o astrólogo Olavo de Carvalho. O mesmo, em 2006 publicou no seu blog Midia sem Máscara

Não tenho a menor convicção pessoal quanto às vacinas. Já li provas científicas eloquentes de que são úteis e de que são perniciosas, e me considero humildemente em dúvida até segunda ordem. Alguns de meus oito filhos tomaram vacinas, outros não. Todos foram abençoados com saúde, força e vigor extraordinários, e nenhum deles deve isso aos méritos da ciência estatal, mas a Deus e a ninguém mais. Tenho o direito às minhas dúvidas, tanto quanto Júlio Severo tem direito às suas certezas. O Estado e sua burocracia científica que vão para o diabo, que é pai dos dois.[4]

O atual guru ideológico do governo Bolsonaro confessa que alguns de seus filhos tomaram a vacina, mas não atribui a saúde dos mesmos ao vírus enfraquecido e sim, “a Deus e ninguém mais”.

Opiniões como essa podem soar como inofensivas, mas alimenta a ignorância daqueles céticos no poder da ciência, que procuram alguém para concordar com sua visão de mundo. A inserção de entidades religiosos como única ferramenta para validar a boa saúde, boas condições financeiras entre outras benesses, nega e põe em risco o trabalho de anos e anos dos cientistas para eliminar doenças há muito já superadas. Não à toa, de acordo com a ONU, a média brasileira de vacinados contra o sarampo tinha diminuído de 99% entre 2010 e 2017 para 84% em 2018.[5]

Outras narrativas como – que a propósito já aconteceu em outras épocas de epidemias e vem acontecendo como a do ‘vírus chinês’ – a de que as vacinas “são um plano arquitetado por governos para ganharem rios de dinheiro e alavancarem a economia local em consequência do próprio vírus que eles criaram” são muito poderosas e geram medo, além de provocar reações extremadas como a xenofobia.

As fake news dos “Caixões Vazios” e a negação da Covid-19

Nessa onda negacionista, alavancada por vozes dentro do governo federal e suas ramificações nos outros poderes, temos uma arauta da desgraça. Ninguém menos do que a deputada Carla Zambelli. Dentre várias mentiras pregadas durante seu curto e inexpressivo mandato, recentemente no mês passado, em uma entrevista com José Luiz Datena, Zambelli alega ter recebido informações de que no Ceará, caixões estavam sendo enterrados vazios. Na origem dessa “informação”, diz ter visto “uma foto” de uma menina carregando um caixão “com um dedinho”, e questiona esse fato. Datena apenas fica quieto. Talvez um jornalista sério teria perguntado onde ela recebeu tal informação.[6]

Como consequência dessa fake news, em Manaus, famílias estavam abrindo caixões para conferir se seus parentes estavam realmente lá, mesmo correndo riscos altíssimos de exposição ao Coronavírus.[7] Também houveram agressões a médicos que colocavam como causa mortis a Covid-19, pois as famílias simplesmente não aceitavam tal resultado.

Conclusão

Os negacionistas são pessoas que sempre estão defendendo uma narrativa contrária àquela mostrada pelos especialistas. No início, quando o que tínhamos ainda era uma epidemia, os negacionistas diziam que o coronavirus era apenas “uma gripe leve” e a OMS e imprensa eram culpados por disseminar o medo entre a população. Ao chegar no Brasil, a culpa foi transferida aos governadores e prefeitos, que impuseram a quarentena e limitaram a movimentação das pessoas, causando revolta nesse grupo. Ou seja, eles nunca são responsáveis pelo seus atos, e pior, alguns deles fazem questão de ir às ruas e colocar em risco a saúde deles e das outras pessoas, como bem explanou o jornalista Leonardo Sakamoto.[8]

Outra forma de entender a negação das pessoas em encarar a atual realidade venha do fato do vírus ter se espalhado em uma velocidade tão repentina e feroz, além de uma imposição em ficar em casa contra a nossa vontade, por isso, talvez “a ficha ainda não tenha caído”

O negacionismo claramente é endossado por pessoas de má índole, principalmente aquelas que colocam a economia acima da saúde da população e incita o ataque aos profissionais que estão trabalhando na linha de frente de combate a Covid-19. Tal discurso encontra nas mentes mais ignorantes um terreno fértil para disseminação das mentiras e um retorno a “vida normal”. Sabemos que na “vida normal” o vírus veio justamente por causa de violações extremadas a natureza e a vida animal. Será que queremos esse retorno?

