O “Esquenta”, de Regina Casé, é o programa mais racista da TV?

Ela envia uma mensagem retrógrada com seus estereótipos dos negros.

Ela

Esquenta é o programa mais conservador da televisão brasileira. É uma versão barulhenta e colorida de velhos costumes. Num primeiro olhar, parece uma grande festa na periferia, na qual as gírias, danças e modas de regiões com IDH baixo e criminalidade alta são irradiadas para todo o país pela tevê.

Vemos meninos contorcendo as articulações em performances de passinho, meninas com minissaia e microvocabulário, rapazes negros com cabelos louros e óculos espelhados de cores berrantes rodando o salão felizes e eufóricos. A festa mistura samba, funk, estilo de vida despreocupado e despudorado, concurso de beleza, humor, artistas de novela, enfim, para usar um termo bem periférico, “tudo junto e misturado”.

Essas características, apenas, não me incomodam. Não sou quadrado, respeito e até admiro algumas formas de cultura vindas do gueto e abuso do direito de desligar a TV. O que me irrita, e muito, e faz com que chame o programa de conservador e escravocrata é a cor de pele predominante nessa festa maluca.

Certamente o Esquenta é o programa com o maior percentual de negros da TV aberta. Enquanto as novelas, seriados e telejornais são predominantemente caucasianos, quem manda ali são os negros e pardos.

É esse o ponto. O programa reforça o estereótipo dos negros brasileiros como indivíduos suburbanos, subempregados, mas ainda assim felizes, sempre com um sorriso no rosto, esquecendo-se das mazelas cotidianas por meio da dança, do remelexo, das rimas pobres do funk, do mau gosto de penteados e cortes de cabelo extravagantes.

Sou negro e não sei sambar, não pinto meu cabelo de louro, não uso cordões, não ando gingando nem falo em dialeto. Não sou exceção, felizmente. Sei que há muitos caras e moças como eu. Muitos são poliglotas, outros gostam de música clássica, vários gostam mais de livros do que de pessoas, outros reclamam do calor da Brasil, certamente há os que são introspectivos e de poucas palavras, e há os que nem sentem falta do feijão quando viajam para o exterior.

Embora o Esquenta não tenha a proposta de ser um programa sobre cultura negra, ele ajuda a construir um estereótipo. Por que as novelas não têm galãs negros ou musas negras? Faça a lista dos galãs e das musas televisivas e depois veja quantos são negros. O número será irrisório.

Esquenta ajuda a manter essa ordem. Em vez de rapazes elegantes, mostra dançarinos com cabelos bizarros. As moças, sempre de shorts minúsculos e prosódias vulgares, nunca serviriam de modelo para capas da Marie Claire ou da Claudia.

Regina Casé e seu programa parecem dizer aos jovens dos guetos: “Ei, isso mesmo, aprendam passinho, aprendam a rebolar até o chão, continuem com seu linguajar próprio, porque tudo isso é lindo, é legal, é Brasil, é tudo junto e misturado, continuem com seus empregos modestos, porque a vida é agora, é para ser vivida, curtida, com alegria, malemolência, sempre com um sorriso no rosto”.

E assim, aquela menina sentada no sofá vai continuar achando o máximo desfilar com pouca roupa e pelos das pernas pintados de loiros pela comunidade. Nunca vai pensar em aprender a falar alemão ou tentar entender os grafites de Banksy, da mesma forma que os rapazes nunca sonharão em trabalhar no Itamaraty e praticarão bullying contra os meninos polidos que não falam em dialeto e inventam de estudar violino, já que um programa televisivo de uma das principais emissoras do país legitima seu estilo de vida mal educado e de poucas perspectivas.

Como um coronel oligarca e cínico, o programa dá uma recado para a garotada negra e parda da periferia: “É isso, dancem, cantem, divirtam-se. Mas não saiam do seu lugar”.

