A Guerra Fria do século XXI – a estruturação de uma nova ordem.

UMA GUERRA SIGILOSA

Falarmos de uma nova Guerra Fria, mesmo com ressalvas, pode parecer para alguns anacronismo puro. Mas quando olhamos o novo concerto mundial e seus detalhes mais minuciosos, que são os mais explicativos, fica claro e subentendido que o cenário internacional vive uma disputa entre potências. Não vivemos uma pós Guerra Fria, nem mesmo uma reedição, e tão pouco uma neo Guerra Fria; mas uma Guerra Fria aos moldes do século XXI, com traços e atores diferentes da época do mundo bipolarizado.

Afinal, o que se diferencia do antigo conflito capitalismo versus comunismo do atual? Se no século XX, havia duas propostas de modelo econômico, agora já não há. O que era bi tornou-se multipolarizado. No embate entre Estados Unidos e União Soviética não havia nenhum disfarce ou maquiagem da animosidade suscitada entre eles; no entanto, o tácito, o olhar desconfiado, o “tapinha nas costas” é a tônica mais significativa das relações internacionais entre as superpotências no seu atual acirramento.

Desde o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os Estados Unidos se firmaram como uma nação protagonista. Sua relevância política, militar, econômica, geopolítica e cultural se manteve (e se mantém) na atual conjuntura. Juntamente com os norte-americanos, as grandes potências européias – Alemanha, França, Inglaterra (principal aliada estadunidense) –, articuladas dentro da União Européia (EU), tem um poder relevante nos destinos de outras nações. Desta forma, construiu-se um “grande bloco ocidental” com instituições financeiras, bélica, político-diplomática, que asseguram e disseminam seus valores e diretrizes gerais: como o FMI (Fundo Monetário Internacional), Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), OMC (Organização Mundial do Comércio) e ONU (Organização das Nações Unidas) – apesar desta última conter países de todos os continentes, sua força-base é ocidental. Basta vermos os membros permanentes do conselho de segurança: EUA, Inglaterra, França, Rússia e China.

Fazendo um contra ponto, do Oriente levantam-se duas peças chaves do tabuleiro mundial, Rússia e China. Para qualquer país com pretensões de soberania, influência e liderança global, os dois gigantes asiáticos têm que estar no começo da agenda para a realização de tais planos – tamanho é o grau de importância dessas nações.

A verdade é que chineses e russos nunca falaram tão bem a mesma língua como agora, nem mesmo na época da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Pequim e Moscou vem criando uma aliança bem estruturada, deixando o Ocidente em alerta. O marco-símbolo dessa união se materializou na Organização de Cooperação de Xangai (SCO na sigla em inglês) fundada em 2001, que ainda têm como membros Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão e Tadjiquistão – todos ex-membros da extinta União Soviética.

Sendo assim configura-se o quadro que pintaremos aqui – uma luta que se desenrola na atmosfera macro das relações internacionais, mas que nas micro situações, nos pontos mais diversos do globo, se reflete com clareza o que acontece no âmbito superior das potências-líderes, como podemos ver a seguir.

Russos e venezuelanos fecham há pelo menos meia década diversos contratos financeiros nas áreas militar, química e econômica, desagradando Washington, desafeto declarado do presidente da Venezuela Hugo Chavez; a insistente implantação de um escudo antimíssil por parte dos EUA nos países do Leste Europeu (República Tcheca, Polônia), vem contrariando. Moscou profundamente, com apóio dos membros da SCO; a intervenção na Líbia pela Otan e as sanções à Síria e Irã, ao qual China e Rússia se posicionam completamente contra, contrariando americanos e europeus; a tensão entre as coréias,em que EUAe EU, Rússia e China se colocam completamente divergentes, são apenas algumas das situações que veremos mais de perto ao longo do texto, onde fica claro que o mundo caminha para uma repartição – o que para alguns pode parecer exagerado, mas possível.

