O negacionismo como narrativa catártica e perversa nos corações e mentes dos brasileiros.

Ilustração: Daniel Medina

Estamos vivendo uma época ímpar no Brasil e no mundo. Em meio à uma pandemia de Covid-19, trancados em nossas casas, buscamos na ciência uma solução para o combate ao vírus. Dia após dia, vemos notícias de médicos e enfermeiros na linha de frente para salvar vidas. Nos bastidores, temos os cientistas de diversos ramos da Biologia, Infectologia entre outros na corrida por remédios e vacina. Cada vez mais, artigos científicos são publicados em revistas especializadas e notícias esparsas de testes e mais testes são veiculadas nos canais de comunicação. Enquanto o remédio e/ou vacina não chega, qual é a recomendação? Isso já estamos cansados de ouvir: ficar em casa e só sair se estritamente necessário. Os únicos lugares permitidos são os chamados “essenciais” como supermercados, farmácias e hospitais, para quem tem algum procedimento de emergência, por exemplo.

Uma grande parte da população não dispõe dessa vantagem, pois precisa trabalhar. Seja porque o trabalhador não possui vínculo empregatício fixo e se ele não sair para ganhar seu sustento, não coloca comida em casa; seja porque ele possui, sim, registro em carteira, mas a empresa não o permite ficar em casa, e os motivos são diversos, mas não me aprofundarei aqui. Do outro lado, existem aqueles que mesmo no conforto dos seus lares e com algumas condições financeiras e mentais, preferem ecoar o discurso da negação. Ou seja, tal epidemia não é o bicho papão que estão pintando, afinal, já temos doenças que matam muito mais e que existe um plano muito bem estruturado pelo governo (aí você decide de qual esfera estou falando) de prender as pessoas em casa e retirar o direito constitucional de “ir e vir” (seja lá o que signifique isso).

Existem outras narrativas mais, que transformaria esse singelo escrito em uma tese de doutorado, mas vou me ater em alguns temas e no final, tentarei explicar o motivo de tal insistência nossa em negar certas realidades.

Negação no cinema

Parte do meu interesse em escrever sobre o negacionismo teve a ajuda valiosa de um filme estreado em 2016 de nome Negação. A película é baseada em fatos reais[1] e mostra o caso da historiadora e escritora Deborah Lipstadt, que em 1993 publicou o livro Denying the Holocaust: The Growing Assault on Truth and Memory (Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória). Nesse livro, a autora expõe casos de pessoas sustentando a teoria de que o massacre perpetuado pelo governo nazista aos judeus na Segunda Guerra Mundial simplesmente não aconteceu. Não só isso: os números são bem menores do que 6 milhões de judeus mortos, entre outros argumentos. Deborah cita, por exemplo, o caso do escritor britânico David Irving; segundo ele, até aquele presente momento (anos 90), não tinha sido encontrado nenhum documento escrito por Adolf Hitler autorizando o extermínio sistemático de judeus. As câmaras de gás de Auschwitz não tinham a função de matar e sim, a de fumegar cadáveres; além disso, o Zyklon B (composto poderosíssimo usado originalmente para eliminar ratos) foi usado, segundo ele, para eliminar os piolhos causadores de tifo.

Irving, ao ser exposto, resolve processar Deborah por difamação e, pasmem, todo o processo decorre do fato da historiadora ter a missão de provar para o juiz que o holocausto realmente aconteceu, pois, no Reino Unido, não existe a presunção da inocência. Caso ela não tivesse respondido o processo, Irving teria ganho o caso.

Todo o processo correu por longos seis anos. O filme mostra como Deborah e sua equipe de advogados tiveram que ser extremamente habilidosos em relação a reunir documentos confiáveis e não caírem na armadilha falaciosa de Irving, pois, no que tange a processos judiciais, argumentos mal construídos podem levar a derrotas irrecuperáveis.

Diante desse filme, poderíamos questionar: se um assunto exaustivamente abordado como o Holocausto, mesmo assim é alvo de revisionismos em seus acontecimentos e ainda por cima, ganha a atenção e adesão das pessoas ao redor do mundo, por que isso acontece? Qual o interesse por trás daqueles que defendem a tese contrária à do genocídio das minorias na Alemanha? E por que algumas pessoas validam esse argumento sem questionar?

