Manifestações: o passado e o porvir

Estamos no calor do momento. No início do mês quem falasse que haveria manifestações pelo Brasil inteiro seria taxado de louco, eu mesmo faria coro a tal opinião. De fato, estamos vivendo dias novos, onde pessoas como eu, que tenho 25 anos e nunca vivenciaram uma experiência dessas, estão sentindo como viver a política, como ser um cidadão participante e não apenas no evento das eleições, no qual o brasileiro ainda sente como um castigo o fato de ser obrigado a votar em alguém. Há quem diga que estamos vivendo a “primavera brasileira” ou até nas palavras do prof° Henrique Carneiro, uma “revolução”. Eu lhes pergunto (já respondendo): estamos vivendo? Não, não estamos. E digo o por que.

Para lhes responder, eu remonto a exatos dois anos, quando houve a 2ª Marcha da Liberdade, um evento em resposta a repressão policial na Marcha da Maconha, realizada dias antes. Eu fui ao evento e postei em meu blog (link aqui) dando minhas sinceras impressões. Na época, era a Marcha da Liberdade, mas uma liberdade multiuso. Era liberdade para ser gay; liberdade para o aborto; para a liberdade religiosa; liberdade pra fumar uma maconha; liberdade para protestar sem levar balas de borracha e gás lacrimogêneo. Também tinha os contras, afinal, liberdade demais é baderna já dizia a Folha, Estadão e demais veículos da mídia de direita: havia o protesto contra a homofobia, contra a construção da Usina de Belo Monte, contra o Rafinha Bastos, na época iniciando seu caminho para o ostracismo e CONTRA A TARIFA DE R$3,00!!. (pensando aqui com meus botões: porque não fizeram a bagunça já naquele momento? Afinal, não é só pelos R$0,20…) Também estavam muitos jovens, alguns afoitos por irem à primeira manifestação (a primeira vez é excitante mesmo), nem sabiam o que era a PL 122, por exemplo. Foi a minha primeira manifestação e foi importante, apesar de pouco reverberar na mídia e mais importante, nos nossos corações e mentes.

Cá estou, dois anos depois, vindo a mais uma manifestação. Eu fui ao primeiro ato contra o aumento da tarifa e no quinto, ocorrido na segunda feira. Da minha parte eu posso dizer que foi impressionante. Nunca tinha presenciado tantas pessoas nas ruas, gritando, esbravejando, soltando a sua indignação para todo mundo ver. As manifestações, ao contrário da Marcha da Liberdade, tem apenas uma entidade (teoricamente) por trás da organização, o Movimento Passe Livre. Apesar de ser Passe Livre, eles querem apenas no momento a revogação do aumento da tarifa. Porém, o protesto do brasileiro de agora em relação ao de dois anos atrás tem suas semelhanças e discrepâncias. Discrepância em relação a ser mais apartidário. Se em 2011 era permitida a presença de legendas como PSTU, PSOL e PCO, hoje os militantes são rechaçados e obrigados a baixarem suas bandeiras e esconderem seus vínculos. Já a semelhança remonta aos pedidos. Se naquela época existiam reivindicações para todos os gostos, hoje também não foge a regra: há defesas por uma saúde melhor, educação de qualidade, transporte de qualidade, reforma agrária e política, revisão da carga tributária, melhorias no transporte público, PEC 37 etc etc etc.

 

Os perigos

Uma das características desses movimentos é a falta de um líder ou uma organização. Existe o Passe-Livre, dizem alguns. Sim, realmente, mas enquanto estou escrevendo esse texto o aumento já foi revogado. O foco do MPL como declarado em seu site e em entrevista no programa Roda-Viva desta segunda (17/06) é a revogação do aumento e posteriormente a tarifa zero. Sabemos que o país vive uma série de carências nos ramos já reivindicados pelos manifestantes nas fotos acima e numa possível – mas difícil – gratuidade no transporte público, a atuação do movimento na vanguarda seria sem sentido, a não ser por apoio em forma ideológica – o MPL tem afinidades com o socialismo.

Quando estava no quinto ato, acompanhado de um amigo. Paramos para mostrar o nosso cartaz de deboche (legalize já o vinagre) e proferíamos palavras no mesmo estilo quando uma mulher se intitulando jornalista e advogada perguntou o por que de estarmos ali. Expressei minha opinião, dizendo que fora o vinagre, eu era a favor de investimentos em educação para que assim, se formem cidadãos mais conscientes de seu papel na sociedade e sua atuação na política. Muita gente não percebe o seu papel político no dia a dia. Um exemplo básico: um adolescente já adota uma estratégia política ao combinar com os pais a hora de chegar em casa após uma festa e assim, colaborar para o bom ambiente do lar. Tal transgressão desse “acordo” estabeleceria uma má relação entre as partes. Meu amigo também expressou uma opinião parecida, porem, a nossa amiga recente expunha o seu temor, porque segundo ela “quem é a favor de tudo é contra tudo” e “não há uma liderança, um norte” e episódios parecidos já ocorreram na história com fins trágicos como o Nazismo e a Ditadura Militar de 1964 quando diante de uma população desnorteada, surgia um indivíduo prometendo a solução simultânea dos problemas. Compartilhei do temor dela e diante desse cenário, posso tirar algumas conclusões, mesmo ainda me situando na efervescência dos acontecimentos:

