Russomanno e o Estado laico: controvérsias na prática

As eleições para prefeito estão chegando e a peculiaridade nesse ano é a ascensão de Celso Russomanno (PRB) ao primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Segundo alguns eleitores, a escolha de Russomanno se deve a imagem do candidato “novo”, que ajuda os pobres, justamente pelo seu histórico: nos anos 90, o candidato foi repórter do Aqui e Agora do SBT, veiculando reportagens sobre defesa do consumidor e, de fato, muitos casos foram solucionados devido a sua intervenção. Ou seja: caso Russomanno seja eleito, sua vitória estará ligada a uma espécie de retribuição do eleitorado paulistano.

Porém, o que os eleitores deixam em segundo plano é o que vêm ocorrendo em mais um capítulo da nossa história política brasileira: a influência da religião pelos meandros das eleições em nossa democracia. Russomanno já admitiu o apoio da IURD (Igreja Universal do Reino de Deus) como também, o apoio da Igreja Assembleia de Deus, das igrejas católicas, além de “um monte de igrejas”, conforme veiculado em reportagem do portal Terra, que pode ser visualizado aqui. Desse número, a igreja católica, mais especificamente a Arquidiocese de São Paulo recentemente desmentiu a afirmação de Russomanno. Com uma nota divulgada na sexta-feira, dom Odilio Scherer criticou a aliança do candidato com a IURD e provocou: “Se já fomentam discórdia, ataques e ofensas sem o poder, o que esperar se o conquistarem pelo voto? É para pensar”.

A corrida dos candidatos por votos “religiosos” (principalmente daqueles que frequentam igrejas de tendência pentecostal e neo-pentecostal) nos últimos anos tem se tornado prática recorrente. A característica mercadológica e motivacional das igrejas evangélicas atualmente é importante para a busca por fiéis e a difusão pelos meios de comunicação é uma ferramenta decisiva que seria prejudicada caso um mandatário proibisse tais práticas.

A liberdade religiosa é importante, pois reflete uma das faces da democracia em sua estruturação, porém, a leitura que os dois lados – tanto os líderes religiosos quanto os fiéis – fazem da política é errônea e tendenciosa. O voto do eleitor é utilizado para galgar o candidato ao posto de seu representante e o mandato como concretização das propostas prometidas, para uma perspectiva futura, não como gratidão a um passado limitado a poucas pessoas. Além disso, a figura do Estado laico desaparece mediante a religiosidade da política.

Anthony Cardoso

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Nas mãos de Deus

Sempre vemos as questões religiosas colocadas em um pedestal, cada uma com seus valores morais e sendo que todas se dizem digna de ser praticada.

Não podemos misturar as coisas!

De fato, a necessidade de muitos por um amparo sentimental e psicológico levam a ter nas religiões um apoio e para muitos uma resposta as suas aflições. E há muitos que aproveitam desse momento de fragilidade humana para adquirir riqueza, subtraindo de seus seguidores, quantias e bens materiais farsantes todo o recebimento da família.

Isso é vergonhoso!

Seja qual for a sua crença religiosa, apontamos que um deus ou deuses, não precisam de nenhuma riqueza ou bem material. Desafiamos qualquer religião a abrir mão de suas posses terrenas e continuarem a sua prática religiosa. Afinal de contas, não é necessária para deus ou deuses essas coisas mundanas. Como entes divinos podem viver pela onipresença, onisciência e onipotência. À nós, mortais, ficamos com suas intervenções e ações.

A crença sincera é o bastante, não é necessário pagar com bens materiais isso.

Não seja enganado, quem pedir isso em nome de deus ou deuses é uma mentira que não pode ser mantida. Nem 1 centavo para essa mentira!

Contra a exploração e opressão, mesmo que religiosa, lutamos!

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Esse é um texto de um grupo anarquista, o [anarkio.net][1]. Á primeira vista, um cristão poderia criticar veementemente a posição desse grupo, alegando que eles não tem moral e fundamento o suficiente para questionar a prática difundida nas igrejas do nosso mundo moderno. Porém, (com exceção daqueles que não querem abrir os olhos para os fatos – muito menos para o evangelho) não há como negar a lucidez com que analisaram a problemática da teologia da prosperidade, que arranca o conteúdo cognitivo dos fiéis com fins de acumular cada vez mais os lucros, um dos princípios primários do capitalismo. Roubam seu dinheiro e só não digo que roubam seu espírito pois eles não precisam disso; só a fantasia de bem estar colocada pelos líderes é mantida, transformando-se em um vazio que cedo ou tarde o indivíduo percebe.

É triste ver que essa clara visão não parte dos cristãos e sim daqueles que se propuseram a estudar um pouco mais e sempre questionar, sempre usar a palavra “por que?”, uma palavra que traz medo naqueles que veem o risco de seu status quo ir por água abaixo. A visão da verdade é assaz perigosa nas mãos de quem não sabem conduzi-la ou poderosa demais para aqueles que a usam para fins próprios.