Marcos Sacramento via DCM

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Entrevista – Pensamento Pop

A Filosofia pode se tornar mais “pop” sem perder a complexidade de raciocínio. Charles Feitosa defende que ela se misture às artes e fuja dos temas mais tradicionais

FOTOS: Silvia Costanti
“A ´Filosofia Pop´ não precisa se subordinar às ciências, mas se deixa contagiar estruturalmente pelas artes. Gosto da expressão porque ela incomoda e atrai, mas poderia também ser chamada de ´Filosofia híbrida´, ´pensamento finito´ ou, ainda, ´racionalidade afetiva”

Muitas vezes um filósofo precisa reaprender a pensar não filosoficamente. É o que defende Roberto Charles Feitosa de Oliveira, que irá ministrar um curso sobre “Filosofia Pop” na Casa do Saber, segundo ele, uma Filosofia dirigida mais ao povo do que aos eruditos. Mas Feitosa ressalta que um pensamento “pop” não é raso e simples, como sugere a conotação que o termo ganhou a partir da década de 1990. É apenas mais híbrido, mais aberto a influências de outras áreas, como da dança e do teatro. A “Filosofia Pop” não prioriza os temas e autores mais tradicionais, mas também não perde a complexidade ou banaliza o pensamento. “Pode ser muito importante investigar, por exemplo, a questão do poder no uso do controle remoto nas famílias urbanas contemporâneas”, diz o professor da Universidade Federal do Eestado do Rio de Janeiro (Unirio), doutor em Filosofia pela Albert-Ludwigs Universität Freiburg, da Alemanha, e pós-doutor em Filosofia pela Universidade de Potsdam, também alemã. Para Feitosa, um estudo como o mencionado acima pode ser tão fértil quanto discutir as relações entre moralidade e eticidade na obra de Hegel. Foi abordando temas cotidianos, como amor, morte e arte, que escreveu o livro Explicando a Filosofia com Arte (Ediouro, 2004), com o qual ganhou o prêmio Jabuti na categoria didático e paradidático de ensino fundamental ou médio, em 2005. Para ele, a “Filosofia Pop” procura contagiar-se pelas artes, deixar que conceitos sejam guiados por imagens e não o contrário – o que, a princípio, pode desorientar um pouco o pensamento, mas enriquece a compreensão de mundo. Gostou das ideias? É apenas uma parte do que ele nos conta nesta entrevista.

FILOSOFIA – O senhor vai dar um curso sobre “Filosofia Pop” na Casa do Saber. O que é a “Filosofia Pop”?
Roberto Feitosa – Já tentei responder a essa pergunta em um ensaio, com ares de manifesto, publicado em 2001, sob o título O que é isto: a Filosofia Pop?. Provavelmente não há uma única maneira de fazer “Filosofia Pop”. Essa expressão aparece rapidamente em duas ou três passagens de Deleuze, sem maiores aprofundamentos. Eu mesmo prefiro me guiar pelo título de uma canção do compositor Wilson Moreira, interpretada por Candeia, chamada Ao povo em forma de arte. Então, tal como eu a imagino, a “Filosofia Pop” não precisa se subordinar às ciências, seja como rainha das ciências, metaciência ou ciência auxiliar, mas se deixa contagiar estruturalmente pelas artes. Além disso, é endereçada ao povo e não apenas aos eruditos, com a importante ressalva de que “povo” não existe em si, nem é definido por raça, solo, língua ou classe. “Povo” se constitui, sempre e de cada vez, quando singulares compartilham a experiência do pensar. Gosto da expressão porque ela incomoda e atrai, mas poderia também ser chamada de “Filosofia híbrida”, “pensamento finito” ou, ainda, “racionalidade afetiva”. Na orelha do meu livro Explicando a Filosofia com Arte defino “Filosofia Pop” como um projeto que envolve a associação de conceitos com imagens, em uma linguagem acessível e bem-humorada, sem perder o rigor e a densidade inerentes à Filosofia. Acrescentaria que é um pensar que visa a resistir e embaralhar as hierarquias tradicionais da cultura, por isso é “pop” e não “popular”, já que este me parece ser um termo demasiadamente comprometido com a dicotomia e a oposição contra o culto ou o letrado.