Vacinas

Atualmente, no século XXI, já temos provas contundentes que a vacina é um composto capaz de prevenir diversas doenças. A consequência da aplicação das vacinas é que um bom número de doenças tinham sido erradicadas (como a febre amarela e o sarampo). E por que não é mais?

Desde tempos remotos, populações eram contra em um primeiro momento a adesão da vacina. O medo do desconhecido sempre permeou nossas mentes. Um exemplo claro foi a Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, no Rio de Janeiro[2]. Na época, a cidade, mesmo sendo capital do Brasil, não era muito desenvolvida. O sistema de saúde era precário e o presidente Rodrigues Alves resolveu adotar uma série de reformas sanitárias, além de modernizar a cidade, claro.

Quando os cariocas viram que várias determinações arbitrárias foram tomadas como demolições de prédios, estabelecimentos fechados porque não atendiam os requisitos sanitários, o estopim foi um projeto de lei que obrigava a vacinação compulsória contra a varíola, o que acarretou em protestos, onde as pessoas depredavam delegacias e prédios públicos, tombavam bondes etc. O cenário mudou quando o governo voltou atrás quando optou por conscientizar a população dos benefícios da vacina, o que não era pregado na época.

Entretanto, ainda hoje vemos céticos propagarem inverdades sobre a vacina, dizendo que ela seria a causadora do autismo[3]. Personalidades como o ator Jim Carrey aderiu à campanha nos Estados Unidos.

Cada lugar com seu louco de estimação. Aqui no Brasil, temos como maldição o astrólogo Olavo de Carvalho. O mesmo, em 2006 publicou no seu blog Midia sem Máscara

Não tenho a menor convicção pessoal quanto às vacinas. Já li provas científicas eloquentes de que são úteis e de que são perniciosas, e me considero humildemente em dúvida até segunda ordem. Alguns de meus oito filhos tomaram vacinas, outros não. Todos foram abençoados com saúde, força e vigor extraordinários, e nenhum deles deve isso aos méritos da ciência estatal, mas a Deus e a ninguém mais. Tenho o direito às minhas dúvidas, tanto quanto Júlio Severo tem direito às suas certezas. O Estado e sua burocracia científica que vão para o diabo, que é pai dos dois.[4]

O atual guru ideológico do governo Bolsonaro confessa que alguns de seus filhos tomaram a vacina, mas não atribui a saúde dos mesmos ao vírus enfraquecido e sim, “a Deus e ninguém mais”.

Opiniões como essa podem soar como inofensivas, mas alimenta a ignorância daqueles céticos no poder da ciência, que procuram alguém para concordar com sua visão de mundo. A inserção de entidades religiosos como única ferramenta para validar a boa saúde, boas condições financeiras entre outras benesses, nega e põe em risco o trabalho de anos e anos dos cientistas para eliminar doenças há muito já superadas. Não à toa, de acordo com a ONU, a média brasileira de vacinados contra o sarampo tinha diminuído de 99% entre 2010 e 2017 para 84% em 2018.[5]

Outras narrativas como – que a propósito já aconteceu em outras épocas de epidemias e vem acontecendo como a do ‘vírus chinês’ – a de que as vacinas “são um plano arquitetado por governos para ganharem rios de dinheiro e alavancarem a economia local em consequência do próprio vírus que eles criaram” são muito poderosas e geram medo, além de provocar reações extremadas como a xenofobia.

As fake news dos “Caixões Vazios” e a negação da Covid-19

Nessa onda negacionista, alavancada por vozes dentro do governo federal e suas ramificações nos outros poderes, temos uma arauta da desgraça. Ninguém menos do que a deputada Carla Zambelli. Dentre várias mentiras pregadas durante seu curto e inexpressivo mandato, recentemente no mês passado, em uma entrevista com José Luiz Datena, Zambelli alega ter recebido informações de que no Ceará, caixões estavam sendo enterrados vazios. Na origem dessa “informação”, diz ter visto “uma foto” de uma menina carregando um caixão “com um dedinho”, e questiona esse fato. Datena apenas fica quieto. Talvez um jornalista sério teria perguntado onde ela recebeu tal informação.[6]

Como consequência dessa fake news, em Manaus, famílias estavam abrindo caixões para conferir se seus parentes estavam realmente lá, mesmo correndo riscos altíssimos de exposição ao Coronavírus.[7] Também houveram agressões a médicos que colocavam como causa mortis a Covid-19, pois as famílias simplesmente não aceitavam tal resultado.

