O significado de Raízes do Brasil, por Antonio Candido

Publicado originariamente em Café Com Sociologia.
Reproduzimos a seguir uma resenha elaborada por Antonio Candido e publicada na em 1995 como prefácio do livro de Sérgio Buarque, Raízes do Brasil (26ª ed.), publicado pela Companhia das Letras.

O significado de Raízes do Brasil, por Antônio Candido

Em meados do século XX, três livros levaram uma geração a refletir e se interessar pelo Brasil, obras que pareciam exprimir a mentalidade ligada ao “sopro” de radicalismo intelectual e análise social impulsionado após aRevolução de 1930.
A anticonvencional composição extremamente livre e franca de Casa Grande e Senzala, como no tratamento dado à vida sexual do patriarcalismo, e a importância decisiva atribuída ao escravo na formação do modo de ser do brasileiro causou forte impacto na época. Informações e dados que ensejavam noções e pontos de vistas inovadores no Brasil de então. Entretanto, a preocupação do autor com problemas de fundo biológico (raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilíbrio ecológico alimentação) dialogava com o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Oliveira Vianna.
Três anos depois aparecia Raízes do Brasil. Livro curto, de poucas citações, mas que, entre outras influências, fornecia indicações importantes para compreenderem o sentido de certas posições políticas daquele momento, em que se se buscava soluções novas, fosse à direita, no integralismo, fosse à esquerda, no socialismo e no comunismo.
Seis anos depois do livro de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. lançava Formação do Brasil Contemporâneo. Interpretação do passado em função das realidades básicas da produção, da distribuição e do consumo. Nele, o autor afasta-se do ensaísmo (marcante nos outros dois livros), prioriza dados e argumentos em detrimento de categorias qualitativas como “feudalismo” ou “família patriarcal”. O materialismo histórico aparecia como forma de captação e ordenação do real, desligado do compromisso partidário ou desígnio prático imediatista.
No pensamento latino-americano, a reflexão sobre a realidade social foi marcada pelo senso dos contrastes e mesmo dos contrários – apresentados como condições antagônicas em função das quais se ordena a história dos homens e das instituições. “Civilização e barbárie” formam o arcabouço do Facundo e de Os Sertões. O pensamento do autor não foge a esse modelo, se constitui pela abordagem dialética de conceitos polares, não como se eles fossem mutuamente excludentes. A visão de um determinado aspecto da realidade histórica é obtida pelo enfoque simultâneo dos dois; um suscita o outro. Sérgio Buarque aproveita o critério tipológico deMax Weber ao focar pares de tipos ao invés de pluralidades de tipos, para trata-los de maneira dinâmica e ressaltar a interação dentro do processo histórico. Com este instrumento, o autor analisa os fundamentos do nosso destino histórico e suas diversas manifestações: trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, burocracia e caudilhismo, norma impessoal e impulso afetivo – são pares destacados na estrutura social e política pelos quais é possível analisar e compreender o Brasil e os brasileiros.
Em “Fronteiras da Europa”, o primeiro capítulo, Espanha e Portugal são o ponto de partida para tratar, por exemplo, das diversas formas de colonização da América, e de pontos que serão desenvolvidos ao longo da obra, como o tradicional personalismo e a consequente frouxidão das instituições e baixa coesão social.
A ausência do princípio de hierarquia e a exaltação do prestígio pessoal que implica em privilégio seria outra característica ibérica de grande impacto na colônia. Isso fez com que a nobreza permanecesse aberta ao mérito e ao êxito, o que favoreceu a mania de fidalguia, ou seja, a repulsa ao trabalho regular e às atividades utilitárias, de que decorre a falta de organização. O ibérico não renuncia às veleidades em benefício do grupo ou dos princípios. Aos preteridos de tal privilégio, cabe a obediência cega: “A vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são-lhes igualmente peculiares [aos ibéricos]” (p. 39). A escravidão matou de uma vez a necessidade no homem livre de cooperar e organizar-se.
No capítulo seguinte, “Trabalho & aventura”, está a tipologia básica do livro, a distinção entre o trabalhador e o aventureiro e suas éticas opostas: a que busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere descobrir a consolidar; e a que estima a segurança, o esforço e a compensação a longo prazo. O continente americano foi colonizado por homens mais próximos do primeiro tipo, o que foi positivo para o Brasil, pois o português manifestou uma adaptabilidade excepcional, ainda que “com desleixo e certo abandono”. Dada a diversidade reinante, o espírito de aventura foi o “elemento orquestrador por excelência” (p. 46). Assim, a lavoura de cana foi mais um aproveitamento de espaço do que ação de uma civilização agrícola.
“Herança rural” é o próximo capítulo que analisa o impacto da vida rural na sociedade brasileira, e suas diferenças em relação à mentalidade urbana.