A cultura popular parece estar condenada a dois julgamentos extremos: ou é menosprezada ou celebrada como se fosse a única autêntica

FILOSOFIA – O senhor diz que é uma “Filosofia Pop” e não uma “Filosofia Popular”. Qual seria a diferença entre a Filosofia “pop” e a popular?
Feitosa – Como eu disse, prefiro o termo “pop” em vez de “popular” porque este conceito é muito problemático, tendo sido provavelmente cunhado pelos eruditos para tentar demarcar tudo aquilo que escapa ao erudito mesmo. A cultura popular parece estar condenada a dois julgamentos extremos: ou é menosprezada ou é celebrada como se fosse a única autêntica. Gostaria de escapar desse dualismo elitismo x romantismo por meio da ideia de uma “Filosofia Pop”, ou seja, híbrida, transdisciplinar. Dentro dessa lógica eu diria que a “Filosofia Pop” não quer ser erudita, mas também não quer ser popular a qualquer preço. É o difícil caminho do “entre”. De um lado, a Filosofia acadêmica, altamente codificada, perdendo cada vez mais a conexão com seu lugar e seu momento. De outro lado, existem hoje alguns projetos que fazem da Filosofia apenas mais uma receita de bolo, uma forma de explorar comercialmente a inquietação das pessoas diante de um mundo em que não se sentem em casa. É preciso sair dessas duas situações extremas. A esse respeito costumo citar o falecido artista plástico Keith Haring (1958-1990), famoso pelos seus desenhos e grafites. Ele dizia que em toda sua obra há uma preocupação em mostrar para as novas gerações que a Arte não é uma atividade restrita às elites, qualquer um com um pouco de imaginação e coragem pode reorganizar seu mundo, criar novas formas, belas e instigantes. Fico pensando que uma “Filosofia Pop” no Brasil deveria ser assim também. Sem descuidar do conteúdo, mas também sem transformá-lo em uma espécie de mistério sagrado, acessível apenas a alguns iniciados.

FILOSOFIA – Você comenta que o mundo atual mistura as dicotomias e hierarquias, como “culto” e “popular”, “rural” e “urbano”, “moderno” e “tradicional”, e afirma ser necessário que a Filosofia também se torne híbrida. A Filosofia também tem suas dicotomias e hierarquias?
Feitosa – A Filosofia, tal qual a conhecemos no Ocidente, tem se pautado por diversas dicotomias hierárquicas: ser x devir, corpo x mente, sujeito x objeto, identidade x diferença, indivíduo x sociedade, etc.. Costumo dizer que essas dicotomias se apresentam na forma de “versões” ou de “inversões”. Por “versões” entendo as hierarquias mais tradicionais (do tipo “o belo é melhor do que o feio”), que costumam privilegiar o idêntico em detrimento do diferente. Por “inversões” nomeio as diversas tentativas epocais de superar as hierarquias pela mera reação ou reversão dos polos, sem um questionamento da dicotomia ou da hierarquia nelas mesmas (do tipo “o feio é melhor do que o belo”). O problema dessas dicotomias é que elas determinam previamente o horizonte do pensamento, criando muitas vezes dilemas impossíveis de serem resolvidos, já que partem de premissas incompatíveis. Uma “Filosofia Pop”, tal como eu a entendo, deve procurar a “ex-versão” das dicotomias e das hierarquias. “Ex-verter” é um neologismo que inventei para traduzir o termo heideggeriano Herausdrehen (algo como “girar para fora, desparafusar”). Como pensar a obra de arte, por exemplo, para além do binômio beleza/feiura?

FILOSOFIA – Você diz que a hibridização é necessária na Filosofia para que se possa compreender adequadamente o que está acontecendo na sociedade neste momento histórico. Em que sentido a Filosofia pode se tornar híbrida? E como isso a ajudaria a compreender nosso tempo?
Feitosa – Nestor Canclini, no seu livro Culturas Híbridas, dizia que precisamos de “ciências nômades”, capazes de romper com a divisão da cultura em camadas estanques: culto, popular e massivo. A “Filosofia Pop” é híbrida justamente por se colocar em relação com a não Filosofia, deixando assim que diferentes saberes (artes, tecnologias, mídias) se interfiram entre si. Do mesmo jeito que o não filósofo pode aprender a pensar, o filósofo tem às vezes que reaprender a pensar não filosoficamente. Acredito que a tarefa do pensamento, em uma era de culturas híbridas, é deixar que a Filosofia se torne “pop”. Esse termo ganhou uma conotação de raso, fácil e leve somente a partir da década de 1990. Nas décadas de 1960 e 1970, ao contrário, “pop” era o nome para o projeto de reavaliação do mundo por meio dos movimentos da contracultura: liberação sexual, crítica à ética protestante do trabalho, resistência às hierarquias e às autoridades. Arrisco dizer que há um desenvolvimento (ou uma regressão) de certo “pop I” (alternativo, lúdico, híbrido) para um “pop II” (comercial, industrial, homogeneizante). Não dá para voltar à época da Pop Art, de Andy Warhol, então temos de inventar novas formas do pop – III, IV, etc.

