A esquizofrenia do espaço público e privado como espetáculo.

Lendo Richard Sennett e Guy Debord, percebo que sofremos de uma anomalia, que a princípio era pra ser uma solução. Diante do cenário urbano, somos atores de um espetáculo que nós mesmos criamos. Sennett faz uma análise histórica, que tem suas raízes desde o Império Romano. Mas o que pretendo discutir aqui é apenas o presente, o agora. Esse agora começou há pouco mais de 200 anos atrás, com a Revolução Industrial. O homem, inserido em um novo contexto, se via diante de um espaço público totalmente alterado. “Libertado” pela razão da Revolução Francesa, o Homem não mais adotava a prática religiosa como preceito único de vida, dogma da Idade Média. Éramos questionadores natos, prontos a discutir algum assunto que vinha a interferir a nossa vida social, vindo do governo, principalmente. Mas o capitalismo desenfreado, pôs uma nova lógica com a racionalização da técnica e a inserção da mentalidade consumidora, para uma atribuição de status. Hoje, a população mundial quer comprar mais, consumir mais, e isso se faz diante de um espaço público, pensando em um local como uma loja de conveniência, ou, porque não, um shopping.

Mas por que não percebemos esse espaço como público? Parece não haver dificuldade em descobrir. Porque o objetivo pelo qual procuramos esses espaços está unicamente para preencher nossos quesitos existenciais, privados. Como uma lógica “racional”, procuramos solucionar primeiro os nossos anseios, algo que a Psicologia Moderna não conseguiu realizar, com a descoberta do inconsciente, para depois reconhecer aquele espaço como público. A compulsão pelo consumismo como forma de aceitação, criou uma confusão entre a auto-aceitação do eu e a sua repercussão na sociedade. A sociedade coloca formas esteotipadas como símbolos positivos e o ser humano não tem outra coisa senão correr atrás desses símbolos. A verdade estipulada é a que a mídia propaga, voltada para interesses ideológicos e nisso, não procuramos contestar com a nossa “razão”

O que Richard Sennett e Debord diziam já era o que eu tinha visto, mas de uma outra perspectiva, voltada para um âmbito mais psicologico e marxista, através dos escritos de Erich Fromm, no seu livro “Ter ou Ser”.

Um bom ponto de partida para refletir é: onde foi parar a nossa razão?

Anthony Cardoso

Bibliografia recomendada:

DEBORD, G. A Sociedade do Espetaculo: Comentarios Sobre a Sociedade do Espetaculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002

FROMM, Erich. Do ter ao ser. São Paulo: Manole, 1992.

SENNETT, R. O Declinio do Homem Publico: As Tiranias da Intimidade. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2002.