Fontes:

[1] Como uma pesquisadora foi parar no tribunal para provar que o Holocausto aconteceu – Revista Época. https://epoca.globo.com/como-uma-pesquisadora-foi-parar-no-tribunal-para-provar-que-holocausto-aconteceu-23086662. Acesso em 19/05/2020.

[2] Revolta da Vacina – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=SlsHN-OWCkw. Acesso em 20/05/2020

[3] Teorias da Conspiração – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=meLRzQr8e6s. Acesso em 20/05/2020

[4] Vacinas – Blog do Júlio Severo. http://juliosevero.blogspot.com/2006/07/olavo-de-carvalho-fala-sobre-questo.html. Acesso em 20/05/2020

[5] A Volta do Sarampo: por que as taxas de vacinação diminuíram?. http://www.enf.ufmg.br/index.php/noticias/1590-a-volta-do-sarampo-por-que-as-taxas-de-vacinacao-diminuiram. Acesso em 20/05/2020

[6] Diário do Centro do Mundo. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-datena-zambelli-espalha-fake-news-de-que-caixoes-estao-sendo-enterrados-vazios/#disqus_thread. Acesso em 22/05/2020

[7] Yahoo Notícias. https://br.noticias.yahoo.com/familias-abrem-caixoes-a-beira-das-covas-coletivas-para-ter-certeza-de-que-estao-enterrando-seus-parentes-em-manaus-161006292.html. Acesso em 22/05/2020

[8] COVID-19: como pensa um negacionista?https://www.youtube.com/watch?v=DClKHI29Ct4. Acesso em 22/05/2020

O Jair que há em nós

Créditos da foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Capitão do Exército expulso da corporação por organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.

Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.

Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.

No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.

Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.

O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.

O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.

Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.

Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. Como aquele desejo do menino piromaníaco que era obcecado pelo fogo e pela ideia de queimar tudo a sua volta, reprimido pelo controle dos pais e da sociedade. Reprimido por anos, um dia ele se manifesta num projeto profissional que faz do homem adulto um bombeiro, permitindo-lhe estar perto do fogo de uma forma socialmente aceitável.

Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.

Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.

Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.

Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.

O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.

Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.

O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício.

Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo.

Publicado originalmente aqui.

Vídeo – Marx e o labirinto da esquerda no Brasil

Saudações!

Compartilho com vocês um trabalho realizado em 2009, quando na época eu estava no terceiro semestre da faculdade de ciências sociais, pela Universidade Cruzeiro do Sul, onde fizemos um vídeo documental com representantes de partidos de esquerda – ainda que haja controvérsias sobre esse título para alguns deles – mapeando pontos interpretativos sobre categorias do Marxismo. Os partidos em foco são: Psol, PCO, PSTU, PT e PC do B.

Pelo atual momento de conscientização política vivida pela população brasileira, onde é constante a desilusão diante dos partidos políticos, creio ser uma ferramenta interessante para conhecermos mais sobre a visão que cada representante, em nome da sua legenda entende em termos de embasamento teórico e prático do Marxismo e qual o valor dessa praticidade nos dias de hoje.