Outra questão caracterizadora desta nova guerra é a necessidade de alinhar-se e estreitar relações com países-chaves das suas regiões. Se antes as nações se aproximavam quase que naturalmente do bloco comunista ou capitalista, hoje as grandes potências é que vão ao seu encontro. Como no caso do Brasil, uma força continental; Índia, fundamental para os americanos a fim de conterem China e Rússia na região asiática; Paquistão: sua simpatia é disputada por EUA e China, primeiro por ser uma nação com armas nucleares, e segundo pela forte influência política que ela pode gerar para uma possível pacificação do vizinho Afeganistão; e Turquia, rota obrigatória para os dutos de energia que vem da Ásia Central direcionado a Europa, que Moscou e Washington disputam ferrenhamente.

Ou seja, o mundo está mudando, e cabe a nós estarmos atento para tanto. E quando conseguimos ver essa transformação de forma clara e nítida, sentimo-nos donos da história, agentes dela, pois ao compreendê-la temos mais força e precisão para guiarmos as nossas ações mais assertivamente e assim mudar o seu rumo.

A VOLTA DO GIGANTE RUSSO

No próximo mês de dezembro completara-se 20 anos do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, um império continental que tirou o sono por mais de 50 anos do lado ocidental da Europa e dos EUA. Sua política autoritária juntamente com seu poderio militar fizeram os soviéticos dividirem o mundo com os americanos. Mas 20 anos depois os russos já não invadem países (como na Hungria em 1956 e Tchecoslováquia em 1968) com seus tanques, muito menos impõem a outras nações diretrizes a serem seguidas à risca (como as do partido comunista soviético).

No campo da geopolítica, Moscou está com sua atenção voltada para suas fronteiras com a Ásia Central, lugar extremamente estratégico com fontes de energia consideráveis, onde para alguns especialistas será (ou já é) a área de disputa das grandes potências – o que Pepe Escobar chamou de o Grande Jogo da Eurásia. Mas assim como para achar o tesouro sempre tem que se vencer os desafios, as dificuldades para quem quiser desfrutar das riquezas e privilégios da região não são poucas.

Mesmo não sendo mais oficialmente parte da Rússia (antiga URSS), as ex-repúblicas soviéticas do centro asiático (Cazaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Quirguistão) sofrem constantemente assédio político e econômico para se alinharem ao Kremlin. Com sua nítida intenção de hegemonia no chamado “estrangeiro próximo”, o gigante asiático vem costurando com esses países, exceto o Turcomenistão, por meio da Organização de Cooperação de Xangai uma forma de erradicar o poderio estadunidense da região – que insiste manter-se ali pela ocupação militar do Iraque e Afeganistão.

Com as diversas manobras de Moscou, os políticos responsáveis pela Eurásia e assuntos russos da Casa Branca foram reacordados de um bom período de tranquilidade. Ariel Cohen, especialista sobre o país asiático, taxou como uma “agenda expansionista” a política externa russa para a Ásia. Já Richard Morningstar, destinado a Eurásia, escancarou o fato com clareza: para ele o “Kremlin vê a energia como ferramenta para perseguir uma política exterior assertiva. A Rússia força países vizinhos a dirigir suas exportações de energia, via seu sistema de oleodutos e gasodutos.”[1]

As pretensões da Cooperação de Xangai não são modestas: como a possibilidade de ingresso do Paquistão e Índia, que vem deixando os políticos de Washington ensandecidos – além dos dois países citados acima, Irã e Mongólia são igualmente países observadores do grupo. Ou seja, sendo a Rússia a maior exportadora de energia do mundo, o grupo de Xangai coopera para uma aliança energética tendo o país como seu pivô.

Apenas o Turcomenistão das ex-republicas socialistas da Ásia Central não participa da SCO, porém este Estado vem sendo disputado pelas grandes potências ferozmente. No primeiro semestre do ano confirmou-se que o país está sobre a segunda maior reserva de gás natural do planeta, o que para a Rússia representou matar “dois coelhos com uma só cajadada”, nas palavras de M. K. Bhadrakumar. Para os americanos, direcionar essa energia para a Europa seria de suma importância, já que diminuiria a dependência do continente do gás russo e fecharia uma oportunidade de saciar o faminto dragão chinês, que inevitavelmente será nos próximos anos o maior consumidor de energia do planeta.