A agricultura acompanhou a escravidão em seu declínio, promovido por políticos e intelectuais de família fazendeira. O capital ocioso migrou para as cidades, promovendo progresso social e investimento técnico. Isso não refletiu em um desenvolvimento coeso em função da “radical incompatibilidade entre as formas de vida copiadas de ações socialmente mais avançadas, de um lado e o patriarcalismo e personalismo fixados entre nós por uma tradição de origens seculares” (p. 79).
“O semeador e o ladrilhador” é o quarto capítulo. A cidade é entendida como instrumento de dominação já a partir de sua concepção. Ladrilhador refere-se ao espanhol, que vê a cidade como empresa da razão, como as que fundou aqui, planejadas rigorosamente e contrárias à ordem natural; como se correspondessem a um prolongamento da metrópole. Os portugueses, agarrados ao litoral, foram “semeadores” de uma cidade irregular, cuja “silhueta se enlaça na linha da paisagem” (p. 110). O aparente desleixo corresponde a uma prudência condicionada por um realismo não imaginativo ou regido por regra, fruto de um desejo pela fortuna e ascensão social rápida que coíbe a formação de uma mentalidade específica, como em outros países.
O capítulo “Homem cordial” apresenta características do brasileiro resultantes do que foi tratado anteriormente. As “relações de simpatia” reinam, ou seja, as relações impessoais, características do Estado, são suscetíveis de serem levadas para o padrão pessoal e afetivo. Isso impede a formação de uma sociedade urbana moderna. O “homem cordial” pressupõe, de fato, o predomínio do comportamento de aparência afetiva, não necessariamente sincera.
O capítulo 6, “Novos tempos”, analisa o choque nos velhos padrões coloniais causado pela vinda da família real.
A sociabilidade é aparente, uma vez que não se impõe ao indivíduo, tampouco contribui para a estruturação de uma ordem coletiva. Encontra séria barreira na individualidade que emerge na relutância perante a lei que o contraria. A isso também está ligada a satisfação no saber aparente, cujo fim está em si mesmo e, por isso, deixa de ser aplicado em um objetivo concreto. A mudança de atividade torna-se constante, por buscar a satisfação pessoal. As profissões liberais se aproximam dessas características, tanto por permitirem a manifestação individual quanto por prestarem-se ao saber de fachada. É a opção dos membros da classe dominante em função da crise das velhas instituições agrárias, por prescindirem do trabalho direto sobre as coisas, que lembra a condição servil.
A força adquirida pelo positivismo também pode estar relacionada a esse contexto. Uma confiança consistente às ideias, mesmo quando inaplicáveis, ajuda a entender o liberalismo que, no Brasil, se constituía como uma oposição à autoridade incômoda. Da mesma forma, tratou-se de importar a democracia e acomodá-la aos privilégios aristocráticos, sendo que, em outros países, elas eram conflitantes.
O capítulo 7, “Nossa revolução”, mais compacto, sugere que a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas na estrutura social, que surtirão efeitos nas instituições e ideias políticas. A passagem do rural para o urbano representa a passagem da tradição ibérica, baseada em instituições agrárias, para um modo vida próprio, americano. Está ligada a esse momento a passagem da exploração da cana de açúcar, como produto principal de exportação, para o café. Os modelos políticos do passado se adaptam aos novos tempos. Isso é possível através da combinação não harmoniosa entre leis formalmente perfeitas e uma organização administrativa ideal com o mais extremo personalismo. A Abolição tornou inviável a velha sociedade agrária, o que foi o início da “nossa revolução”. Trata-se de superar o passado, adotar o ritmo urbano e propiciar, ao mesmo tempo, a ruptura do predomínio das oligarquias e a emergência das camadas oprimidas da população, únicas com capacidade para revitalizar a sociedade, tornando viável uma vida democrática no Brasil. Contra essa tendência, poderia surgir uma resistência saudosa do antigo modelo, que, de acordo com a intensidade de sua força, poderia se traduzir em formas que comprometam as esperanças de qualquer transformação profunda. O caudilhismo, expressão maior do personalismo que intervém no processo democrático, é um exemplo dessa resistência. A repulsa pela hierarquia e a relativa ausência dos preconceitos de raça e cor são elementos que permitem a convergência rumo à democracia.
Raízes do Brasil escapa ao dogmatismo e abre o campo para a meditação dialética. O autor baseou sua análise na psicologia e na história social, com um senso agudo de estruturas, vinculando dessa forma o conhecimento do passado aos problemas atuais. Propôs que a liquidação das raízes era um imperativo para o desenvolvimento histórico. Perder as características ibéricas era o caminho para a evolução moderna brasileira, cuja trajetória não incluiu um louvor ao autoritarismo, como solução para sua organização. Sérgio Buarque afirmou, em 1936, estar na fase aguda da decomposição da sociedade tradicional. Em 1937 veio o golpe de Estado e o advento da fórmula rígida e conciliatória, que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela industrialização. Era o primeiro passo para a modernização.

