“Eu, realmente, vi o pior e o melhor dos homens”

Uma mulher conta como foi violada e salva durante protesto na Praça Tahrir em 2 de junho de 2012

No dia 2 de junho de 2012, eu estava na Praça Tahrir, aonde já havia ido várias vezes, para documentar o protesto que ocorria e não alcançava a mídia internacional. Eu não sou egípcia, mas acompanhei uma amiga egípcia durante e após o primeiro turno eleitoral. Eu a filmei em diversos protestos e marchas e por esse motivo estava lá aquele dia. Nós estávamos em um grupo de 5 pessoas, 3 mulheres e 2 homens. Nós nos sentimos seguros e estávamos atravessando a praça em direção à esquina com a rua Muhammed Mahmoud. De repente, ficamos cercados por muitas pessoas e eu percebi um homem nos seguindo. Ele tinha um celular nas mãos que não parava de tocar, mas ele não atendia. Eu o achei estranho e comentei com uma amiga, quando ela virou, ele já tinha saído e nós decidimos sair da área lotada da praça.

(Vídeo flagra violência sexual coletiva contra mulher na Praça Tahrir. Legenda em Português-Portugal)

A melhor maneira foi passar pela cerca de metal e andar na rua. No caminho, eu senti um homem apertando o meu peito. Eu o afastei e continuei a andar. Durante o curto período que fiquei no Cairo, eu passei por assédio sexual muitas vezes e eu sabia que esse era um grande problema. Nós continuamos e de repente, todos os homens ao nosso redor começaram a tocar nosso corpo. Foi como se eles tivessem nos cercado ao mesmo tempo e nos separado uns dos outros.

Isso aconteceu enquanto estávamos passando pela cerca de metal. De lá, eu não vi nenhum dos meus amigos, com exceção de um deles que estava tentando afastar os homens de mim enquanto eles vinham mais e mais.

Antes que pudesse perceber, fui jogada contra uma parede, onde uma moto estava estacionada. Eu estava em cima da moto enquanto meu amigo e outros homens tentavam fazer um meio círculo para me proteger. Mas existiam mais homens tentando me machucar do que me proteger e eu fui agarrada por todos os lados e minha calça e camiseta foram arrancadas. Naquele momento, foi como se os homens fossem ainda mais à loucura. Minha calça foi arrancada por muitos homens e eles me estupraram com seus dedos sujos. Eu consegui colocar minha calça de volta e ainda podia ver a cara do meu amigo ainda tentando, com todas as suas forças, tirar pelo menos alguns homens. Eu realmente vi o pior e o melhor dos homens. Meu amigo apanhou e colocou sua vida em risco para tentar me salvar enquanto outros homens estavam lutando para chegar perto de mim com uma única intenção: me machucar o máximo possível.

Agência Efe (19/02/13)
Mulheres protestam contra violência do exército
Mulheres protestam contra violência do exército

Por todo o tempo, tentei me proteger, mas eram muitas mãos e muitos animais. Cada vez mais homens vieram se juntar ao assédio e, de repente, eu vi outro rosto que conhecia. Era um amigo norte-americano e tanto ele quanto meu amigo egípcio continuavam me dizendo que tudo ficaria bem, que logo isso tudo iria acabar. Eu não acreditei neles e acho que nem mesmo eles estavam acreditando nisso.

Eu joguei minha câmera para meu amigo norte-americano e disse para ele correr. Eu sabia que ele apenas teria mais problemas ficando. Ele correu com a câmera e neste momento, meu amigo egípcio e eu decidimos escapar. Nós contamos até 3 e eu pulei em seu braços e isso criou um segundo de confusão para os homens que estavam me machucando. Mas, novamente, eles estavam todos em cima de mim. Eu fui jogada em um beco e contra uma parede.

Eu não sabia quem estava querendo me ajudar e quem não estava. A única pessoa que eu confiava era meu amigo. Outros diziam que estavam ajudando, mas, na verdade, estavam tentando ficar no começo da fila para pegar um pedaço do bolo. Outros estavam ajudando de verdade, mas era impossível saber quem eram.