FILOSOFIA – Em que sentido caminhariam esses novos “pops”? Já se traça algum novo sentido?
Feitosa – Costumo brincar que o “pop III” já foi inventado, trata-se de um protocolo para troca de e-mails na internet. Já me perguntaram como eu imagino o “pop IV” ou “pop V”, mas não sou futurólogo. Minhas apostas vão sempre à busca de colaboração entre filósofos e artistas e na escuta muito atenta dos não filósofos (colegas de outras áreas, profissionais diversos, alunos, amigos, sejam antigos ou futuros). É um projeto a ser realizado em grupos, apontando para várias direções. A propósito, acabo de fundar uma rede social na internet, aberta a todos que queiram conhecer, participar e divulgar suas próprias propostas. O endereço é: filosofiapop.ning.com. Estou trabalhando no momento no processo de instauração de um laboratório de estudos transdisciplinares de “Filosofia Pop” (POP-LAB), na Unirio. A ideia é constituir um espaço de liberdade, em que pesquisas teóricas e práticas, que conjuguem o tradicional com o contemporâneo, o universal e o regional, o erudito e o cotidiano, possam ser desenvolvidas. Além disso, orgulho-me de anunciar que a Unirio irá oferecer, a partir do primeiro semestre de 2010, uma nova graduação em Filosofia, com foco no pensamento contemporâneo e transdisciplinar em torno da cultura brasileira. Provavelmente será a única licenciatura em Filosofia do Brasil com uma orientação “pop” no seu currículo. Por enquanto, eu espero.

FILOSOFIA – O hibridismo de que o senhor fala tem algo a ver com a transdisciplinaridade, tão em voga hoje em dia?
Feitosa – Acredito que sim. A “Filosofia Pop” busca a transdisciplinaridade, não a pluri, nem a interdisciplinaridade. Por pluridisciplinaridade entendo o estudo de um mesmo objeto por várias disciplinas, sem que haja conexão entre elas a não ser o objeto em comum. Interdisciplinaridade é a interação entre duas ou mais disciplinas, como por exemplo, na associação da Física com a Medicina. Mas muitas vezes essas associações acabam por resultar em uma nova disciplina, que sintetiza as características de áreas distintas, como por exemplo, a Medicina Nuclear ou a Geografia Cultural. A prática interdisciplinar tende a reafirmar o poder da disciplina. Na transdisciplinaridade não são formadas novas disciplinas, mas são realizadas alianças estratégicas e provisórias, que modificam cada uma das partes envolvidas e que produzem resultados inesperados. Trata-se muito mais de uma atitude do que de um campo definido. Acho importante ressaltar que a Filosofia costuma ser chamada para combater a fragmentação e a especialização dos saberes na academia, mas ela mesma, do jeito que vem sendo praticada nas universidades, parece sofrer dos mesmos problemas para os quais se vê solicitada a resolver. Basta observar a divisão atual entre a Filosofia analítica e a Filosofia continental nos nossos departamentos. Além disso, a produção em Filosofia revela uma crescente especialização. Profissionais dedicam toda sua vida ao estudo de apenas um autor, às vezes de apenas uma fase da vida desse autor. Essa superespecialização, essa erudição infinita, é valorizada e premiada na academia, interpretada como índice de um trabalho denso e rigoroso. Ao passo que aqueles que se dedicam a pesquisas mais temáticas, são por vezes acusados de falta de seriedade ou diletantismo.

É preciso conhecer a tradição filosófica para ultrapassá-la. Sou contra qualquer banalização da complexidade do pensamento