Conclusão

Os negacionistas são pessoas que sempre estão defendendo uma narrativa contrária àquela mostrada pelos especialistas. No início, quando o que tínhamos ainda era uma epidemia, os negacionistas diziam que o coronavirus era apenas “uma gripe leve” e a OMS e imprensa eram culpados por disseminar o medo entre a população. Ao chegar no Brasil, a culpa foi transferida aos governadores e prefeitos, que impuseram a quarentena e limitaram a movimentação das pessoas, causando revolta nesse grupo. Ou seja, eles nunca são responsáveis pelo seus atos, e pior, alguns deles fazem questão de ir às ruas e colocar em risco a saúde deles e das outras pessoas, como bem explanou o jornalista Leonardo Sakamoto.[8]

Outra forma de entender a negação das pessoas em encarar a atual realidade venha do fato do vírus ter se espalhado em uma velocidade tão repentina e feroz, além de uma imposição em ficar em casa contra a nossa vontade, por isso, talvez “a ficha ainda não tenha caído”

O negacionismo claramente é endossado por pessoas de má índole, principalmente aquelas que colocam a economia acima da saúde da população e incita o ataque aos profissionais que estão trabalhando na linha de frente de combate a Covid-19. Tal discurso encontra nas mentes mais ignorantes um terreno fértil para disseminação das mentiras e um retorno a “vida normal”. Sabemos que na “vida normal” o vírus veio justamente por causa de violações extremadas a natureza e a vida animal. Será que queremos esse retorno?

Fontes:

[1] Como uma pesquisadora foi parar no tribunal para provar que o Holocausto aconteceu – Revista Época. https://epoca.globo.com/como-uma-pesquisadora-foi-parar-no-tribunal-para-provar-que-holocausto-aconteceu-23086662. Acesso em 19/05/2020.

[2] Revolta da Vacina – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=SlsHN-OWCkw. Acesso em 20/05/2020

[3] Teorias da Conspiração – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=meLRzQr8e6s. Acesso em 20/05/2020

[4] Vacinas – Blog do Júlio Severo. http://juliosevero.blogspot.com/2006/07/olavo-de-carvalho-fala-sobre-questo.html. Acesso em 20/05/2020

[5] A Volta do Sarampo: por que as taxas de vacinação diminuíram?. http://www.enf.ufmg.br/index.php/noticias/1590-a-volta-do-sarampo-por-que-as-taxas-de-vacinacao-diminuiram. Acesso em 20/05/2020

[6] Diário do Centro do Mundo. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-datena-zambelli-espalha-fake-news-de-que-caixoes-estao-sendo-enterrados-vazios/#disqus_thread. Acesso em 22/05/2020

[7] Yahoo Notícias. https://br.noticias.yahoo.com/familias-abrem-caixoes-a-beira-das-covas-coletivas-para-ter-certeza-de-que-estao-enterrando-seus-parentes-em-manaus-161006292.html. Acesso em 22/05/2020

[8] COVID-19: como pensa um negacionista?https://www.youtube.com/watch?v=DClKHI29Ct4. Acesso em 22/05/2020

Download de obras de Ivan Illich

Ivan Illich - Wikiquote

Ivan Illich nasceu em Viena no ano de 1926. Sua família mudou-se para Roma, onde Illich completou os seus estudos: física (Florença), filosofia e teologia (Roma) e doutoramento em História (Salzburgo). Por ser fluente em dez línguas, Illich tornou-se intérprete do Cardeal Spellman (nova York) e teve como função preparar religiosos para a comunidade hispano-americana. Nos anos 60 mudou-se para o México onde criou o Centro Intercultural de Formação (CIF) – espécie de faculdade aberta. Faleceu em Bremen, na Alemanha em Dezembro de 2002

Propostas teóricas contra a EscolaEscreveu inúmeros artigos e livros, entre os quais: Sociedade sem Escolas em 1970.“criar entre o homem e aquilo que o rodeia novas relações que sejam fontes de educação, modificando simultaneamente as nossas reações, a idéia que faze- mos do desenvolvimento, os utensílios necessários para a educação e o estilo da vida quotidiana” (Illich, 1970, p.6).