Os homens estavam como leões em volta de um pedaço de carne e suas mãos estavam por todo o meu corpo e debaixo das minhas roupas rasgadas. Novamente, minha calça e calcinha foram arrancadas com violência e muitos homens, ao mesmo tempo, me estupraram com seus dedos. De repente, eu fui atirada no chão e os homens me agarraram pelos cabelos, pernas e braços enquanto o estupro continuava. De alguma forma, consegui me levantar e a porta de um corredor se abriu perto de mim e fui empurrada para lá.

No corredor, cerca de 20 homens conseguiram entrar antes da porta se fechar. Eu não vi meu amigo entre eles. Foi a primeira vez que tive a chance de ver os homens por poucos segundos e eles eram de todas as idades. As expressões em seus olhos eram realmente de animais e nenhum um pouco humanas. E a forma como estavam me jogando era como se eu não fosse humana, mas um pedaço de lixo.

Novamente, eu fui cercada por todos os lados no meio do andar. Tinha até um homem deitado no chão, sendo pisado pelos outros, tentando enfiar seus dedos entre as minhas pernas. Isso aconteceu por todos os lados e mais dedos ao mesmo tempo. Eu tinha certeza que eles não iriam parar até eu ficar deitada morta no corredor. Eu, realmente, tentei lutar e proteger meu corpo, mas era impossível. Toda vez que eu tentava chutá-los, mais mãos estavam entre as minhas pernas e todas as vezes que eu tentava bater em alguém ou remover suas mãos, minha camiseta era ainda mais arrancada e meus seios puxados. Por um segundo, eu tive a chance de machucar um homem que estava atrás. Eu pressionei meus dedos, com toda a força que ainda tinha, em um de seus olhos, mas ele apenas continuou a me machucar com os seus dedos.

Dois ou três homens conseguiram me tirar dos outros e me colocar numa cadeira no canto. Agora, eu sei que eles estavam tentando me ajudar, mas eu não sabia disso no momento. Eu estava com tanto medo e não conseguia ver o fim disso. De repente, eu escutei um som alto e eu vi um idoso com um pedaço de madeira nas mãos. Eu o vi batendo em um jovem e eu fui empurrada em um quarto, enquanto alguns homens estavam tentando segurar outros. Finalmente, eu tive a chance de colocar minha calcinha e calça e um homem me deu uma bandeira do Egito para me cobrir. Me disseram para subir as escadas.

O idoso com o pedaço de madeira estava na frente e cerca de quatro ou cinco homens lhe seguiram. Outros ficaram e estavam tentando segurar o resto.

Subindo as escadas, eu não tinha nenhuma ideia do que aconteceria. A única coisa que eu sabia era o que estava lá embaixo e que não poderia voltar. Eu continuava caindo porque não tinha nenhuma energia mais. As escadas não terminavam nunca e eu continuava caindo e chorando. Eu não confiava em nenhum homem. Um deles continuava dizendo “tudo está bem, os egípcios são bons”. Uma hora eu caí, e um homem atrás de mim tocou em meus seios, eu o empurrei e olhei para seu rosto e ele pediu desculpas e disse que foi um acidente. Não era e eu estava com nojo dele e ainda mais assustada com o que estaria me esperando no fim das escadas. Mas, por sorte, eles estavam me ajudando e eu estava tão aliviada de, finalmente, ver uma mulher quando entramos no apartamento no fim das escadas. Ela era a mulher do homem que me levava pelas escadas e eles não deixaram nenhum dos homens entrar.

A mulher me levou ao banheiro e me deu algumas de suas roupas. Quando eu cheguei no banheiro, não conseguia ficar em pé por nem mais um minuto. Eu caí no chão e comecei a chorar e chorar. Eu não sei por quanto tempo eu fiquei lá, mas, de repente, uma das minhas amigas apareceu na porta. Eu nunca tinha ficado tão feliz de ver alguém que conheço. Ela me abraçou e me ajudou a trocar de roupa e a lavar a sujeira de meu rosto, braços e mãos.

Nós ficamos no apartamento com essas pessoas maravilhosas que nos deram água e Pepsi para beber. Eles também me deram um lenço e sapatos, pois tinha perdido um par durante o ataque. Minha amiga tinha um telefone e conseguiu conversar com nossos outros amigos. Depois de um tempo, me disseram que era seguro deixar o apartamento, mas eu recusei diversas vezes até que me convenceram. Eu estava com tanto medo de aqueles animais estarem me esperando.