Bibliografia:

CANDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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O que é Feminismo

Marcia Tiburi

Publicado originariamente em Revista Cult

Uma conversa sobre o feminismo enquanto tal, uma conversa que procure lançar luz sobre sua definição, me parece necessária diante da multiplicidade de vozes feministas, bem como do desentendimento bastante visível na esfera pública, quanto ao que é feminismo. Pairam preconceitos misóginos sobre o próprio termo e fica prejudicada, neste sentido, a proposta geral do feminismo. Daí a necessidade de uma conversa conceitual que possa abrir nossas mentes e percepções para a questão. Abaixo lanço algumas ideias sobre as quais pretendo escrever nos próximos tempos.

O que o feminismo não é

Na intenção de definir o feminismo em seu sentido mais conceitual, podemos começar tendo em vista o que o feminismo não é e, assim, limpar o terreno dos vícios que tem prejudicado não apenas a compreensão mais ampla, mas a própria ação feminista, bem como a ampliação do que podemos chamar de projeto feminista na cultura como um todo.

Tendo isso em vista, podemos começar por afirmar que o feminismo não é uma ideologia no sentido positivo – e a-crítico – de conjunto de ideias, muito menos é uma ideologia no sentido negativo de “falsa consciência” que serviria para acobertar a disputa de poder entre homens e mulheres, quando buscar-se-ia uma supremacia de gênero – no caso o feminino contra o masculino – e uma mera inversão de jogo no sistema da dominação masculina. O feminismo não é uma inversão ideológica. Não é uma inversão do poder. Uma inversão pressuporia sua manutenção. Em outras palavras, o feminismo não é uma manutenção do poder patriarcal com roupagem nova ou invertida que se alcança por uma ideologia de puro oposicionismo.

Se não é ideologia, o feminismo também não é uma forma de ver o mundo. Ele não é uma cosmovisão que se cria de modo estanque em relação à sociedade e que propõe mudanças idiossincráticas em abstrato. O feminismo não pode ser confundido com algo que surge abstratamente como uma pura estética ou metafísica em que a atuação das mulheres – sujeitos do feminismo clássico – seria suficiente para mudar o cenário ético e político da dominação masculina.
O feminismo é o contrário disso tudo. Vejamos o que ele pode ser.

Dialética negativa

Podemos dizer que o feminismo é uma teoria prática que surge das condições concretas das relações humanas, enquanto essas relações são baseadas em relações de linguagem que são relações de poder. Um poder constituído com base no que se pode chamar de paradigma masculinista. O feminismo é uma crítica concreta da sociedade que tem base em uma ação teórica inicial e que é constitutiva da prática enquanto crítica da dominação masculina. Feminista é alguém que pensa criticamente, enquanto essa crítica se dá na direção de uma releitura do mundo que tira os véus desse mesmo mundo organizado pela dominação masculina. Mas a dominação masculina não é apenas atitude dos homens, embora seja fácil para os homens, sujeitos concretos que autorizam a si mesmos como agentes da dominação masculina. A dominação masculina é estrutura de poder ao nível dos dispositivos do poder. Engana-se quem pensa que o “machismo”, nome vulgar da dominação masculina, será desmanchado apenas por meio de uma dominação feminina que seria, aliás, um erro capaz de destruir o feminismo.