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Anthony Cardoso

62 obras de educadores para download

A Coleção Educadores, uma iniciativa do Ministério da Educação em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco e a Unesco disponibiliza para download 62 volumes de grandes pensadores do ramo da pedagogia, com o objetivo de difundir seus escritos, suas histórias de vida e reconhecer a importância de tais pessoas dentro da cadeia humanística nacional e internacional.

A escolha dos autores foi realizada por representantes do MEC, de instituições universitárias, educacionais e da Unesco, finalizando em uma lista de trinta brasileiros e trinta estrangeiros, além de dois manifestos: o dos Pioneiros da Educação Nova (1932) e dos Educadores (1959). No âmbito internacional, optou-se por aproveitar a coleção Penseurs de l´éducation, organizada pelo International Bureau of Education (IBE) da Unesco em Genebra, que reúne alguns dos maiores pensadores da educação de todos os tempos e culturas. O MEC também recorreu a pesquisadores do Instituto Paulo Freire para concretizar esse ousado projeto.

Os autores escolhidos são: Al­ceu Amo­ro­so Li­ma, Al­fred Bi­net, Al­mei­da Jú­ni­or, An­drés Bel­lo, An­ton Maka­renko, An­to­nio Gram­sci, Aní­sio Tei­xei­ra, Apa­re­ci­da Joly Gou­veia, Ar­man­da Ál­va­ro Al­ber­to, Aze­re­do Cou­ti­nho, Ber­tha Lutz, Bog­dan Su­cho­dolski, Carl Ro­gers, Ce­cí­lia Mei­re­les, Cel­so Su­cow da Fon­se­ca, Cé­les­tin Frei­net, Darcy Ri­bei­ro, Do­min­go Sar­mi­en­to, Dur­me­val Tri­guei­ro, Ed­gard Ro­quet­te-Pin­to, Édou­ard Cla­pa­rè­de, Émi­le Durkheim, Fer­nan­do de Aze­ve­do, Flo­res­tan Fer­nan­des, Fre­de­ric Skin­ner, Fri­e­drich Frö­bel, Fri­e­drich He­gel, Fro­ta Pes­soa, Ge­org Kers­chen­stei­ner, Gil­ber­to Freyre, Gus­ta­vo Ca­pa­ne­ma, Hei­tor Vil­la-Lo­bos, He­le­na An­ti­poff, Hen­ri Wal­lon, Hum­ber­to Mau­ro, Ivan Il­lich, Jan Amos Co­mê­nio, Je­an Pi­a­get, Je­an-Jac­ques Rous­se­au, Je­an-Ovi­de De­croly, Jo­hann Her­bart, Jo­hann Pes­ta­loz­zi, John Dewey, Jo­sé Mar­tí, Jo­sé Má­rio Pi­res Aza­nha, Jo­sé Pe­dro Va­re­la, Jú­lio de Mes­qui­ta Fi­lho, Liev Se­mio­no­vich Vygotsky, Lou­ren­ço Fi­lho, Ma­no­el Bom­fim, Ma­nu­el da Nó­bre­ga, Ma­ria Mon­tes­so­ri, Ní­sia Flo­res­ta, Or­te­ga y Gas­set, Pas­cho­al Lem­me, Pau­lo Frei­re, Ro­ger Cou­si­net, Rui Bar­bo­sa, Sam­paio Dó­ria, Sig­mund Freud e Val­nir Cha­gas.

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Anthony Cardoso

Renascendo das Cinzas!

Olá, leitores!

Quem diria que eu voltaria a escrever nesse blog, quatro anos depois. Sempre tive um carinho muito grande por ele e, volta e meia eu entrava para ver o que eu e meus amigos escreveram há tempos atrás, em um ambiente de efervescência política bem mais sã do que atualmente. Também fiquei surpreso ao ver que um bom número de pessoas ainda visitavam meu blog e, mais ainda, que algumas delas comentavam nos posts com pedidos ou apenas dando suas opiniões. A essas pessoas, muito obrigado!