1° O tempo dirá se estamos caminhando para uma revolução ou se é apenas um grito de desespero no qual o simples ato de gritar já causa uma calmaria. Os “indignados” da Espanha mostraram sua insatisfação contra o governo socialista e mesmo assim não sobrou outra opção senão a de votar em um candidato da direita. A pesar dos protestos não terminarem até hoje, por enquanto a raiva acabou se tornando um fim em si mesmo. O brasileiro está revoltado contra tudo e contra todos, mas, graças a Deus, ainda vivemos em uma democracia. Ela está aí e mesmo com divergências, os partidos tem o direito de estar nos grupos de protestos, apenas temos que usar os partidos para benefício coletivo.

2° Se não quiserem os partidos que estão aí, uma via alternativa pode ser encontrada ecoando nas vozes do fascismo – uma pausa nas minhas reflexões -. Esse já é o terceiro dia que escrevo esse texto, mais pra acompanhar o desenrolar dos acontecimentos e o que antes eu louvava como sendo uma manifestação legítima, já enxergo um perigo rondando. Para efeito de ilustração, eu recomendo a todos assistirem o filme “A Onda” (2008), filme dirigido por Dennis Gansel onde o professor Rainer Wenger ministra um mini-curso de uma semana sobre autocracia. Seus alunos não acreditam que o totalitarismo possa voltar na Alemanha moderna, porém, o professor mostra de um jeito didático e cativante em cinco dias como é fácil manipular as massas. Os resultados como podem imaginar são desastrosos.

A não ser na Copa do Mundo, o Brasil nunca foi nacionalista; E um país que nunca teve essa característica, de repente evoca seu espirito ufanista com pessoas se enrolando em bandeiras brasileiras e rechaçando partidos políticos em prol de uma unidade (lembre-se do jargão “o gigante acordou”) significa que algumas pessoas ainda não aprenderam com os erros do passado.

Anthony Cardoso

Fontes:

Movimento Passe Livre: <http://saopaulo.mpl.org.br/>. Acesso em 20/06/13

Programa Roda Viva – Movimento Passe Livre: <http://www.youtube.com/watch?v=BYASRwXiQ4g> Acesso em 19/06/13

Wikipedia – A Onda: <http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Onda_(filme)> Acesso em 21/06/13

Sobre o protesto do aumento da tarifa

No último dia 6 (quinta-feira) eu fui na manifestação, organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento da tarifa dos transportes públicos (ônibus, metrô e trem). Em meio a tantas críticas que ouço, tanto pessoalmente quanto nas redes sociais de que “não vai dar em nada” e “é perda de tempo”, resolvi, tanto na qualidade de pesquisador e estudante quanto na de cidadão, fazer aquilo que Malinowski chamava seu trabalho de “observação participante”, afinal, eu também uso transporte público e me sinto lesado diante dos progressivos aumentos tarifários nos últimos anos.

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Apesar de ter sido um evento presenciado em sua maioria por jovens e estudantes, muitos transeuntes, de todas as idades davam-nos apoio, outros se juntavam a nós (esse é um problema que atinge não só os estudantes, mas os trabalhadores inclusive). Ou seja, o transporte público é algo essencial, sobretudo em uma metrópole como São Paulo e o aumento na tarifa, não condizendo com a qualidade prestada pelas administradoras, deflagrava a inconformidade estampada no rosto de cada um que estava marchando.

A reação de algumas pessoas, depredando e pichando ônibus, além de estabelecimentos, apesar de eu não concordar, entendo como compreensível, pois muitos dos que ali estavam (inclusive quem vos fala), advém da periferia, onde por diversas vezes enfrentamos ônibus superlotados, trânsito caótico para trabalhar, ou para o lazer (quando há tempo). Em muitos casos, a própria viagem é mais estressante e cansativa do que o próprio trabalho.

Por outro lado, mais uma vez vimos a força desmedida da polícia. As já conhecidas técnicas de “controle” e “manutenção da ordem” são postas como prioridade no lugar do diálogo. A pequena destruição que se seguiu no meu entendimento foi resultado exatamente dessa força aplicada. Da 9 de Julho até a Av. Paulista o que se seguiu foi uma confusão na qual tivemos que nos dispersar temporariamente.

Mesmo com todo esse aparato de coerção, o que presenciei foi uma vontade de mudança nos manifestantes; a indignação foi a tônica do protesto e por mais que o resultado não seja o esperado, de todo não será negativo. De alguma forma, a semente da revolta foi plantada; e ela está nas redes sociais, no noticiário, na boca das pessoas. Cabe a elas decidirem o que fazer: se apenas criticar e dizer que nunca dará em nada e nem uma opção viável sugerir ou apoiar a causa e dar a sua contribuição, seja ela qual for. Dia 11 terá um novo episódio.

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Anthony Cardoso