O feminismo é, por isso, uma proposição dialética, não uma nova dominação, em que a alteridade preservada e defendida – alteridade que evita toda dominação – faz parte do processo de constituição da teoria e da prática.

Ao mesmo tempo, o feminismo é um projeto filosófico que visa mudar o mundo. Ele relê a história a contrapelo, analisa a história pelo espelho retrovisor buscando a tradição das mulheres, esquecidas e oprimidas, como uma história que tem algo a nos ensinar. Neste sentido, se pode dizer que o feminismo é a filosofia que tem como base um impulso ético e um efeito político.

Quando dizemos que o feminismo é uma teoria prática, definimos seu caráter concreto, mas é preciso saber que a especificidade dessa teoria prática é reflexiva, no sentido de crítica e autocrítica e, portanto, filosófica. Por ser uma teoria prática que parte de uma reflexão crítica o feminismo constitui uma ação crítica.

Por ser necessariamente reflexivo, o feminismo é uma filosofia em seu sentido específico de crítica da linguagem e da crítica ontológica e, a partir daí, da crítica social. O feminismo é, por definição, crítica da linguagem enquanto discurso do preconceito masculinista, crítica das teorias da linguagem baseadas na dominação masculina, crítica da filosofia clássica e de todas as teorias científicas e religiosas que sustentaram a dominação masculina. O feminismo é crítica do discurso masculinista, de suas práticas, de seu sistema. Mas também é autocrítica, inclusive no sentido de evitar imitar o que ele mesmo nega. O feminismo é, neste sentido, uma dialética negativa.

Francesca Woodman

Pluralidade

Feminismo é, sob qualquer aspecto, um termo que se deve usar tendo em vista seu caráter plural. A pluralidade do feminismo não se refere apenas aos múltiplos coletivos, grupos e movimentos que se definem como feministas ou aos diversos modos pelos quais pessoas se definem como feministas. No caso do feminismo, não se trata de falar da pluralidade das tendências apenas, mas de perceber que a pluralidade é própria ao conceito de feminismo, enquanto a pluralidade implica a singularidade que se relaciona com o seu outro.

Em que sentido a pluralidade é inerente ao feminismo?

Poderíamos sugerir o feminismo como universalismo, mas neste caso, teríamos que falar em algo como um universalismo verdadeiro. Pois o universalismo é uma posição na qual todas as singularidades precisam ser assumidas, mas não na interioridade de um universal em sentido masculinista, patriarcal, capitalista, branco, europeu, de classes sociais e culturais favorecidas. O universalismo pode ser precário diante do feminismo se ele não levar em conta o caráter rebelde, sublevado e inadequado do feminismo quando se trata de pensa-lo como aspecto do sistema patriarcal/capitalista. O feminismo é um projeto que não se transforma na totalização que ele mesmo combate. Todo feminismo pode ser democracia, mas, certamente, seu impulso é anárquico no sentido de ser contrário ao poder. O que pode um poder que não combina com o poder?

Eis o espírito do feminismo.

Por isso, podemos dizer que só há sentido em falar em feminismo se transbordamos o seu sentido. Só há sentido em falar em feminismo se nos deixarmos desmanchar nas margens, se expandimos as margens do feminismo na direção de uma eliminação do sistema baseado na identidade. Refiro-me ao sistema patriarcal/capitalista que precisa ser modificado em atos teórico-práticos.

Marginalizar o feminismo: tirá-lo do clima puramente acadêmico, do clima de qualquer pureza, branca, de classe média ou alta, de corpos autorizados, de crenças em identidades estanques e propostas como naturais pelo sistema da razão que administra a não-identidade evitando que ela floresça.

Manchar o feminismo, sujar o feminismo, intensificando a sua capacidade de transformação social e política na contramão das opressões de sexualidade, gênero, raça, crença e classe social.

