Análise do uso do Facebook

Alípio Paz é estudante (autodidata) de Psicologia

Créditos - R7
Créditos – R7

Poderíamos classificar a função do Facebook como um simples meio de comunicação, como é comumente classificado, porém, seu nível de interação e o poder que exerce sob o indivíduo, vão mais além.

Além da comunicação, que deixa o indivíduo livre para expressar-se, há a possibilidade de criar um “perfil”, que vai além de uma simples identificação, e o “mundo em si” do Facebook; que transmite ao indivíduo uma sensação de segurança e livre comportamento do senso comum, moralmente falando.

Portanto, o Facebook, automaticamente passa uma ideia de segurança e, ainda mais, uma ideia de liberdade de expressão; tornando-se assim, de fato, uma ferramenta de identificação pessoal de cada indivíduo, de modo psicológico onde age pela sugestibilidade, contágio e com a necessidade intrínseca de expressão de cada indivíduo; comportando desde a necessidade básica de comunicação até as necessidades íntimas, que revelam o indivíduo “em si” – seu caráter, melhor dizendo.

Analisando primeiramente a questão de criação do perfil já podemos perceber uma expressividade importante: o indivíduo não cria o perfil baseando-se no seu Eu, mas sim no seu Ideal do Eu; ou seja, o Eu que o indivíduo idealiza e projeta suas paixões (ideais), a instância psíquica que é a figura perfeita da sua preferência do agir, sua auto-imagem. Portanto, o indivíduo projeta seu Ideal do Eu no perfil do Facebook, como extraindo-o, possibilitando uma sensação de “administração do Eu ideal”.

Em segundo lugar, temos o comportamento do indivíduo com base no seu Eu Ideal, já exposto e em manifestação. Podemos notar um fenômeno interessante: o Eu Ideal extraído de modo a poder ser administrado, e o Eu comum agindo nos “bastidores”. Haverá, como no aparelho psíquico comum, o Eu Ideal comandando o agir do Eu, porém no uso diário do Facebook. Teremos, portanto, a capacidade de observar um confronto psíquico notório: o agir moral nas “postagens” do indivíduo, e seus ideais e desejos expostos como manifestações expressivas emocionais, ambos com base no Ideal do Eu; este comporta todas as identificações[1] do indivíduo, de modo a fazer o Eu expressá-las – pois este é dominado pelo Ideal do Eu.

Por fim, temos “o mundo do Facebook”. Com a ideia de segurança e liberdade de expressão, teremos o Eu agindo pela sugestibilidade, contágio e expressivamente, de modo moral ou emocional, com total liberdade; sendo obstruído somente por coações morais pelo seu próprio Ideal do Eu, ou seja, um confronto psíquico.

Conclusão: o indivíduo dificilmente irá conseguir abandonar o Facebook, uma vez que o Ideal do Eu que comanda o Eu, e não ao contrário. Além disso, estará sujeito às identificações do Ideal do Eu que alteram-se com frequência, e as mesmas serão manifestadas impulsivamente, de modo implícito ou direto, nas postagens do indivíduo; tornando-se possível observar suas paixões e inclinações, por sua própria sinceridade ao expor.

Lembrete: O Ideal do Eu é a exigência para o agir do indivíduo, o “Eu comum” se espelha nele.

 Fonte de Estudo: A Psicologia das Massas e a Análise do Eu – Sigmund Freud

[1] O processo de identificações citado é a mesma teoria de Sigmund Freud; o objeto ou imagem ideal toma o lugar do Eu Ideal, e passa a dominar o Eu.

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Música decadente brasileira?

Eduardo Nunomura via Farofafá – Carta Capital

A música brasileira está decadente – sans élégance. Difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido uma frase como essa. Refine o gênero, e as frases continuarão a fazer sentido para muitas pessoas. O funk, o sertanejo, o forró, o pop, todas as músicas consumidas pelas massas não prestam.

Um estudo acadêmico parte do forró eletrônico, ouvido à exaustão em todo o Nordeste, para investigar o que muitos chamam de “degeneração” da música popular. O professor Jean Henrique Costa, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, obteve o título de doutor em Ciências Sociais com a tese “Indústria Cultural e Forró Eletrônico no Rio Grande do Norte”, defendida em março de 2012 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O pesquisador defende que o gênero preferido entre os nordestinos faz parte de uma engendrada indústria cultural, por meio da qual são criadas e sustentadas formas de dominação na produção e na audição desse tipo de música.