Anthony Cardoso

“Eu, realmente, vi o pior e o melhor dos homens”

Uma mulher conta como foi violada e salva durante protesto na Praça Tahrir em 2 de junho de 2012

No dia 2 de junho de 2012, eu estava na Praça Tahrir, aonde já havia ido várias vezes, para documentar o protesto que ocorria e não alcançava a mídia internacional. Eu não sou egípcia, mas acompanhei uma amiga egípcia durante e após o primeiro turno eleitoral. Eu a filmei em diversos protestos e marchas e por esse motivo estava lá aquele dia. Nós estávamos em um grupo de 5 pessoas, 3 mulheres e 2 homens. Nós nos sentimos seguros e estávamos atravessando a praça em direção à esquina com a rua Muhammed Mahmoud. De repente, ficamos cercados por muitas pessoas e eu percebi um homem nos seguindo. Ele tinha um celular nas mãos que não parava de tocar, mas ele não atendia. Eu o achei estranho e comentei com uma amiga, quando ela virou, ele já tinha saído e nós decidimos sair da área lotada da praça.

(Vídeo flagra violência sexual coletiva contra mulher na Praça Tahrir. Legenda em Português-Portugal)

A melhor maneira foi passar pela cerca de metal e andar na rua. No caminho, eu senti um homem apertando o meu peito. Eu o afastei e continuei a andar. Durante o curto período que fiquei no Cairo, eu passei por assédio sexual muitas vezes e eu sabia que esse era um grande problema. Nós continuamos e de repente, todos os homens ao nosso redor começaram a tocar nosso corpo. Foi como se eles tivessem nos cercado ao mesmo tempo e nos separado uns dos outros.

Isso aconteceu enquanto estávamos passando pela cerca de metal. De lá, eu não vi nenhum dos meus amigos, com exceção de um deles que estava tentando afastar os homens de mim enquanto eles vinham mais e mais.

Antes que pudesse perceber, fui jogada contra uma parede, onde uma moto estava estacionada. Eu estava em cima da moto enquanto meu amigo e outros homens tentavam fazer um meio círculo para me proteger. Mas existiam mais homens tentando me machucar do que me proteger e eu fui agarrada por todos os lados e minha calça e camiseta foram arrancadas. Naquele momento, foi como se os homens fossem ainda mais à loucura. Minha calça foi arrancada por muitos homens e eles me estupraram com seus dedos sujos. Eu consegui colocar minha calça de volta e ainda podia ver a cara do meu amigo ainda tentando, com todas as suas forças, tirar pelo menos alguns homens. Eu realmente vi o pior e o melhor dos homens. Meu amigo apanhou e colocou sua vida em risco para tentar me salvar enquanto outros homens estavam lutando para chegar perto de mim com uma única intenção: me machucar o máximo possível.

Agência Efe (19/02/13)

Mulheres protestam contra violência do exército
Mulheres protestam contra violência do exército

Por todo o tempo, tentei me proteger, mas eram muitas mãos e muitos animais. Cada vez mais homens vieram se juntar ao assédio e, de repente, eu vi outro rosto que conhecia. Era um amigo norte-americano e tanto ele quanto meu amigo egípcio continuavam me dizendo que tudo ficaria bem, que logo isso tudo iria acabar. Eu não acreditei neles e acho que nem mesmo eles estavam acreditando nisso.

Eu joguei minha câmera para meu amigo norte-americano e disse para ele correr. Eu sabia que ele apenas teria mais problemas ficando. Ele correu com a câmera e neste momento, meu amigo egípcio e eu decidimos escapar. Nós contamos até 3 e eu pulei em seu braços e isso criou um segundo de confusão para os homens que estavam me machucando. Mas, novamente, eles estavam todos em cima de mim. Eu fui jogada em um beco e contra uma parede.

Eu não sabia quem estava querendo me ajudar e quem não estava. A única pessoa que eu confiava era meu amigo. Outros diziam que estavam ajudando, mas, na verdade, estavam tentando ficar no começo da fila para pegar um pedaço do bolo. Outros estavam ajudando de verdade, mas era impossível saber quem eram.

