Ao jovem que pretende fazer Ciências Sociais

Leonardo de Lucas da Silva Domingues Via Espaço Acadêmico

De repente você está lá com os seus 17/18 anos e se depara com a decisão crucial sobre o futuro de sua vida: qual curso superior escolher? É um momento em que se misturam anseios distintos e indecisões juvenis com pressões familiares e preocupações financeiras. Tudo acontece ao mesmo tempo. O candidato a uma vaga no ensino superior dificilmente faz um questionamento prévio sobre todas essas questões. Mas, enfim, você tem que escolher alguma coisa. E aí, sabe-se lá por que cargas d’água, razões, decisões ou motivações você escolhe fazer o quê? Ciências Sociais.

Não é simples identificar o que faz alguém escolher um determinado curso. Fatores subjetivos podem se sobrepor aos objetivos, tornando a explicação ainda mais complexa do que aparenta ser. No caso de uma escolha para o curso de Ciências Sociais, pode-se dizer que talvez a pessoa já tenha alguma inclinação para a área desde pequena ou talvez apenas a escolha por não se enquadrar em nenhuma das outras categorias disponíveis. As constatações podem ser as mais diversas.

Atualmente, há muitos recursos cibernéticos para buscar informações sobre a área de Ciências Sociais. Na internet, encontram-se textos e mais textos, livros digitalizados, vídeos educativos, páginas eletrônicas dos cursos de graduação e de pós-graduação, entre outros. A inserção da Sociologia como matéria obrigatória para o ensino médio também ajuda imensamente o aluno a já ter um contato com o mundo acadêmico, com as leituras e com outros aspectos que são próprios desse universo.

É claro que tudo isso ajuda, mas o certo é que você só vai saber mesmo o que é fazer Ciências Sociais, quando já o estiver fazendo. Tal fato não é nenhuma anomalia, se comparado aos outros cursos. Há uma surpresa com a escolha tão bem pensada. Talvez, só depois de terminada a graduação é que você vai perceber o que aquela escolha realmente significou para seu futuro. Quando essas mediações não estão bem construídas na cabeça do estudante em fim de curso, esse choque de realidade, abrupto, pode ser um problema. Antes de adentrar nesse campo, como você pode chegar e o que vai fazê-lo chegar a escolher esse curso?

Você fez seu ensino médio e viu que só as matérias de humanas lhe interessaram. História, Filosofia e Sociologia foram os pontos altos no boletim. Você se vê como uma pessoa engajada, interessada nos destinos do mundo; parece que a maioria de seus outros amigos não consegue ao menos entender os verdadeiros problemas humanos que você levanta em conversas e bate-papos. Você já deve ter defendido os palestinos, os tibetanos, os cubanos, os indígenas, os haitianos, os sem-terra, os sem-teto, os animais em extinção… Certamente participou de passeatas e de todo tipo de manifestação. Talvez já tenha visto filmes-cabeça, dos quais mais ninguém gosta. Geralmente esse tipo de contexto e de trajetória de vida, mais outros tantos elementos não destacados aqui, é que levam alguém a escolher Ciências Sociais.

Essa não é uma condição necessária. Fora os que escolhem por esse lado mais politizado, há também aqueles que, por várias razões, têm uma inclinação para um viver chamado de alternativo. Nessa categoria inserem-se roqueiros, hippies, punks, straight edge, poetas e “malucos” de toda estirpe. Em qualquer universidade de médio ou grande porte, é possível notar que os alunos de Ciências Sociais são tidos como uns dos mais estranhos e acabam, muitas vezes, recebendo nomes muito “carinhosos” da “comunidade” universitária como os “bicho-grilo”.

Essa representação caricatural pode se explicar, em termos, e com o devido distanciamento crítico, pelo visual diferente dos alunos. Dreadlocks, barbas compridas, piercings, cabelos coloridos, vestimentas de tendências distintas e adereços diversos adornam a alteridade do grupo.

O que em cursos como Design Gráfico, Comunicação, Jornalismo, Marketing e Propaganda é visto muitas vezes como uma demanda de mercado, o “ser alternativo” (ter estilo despojado, criativo), lá nas Sociais é uma realidade não-fabricada (com seu grau de autenticidade que o afasta da gravitação mercadológica). Talvez nenhum outro curso o coloque tão próximo da diversidade, em seu sentido mais amplo e pleno. Por trás de cada uma dessas pessoas existe uma complexa teia de relações com os submundos da cultura não-convencional. Vozes díspares e antagônicas vão querer falar e você vai aprender a conviver com elas, a ouvi-las e a interagir com elas.