O que o feminismo pode é transformar a sociedade em bases abertas e ao mesmo tempo revolucionárias na direção de um mundo de direitos assegurados, de respeito à diferença e à singularidade.
Esse poder do feminismo é o próprio feminismo.

Beijo proibido

blog da Revista Espaço Acadêmico

MARCELO GRUMAN*

“Que legal!”, exclamou minha esposa lá da sala. “Marcelo, vem ver o comercial d’O Boticário pro Dia dos Namorados!”. Na peça publicitária de meio minuto, aparecem quatro pessoas, dois homens e duas mulheres, presenteando seus respectivos namorados e namoradas. O inusitado, para muitos telespectadores, acontece quando a porta da casa de cada um dos presenteados se abre, quando o segredo é revelado: dois dos casais são formados por indivíduos do mesmo sexo, um feminino, outro masculino. No dia seguinte, leio que a campanha de Dia dos Namorados do Boticário virou alvo de protestos e ameaça de boicote à marca nas redes sociais e até de denúncia ao Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária – Conar, que abriu um processo para julgar a propaganda após receber mais de vinte reclamações de consumidores que consideraram a peça “desrespeitosa à sociedade e à família”. Internautas registraram protestos no Reclame Aqui

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Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro

Conversando sobre um amigo – digamos apenas que ele é da ˜área de humanas˜ – que se encontra em apuros financeiros, meu marido perguntou:

– Mas afinal, o que ele faz?

Minha resposta foi imediata, sem censura e sem rodeios:

– Ah, você sabe como é, faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

E foi aí que me ocorreu.

Quase todos os meus amigos podem ser definidos exatamente assim: gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

Tenho pouquíssimos amigos que construíram uma sólida e tediosa carreira de sucesso em alguma respeitável multinacional.

Meus amigos, quase todos, fazem, fizeram ou farão trampos de:

design gráfico, tradução, revisão, revisão ABNT, programação, decoração, consultoria de moda, webdesign, transcrição, preparação de originais, editoração, legendagem, publicidade, jornalismo, aula de inglês, de francês, aula em faculdade, em cursinho, mestrado, doutorado, com bolsa, sem bolsa, consultoria/assessoria/gerenciamento de redes sociais, assessoria de imprensa, produção de eventos, crítica de arte, de música, de cinema, cenografia, curadoria, agitação cultural, mapa astral.

Escritores, roteiristas, resenhistas, romancistas, colunistas, cronistas e poetas. Professores, palestrantes, repórteres, artistas e fotógrafos. Produtores, atores e diagramadores. Bailarinos, músicos e psicanalistas. Pós-graduandos em ciências sociais, antropologia e história. Estudantes de graduação em filosofia. Ou, para resumir com termos que nossos tiozões reaças entendem bem: “tudo puta, bicha e maconheiro” ❤

Um monte de coisas. Que não dão dinheiro. Nenhuma delas. Nem se juntar tudo.

E eu, que sempre me senti tão sem turma, tão sempre trabalhando quietinha e sozinha em casa, tão avessa ao mundo real repleto de gente com uma CLT na mão e o firme propósito de ganhar dinheiro na cabeça. Eu, que sempre me senti oprimida por aquela propaganda no metrô que mostra um jovem sorridente “decolando na carreira” depois de concluir seu MBA em administração. Eu, finalmente, sorri e me dei conta:

Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro – esse é o meu clube, essa é a minha vida.

Somos bichinhos estranhos, nós que somos gente de humanas e fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro. Pulamos de frila em frila sempre achando que o de agora vai durar e que o contratante vai pagar em dia. Ignoramos solenemente o fato de que o frila de 2009 pagava exatamente o mesmo que o frila de 2013. Acima de tudo, baseamos toda a nossa vida na convicção de que o próximo frila será melhor, mais interessante e mais bem pago que o atual.

Escrevemos, traduzimos, cantamos e sapateamos. Nosso talentos são múltiplos. Nossa versatilidade é incomparável. Nossa paciência é infinita. Nosso único defeito: não somos uma categoria unida. Se unidos fôssemos, estaríamos nos anúncios do metrô agora mesmo: “venha ser gente de humanas e fazer um monte de coisa que não dá dinheiro você também!” Mas não. Em vez disso, estamos aqui, cada qual surtando com seu próprio prazo e seu próprio cliente inadimplente – ou, no meu caso, tentando escrever mais um texto acadêmico e, em vez disso, escrevendo besteira no blog.