Porém, a tática de Moscou, de dois coelhos com um tiro, pareceu se concretizar. O primeiro sinal de êxito foi a inauguração do maior gasoduto do mundo, com uma extensão de 8.700 quilômetros o gás sai do Turcomenistão até o oeste da China. Sendo assim, o Kremlin manteve a dependência da Europa a sua energia e manteve o ouro negro dos turcomanos na região da Ásia. No entanto, o golpe de mestre sobre Washington para solapar seus anseios na Eurásia, passa por um plano ambicioso para unir e tecer uma aliança político-energética no tão conflituoso centro asiático. Com uma precisão de jogador de xadrez, os russos estão trabalhando para participar da construção do TAPI (gasoduto/oleoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia), que consolidaria a estratégia geoeconômica da Cooperação de Xangai de “expulsar” os norte-americanos e consolidar o grupo como ator hegemônico do continente. Como explicitou Richard Morningstar ao congresso: a Rússia está tentando “empurrar os EUA para fora da Ásia Central e conseguindo, com sucesso, limitar a participação dos EUA em novos projetos de energia no Cáspio, excluindo os EUA do Clube de Energia da Organização de Cooperação de Xangai (SCO)”.

Se no centro da Ásia, o conflito desenvolve-se no campo político-energético, na fronteira com a Europa, norte-americanos e russos parecem tornar mais real e sólido a repetição e o cenário de uma disputa que durou quase metade de um século na Guerra Fria – a animosidade bélica sobre os países do Velho Continente. Desde a administração de George W. Bush, a ideia de um escudo antimíssil no Leste Europeu, fez crescer os ânimos das diplomacias das duas nações – já que Moscou considera como uma ameaça à sua segurança a implementação do sistema.

Após o engavetamento na gestão Obama, o empreendimento de discórdia voltou ao cenário internacional. Espanha, Romênia, Polônia, Turquia, Japão e Coréia do Sul fazem parte da estratégia norte-americana para abrigar o escudo. Cansados da inflexibilidade estadunidense, o vice-ministro da Defesa russa, Anatoli Antonov, declarou no último 27 de setembro, lamentando que “infelizmente, o comprimento desses planos transgride consideravelmente o diálogo entre Rússia, Estados Unidos e a Otan sobre o tema”.

E o fogo diplomático do Kremlin continuou: “É possível que a Rússia tenha que dar uma resposta técnico-militar, em caso de uma falta de progresso no diálogo com o EUA sobre a Defesa anti-Míssil.” Disse em tom de advertência-alerta o vice-ministro de Relações Exteriores Serguei Ryabkov. Desde então, Moscou vem crescendo em uma escalada bélica considerável: em 03 de outubro os russos anunciaram a inauguração do sistema de navegação espacial via satélite GLONASS, com capacidade de localizar objetos terrenos com uma precisão de 5 metros; no dia seguinte foi retomado testes com mísseis balísticos intercontinentais; e por último o governo declarou que até o fim de 2011 criara uma nova divisão no exército, a Defesa Aeroespacial (DAE), tendo como seu propósito principal a exploração/defesa do espaço e garantia da segurança aérea do país.

Para Dmitri Rogozin, representante permanente da Rússia junto a Otan, a criação da DAE é um “movimento forçado”, referindo-se ao impasse com Washington, “mas que dará ao país um verdadeiro senso da sua segurança”. Como vemos a palavra “segurança” e “defesa” são mais que recorrentes nas bocas dos políticos, principalmente da Rússia. Todas as manobras técnico-militares norte-americanas são impossíveis de serem pensadas – no caso do escudo – para nações de médio e pequeno porte, como Irã ou Coréia do Norte. Logo, seu olhar direciona-se uma grande potência, que até pouco tempo era seu oponente no controle e hegemonia mundial.

A EXPANSÃO DO DRAGÃO CHINÊS

Desde o fim do bloco soviético, em 1991, um país não desafiava tão ostensivamente o poderio americano como hoje faz a China. Dona da segunda maior economia do mundo (em 14 de fevereiro de 2011 o Japão foi ultrapassado pelos chineses, posto que ocupavam desde 1968) o dragão chinês não parece ter um freio ou ponto de chegada no seu crescimento.