Depois de todas essas etapas, você quer saber, afinal, que curso é esse? O que ele representa? Qual a atuação das pessoas que passam por esse tipo de formação? Calma, a história é longa. Até você entender o que é um cientista social vai algum tempo (o que faz, então, demora mais ainda). Talvez, até lá você já vai ter passado por boas crises existenciais e por muitas experiências inesquecíveis. Você vai se deparar, em algum momento dessa empreitada, com célebres perguntas: até que ponto suporta seguir? É realmente intelectual o bastante para ser um acadêmico? Quais opções existem sem ser a vida universitária? Trabalhar como cientista social profissional, ser professor ou se engajar em alguma causa? Dinheiro…dinheiro…dinheiro….

Vai perceber que tudo aquilo que demora a compreender, será ainda mais complicado para explicar aos outros, principalmente aos que o rodeiam. Se, para descobrir a diferença entre Serviço Social e Ciências Sociais bastam algumas semanas, para todo o resto leva quase a totalidade de uma existência. Enfim, essa não é uma tarefa fácil. Descobrir o universo que representa esse curso de graduação leva muito mais do que seus quatro anos de duração.

Na sua consistência bruta, Ciências Sociais é um daqueles cursos dentre os quais a leitura é um hábito indispensável. Gostando ou não, querendo ou não, o certo é que você vai se cansar de ler. No início isso pode ser muito tortuoso. As leituras são difíceis, os temas algumas vezes são indecifráveis, assim como os termos e o linguajar próprios.

Apesar dos pesares, decifrar as teorias pode ser muito prazeroso. Além de ler, também é essencial fazer leituras críticas. Não se importe em gastar o tempo que for necessário para entender um trabalho intelectual. Sua confecção pode ter demorado anos ou, às vezes, até décadas. Nesse caminho, você pode encontrar matérias que não o agradam, temas que não tem nada a ver com suas pesquisas ou intenções futuras, mas isso não o impede de aproveitar o mínimo possível e o mentalmente necessário dessa experiência incomum.

Ao longo dos anos, dificilmente irá se manter o mesmo. Certamente, o estudante do início do curso não se confunde com o que se forma. E tal mutação não se dá só por uma questão heraclitana do fluir do rio ou de alguma outra coisa parecida, vai muito além disso. Não há naturalidade nesse processo (aliás, o natural, como verá, não existe na sociedade). Essa graduação o fará pensar e repensar muitas coisas: certezas se reduzirão a pó em pouco tempo e um novo leque de possibilidades se abrirá diante de seus olhos. A leitura sobre as teorias será a bagagem fundamental a ser utilizada nessa viagem sem destino fixo ou provável.

Somando-se a isso, provavelmente você vai começar fazendo disciplinas muito diferentes entre si, lendo livros, algumas vezes, com séculos de distância uns dos outros. Vai ser uma salada de compreensões e de reflexões. Nesse ponto, a melhor saída é recorrer à Filosofia. Para estudar Ciências Sociais é preciso ter alguma base sobre as correntes do pensamento filosófico.

E tudo isso vai gerar muita mudança. Talvez essa seja uma das marcas indeléveis de alguém que passa pelo processo de graduação em Ciências Sociais. Há mudança porque, na realidade, há um mudar em diversos sentidos. Mesmo para os alunos que não tenham lá tanta simpatia com o curso ou que estejam mais interessados somente no diploma irão ser provocados a saírem do lugar.

Isso acontece principalmente se você passa a viver numa cidade universitária distante de sua família. Todo esse ambiente de novidade estimula ainda mais a necessária desconexão com o mundo diário dos problemas corriqueiros. Ainda que tenha de trabalhar para se manter nessa nova morada, como boa parte dos alunos acaba fazendo, isso não vai alterar sua jornada de reconstrução do mundo social que o cerca por meio das diversas orientações teóricas.

Talvez tal fato até potencialize seu distanciamento crítico em relação ao emaranhado de relações entre pessoas e coisas que se pulverizam numa apreensão imediata do cotidiano. O certo é que, de uma maneira ou de outra, independente de sua origem social, de seu credo e todas as outras coisas que nos distinguem/diferenciam uns dos outros, a despeito disso tudo, você vai repensar sua vida; vai questionar seu mundo; vai parar, nem que for por alguns instantes, para pensar sobre coisas que, por circunstancias das mais diversas (e que irá estudar sobre elas), dificilmente pensaria.