Tenho uma teoria de que nós, gente de humanas que fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro, só teremos nosso valor devidamente reconhecido pela sociedade o dia em que o governo quiser subsidiar a vinda de tradutores, fotógrafos, poetas e psicanalistas cubanos. Aí sim seremos importantes – aí sim seremos potência.

Até lá, continuaremos fazendo um monte de coisa – e fingindo para a nossa família e nossos amigos com carteira assinada que ganhamos algum dinheiro.

Camila via Recordar, repetir e elaborar

Manifestações: o passado e o porvir

Estamos no calor do momento. No início do mês quem falasse que haveria manifestações pelo Brasil inteiro seria taxado de louco, eu mesmo faria coro a tal opinião. De fato, estamos vivendo dias novos, onde pessoas como eu, que tenho 25 anos e nunca vivenciaram uma experiência dessas, estão sentindo como viver a política, como ser um cidadão participante e não apenas no evento das eleições, no qual o brasileiro ainda sente como um castigo o fato de ser obrigado a votar em alguém. Há quem diga que estamos vivendo a “primavera brasileira” ou até nas palavras do prof° Henrique Carneiro, uma “revolução”. Eu lhes pergunto (já respondendo): estamos vivendo? Não, não estamos. E digo o por que.

Para lhes responder, eu remonto a exatos dois anos, quando houve a 2ª Marcha da Liberdade, um evento em resposta a repressão policial na Marcha da Maconha, realizada dias antes. Eu fui ao evento e postei em meu blog (link aqui) dando minhas sinceras impressões. Na época, era a Marcha da Liberdade, mas uma liberdade multiuso. Era liberdade para ser gay; liberdade para o aborto; para a liberdade religiosa; liberdade pra fumar uma maconha; liberdade para protestar sem levar balas de borracha e gás lacrimogêneo. Também tinha os contras, afinal, liberdade demais é baderna já dizia a Folha, Estadão e demais veículos da mídia de direita: havia o protesto contra a homofobia, contra a construção da Usina de Belo Monte, contra o Rafinha Bastos, na época iniciando seu caminho para o ostracismo e CONTRA A TARIFA DE R$3,00!!. (pensando aqui com meus botões: porque não fizeram a bagunça já naquele momento? Afinal, não é só pelos R$0,20…) Também estavam muitos jovens, alguns afoitos por irem à primeira manifestação (a primeira vez é excitante mesmo), nem sabiam o que era a PL 122, por exemplo. Foi a minha primeira manifestação e foi importante, apesar de pouco reverberar na mídia e mais importante, nos nossos corações e mentes.

Cá estou, dois anos depois, vindo a mais uma manifestação. Eu fui ao primeiro ato contra o aumento da tarifa e no quinto, ocorrido na segunda feira. Da minha parte eu posso dizer que foi impressionante. Nunca tinha presenciado tantas pessoas nas ruas, gritando, esbravejando, soltando a sua indignação para todo mundo ver. As manifestações, ao contrário da Marcha da Liberdade, tem apenas uma entidade (teoricamente) por trás da organização, o Movimento Passe Livre. Apesar de ser Passe Livre, eles querem apenas no momento a revogação do aumento da tarifa. Porém, o protesto do brasileiro de agora em relação ao de dois anos atrás tem suas semelhanças e discrepâncias. Discrepância em relação a ser mais apartidário. Se em 2011 era permitida a presença de legendas como PSTU, PSOL e PCO, hoje os militantes são rechaçados e obrigados a baixarem suas bandeiras e esconderem seus vínculos. Já a semelhança remonta aos pedidos. Se naquela época existiam reivindicações para todos os gostos, hoje também não foge a regra: há defesas por uma saúde melhor, educação de qualidade, transporte de qualidade, reforma agrária e política, revisão da carga tributária, melhorias no transporte público, PEC 37 etc etc etc.