O que muitos dizem, e que seja até bem provável devido ao poder bélico de ambos os lados, é que China e Estados Unidos nunca travarão uma guerra direta, devido aos íntimos laços comerciais. Porém de uma forma mais abrangente a harmonia sino-americana se equilibra em uma linha muita fina e frágil e com pouca consistência. Um verdadeiro “conflito silencioso” se desenvolve nos quatro cantos do mundo entre os dois – na economia, geoestratégia, diplomacia e geopolítica.

Um dos pontos de maior tensão entre as duas nações se encontra no Oceano Pacífico. Após o fim da Segunda Guerra Mundial e a vitória estadunidense sobre os japoneses, os americanos se alojaram na região praticamente se auto-proclamando senhores e guardiões daquele oceano. Com o crescimento incontrolável chinês por todos os lados, inclusive para o mar ao leste de sua fronteira, as fricções com os americanos são inevitáveis e tensas.

O primeiro atrito tem sua demarcação mais gritante na península coreana, onde Coréia do Norte (“comunista”) e Coréia do Sul (capitalista), desde 1950 incendeiam e acirram as discordâncias das potências mundiais. Completamente isolada, e tendo apenas uma relação próxima com Rússia e China, a Coréia “comunista” desenvolve um polêmico programa nuclear totalmente desaprovado pelo Ocidente. Além disso, a animosidade entre os países da península praticamente demonstram os sintomas da guerra fria do nosso século entre as grandes potências da atualidade, como pode-se ver na divisão de opiniões das principais forças mundiais sobre o conflito.

O ponto alto da desarmonia China-Estados Unidos sobre o tema, foi em 22 de novembro de 2010 quando os norte-coreanos atacaram uma ilha sul-coreana matando dois civis e dois militares. Concomitantemente enquanto a Casa Branca reforçava o seu “inquebrantável” apoio a Seul, Pequim barrava no Conselho de Segurança das Nações Unidas uma condenação ao comportamento beligerante de Pyongyang. Após o ataque, americanos e sul-coreanos fizeram diversas manobras militares no Mar Amarelo próximo a fronteira entre os dois países.

A questão norte-coreana, tanto para chineses como para americanos, não se trata apenas de uma questão política ou ideológica, mas essencialmente de geopolítica. Para os chineses uma intervenção armada do país fronteiriço seria uma aproximação e uma semi-invasão do seu território. Para os norte-americanos, em um primeiro momento, reforçar-se-ia o argumento para uma permanência das tropas da sua marinha ao redor do Mar Amarelo – frontal a China – e apertaria ainda mais o cordão de isolamento-contenção ao gigante chinês, ao qual já fazem parte Taiwan, Japão, Austrália e Filipinas.

Outro ponto considerável é a questão de Taiwan. Após a Revolução Chinesa, vencida pelos comunistas em 1949, os líderes do Partido Nacionalista da China – Kuomintang –, liderados por Chiang-Kai-Shek fugiram para a pequena ilha. Reivindicando para si a legitimidade e governança da China, os dois partidos travaram uma luta diplomática em que os norte-americanos reconheceram apenas os refugiados da ilha como únicos representantes do povo chinês. Mesmo com a aproximação de Washington e Pequim, em 1971, o primeiro nunca renunciou o seu apoio ao governo insular. Com a repatriação de diversas áreas, como Macau em 1999 e Hong Kong em1997, aRepública Popular da China (RPC) vem pressionando diplomaticamente, com ameaças de uso da força caso Taiwan se declare independente, à anexação da ilha ao continente, contrariando categoricamente a Casa Branca que no mês de setembro deste ano anunciou a modernização dos caças F-16 da Força Aérea taiwanesa –  que rendeu uma convocação do embaixador dos EUA na China ao Ministério Chinês de Relações Exteriores para uma explicação sobre a decisão.

Devido ao seu atual estágio de desenvolvimento a China se encontra condicionada a certas medidas e ações inadiáveis: como a busca incessante e primordial por energia (petróleo e gás) para sustentar seu crescimento monstruoso – média de 8% ao ano. Logo, o Leste Asiático é o palco principal do choque com os norte-americanos – já que a região tem um dos maiores movimentos de embarcações do mundo.