Os homens estavam como leões em volta de um pedaço de carne e suas mãos estavam por todo o meu corpo e debaixo das minhas roupas rasgadas. Novamente, minha calça e calcinha foram arrancadas com violência e muitos homens, ao mesmo tempo, me estupraram com seus dedos. De repente, eu fui atirada no chão e os homens me agarraram pelos cabelos, pernas e braços enquanto o estupro continuava. De alguma forma, consegui me levantar e a porta de um corredor se abriu perto de mim e fui empurrada para lá.

No corredor, cerca de 20 homens conseguiram entrar antes da porta se fechar. Eu não vi meu amigo entre eles. Foi a primeira vez que tive a chance de ver os homens por poucos segundos e eles eram de todas as idades. As expressões em seus olhos eram realmente de animais e nenhum um pouco humanas. E a forma como estavam me jogando era como se eu não fosse humana, mas um pedaço de lixo.

Novamente, eu fui cercada por todos os lados no meio do andar. Tinha até um homem deitado no chão, sendo pisado pelos outros, tentando enfiar seus dedos entre as minhas pernas. Isso aconteceu por todos os lados e mais dedos ao mesmo tempo. Eu tinha certeza que eles não iriam parar até eu ficar deitada morta no corredor. Eu, realmente, tentei lutar e proteger meu corpo, mas era impossível. Toda vez que eu tentava chutá-los, mais mãos estavam entre as minhas pernas e todas as vezes que eu tentava bater em alguém ou remover suas mãos, minha camiseta era ainda mais arrancada e meus seios puxados. Por um segundo, eu tive a chance de machucar um homem que estava atrás. Eu pressionei meus dedos, com toda a força que ainda tinha, em um de seus olhos, mas ele apenas continuou a me machucar com os seus dedos.

Dois ou três homens conseguiram me tirar dos outros e me colocar numa cadeira no canto. Agora, eu sei que eles estavam tentando me ajudar, mas eu não sabia disso no momento. Eu estava com tanto medo e não conseguia ver o fim disso. De repente, eu escutei um som alto e eu vi um idoso com um pedaço de madeira nas mãos. Eu o vi batendo em um jovem e eu fui empurrada em um quarto, enquanto alguns homens estavam tentando segurar outros. Finalmente, eu tive a chance de colocar minha calcinha e calça e um homem me deu uma bandeira do Egito para me cobrir. Me disseram para subir as escadas.

O idoso com o pedaço de madeira estava na frente e cerca de quatro ou cinco homens lhe seguiram. Outros ficaram e estavam tentando segurar o resto.

Subindo as escadas, eu não tinha nenhuma ideia do que aconteceria. A única coisa que eu sabia era o que estava lá embaixo e que não poderia voltar. Eu continuava caindo porque não tinha nenhuma energia mais. As escadas não terminavam nunca e eu continuava caindo e chorando. Eu não confiava em nenhum homem. Um deles continuava dizendo “tudo está bem, os egípcios são bons”. Uma hora eu caí, e um homem atrás de mim tocou em meus seios, eu o empurrei e olhei para seu rosto e ele pediu desculpas e disse que foi um acidente. Não era e eu estava com nojo dele e ainda mais assustada com o que estaria me esperando no fim das escadas. Mas, por sorte, eles estavam me ajudando e eu estava tão aliviada de, finalmente, ver uma mulher quando entramos no apartamento no fim das escadas. Ela era a mulher do homem que me levava pelas escadas e eles não deixaram nenhum dos homens entrar.

A mulher me levou ao banheiro e me deu algumas de suas roupas. Quando eu cheguei no banheiro, não conseguia ficar em pé por nem mais um minuto. Eu caí no chão e comecei a chorar e chorar. Eu não sei por quanto tempo eu fiquei lá, mas, de repente, uma das minhas amigas apareceu na porta. Eu nunca tinha ficado tão feliz de ver alguém que conheço. Ela me abraçou e me ajudou a trocar de roupa e a lavar a sujeira de meu rosto, braços e mãos.