FILOSOFIA – Você aproxima a Filosofia de temas cotidianos, como o amor, a arte, a morte, e consegue usar, em seu livro Explicando a Filosofia com Arte, uma linguagem bem coloquial para explicar a visão filosófica a respeito de tais temas. Mas comenta na introdução do livro ser esta uma “seleção estratégica de alguns problemas filosóficos, entre muitos possíveis”. Existem questões filosóficas mais e menos “pops”?
Feitosa – No contexto do livro, a frase tinha apenas o sentido de avisar o leitor de que não se tratava de uma enciclopédia, em que todos os assuntos da Filosofia seriam esgotados. As questões da Filosofia não estão aí disponíveis em uma espécie de céu ou mar de problemas. Uma Filosofia híbrida se caracteriza por um desrespeito ao cânone tradicional de temas e autores da tradição. Para a “Filosofia Pop” pode ser muito importante investigar, por exemplo, a questão do poder no uso do controle remoto nas famílias urbanas contemporâneas. Essa investigação pode ser tão fértil quanto discutir as relações entre moralidade e eticidade na obra de Hegel. Não há questões mais ou menos filosóficas para a “Filosofia Pop”. Mas tudo depende também do modo como essas questões são tratadas. De nada adianta estudar filosoficamente a internet ou as mídias de massa partindo do pressuposto de que ali não há sabedoria alguma. Em vez de evitá-las, a academia precisa ocupar e reinventar as mídias e as tecnologias. Vale enfatizar que é preciso conhecer muito bem, de forma muito rigorosa, a tradição filosófica para ser capaz de ultrapassá-la. Sou contra qualquer simplificação ou reducionismo que banalize a complexidade do pensamento.

FILOSOFIA – A imagem aparece em seus estudos como sendo importante para explicar a Filosofia. Esta é uma estratégia para se adaptar ao mundo atual, que se tornou muito mais imagético e com pouca paciência para textos longos, ou o valor da imagem é atemporal na Filosofia e poderia ter sido usado em outras épocas? Como a imagem ajuda a compreender a Filosofia?
Feitosa – Existe na Filosofia uma tirania do conceito sobre a imagem. As imagens, especialmente as das artes, ou são negligenciadas ou são instrumentalizadas, forçadas a trabalhar em prol do a ver com o aparente excesso de imagens no mundo atual. Embora vivamos em um tempo em que em um minuto mais imagens são produzidas do que em todo o século passado, ainda não sabemos como lidar com elas. Em geral, tratamos logo de olhar para elas do mesmo modo como se lê um texto, buscando uma linearidade, um encadeamento causal. Essa incompetência imagética é muito antiga e só será superada com o questionamento das dicotomias hierárquicas que separam e opõem o invisível ao visível, o imaterial ao material, o sentido aos sentidos.

FILOSOFIA – A imagem aparece em seus estudos como sendo importante para explicar a Filosofia. Esta é uma estratégia para se adaptar ao mundo atual, que se tornou muito mais imagético e com pouca paciência para textos longos, ou o valor da imagem é atemporal na Filosofia e poderia ter sido usado em outras épocas? Como a imagem ajuda a compreender a Filosofia?
Feitosa – Existe na Filosofia uma tirania do conceito sobre a imagem. As imagens, especialmente as das artes, ou são negligenciadas ou são instrumentalizadas, forçadas a trabalhar em prol do movimento do conceito. A “Filosofia Pop” busca outros caminhos, deixando que os conceitos se guiem pelas imagens, mesmo que isso às vezes acarrete certa desorientação do pensamento. Nossa compreensão de mundo pode ser enriquecida por meio dessas desorientações. No entanto, essa estratégia nada tem a ver com o aparente excesso de imagens no mundo atual. Embora vivamos em um tempo em que em um minuto mais imagens são produzidas do que em todo o século passado, ainda não sabemos como lidar com elas. Em geral, tratamos logo de olhar para elas do mesmo modo como se lê um texto, buscando uma linearidade, um encadeamento causal. Essa incompetência imagética é muito antiga e só será superada com o questionamento das dicotomias hierárquicas que separam e opõem o invisível ao visível, o imaterial ao material, o sentido aos sentidos.

FILOSOFIA – Sua vida acadêmica, como pesquisador, é ligada ao teatro, à dança e às artes de forma geral. O que a Filosofia pode buscar na Arte?
Feitosa – A Filosofia costuma ter um grande preconceito em relação à Arte. Acredita-se que a experiência artística seja voltada prioritariamente, quando não exclusivamente, para o corpo, para a percepção sensorial, para os afetos. Não é à toa que a disciplina oficial que cuida desses temas se chama Estética (do grego aisthesis = “percepção sensível”). Tudo se passa como se não houvesse pensamento ou racionalidade nos sentidos e nos afetos e, consequentemente, nas obras de arte. Segundo Nietzsche, toda a história da Filosofia pode ser resumida como uma má interpretação do corpo. Isso talvez ajude a explicar essa má vontade da Filosofia em relação às artes e, em especial, às artes cênicas (dança, teatro, performance), em que o corpo do artista é a matéria da obra. Na dança, por exemplo, se mostra toda a inteligência do corpo. O homem só é capaz de dançar porque existe no modo de um corpo que pensa. Enquanto se dança o corpo não é uma “coisa extensa” cartesiana ou um instrumento da alma ou da mente, enquanto se dança não temos nem alma, nem mente. Gosto de dizer que dançar é uma das formas mais efetivas de superação da Metafísica.