Desde o final de 2010, chineses e vietnamitas vem travando uma guerra diplomática, com movimentações bélicas de ambos os lados, pelas ilhas de Paracel e Spratly em decorrência dos recursos naturais contidos ali. Após diversas declarações, elevando o clima de tensão, Hanói vem trabalhando tacitamente para levar o impasse e a discussão a outras nações, como Malásia, Brunei e Filipinas, para ganhar força frente à Pequim

Com o avultar da questão, no dia 04 de março de 2011 funcionários do Ministério das Relações Internacionais do Vietnã se reuniu com embaixadores chineses para discutir sobre as manobras da Marinha da República Popular no mês passado nas ilhas de Spratly. Três meses depois, com o crescimento das farpas trocadas, o primeiro-ministro vietnamita, Nguyen Tan Dung, assinou um decreto listando quem seria isento de ser convocado em uma suposta guerra.

Preocupados com a crescente relevância chinesa sobre o Leste Asiático, os EUA não ficaram parados ante os fatos. Primeiro declarou sua inclinação a favor das Filipinas e Vietnã sobre o litígio das ilhas, e logo depois a secretária de Estado, Hilary Clinton, ofereceu cooperação aos filipinos para modernizarem seu poderio naval. A resposta de China veio do vice-ministro das Relações Internacionais, Cui Tiankai: “Creio que alguns países estão brincando com fogo e espero que não saiam queimados”. Ou seja, apesar do estreitamento comercial entre Pequim e Washington, os fatos e detalhes mais minuciosos desta relação demonstram muito mais fricção do que harmonia. Nas manobras mais detalhadas e silenciosas das duas nações, explicita-se a atenção sobre o outro país e a preocupação de prever o próximo passo.

Indo muito além da mera retórica de fachada estadunidense, uma organização americana – Foreign Policy in Focus – avaliou a proposta de orçamento militar da Casa Branca para o ano de 2009, e constatou que os detalhes do relatório não tinham como finalidade o combate a redes terroristas ou Estados apoiadores. Incluía-se “a compra de 40 super-caças F-22 (considerado “o mais avançado avião de combate da atualidade”), por US$ 4,1 bilhão; a construção de um porta-aviões de novo tipo (o CVN-78), que deverá dar início á substituição dos navios da classe Nimitz e é equipado, entre outros, com o novo modelo de motor nuclear, um sistema eletromagnético para lançamento de aviões, radares avançados e outras inovações; e o lançamento de novas classes de destroyers e submarinos.” Em suma, para o grupo de forma alguma esses gastos refletem-se a uma guerra contra redes terroristas, mas sim para enfrentar “uma nova guerra fria”, frente a “uma potência capaz de representar uma ameaça ao poderio militar dos EUA.” Ainda segundo o relatório.

Se os Estados Unidos trabalham para cada vez mais aperfeiçoar seu complexo bélico, a República Popular não fica atrás. No final do ano de 2010, amaior autoridade americana no Oceano Pacífico advertiu ao seu governo sobre um míssil em fase de conclusão pelos chineses, capaz de afundar um porta-aviões George Washington – símbolo máximo do poderio naval do país. O DF21D é controlado por satélites e pode acertar um alvo a1.500 quilômetrosde distância. Considerado por especialistas na área como “uma nova muralha”, (referência a Muralha da China) Pequim parece estar disposta a desafiar a hegemonia dos EUA naquele oceano, fato inédito no contexto geopolítico no pós Segunda Guerra Mundial – como analisa o jornalista Rodrigo Bocardi, da Rede Globo: “pela primeira vez [as águas do Oceano Pacífico] estão sendo disputadas por outra potência, haja vista o número crescente de submarinos da China na região.”

Sobre o manto da SCO a China vem construindo uma aliança com diversas intenções e propósitos para o centro asiático, algumas delas são: montar o Clube de Energia da Organização de Cooperação de Xangai – como denominou Richard Morningstar; estabilizar a região e consolidar geopoliticamente a supremacia dos gigantes asiáticos (China e Rússia), e, sobretudo e mais importante, solapar a intenção norte-americana de montar uma base sólida do seu poder por ali. Diagnosticando assertivamente as ações da diplomacia chinesa sobre o lugar referido, o chinês Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais, afirmou categoricamente que “Criamos a SCO com o objetivo de resistir à intenção estratégica dos EUA de estender seu controle militar à Ásia Central. A intenção dos EUA de por a Ásia Central sob sua esfera de influência militar foi abortada. Com o SCO, as relações entre China e países da região melhoraram muito.”