Nós ficamos no apartamento com essas pessoas maravilhosas que nos deram água e Pepsi para beber. Eles também me deram um lenço e sapatos, pois tinha perdido um par durante o ataque. Minha amiga tinha um telefone e conseguiu conversar com nossos outros amigos. Depois de um tempo, me disseram que era seguro deixar o apartamento, mas eu recusei diversas vezes até que me convenceram. Eu estava com tanto medo de aqueles animais estarem me esperando.

O idoso e seu filho nos seguiram até o final do beco e eu estava tão feliz de ver nossos dois amigos nos esperando. Nós andamos muito rápido, cobrindo minha cabeça com o lenço e entramos no carro do meu amigo estacionado parto. Nós fomos até o apartamento onde vivíamos e encontramos o resto de nossos amigos.

Nos dias seguintes, eu pude ver meus bravos amigos e outras mulheres começarem a conversar sobre esse grande problema. Eu fiquei na minha e retornei ao meu país depois de uma semana. Agora, estou recebendo ajuda médica e psicológica para me recuperar do ataque. Minha identidade permanece em segredo pela minha segurança e para poder retornar ao Cairo algum dia.

Eu desejo o melhor para as mulheres do Egito. Sem elas, não haveria nenhuma revolução. Atacá-las agora é apenas arruinar a continuidade da revolução. Eu ouvi algumas pessoas dizendo às mulheres para não contarem suas histórias sobre os assédios, ataques e estupros porque poderiam arruinar a imagem da revolução.

Eu tenho apenas uma coisa para dizer a essas pessoas: ninguém senão vocês estão arruinando a revolução. O que vai sobrar na praça sem as bravas mulheres?

Eu acredito que as mulheres não vão permanecer caladas e não vão desistir, mas é importante que todos os homens no Egito tomem uma posição sobre esse assunto. Diga alto, escreva em um cartaz, vista em uma camiseta. Faça o que for preciso para dizer às mulheres e o mundo que não são todos os homens no Egito que batem, assediam e estupram uma mulher apenas por andar nas ruas, por participar em protestos ou simplesmente, por exigir seus direitos.

*Publicado originalmente no Nazra for Feminist Studies

** Traduzido por Marina Mattar em Opera Mundi

Eu não aceito!

Quando o hígido Michel Temer vira poeta e Renan Calheiros – acusado pela Procuradoria Geral da República de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso – é apossado (com voto secreto – o voto da covardia) na presidência do Senado Federal no posto número 3 da sucessão republicana  entra no papel dando uma aula de ética e com o apoio do PSDB, um lado meu pergunta ao outro se não estaria na hora de sumir do Brasil.

Se não seria o momento de pegar o meu chapéu e deixar de escrever, abandonar o ensino das antropologias, desistir do trabalho honesto, beber fel, tornar-me um descrente, aloprar-me, abandonar a academia (de ginástica, é claro) deixar-me tomar pela depressão, desistir de sonhar, aniquilar-me, andar de joelhos, dar um tiro no pé, filiar-me a uma seita de suicidas, mijar sentado, avagabundar-me, virar puxa-saco, fazer da mentira a minha voz; e – eis o sentimento mais triste – deixar de amar, de imaginar, de ambicionar e de acreditar. Abandonar-me a esse apavorante cinismo profissional que toma conta do país – esse inimigo da inocência -, porque minha cota de ingenuidade tem sido destroçada por esses eventos. Eu não posso aceitar viver num país que legaliza a ilegalidade, tornando-a um valor . Eu não posso aceitar um conluio de engravatados que vivem como barões à custa do meu árduo trabalho.

“A ética não é um objetivo em si mesmo. O objetivo em si mesmo é o Brasil, é o interesse nacional. A ética é obrigação de todos nós e é dever deste Senado”, professa Renan Calheiros, na sua preleção de po(s)se.