FILOSOFIA – O senhor diz que há grande preconceito em relação às artes por imaginar-se que são exclusivamente ligadas a sentidos/afetos e não gozarem de racionalidade. Na aliança Filosofia-Arte, se buscaria a racionalidade existente na Arte ou outras formas de entender os sentidos/afetos? Que alianças podem ser essas entre Filosofia e Arte?
Feitosa – Nietzsche dizia tratar-se de um velho preconceito dos filósofos acreditar que toda música é música de sereias. A Arte é uma perigosa sedutora porque nasce e desperta afetos incontroláveis. Ora, todos sabem que a palavra “filosofia” já contém em si a ideia de um afeto, ainda que uma forma especial, chamada philía (amor, amizade). Minha questão é: por que a Filosofia não pode resgatar essa dimensão afetiva estruturante? Obviamente, por se tratar de um sentimento, o amor costuma ser associado mais à sensibilidade do que à reflexão. Essa concepção da Filosofia, purificada do corpo e de seus desejos, está presa a uma ontologia do humano como “animal racional”, quer dizer, um ser dividido entre duas partes estanques, a que pensa e a que sente, sendo que esta última seria a inferior. A Filosofia dos séculos XX e XXI (Heidegger, Merleau-Ponty, Deleuze, Derrida, Agamben, Flusser, entre outros) tem questionado essa imagem e proposto uma visão alternativa, em que fica demonstrado que, na existência humana, o pensamento está misturado e contaminado de maneira tão primordial com o sensível que não é mais lícito falar nem de mistura nem de contaminação. Contra a “dialética da pureza” e contra certa tendência da Filosofia tradicional para a anestesia (eliminação das percepções sensoriais e afetivas), impõe se não apenas reconhecer o copertencimento da percepção de sentido e dos sentidos, mas também praticá lo. Deixar o pensamento ser o que ele é: apaixonado, passivo, afetado. Nesse tipo de atitude, ficaria como que relativizada a rígida fronteira que separa a razão da sensibilidade e, consequentemente, enfraquecida qualquer fronteira rígida que delimita e separa a Arte da Filosofia. Permanece em aberto quais associações poderiam ser feitas entre Filosofia e Arte. Há de se tomar cuidado para que uma não use a outra apenas para a atestação de seus argumentos e projetos. Em todo caso, um tal pensar híbrido – sensível, sensual ou sensorial – me parece muito mais adequado ao modo finito como o ser humano existe no mundo. Um dos tópicos do curso que irá ministrar na Casa do Saber me deixou curiosa: “Por que os roqueiros gritam tanto?”. Irá usar essa pergunta para abordar que tema? O grito na arte sempre me fascinou, especialmente no rock, também chamado de scream music por alguns. Grita-se muito, seja de maneira harmônica e hipnotizante como nas canções do Led Zeppelin, seja de forma crua e agressiva como nos sons punks dos Sex Pistols. A pergunta “Por que se grita tanto no rock?” tem a intenção de refletir sobre as possíveis funções estéticas do grito nas artes contemporâneas em geral. Em última instância, estou interessado também em uma reabilitação ontológica da materialidade da voz humana, eclipsada pela nossa insistência em prestar atenção apenas ao que é dito (o sentido) e não aos múltiplos modos como o corpo se diz.

FOTOS: Silvia Costanti
“Para a ‘Filosofia Pop’ pode ser muito importante investigar a questão do uso do controle remoto nas famílias, o que pode ser tão fértil quanto discutir as relações entre moralidade e eticidade na obra de Hegel. Não há questões mais ou menos filosóficas para a ‘Filosofia Pop'”

Por Patricía Pereira via Portal Ciência e Vida – Revista Filosofia