A política de relações internacionais da China, seja no Oceano Pacífico ou na Eurásia, se configura e se guia pelo mesmo objetivo: buscar fontes de energia para sustentar sua expansão e desenvolvimento. Neste ponto, a Cooperação de Xangai já deu seus frutos em acordos comerciais de transferência de gás e petróleo ao país. Simbolicamente poderíamos dizer que seria como se os gasodutos costurassem uma união entre os países envolvidos nos pactos, que ao mesmo tempo constroem também laços políticos. Expressando o significado do empreendimento, o presidente turcomano, Gurbangulí Berdimujamédov, disse: “Este projeto tem não somente valor econômico ou comercial, mas também político.” Ou seja, além dos interesses econômicos, os dutos trazem também aproximação.

O ponto mais delicado da estratégia chinesa, onde o caminho fica mais intricado, é a questão iraniana. Quase que isolada, devido às sanções da ONU promovidas principalmente pelos Estados Unidos e União Européia, a República Islâmica do Irã tem na China seu maior parceiro econômico. Desde 2009 os acordos entre os dois países chegaram a 21,2 bilhões em trocas comerciais. Teerã hoje é o exportador número um de petróleo para Pequim, e a empresa de energia SINOPEC investirá 6,5 bilhões de dólares na construção de refinarias no país do Oriente Médio.

Mahmud Ahmadinejad, presidente do Irã, move-se perigosamente no cenário internacional: pregando abertamente a destruição do Estado de Israel e não deixando de hostilizar o maior aliado de Tel Aviv, Washington. O regime teocrático dos Aiatolás vive sobre a sombra da guerra. Cônscio da situação, Teerã luta para ingressar na SCO, o que garantiria proteção e blindagem contra ataques dos seus antagônicos – porém a organização lhe mantém apenas como observador oficial, já que o grupo não aceita nações que estejam sofrendo sanções da ONU.

Em uma fatídica invasão americana ao regime iraniano, o governo comunista da China estaria com o fornecimento de petróleo ameaçado. Em outras palavras, a estabilidade do Irã é fundamental para a energia de Pequim e para sua estratégia geoeconômica, materializada na construção da base naval em Gwadar no Paquistão, “aliado de todas as horas”.

Gwadar será um grande triunfo geopolítico/econômico. Após colocar o projeto IPC (oleoduto Irã-Paquistão-China) em prática, o porto terá uma posição estratégica do empreendimento, trazendo a segurança para o duto. Sendo os Estados Unidos o grande senhor dos mares, Gwadar traria também uma desconfortável presença de navios militares chineses para o Indico, aproximando-se do tão disputado Estreito de Ormuz – por onde são exportados 40% do petróleo mundial.

A estreita diplomacia China-Paquistão, alarma cada vez mais os americanos, pois “Pequim ajudou decisivamente o programa de armas nucleares de Islamabad. No próximo mês de agosto, a China colocará em órbita um satélite para o Paquistão. Cerca de 75% das armas do Paquistão são fabricadas na China. Em breve, 260 jatos chineses de combate serão incorporados à Força Área do Paquistão.”[2] No mês de agosto de 2011, Islamabad demonstrou a força do pacto entre os dois. Após a ação norte-americana no território paquistanês que matou o terrorista Osama Bin Laden, em maio deste ano, o país mulçumano sentiu-se com seus direitos de soberania nacional violados. Sua resposta feriu onde mais poderia doer no ego dos militares norte-americanos, sua tecnologia. O país da Ásia permitiu que autoridades da inteligência chinesa tirassem fotos e colhessem amostras do helicóptero que caiu durante a operação na captura e morte do arquiteto dos ataques de 11 de Setembro.