Para ele, a ética, o Brasil, o dever, o interesse e as obrigações são coisas externas. Algo como a gravata italiana que chega de fora para dentro e pode ou não ser usada. Façamos uma lei que torne todo mundo ético e, pronto!, resolvemos o problema da cena política brasileira – esse teatro de calhordices.

A ética não é a lei. A lei está escrita no bronze ou no papel, mas a ética está inscrita na consciência ou no coração – quando há coração… Por isso, ela não precisa de denúncias de jornais, nem de sermões, nem de demagogia, nem da polícia! A lei precisa da polícia, o moralismo religioso carece dos santarrões e as normas, de fiscais. A ética, porém, requer o senso de limites que obriga à mais dura das coragens: a de dizer não a si mesmo e, no caso deste Brasil impaludado de lulopetisto, a de negar o favor absurdo ou criminoso à namorada, ao compadre, ao companheiro, ao irmão, ao amigo.

“O Zé é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!”, eis a cínica palavra de ordem de um sistema totalmente aparelhado e dominado pelo poder feito para enriquecer a quem o usa, sem compostura, o toma lá dá cá com tonalidades pseudoideológicas, emporcalhando a ideologia.

Quem é que pode acreditar na possibilidade de construir um mundo mais justo e igualitário no qual a esfera pública, tocada com honestidade, é um ideal, com tais atores? Justiça social, honestidade, retidão de propósito são valores que formam parte da minha ideologia; são desígnios que acredito e quero para o Brasil. Ver essa agenda ser destruída em nome dos que tentaram comprar apoio político e hoje se dizem vítimas de um complô fascista, embrulha o meu estômago. Isso reduz a pó qualquer agenda democrática para o Brasil.

O cínico – responde meu outro lado – precisa (e muito) de polícia; o ético tem dentro de si o sentido da suficiência moral. Ela ou ele sabem que em certas situações somente o sujeito pode dizer sim (ou não!) a si mesmo. Isso eu não faço, isso eu não aceito, nisso eu não entro. É simples assim. A camaradagem fica fora da ética, cujo centro é o povo como figura central da democracia.

O que vemos está longe disso. Um eleito condenado pelo STF é empossado deputado, Maluf – de volta ao proscênio – sorri altaneiro para os fotógrafos, um outro companheiro com um passado desabonado por acusações vai ser eleito presidente da Câmara; a presidente age como a rainha Vitória. E o Direito: o correto e o honesto viram “direita”. Entrementes, a “esquerda” tenta desmoralizar a Justiça porque não aceita limites nem admite abdicar de sua onipotência. Articula-se objetivamente, com uma desfaçatez alarmante, uma crise entre poderes exatamente pela mais absoluta falta de ética, esse espírito de limite ausente dos donos do poder neste Brasil de conchavos vergonhosos e inaceitáveis. Você, leitor pode aceitar e até considerar normal. Eu não aceito!

Roberto DaMatta. em, Estadão

É pra se pensar…

eleicoes

Acompanho o noticiário com as manchetes que é de nosso conhecimento: Genoíno habilitado para exercer o cargo de deputado federal, mesmo condenado pelo STF; Dirceu procurando a unhas e dentes provar a sua inocência; um ex-presidente que é blindado e que nunca sabe de nada (com razão, pois, é a força motriz do partido que preside e uma denúncia do porte do mensalão cair sobre suas costas seria o começo do fim para o partido vermelho); a oposição procurar uma brecha para tomar o poder nas próximas eleições (articulações não faltam nos corredores do congresso e nos QG’s), todavia, não menos corrupta, a diferença está no foco midiático e na menor fiscalização que ocorreu por parte da polícia Federal e Ministério Público durante o governo FHC.

Por outro lado, temos a população. Vemos o brasileiro (que é o objeto dessa reflexão), frequentemente designado pelo folclore nacional como “sofredor”, mas “batalhador”; “por baixo”, mas que “não desiste nunca” colocar em pauta nas conversas pelas ruas, pelos bares ou no trabalho o quanto que fulano ou ciclano lá em Brasília é corrupto, que não merecia estar lá e não representa a população. O problema é a conversa, somente a conversa fica evidente, não a ação.