Vocês podem se perguntar o motivo da minha volta. Bom, eu já pensava nessa possibilidade, principalmente no período das fatídicas eleiçoes presidenciais de 2018 onde as esperanças de muitas pessoas foram por água abaixo quando a população decidiu eleger Jair Bolsonaro (não é fácil escrever o nome desse ser aqui) por causa do sentimento antipetista ou pela famosa “falta de opção” que forma um efeito dominó nas pessoas. Na época eu queria escrever uma espécie de continuação de um post que escrevi em 2013, no auge das manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo que encontra-se aqui (é um dos posts mais acessados do blog, dado o momento ímpar pelo qual passamos), ou seja, já naqueles dias, o “ovo da serpente” foi concebido, em 2018 ele chocou. Porém, o projeto não foi adiante e o tempo foi passando.

Mas o motivo determinante para voltar acredito que tenha sido a quarentena que precisamos cumprir. É aquele negócio: temos tempo de sobra agora, então, vamos aproveitar rsrs…

Brincadeiras a parte, o que me motivou também foi a vontade de retomar as análises sobre o atual momento político, além de escrever resenhas sobre os livros que tenho lido. Essa última parte não tem sido fácil, pois apesar do tempo disponível, o tédio domina em alguns momentos e simplesmente não me dá vontade de escrever nem ler nada, apenas assistir filmes e séries. Mas vou procurar superar esse momento de dificuldade criativa e trazer um conteúdo de qualidade para vocês 🙂

Pode ser que eu fale também sobre algum filme que gostei e, claro, que esteja de acordo com a proposta do blog, mas ainda é incerta essa possibilidade.

Pois bem, essa é a mensagem de hoje. No meu planejamento futuro, pretendo falar sobre duas obras que li recentemente: Veias Abertas da America Latina de Eduardo Galeano, um excelente ensaio sobre o nosso tão explorado e vilipendiado território, e O Diabo, de Leon Tolstoi, um dos meus escritores preferidos e que escreve um conto abordando a fidelidade conjugal.

Saudações!

Anthony Cardoso

O significado de Raízes do Brasil, por Antonio Candido

Publicado originariamente em Café Com Sociologia.
Reproduzimos a seguir uma resenha elaborada por Antonio Candido e publicada na em 1995 como prefácio do livro de Sérgio Buarque, Raízes do Brasil (26ª ed.), publicado pela Companhia das Letras.