Por fim, seja no setor energético, militar, ou político, a simetria Pequim-Islamabad repele significativamente os alicerces americanos na Ásia Central, forçando e pressionando a retirada das suas tropas do devastado Afeganistão, como concluiu Pepe Escobar: se a união entre China e Paquistão progredir “será um sinal de importante derrota para Washington no novo Grande Jogo da Eurásia, com enormes repercussões geopolíticas e geoeconômicas.”

QUANDO CHINESES E RUSSOS FALAM A MESMA LÍNGUA

“Verdade é que, quando a grande economia que mais cresce no mundo e o país maior exportador de energia chegam a algum acordo, a coisa é sempre muito mais ampla que simples questão de cooperação bilateral.” Assim definiu M K Bradrakumar sobre o constante estreitamento de russos e chineses em diversos aspectos e diretrizes de questões mundiais e interestatais. Hoje nada é mais alarmante para os norte-americanos que a aliança Pequim-Moscou. O maior país em extensão territorial do planeta, a Rússia, e o mais populoso, a China, nunca estiveram tão afinados nos seus passos no cenário político-diplomático – nem mesmo na época da União Soviética, quando ambos, pelo menos teoricamente, falavam em nome do comunismo.

Após o movimento centrífugo das suas áreas de influência, o Kremlin tenta reaproximar-se dos seus antigos países-satélites sobre o guarda-chuva da Organização de Cooperação de Xangai, essencialmente os da Ásia Central. Para o Leste Europeu e Cáucaso, Moscou proclamou em 19 de outubro deste ano o nascimento do Espaço Econômico Unificado (EEU), que será inaugurado em 1 de janeiro de 2012, com Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão (sendo os três últimos do centro asiático).

Da mesma forma, a China pelo seu lado tenta fortalecer seus laços econômicos e políticos pela Ásia, como a proposta de criação de uma área de livre comércio no Leste Asiático, com as duas coréias, Japão, Mongólia, e o Extremo Oriente Russo. Juntamente, essas nações representam 20% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial. Em outras palavras, russos e chineses vêm trabalhando como catalisadores e pivôs de uniões que indubitavelmente representam mais que meros acordos comerciais. Um movimento espiral que suga para si Estados menores e mais frágeis, formando uma grande aliança em volta dos gigantes da Ásia.

“Aliança estratégica”, assim está ficando conhecido o pacto sino-russo no cenário internacional. O termo “estratégico” demonstra uma união muito além de acordos bilaterais ou afins, mas uma dupla necessidade de ambos: que é fortalecer suas políticas frente aos Estados Unidos e abarcar a Ásia sobre a sua égide. Economicamente, a Rússia para os chineses significam saciar o maior imperativo das próximas décadas para o seu crescimento: a necessidade de fontes energéticas (petróleo e gás). Já para os russos, uma China pró Moscou, representa ter a futura maior economia do mundo e a grande potencia da Ásia, não tendo que se preocupar em demarcações de interesses.

No campo diplomático, Moscou e Pequim tem desafiado as potências ocidentais principalmente quando o assunto é a Primavera Árabe. Assim exclamou o ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov: “Rússia e China decidiram trabalhar juntas sobre as questões criadas pelos levantes no Oriente Médio e Norte da África.” Desde o começo das revoltas árabes, que explodiram na Síria, contra o presidente Bashar al- Assad, há dez anos no poder, os gigantes asiáticos vem barrando as propostas de sanções demandadas por Estados Unidos e União Européia (Damasco é um comprador assíduo de armas tanto da Rússia quanto da China). No caso Líbio, os dois asiáticos se absteram sobre a votação da área de exclusão aérea e posteriormente não pouparam críticas a intervenção no país.

Desde janeiro desse ano, Moscou tem abastecido a China com 300 mil barris de petróleo por dia, pelo Grande Oleoduto Oriental saindo da Sibéria até a província de Daqing. Os acordos bilaterais estão sendo feitos também na área de energia renováveis, pesca, luta antiterrorista, cooperação financeira, extração e transporte de hidrocarbonetos, prospecção e exploração de jazidas, construção de refinarias, etc.[3]

Além da avalanche de acordos e parcerias nos setores econômicos e militares, chineses e russos se comprometeram no final de 2010 em Pequim a continuar cooperando dentro das várias instituições que ambos participam – como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), G-20 (composto pelos principais países desenvolvidos e os emergentes), Conselho de Segurança da ONU e a Organização de Cooperação de Xangai.