Segundo ele, quando uma banda de forró eletrônico recorre a canções de temática fácil, na maioria das vezes ligadas à busca de uma felicidade igualmente fácil, ela está criando mecanismos para a formação de um sistema de concepção e circulação musical. Nele, nada é feito ou produzido por acaso. Tudo acaba virando racionalizado, padronizado ou massificado.

O ideal de uma vida festeira, regada de uísque, caminhonete 4×4 e raparigas (mulheres) é hoje um símbolo de status e prestígio para muitos dos ouvintes. Ninguém quer ficar de fora da onda de consumo. Numa das partes da pesquisa, Costa analisou o conteúdo das letras dos cinco primeiros álbuns da bandaGarota Safada e descobriu que 65% das músicas falam de amor, 36% de sexo e 26% de festas e bebedeiras.

“Parte expressiva das canções de maior sucesso veicula a ideia de que a verdadeira felicidade acontece ‘no meio da putaria’, ou seja, nos momentos de encontros com os amigos nas festas de forró”, escreveu Costa. “Não se produz determinada música acreditando plenamente que se está criando uma pérola de tempos idos, mas sim um produto para agradar em um mercado competitivo muito paradoxal: deve-se ser igual e diferente concomitantemente.” Ou seja, a competitividade do mercado induz à padronização dos hits.

“O que move o cotidiano é isso mesmo: sexo, amor, prazer, diversão. O forró e quase toda música popular sabem muito bem usar desse artifício para mover suas engrenagens”, explicou Costa. “Não é por acaso que as relações sexuais são tão exploradas pelas canções de maior apelo comercial a ponto de se tornarem coisificadas à maneira de clichês industriais.”

REFERENCIAL TEÓRICO

Outros gêneros musicais também recorrem a estratégias semelhantes. O forró eletrônico consegue se diferenciar dos demais ao dar uma roupagem de “nordestinidade”, criando a identificação direta com o seu público. Mas o objetivo final de todos é proporcionar diversão. O problema, segundo Costa, é que “se vende muito pão a quem tem fome em demasia”.

Costa baseou sua pesquisa no referencial teórico de Theodor W. Adorno, um dos ideólogos da Escola de Frankfurt. O pesquisador procurou atualizar o conceito de indústria cultural a partir da constatação de que as músicas do forró eletrônico são oferecidas como parte de um sistema (o assédio sistemático de tudo para todos) e sua produção obedece a critérios com objetivos de controle sobre os efeitos do receptor (capacidade de prescrição dos desejos).

O pesquisador recorreu ainda a autores como Richard Hoggart, Raymond Williams e E.P. Thompson para abordar o gênero musical a partir da leitura dos estudos culturais (a complexa rede das relações sociais e a importância da comunicação na produção da cultura), que dialogam com outro conceito anterior, o de hegemonia, de Antonio GramsciPierre Bourdieu também serve de referencial teórico.

Ao amarrar essas teorias, o pesquisador argumenta que o público consumidor de músicas acaba fazendo parte de esquemas de consumo cultural potentes e difíceis de serem contestados. Neles, até o desejo acaba sendo imposto. Em entrevista a FAROFAFÁ, Costa exemplifica esse fato com a atual “cobrança” pelo consumo de álcool, onde a sociabilidade gira em torno de litros de bebidas.

“O que se bebe, quanto se bebe e com quem se bebe diz muito acerca do indivíduo. O forró não é responsável por isso, mas reforça.” Para o pesquisador, o consumo de bebidas se relaciona com a virilidade masculina, que, por sua vez, se vincula à reprodução do capital.

“Não reconheço grande valor estético (no forró eletrônico), mas considero um estilo musical que consegue, em ocasiões específicas, cumprir o papel de entreter”, afirmou. O pesquisador ouve todo tipo de música (samba-canção, samba-reggae, rock nacional dos anos 1980 e 1990, bolero, tango, entre outros), mas sua predileção é por nomes como Nelson Gonçalves e Altemar Dutra.

Para cobrir essa lacuna sobre o gênero que iria pesquisar, Costa entrevistou nomes como Cavaleiros do Forró, Calcinha de Menina, Balança Bebê eForró Bagaço. O seu objetivo foi esquadrinhar desde uma das maiores bandas de forró eletrônico do Rio Grande do Norte até uma banda do interior que mal consegue fazer quatro apresentações por mês e cobra em torno de R$ 500 por show.