O idoso e seu filho nos seguiram até o final do beco e eu estava tão feliz de ver nossos dois amigos nos esperando. Nós andamos muito rápido, cobrindo minha cabeça com o lenço e entramos no carro do meu amigo estacionado parto. Nós fomos até o apartamento onde vivíamos e encontramos o resto de nossos amigos.

Nos dias seguintes, eu pude ver meus bravos amigos e outras mulheres começarem a conversar sobre esse grande problema. Eu fiquei na minha e retornei ao meu país depois de uma semana. Agora, estou recebendo ajuda médica e psicológica para me recuperar do ataque. Minha identidade permanece em segredo pela minha segurança e para poder retornar ao Cairo algum dia.

Eu desejo o melhor para as mulheres do Egito. Sem elas, não haveria nenhuma revolução. Atacá-las agora é apenas arruinar a continuidade da revolução. Eu ouvi algumas pessoas dizendo às mulheres para não contarem suas histórias sobre os assédios, ataques e estupros porque poderiam arruinar a imagem da revolução.

Eu tenho apenas uma coisa para dizer a essas pessoas: ninguém senão vocês estão arruinando a revolução. O que vai sobrar na praça sem as bravas mulheres?

Eu acredito que as mulheres não vão permanecer caladas e não vão desistir, mas é importante que todos os homens no Egito tomem uma posição sobre esse assunto. Diga alto, escreva em um cartaz, vista em uma camiseta. Faça o que for preciso para dizer às mulheres e o mundo que não são todos os homens no Egito que batem, assediam e estupram uma mulher apenas por andar nas ruas, por participar em protestos ou simplesmente, por exigir seus direitos.

*Publicado originalmente no Nazra for Feminist Studies

** Traduzido por Marina Mattar em Opera Mundi

Anúncios

Hosni Mubarak: O Luis XVI do século XXI?

A REVOLUÇÃO DO MUNDO ÁRABE

A revolta árabe do começo do século XXI nos fez desempoerarmos dos nossos livros de história uma palavra em especial que se encontrava um tanto obsoleta após o fim da União Soviética: revolução. Tunísia, Egito, Iêmen, Marrocos, Líbia, Jordânia, Síria: todos eles foram, ou continuam, sacudidos com a chamada Primavera Árabe que deformou, e continua deformando, a configuração da região e que consequentemente afetara o mundo todo.

Dentre os países que estão passando pelo processo transformador o Egito tem sua relevância mais acentuada. O país que é chamado por alguns como o “coração do mundo árabe” tem uma importância econômica, diplomática e geopolítica fundamental para os rumos do Oriente e do Ocidente.[1]

Apesar das bandeiras defendidas pelos povos revoltosos aspirarem reivindicações semelhantes – como democracia, liberdades civis, emprego, desenvolvimento – do Egito se emana também conceitos e diretrizes determinantes para diversos assuntos: do conflito Israel-Palestina a própria contestação do Estado judaico como superpotência da região ao Irã nuclear; da influência americana no Oriente Médio até uma advertência teórica a países estrangeiros sobre uma visão fossilizada do imobilismo político dos povos árabes.

Nos 18 dias da Praça Tahrir que depuseram o ditador Hosni Mubarak (há 30 anos no poder) em 11 de fevereiro, sucederam-se acontecimentos e fatos que quebraram diversos paradigmas e fizeram os cientistas políticos e sociólogos repensarem conceitos e valores herdados entre o século XVIII e XX.

Principalmente a partir da Revolução Francesa os movimentos políticos procuraram sua legitimidade e força nos movimentos de massa. E essencialmente após a Revolução Russa de 1917, a presença de um líder, como foi Lênin, norteou as revoluções a partir dali. Já a Revolução Egípcia rasgou todos esses estatutos e reinscreveu modos e formas de revolução – que sem sombra de dúvida guiarão todo o século XXI.