Por que eu venho com isso agora? Podem me perguntar algumas pessoas. É apenas uma reflexão? Um desabafo? Uma revolta? Não, é uma “provocação”. Em tempo, desembucho logo o que pretendo dizer.

Bakunin crê que o Sufrágio Universal é um engodo, mas em contra partida podemos pensar: qual seria a solução? Sua teoria parte do princípio que tais representantes nos três poderes simplesmente não atendem aos nossos anseios, nem pelos mais básicos, como saúde, educação, moradia, transporte etc… sim, esses mesmos assuntos que em época de eleições ficam deveras importante para os candidatos. Bakunin nos coloca um simples exemplo do professor e do aluno, ou do pai e filho: por mais que haja um respeito mútuo, amor e liberdade de expressão, sempre haverá a HIERARQUIA. O professor e o pai de família sempre reivindicarão suas posições em primeiro lugar para depois analisar os anseios e desejos do aluno e filho, nunca haverá igualdade.

Enfim, o próprio autor poderá estruturar melhor esse pensamento, a provocação serve como uma faísca a correr pela pólvora. Cabe a cada um saber onde direcionar o rastro.

https://alemdovoto.milharal.org/a-ilusao-do-sufragio-universal-de-mikhail-bakunin/

Anthony Cardoso

Russomanno e o Estado laico: controvérsias na prática

As eleições para prefeito estão chegando e a peculiaridade nesse ano é a ascensão de Celso Russomanno (PRB) ao primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Segundo alguns eleitores, a escolha de Russomanno se deve a imagem do candidato “novo”, que ajuda os pobres, justamente pelo seu histórico: nos anos 90, o candidato foi repórter do Aqui e Agora do SBT, veiculando reportagens sobre defesa do consumidor e, de fato, muitos casos foram solucionados devido a sua intervenção. Ou seja: caso Russomanno seja eleito, sua vitória estará ligada a uma espécie de retribuição do eleitorado paulistano.

Porém, o que os eleitores deixam em segundo plano é o que vêm ocorrendo em mais um capítulo da nossa história política brasileira: a influência da religião pelos meandros das eleições em nossa democracia. Russomanno já admitiu o apoio da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) como também, o apoio da Igreja Assembleia de Deus, das igrejas católicas, além de “um monte de igrejas”, conforme veiculado em reportagem do portal Terra, que pode ser visualizado aqui. Desse número, a igreja católica, mais especificamente a Arquidiocese de São Paulo recentemente desmentiu a afirmação de Russomanno. Com uma nota divulgada na sexta-feira, dom Odilio Scherer criticou a aliança do candidato com a IURD e provocou: “Se já fomentam discórdia, ataques e ofensas sem o poder, o que esperar se o conquistarem pelo voto? É para pensar”.

A corrida dos candidatos por votos “religiosos” (principalmente daqueles que frequentam igrejas de tendência pentecostal e neo-pentecostal) nos últimos anos tem se tornado prática recorrente. A característica mercadológica e motivacional das igrejas evangélicas atualmente é importante para a busca por fiéis e a difusão pelos meios de comunicação é uma ferramenta decisiva que seria prejudicada caso um mandatário proibisse tais práticas.

A liberdade religiosa é importante, pois reflete uma das faces da democracia em sua estruturação, porém, a leitura que os dois lados – tanto os líderes religiosos quanto os fiéis – fazem da política é errônea e tendenciosa. O voto do eleitor é utilizado para galgar o candidato ao posto de seu representante e o mandato como concretização das propostas prometidas, para uma perspectiva futura, não como gratidão a um passado limitado a poucas pessoas. Além disso, a figura do Estado laico desaparece mediante a religiosidade da política.

Anthony Cardoso