O MUNDO PÓS HEGEMÔNICO

Se na última década do século passado o mundo não tinha dúvidas da incontestável supremacia estadunidense sobre todos os outros países, já hoje, no segundo decênio do XXI, se tem a certeza que eles não detêm mais a unipolaridade suprema. Sua sombra em vários pontos ainda se perdurará por um longo tempo, como na cultura (cinema e música) e no setor militar. No entanto, outras nações despontam no cenário internacional rivalizando e desafinando seu concerto, antes regido pelos Estados Unidos com tranquilidade e desenvoltura.

Se alguns apenas desafiam a hegemonia norte-americana, – Cuba, Venezuela, Coréia do Norte, Irã e Paquistão – sem maior possibilidade de superá-la, já outros, como Rússia e China, tem não somente o poder de questioná-la, mas de superá-la por completo.

Tendo isso no horizonte de Washington desde a segunda metade da primeira década do nosso século, os americanos têm formado uma barreira militar-geopolítica para barrar, de forma não explícita, o avanço dos gigantes asiáticos. Para conter o dragão chinês no Oceano Pacífico os EUA mantêm uma forte aliança com mísseis e forças rápidas de intervenção no Japão e Coréia do Sul – além do incondicional apoio a ilha de Taiwan como complemento ao cerco.

Completando a contenção na Ásia-Pacífico, a Austrália tem uma posição fundamental. Desde 2003 os australianos vem cooperando com os americanos participando da ocupação do Iraque, com tropas pelo Golfo Pérsico e da construção do escudo antimísseis de alcance global. E se não bastasse, Camberra deixara os americanos construírem uma base que “será um ponto importante de ligação a uma nova rede de satélites militares internacionais, a serem utilizados pelos EUA e seus aliados em intervenções militares no médio Oriente e na Ásia.” Segundo um artigo de Mahdi Darius Nazemroaya.

Se essas manobras têm sido feitas de forma velada não mostrando realmente para quem estão sido apontadas, diversos analistas não medem meias palavras e enfatizam categoricamente seus fins: como crivou Isabel Reynolds, correspondente no Japão, em um artigo de 2007 para a Reuters, “que o ambiente securitário e militar vivido atualmente no Japão e na Austrália estão dirigidos contra a China e a Rússia.” E explicitando a questão, o especialista militar Tetsuya Ozeki, advertiu que “a China e a Rússia estão a trabalhar para serem países igualmente influentes na região.”

Em uma perspectiva mais ampla, a guerra fria do século XXI será uma disputa palmo a palmo dos rincões mais distantes e remotos dos continentes – como a região do Ártico em que vários países (Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Noruega) vêm disputando o controle sobre onde se desconfia que haja reservas de petróleo e gás. Tendo atores menores à frente das tensões, mas sempre com uma superpotência respaldando-a – como marionetes –, como já vem acontecendo com a Coréia do Norte, Taiwan, Vietnã, Síria, Israel, etc. Essa será a tônica dos conflitos do nosso tempo. Além disso, outros atores farão toda a diferença na nova harmonia geopolítica, como a Índia e o Brasil, por exemplo.

Esperamos que os que consideraram o desmoronamento da União Soviética “o fim da história” (Francis Fukuyama), estejam atentos e sagazes para ver que a roda da história não para de girar com o declínio ou o ponto final de um império, mas se renova e se reestrutura novamente. O mundo caminha a passos lentos para tensões e fricções marcantes em que novos valores surgirão e uma nova configuração moldará a simetria mundial, diminuindo a importância de velhos regentes e potências ocidentais.

Fábio Amorim é estudante de história da Universidade Nove de Julho – Uninove


[1] Discurso ao Congresso americano no mês de maio de 2011

[2] Artigo de Pepe Escobar para a emissora Al-Jazeera do Qatar

[3] Encontro ratificado em Pequim no dia 27 de setembro deste ano pelo presidente chinês, Hu Jintao, e o russo Dmitri Medvedev.

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