Sem líderes populares ou intelectuais, com uma movimentação de massas vista poucas vezes de forma tão obstinada e concisa. Organizadas por redes sociais, sem bandeiras ou slogans socialistas (como foi praticamente todo o século XX após a Revolução Russa) nem palavras explícitas em aversão ao capitalismo; nenhuma organização partidária à frente do movimento (nem de vanguarda ou congêneres). Tradições e linhas de pensamento que foram deixadas para trás na Praça Tahrir que a partir de agora fazem parte do antigo capítulo da História – pois o novo já está escrito.

FRANÇA E EGITO: UMA TRISTE SEMELHANÇA PARA O AUTORITARISMO

Diante de toda a ebulição citada acima, no próximo dia 3 de agosto o Egito fará história novamente. Começara o julgamento do ex-líder do país que após três décadas de poder soberano em apenas 18 dias sucumbiu à força das massas. Diante do cenário e das circunstâncias o autocrata egípcio se aproxima estreitamente de um outro autocrata que também foi deposto, conheceu a fúria de seu povo, o julgamento e a condenação a morte: Luís XVI. (O que poderá acontecer com o ex-ditador egípcio também.)

O Oriente Médio do século XXI vivia uma configuração similar em termos de poder político da Europa dos tempos do monarca francês: déspotas com poderes ilimitados que exerciam sua vontade incontestavelmente. No entanto, apenas alguns dias de força popular foram suficientes para varrer de roldão séculos de poder – outra semelhança entre os dois.

Luís XVI, rei da monarquia mais opulenta e luxuosa da Europa, herdeiro de um trono secular de política influente no velho continente. Após 1789, sentiu a cólera dos seus subordinados com a queda da Bastilha, foi bombardeado politicamente pela Assembléia Nacional com seus decretos (como a Abolição dos Privilégios e a Declaração dos Direitos do Homem) e por fim, e não menos importante, humilhado moralmente quando preso em Varennes e condenado a morte, por entre outras coisas, trair a nação pondo fim a toda uma fase da História.

ADEUS, MUBARAK

Ao que a maioria das vezes as pessoas se enganam as revoluções não tem como sua força motriz e conquistadora a violência. As revoluções (todas elas) têm a sua pungente e blindagem contra os seus governos ilegítimos as “ideias”, e essas são a prova de balas, cassetetes, gás lacrimogêneo e todo o aparato repressivo e brutal do Estado. Após a vitória das idéias, o déspota Mubarak observa um novo Egito que vai passando por cima de um antigo Egito recalcado e subserviente a interesses alheios – como foi o país na sua direção.

Com a queda do governante, a limpeza política começou a punir e rechaçar tudo referente ao velho regime mubarakista. No dia 22 de maio um policial, Mohammed Al Soni, foi condenado à morte por matar 20 manifestantes que tentavam invadir uma delegacia. Além do julgamento dos repressores das revoltas, o antigo governo prestou suas contas a justiça: como foi o caso do ex-ministro das finanças, Yusef Butros Ghali, condenado a 30 anos de cárcere por abuso de poder e de ter utilizado recursos do ministério para as campanhas legislativas de 2010. Ao total 20 ministros ligados ao ditador estão sendo investigados.

O veredicto da história e a avaliação dos trinta anos do governo de Hosni Mubarak começará em 03 de agosto. Entre as acusações encontram-se as de enriquecimento ilícito, (segundo um relatório de supervisão administrativa do Egito os bens declarados pela família Mubarak não coincidem com a que foi declarada para a receita federal) abuso de poder e por morte premeditada dos manifestantes, que pode levá-lo a ser condenado à morte.

Todavia, independente do desfecho do julgamento as “idéias” no âmbito da sociedade egípcia já triunfaram, pois aos poucos a figura de Mubarak vai sendo varrida das mentes do povo como demonstra a sentença do Tribunal de Urgências do Cairo de 21 de Abril que ordenou a eliminação do nome de Hosni Mubarak de todos os locais públicos: como praças, bibliotecas, ruas, e mudança do nome de uma estação de metrô que levava o homônimo do ex-ditador.

Fabio Amorim é estudante de história da Universidade Nove de Julho – Uninove


[1] As causas da relevância do Egito como ator essencial da região serão explanadas em um outro artigo do mesmo autor: Quem tem Medo da Revolução Egípcia?