 

Os perigos

Uma das características desses movimentos é a falta de um líder ou uma organização. Existe o Passe-Livre, dizem alguns. Sim, realmente, mas enquanto estou escrevendo esse texto o aumento já foi revogado. O foco do MPL como declarado em seu site e em entrevista no programa Roda-Viva desta segunda (17/06) é a revogação do aumento e posteriormente a tarifa zero. Sabemos que o país vive uma série de carências nos ramos já reivindicados pelos manifestantes nas fotos acima e numa possível – mas difícil – gratuidade no transporte público, a atuação do movimento na vanguarda seria sem sentido, a não ser por apoio em forma ideológica – o MPL tem afinidades com o socialismo.

Quando estava no quinto ato, acompanhado de um amigo. Paramos para mostrar o nosso cartaz de deboche (legalize já o vinagre) e proferíamos palavras no mesmo estilo quando uma mulher se intitulando jornalista e advogada perguntou o por que de estarmos ali. Expressei minha opinião, dizendo que fora o vinagre, eu era a favor de investimentos em educação para que assim, se formem cidadãos mais conscientes de seu papel na sociedade e sua atuação na política. Muita gente não percebe o seu papel político no dia a dia. Um exemplo básico: um adolescente já adota uma estratégia política ao combinar com os pais a hora de chegar em casa após uma festa e assim, colaborar para o bom ambiente do lar. Tal transgressão desse “acordo” estabeleceria uma má relação entre as partes. Meu amigo também expressou uma opinião parecida, porem, a nossa amiga recente expunha o seu temor, porque segundo ela “quem é a favor de tudo é contra tudo” e “não há uma liderança, um norte” e episódios parecidos já ocorreram na história com fins trágicos como o Nazismo e a Ditadura Militar de 1964 quando diante de uma população desnorteada, surgia um indivíduo prometendo a solução simultânea dos problemas. Compartilhei do temor dela e diante desse cenário, posso tirar algumas conclusões, mesmo ainda me situando na efervescência dos acontecimentos:

1° O tempo dirá se estamos caminhando para uma revolução ou se é apenas um grito de desespero no qual o simples ato de gritar já causa uma calmaria. Os “indignados” da Espanha mostraram sua insatisfação contra o governo socialista e mesmo assim não sobrou outra opção senão a de votar em um candidato da direita. A pesar dos protestos não terminarem até hoje, por enquanto a raiva acabou se tornando um fim em si mesmo. O brasileiro está revoltado contra tudo e contra todos, mas, graças a Deus, ainda vivemos em uma democracia. Ela está aí e mesmo com divergências, os partidos tem o direito de estar nos grupos de protestos, apenas temos que usar os partidos para benefício coletivo.

2° Se não quiserem os partidos que estão aí, uma via alternativa pode ser encontrada ecoando nas vozes do fascismo – uma pausa nas minhas reflexões -. Esse já é o terceiro dia que escrevo esse texto, mais pra acompanhar o desenrolar dos acontecimentos e o que antes eu louvava como sendo uma manifestação legítima, já enxergo um perigo rondando. Para efeito de ilustração, eu recomendo a todos assistirem o filme “A Onda” (2008), filme dirigido por Dennis Gansel onde o professor Rainer Wenger ministra um mini-curso de uma semana sobre autocracia. Seus alunos não acreditam que o totalitarismo possa voltar na Alemanha moderna, porém, o professor mostra de um jeito didático e cativante em cinco dias como é fácil manipular as massas. Os resultados como podem imaginar são desastrosos.

A não ser na Copa do Mundo, o Brasil nunca foi nacionalista; E um país que nunca teve essa característica, de repente evoca seu espirito ufanista com pessoas se enrolando em bandeiras brasileiras e rechaçando partidos políticos em prol de uma unidade (lembre-se do jargão “o gigante acordou”) significa que algumas pessoas ainda não aprenderam com os erros do passado.

Anthony Cardoso

Fontes:

Movimento Passe Livre: <http://saopaulo.mpl.org.br/>. Acesso em 20/06/13

Programa Roda Viva – Movimento Passe Livre: <http://www.youtube.com/watch?v=BYASRwXiQ4g> Acesso em 19/06/13

Wikipedia – A Onda: <http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Onda_(filme)> Acesso em 21/06/13