Banda Aviões do Forró - Foto Divulgação

Entre os extremos de quem ganha muito e quem mal consegue sobreviver com o forró, o professor constatou que o sucesso é um elemento em comum, e algo difícil de ser obtido. Depende de substanciais investimentos financeiros e também do acaso – ter um hit pelas redes sociais ajuda. É por isso que Costa afirma que Aviões do Forró e um forrozeiro tecladista independente estão em lados completamente opostos, mas ainda têm algo basilar em comum: a indústria cultural.

É dentro desse contexto de consumo de massa de hits que nascem e morrem, diariamente, pelas rádios e carrinhos de CDs piratas, que prevalece o forrozão estilo “risca a faca” e “lapada na rachada”, para uma população semiformada (conceito adorniano de Halbbildung), explica Costa. Sobra pouco ou nenhum espaço para nomes consagrados do gênero.

Luiz Gonzaga, por exemplo, embora seja o símbolo maior do gênero e tratado com respeito pela maioria dos nordestinos, acaba sucumbindo a essa indústria cultural. “A competição é desigualmente assimétrica para o grande Lua. O assum preto gonzagueano, nesse sentido, bateu asas e voou.”

Costa diz não ser um pessimista ou só um crítico ferrenho do forró eletrônico. Tampouco que tem pouca esperança de que a música brasileira seja apenas uma eterna engrenagem da indústria cultural. Ao contrário, é dentro dela própria que ele vê saídas para o futuro da produção nacional. “Se vejo alguma possibilidade de mudança pode estar justamente nesses estúdios caseiros de gravação de CDs, nas bandas de garagem, no funk das periferias, no tecnobrega paraense. Não afirmo que a via é essa, mas que é um devir, uma possibilidade que pode não ir para além do sistema, mas minar algumas de suas bases”, concluiu.

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Leitura de hoje: 1984

Anthony Cardoso

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”

A Oceania é um país mergulhado na filosofia do “IngSoc” em novilíngua (a língua oficial do país) ou “socialismo inglês”, aqui sendo tal nomenclatura política mais uma vez desvirtuada de seu significado, pois na Oceania, a liberdade é motivo de escravidão; a intelectualidade e, menos ainda, o questionamento é podado em detrimento da manutenção da ignorância, mais segura e psiquicamente equilibrada; além disso, a guerra é um motivo para manutenção da paz. Uma terra onde seus habitantes são constantemente levados a se orgulhar de estarem nela, pois, ao contrário do que as contradições acima levam a crer, a mortalidade infantil ano após ano vem decrescendo; a economia alcança superávitis além do esperado; não há fome nem miséria; segurança e saúde são exemplos para o resto do mundo, tudo isso graças a política de vanguarda do partido, comandado pela figura onipresente do Grande Irmão (Big Brother), “um rosto de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis” (p. 11). Ninguém nunca o viu, mas isso não importa, ele está de olho em você e te protege.

Tal cenário serve como pano de fundo para a aventura de Winston Smith em busca da verdade, afinal, seu apartamento “cheirando a repolho cozido e a velhos capachos de pano traçado” (p. 11), suas roupas velhas, sua saúde, seus vizinhos, seu bairro e, sobretudo, sua vida, demonstram o contrário. No entanto, essa caminhada pode levar a trajetos sem volta.

George Orwell (1903-1950) era membro do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) onde lutou na revolução espanhola, contra a ditadura de Francisco Franco nos anos 30. Alguns dizem que dotado da teoria da práxis marxista, Orwell talvez teria publicado 1984 com base nas suas constatações ao culto à personalidade de Stálin dos soviéticos, além de um possível desvirtuamento da retórica de Marx por parte do líder comunista ao não ultrapassar a linha da ditadura do proletariado e eliminar qualquer oposição, trazendo o poder para si. Tal fato se confirmaria 8 anos depois da publicação de 1984 no famoso discurso de Kruschev, denunciando os crimes contra a humanidade que Stálin cometeu. Ou seja, o livro seria uma espécie de desilusão sobre o modo de produção adotado pela URSS, confirmado pelo seu caráter altamente pessimista da realidade e do futuro.

No entanto, ligar a figura do Grande Irmão à Stálin seria puro reducionismo. O ambiente totalitário aplicado pelo partido não fica preso as paredes da Oceania, nem da Lestásia ou da Eurásia, muito menos na União Soviética. O clima da opressão também pode se referir a nós mesmos.

Fonte: ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.