Enquanto houver a soberania da mentalidade tacanha da grande liderança religiosa, totalmente combinada com o atual modo de produção, conectada com a crescente promessa de felicidade e ataraxia pelo acúmulo de bens materiais, as pessoas continuarão a viver nesse paradoxo de solidão e de constante confusão, gerando a busca infinita pelo descanso e prazer individual.

Independentemente da ideologia, não podemos deixar de prestar atenção na mensagem. Ela é válida e desafiadora.

Anthony Cardoso

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[1]Disponível em: http://anarkio.net/

Parcialidade na cobertura eleitoral

Na ”guerra suja” eleitoral, o alvo mais atingido é a informação. No caso, a candidata Dilma Rousseff. O segundo turno da eleição à Presidência da República é um vaivém de falsas informações. Para desqualificar um candidato, existe um repertório infalível de temas recorrentes: religião, sexualidade, aborto e escândalos. Some-se a isso, parcialidade da imprensa.

Até duas semanas atrás, Dilma liderava as pesquisas. Era quase certa sua eleição no primeiro turno. Até o ex-presidente FHC jogou a toalha e admitia sua vitória. Contudo, habilmente, o marketing contrário a Dilma entrou em cena. Como? Criou-se uma série de boatos que se espalharam feito vírus pela internet. Resultado: veio o segundo turno.

Neste segundo turno da eleição, o arsenal de mentiras é execrável. Corre por aí que a Dilma é homossexual. Pronto, muitos eleitores desavisados deixaram de votar nela. O disparate é que a candidata é avó e está casada há mais de 30 com o mesmo homem.

Outra balela: a candidata do PT é favorável ao aborto. Qualquer leitor atento sabe que brasileiro é conservador e machista, mais ainda, em se tratando de votar em mulher. Espalhar por aí que alguém é favorável ao aborto é tiro certo. Contudo, raramente ouço alguém dizer das incontáveis mulheres que morrem neste País todos os dias fazendo abortos clandestinos. Em nenhum momento de suas entrevistas, não vi Rousseff defender o aborto. Ao contrário, vejo sua luta pela defesa da vida.

Finalmente, usaram o episódio da Erenice Guerra para atingir Dilma. Aliás, defendo que a ex da Casa Civil, Guerra, deve ser investigada e punida sim caso tenha cometido deslize. Some-se a isso, o acesso indevido à Receita Federal. Também defendo uma punição rigorosa aos culpados.

Tem mais: o candidato da oposição, José Serra, por sua vez não enfrenta os mesmo tipos de ataques que Dilma. Afinal, parte da imprensa é parcial e está ao lado daqueles que representam tão bem seus interesses. No governo Serra, policiais, professores e médicos fizeram greve por causa dos baixos salários e péssimas condições de trabalho. O interessante é que não vejo ninguém falar disso. Recebi incontáveis e-mails apontando falhas de Dilma na Casa Civil, mas não recebi nada contrário ao Serra. Parece que contra ele nada pesa.

Ou seja, temos dois pesos e duas medidas. Pus-me a repensar alguns episódios de sua passagem meteórica pelo governo de São Paulo. Tivemos o confronto sangrento entre policiais civis em greve e militares ocorrido no Morumbi, zona sul da capital, a morte de inocentes por causa das obras do metrô, linha 4 amarela, as inúmeras rachaduras em paredes e estragos em imóveis causados pelas construções de várias estações do metrô e o desabamento no Rodoanel Mário Covas. É lembrar que muita gente perdeu seus imóveis por causa dessas obras e ainda estão alojados vergonhosamente em hotéis. Porque todos eles não foram indenizados?

Tudo isso e muito mais ocorreu no governo Serra. Não podemos esquecer que usou a Prefeitura de São Paulo como trampolim para se tornar governador. Eleito, fez o mesmo esquema para ser presidente da República. Caso seja eleito presidente da República, qual será sua próxima jogada eleitoral? Quanto tempo ficará na Presidência? Anos, meses, dias…

O que não consigo entender é que quem critica Dilma consegue fechar os olhos para estes e outros fatos absurdos ocorridos no governo tucano. Ou melhor, como consegue dormir um sono calmo e tranquilo? Dou uma sugestão. Visite uma escola pública e verifique como estão. Sendo assim, entendo que jornalismo responsável e isento é aquele que informa e deixa que o leitor tire suas conclusões. Afinal, para que serve um jornalismo que mente e manipula as informações conforme lhe convém? Ou melhor, quero o bom jornalismo que está a serviço da sociedade e democracia.

Finalmente, para quem preza a verdade é bom pensar verdadeiramente que interesses está patrocinando. Então, se é para denunciar, que isso seja feito com equidade e justiça para ambos os lados. O que não vale é atirar pedra somente em um lado. Isso é covardia. É o mesmo que atirar no próprio coração. Afinal, quem perde com isso somos nós cidadãos que pagamos impostos abusivos e a democracia! Está escrito: ”aquele que dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra”.

Ricardo Santos é professor de história e jornalista