Hosni Mubarak: O Luis XVI do século XXI?

A REVOLUÇÃO DO MUNDO ÁRABE

A revolta árabe do começo do século XXI nos fez desempoerarmos dos nossos livros de história uma palavra em especial que se encontrava um tanto obsoleta após o fim da União Soviética: revolução. Tunísia, Egito, Iêmen, Marrocos, Líbia, Jordânia, Síria: todos eles foram, ou continuam, sacudidos com a chamada Primavera Árabe que deformou, e continua deformando, a configuração da região e que consequentemente afetara o mundo todo.

Dentre os países que estão passando pelo processo transformador o Egito tem sua relevância mais acentuada. O país que é chamado por alguns como o “coração do mundo árabe” tem uma importância econômica, diplomática e geopolítica fundamental para os rumos do Oriente e do Ocidente.[1]

Apesar das bandeiras defendidas pelos povos revoltosos aspirarem reivindicações semelhantes – como democracia, liberdades civis, emprego, desenvolvimento – do Egito se emana também conceitos e diretrizes determinantes para diversos assuntos: do conflito Israel-Palestina a própria contestação do Estado judaico como superpotência da região ao Irã nuclear; da influência americana no Oriente Médio até uma advertência teórica a países estrangeiros sobre uma visão fossilizada do imobilismo político dos povos árabes.

Nos 18 dias da Praça Tahrir que depuseram o ditador Hosni Mubarak (há 30 anos no poder) em 11 de fevereiro, sucederam-se acontecimentos e fatos que quebraram diversos paradigmas e fizeram os cientistas políticos e sociólogos repensarem conceitos e valores herdados entre o século XVIII e XX.

Principalmente a partir da Revolução Francesa os movimentos políticos procuraram sua legitimidade e força nos movimentos de massa. E essencialmente após a Revolução Russa de 1917, a presença de um líder, como foi Lênin, norteou as revoluções a partir dali. Já a Revolução Egípcia rasgou todos esses estatutos e reinscreveu modos e formas de revolução – que sem sombra de dúvida guiarão todo o século XXI.

Sem líderes populares ou intelectuais, com uma movimentação de massas vista poucas vezes de forma tão obstinada e concisa. Organizadas por redes sociais, sem bandeiras ou slogans socialistas (como foi praticamente todo o século XX após a Revolução Russa) nem palavras explícitas em aversão ao capitalismo; nenhuma organização partidária à frente do movimento (nem de vanguarda ou congêneres). Tradições e linhas de pensamento que foram deixadas para trás na Praça Tahrir que a partir de agora fazem parte do antigo capítulo da História – pois o novo já está escrito.

FRANÇA E EGITO: UMA TRISTE SEMELHANÇA PARA O AUTORITARISMO

Diante de toda a ebulição citada acima, no próximo dia 3 de agosto o Egito fará história novamente. Começara o julgamento do ex-líder do país que após três décadas de poder soberano em apenas 18 dias sucumbiu à força das massas. Diante do cenário e das circunstâncias o autocrata egípcio se aproxima estreitamente de um outro autocrata que também foi deposto, conheceu a fúria de seu povo, o julgamento e a condenação a morte: Luís XVI. (O que poderá acontecer com o ex-ditador egípcio também.)

O Oriente Médio do século XXI vivia uma configuração similar em termos de poder político da Europa dos tempos do monarca francês: déspotas com poderes ilimitados que exerciam sua vontade incontestavelmente. No entanto, apenas alguns dias de força popular foram suficientes para varrer de roldão séculos de poder – outra semelhança entre os dois.

Luís XVI, rei da monarquia mais opulenta e luxuosa da Europa, herdeiro de um trono secular de política influente no velho continente. Após 1789, sentiu a cólera dos seus subordinados com a queda da Bastilha, foi bombardeado politicamente pela Assembléia Nacional com seus decretos (como a Abolição dos Privilégios e a Declaração dos Direitos do Homem) e por fim, e não menos importante, humilhado moralmente quando preso em Varennes e condenado a morte, por entre outras coisas, trair a nação pondo fim a toda uma fase da História.

ADEUS, MUBARAK

Ao que a maioria das vezes as pessoas se enganam as revoluções não tem como sua força motriz e conquistadora a violência. As revoluções (todas elas) têm a sua pungente e blindagem contra os seus governos ilegítimos as “ideias”, e essas são a prova de balas, cassetetes, gás lacrimogêneo e todo o aparato repressivo e brutal do Estado. Após a vitória das idéias, o déspota Mubarak observa um novo Egito que vai passando por cima de um antigo Egito recalcado e subserviente a interesses alheios – como foi o país na sua direção.

Com a queda do governante, a limpeza política começou a punir e rechaçar tudo referente ao velho regime mubarakista. No dia 22 de maio um policial, Mohammed Al Soni, foi condenado à morte por matar 20 manifestantes que tentavam invadir uma delegacia. Além do julgamento dos repressores das revoltas, o antigo governo prestou suas contas a justiça: como foi o caso do ex-ministro das finanças, Yusef Butros Ghali, condenado a 30 anos de cárcere por abuso de poder e de ter utilizado recursos do ministério para as campanhas legislativas de 2010. Ao total 20 ministros ligados ao ditador estão sendo investigados.

O veredicto da história e a avaliação dos trinta anos do governo de Hosni Mubarak começará em 03 de agosto. Entre as acusações encontram-se as de enriquecimento ilícito, (segundo um relatório de supervisão administrativa do Egito os bens declarados pela família Mubarak não coincidem com a que foi declarada para a receita federal) abuso de poder e por morte premeditada dos manifestantes, que pode levá-lo a ser condenado à morte.

Todavia, independente do desfecho do julgamento as “idéias” no âmbito da sociedade egípcia já triunfaram, pois aos poucos a figura de Mubarak vai sendo varrida das mentes do povo como demonstra a sentença do Tribunal de Urgências do Cairo de 21 de Abril que ordenou a eliminação do nome de Hosni Mubarak de todos os locais públicos: como praças, bibliotecas, ruas, e mudança do nome de uma estação de metrô que levava o homônimo do ex-ditador.

Fabio Amorim é estudante de história da Universidade Nove de Julho – Uninove


[1] As causas da relevância do Egito como ator essencial da região serão explanadas em um outro artigo do mesmo autor: Quem tem Medo da Revolução Egípcia?