É lógico que cada um terá o seu modo de vivenciá-la. Alguns viverão essas mudanças de modo extremamente intenso, outros já irão percorrer o caminho com moderação. Em todo caso, tudo será novo. Por isso é interessante estudar em uma cidade distante da sua de origem. Também é importante escolher uma universidade com muitos cursos diferentes; esse contato com grupos distintos é fundamental.

Paris, maio de 1968

No que diz respeito especificamente ao curso de Ciências Sociais, as mudanças incluem não só o contato com novas visões de mundo, mas, também, a conexão com uma miríade de formas de vida alternativa. Se sua sala for realmente representativa nesses quesitos, uma genuína classe de Sociais, prepare-se para tomar contato com vegetarianos, marxistas, hinduístas, feministas, crentes (padres, pastores), anarquistas, liberais, dentre outros. Em paralelo às mudanças de rotas, uma série de crises se sucederá, uma atrás a outra: existenciais, psicológicas, teórico-metodológicas, religiosas, financeiras…. Não há quem não passe por elas (a que trata da existência material será, certamente, a mais problemática).

Muitas dúvidas podem surgir. Todo questionamento vai levá-lo ao movimento. Não há nada mais básico em um trabalho de reflexão. Não importa o quanto isso vá contra seus próprios pensamentos ou convicções, duvide, questione, problematize. O conforto no campo das ideias não é para os que lidam com os problemas do pensamento, muito menos para os que refletem sobre a realidade social.

Criticar parece ser uma resposta simples para problemas complexos. Não é bem assim. A crítica é um elemento fundamental nesse processo (assim como a autocrítica). Lembre-se que os pensamentos só servem para fazê-lo pensar e para continuar pensando. Não cultue os pensamentos de modo a se fixar inflexivelmente em certas ideias, principalmente as que abstratamente (no campo lógico) pareçam perfeitas. Pense agindo concretamente, transformando sua realidade.

Desde o primeiro momento na graduação, tente abarcar em suas inquietações o máximo de referenciais distintos. Leia sobre tudo. Converse muito com professores de matérias diametralmente opostas. Procure saber, já no primeiro ano, quais os projetos desenvolvidos nas pesquisas do corpo docente. Mergulhe no erro. Teste suas afinidades teóricas. Discuta. Quando sentir que as ideias não saem de certo limite de segurança, provoque-as, remova obstáculos; jogue os pensamentos contra si mesmos. A realidade não vai até onde se estende a racionalidade lógica de meros conceitos abstratos.

Se for instigado a pensar, fará do mundo uma grande experiência criativa. Verá que a mudança que se materializa em você se expressa antes na realidade que o cerca. Esse movimento o levará a investigar sobre o que está inscrito no universo social que nos rodeia. Por trás de explicações supostamente óbvias sobre cada coisa que existe no mundo, apreenderá o jogo contraditório das relações que constituem esse agora antagônico mundo.

Portanto, ao jovem que pretende ingressar nesse ramo do saber, nessa gama de experiências humanas, fica o alerta de que este pode ser um caminho sem volta: a realidade nunca mais será a mesma (ou melhor, sua percepção sobre essa realidade não será a mesma), depois que você passar por uma graduação em Ciências Sociais.

LEONARDO DE LUCAS DA SILVA DOMINGUES é Graduado em Ciências Sociais pela UEL e mestre em Sociologia pela UFRGS; membro do Laboratório de Divulgação de Ciência, Tecnologia e Inovação Social (LaDCIS/UFRGS). E-mail: leonardo_delucas@hotmail.com

Guia de Profissão 2013 – Ciências Sociais

Anthony Cardoso

Nesse momento em que chegam as datas dos principais vestibulares do país, além do maior programa de acesso ao ensino superior, criado pelo Governo Federal: o Enem, aqueles que buscam não só um curso ou uma carreira sólida nesse disputado mercado de trabalho, e sim um sonho, já tem uma opinião formada sobre o curso que pretendem concorrer, mas ainda há aqueles que tem dúvidas e precisam de ferramentas que auxiliem a esclarecer dúvidas que possam surgir sobre o curso superior mirado. Por isso, o InfoEnem realizou um tópico bem esclarecedor dentro de seu guia de profissões sobre o curso de Ciências Sociais. Aproveite!

Segue o link para o artigo: http://www.infoenem.com.br/guia-de-profissao-2013-ciencias-sociais/