O significado de Raízes do Brasil, por Antônio Candido

Em meados do século XX, três livros levaram uma geração a refletir e se interessar pelo Brasil, obras que pareciam exprimir a mentalidade ligada ao “sopro” de radicalismo intelectual e análise social impulsionado após aRevolução de 1930.
A anticonvencional composição extremamente livre e franca de Casa Grande e Senzala, como no tratamento dado à vida sexual do patriarcalismo, e a importância decisiva atribuída ao escravo na formação do modo de ser do brasileiro causou forte impacto na época. Informações e dados que ensejavam noções e pontos de vistas inovadores no Brasil de então. Entretanto, a preocupação do autor com problemas de fundo biológico (raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilíbrio ecológico alimentação) dialogava com o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Oliveira Vianna.
Três anos depois aparecia Raízes do Brasil. Livro curto, de poucas citações, mas que, entre outras influências, fornecia indicações importantes para compreenderem o sentido de certas posições políticas daquele momento, em que se se buscava soluções novas, fosse à direita, no integralismo, fosse à esquerda, no socialismo e no comunismo.
Seis anos depois do livro de Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr. lançava Formação do Brasil Contemporâneo. Interpretação do passado em função das realidades básicas da produção, da distribuição e do consumo. Nele, o autor afasta-se do ensaísmo (marcante nos outros dois livros), prioriza dados e argumentos em detrimento de categorias qualitativas como “feudalismo” ou “família patriarcal”. O materialismo histórico aparecia como forma de captação e ordenação do real, desligado do compromisso partidário ou desígnio prático imediatista.
No pensamento latino-americano, a reflexão sobre a realidade social foi marcada pelo senso dos contrastes e mesmo dos contrários – apresentados como condições antagônicas em função das quais se ordena a história dos homens e das instituições. “Civilização e barbárie” formam o arcabouço do Facundo e de Os Sertões. O pensamento do autor não foge a esse modelo, se constitui pela abordagem dialética de conceitos polares, não como se eles fossem mutuamente excludentes. A visão de um determinado aspecto da realidade histórica é obtida pelo enfoque simultâneo dos dois; um suscita o outro. Sérgio Buarque aproveita o critério tipológico deMax Weber ao focar pares de tipos ao invés de pluralidades de tipos, para trata-los de maneira dinâmica e ressaltar a interação dentro do processo histórico. Com este instrumento, o autor analisa os fundamentos do nosso destino histórico e suas diversas manifestações: trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, burocracia e caudilhismo, norma impessoal e impulso afetivo – são pares destacados na estrutura social e política pelos quais é possível analisar e compreender o Brasil e os brasileiros.
Em “Fronteiras da Europa”, o primeiro capítulo, Espanha e Portugal são o ponto de partida para tratar, por exemplo, das diversas formas de colonização da América, e de pontos que serão desenvolvidos ao longo da obra, como o tradicional personalismo e a consequente frouxidão das instituições e baixa coesão social.
A ausência do princípio de hierarquia e a exaltação do prestígio pessoal que implica em privilégio seria outra característica ibérica de grande impacto na colônia. Isso fez com que a nobreza permanecesse aberta ao mérito e ao êxito, o que favoreceu a mania de fidalguia, ou seja, a repulsa ao trabalho regular e às atividades utilitárias, de que decorre a falta de organização. O ibérico não renuncia às veleidades em benefício do grupo ou dos princípios. Aos preteridos de tal privilégio, cabe a obediência cega: “A vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são-lhes igualmente peculiares [aos ibéricos]” (p. 39). A escravidão matou de uma vez a necessidade no homem livre de cooperar e organizar-se.
No capítulo seguinte, “Trabalho & aventura”, está a tipologia básica do livro, a distinção entre o trabalhador e o aventureiro e suas éticas opostas: a que busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere descobrir a consolidar; e a que estima a segurança, o esforço e a compensação a longo prazo. O continente americano foi colonizado por homens mais próximos do primeiro tipo, o que foi positivo para o Brasil, pois o português manifestou uma adaptabilidade excepcional, ainda que “com desleixo e certo abandono”. Dada a diversidade reinante, o espírito de aventura foi o “elemento orquestrador por excelência” (p. 46). Assim, a lavoura de cana foi mais um aproveitamento de espaço do que ação de uma civilização agrícola.
“Herança rural” é o próximo capítulo que analisa o impacto da vida rural na sociedade brasileira, e suas diferenças em relação à mentalidade urbana.
A agricultura acompanhou a escravidão em seu declínio, promovido por políticos e intelectuais de família fazendeira. O capital ocioso migrou para as cidades, promovendo progresso social e investimento técnico. Isso não refletiu em um desenvolvimento coeso em função da “radical incompatibilidade entre as formas de vida copiadas de ações socialmente mais avançadas, de um lado e o patriarcalismo e personalismo fixados entre nós por uma tradição de origens seculares” (p. 79).
“O semeador e o ladrilhador” é o quarto capítulo. A cidade é entendida como instrumento de dominação já a partir de sua concepção. Ladrilhador refere-se ao espanhol, que vê a cidade como empresa da razão, como as que fundou aqui, planejadas rigorosamente e contrárias à ordem natural; como se correspondessem a um prolongamento da metrópole. Os portugueses, agarrados ao litoral, foram “semeadores” de uma cidade irregular, cuja “silhueta se enlaça na linha da paisagem” (p. 110). O aparente desleixo corresponde a uma prudência condicionada por um realismo não imaginativo ou regido por regra, fruto de um desejo pela fortuna e ascensão social rápida que coíbe a formação de uma mentalidade específica, como em outros países.
O capítulo “Homem cordial” apresenta características do brasileiro resultantes do que foi tratado anteriormente. As “relações de simpatia” reinam, ou seja, as relações impessoais, características do Estado, são suscetíveis de serem levadas para o padrão pessoal e afetivo. Isso impede a formação de uma sociedade urbana moderna. O “homem cordial” pressupõe, de fato, o predomínio do comportamento de aparência afetiva, não necessariamente sincera.
O capítulo 6, “Novos tempos”, analisa o choque nos velhos padrões coloniais causado pela vinda da família real.
A sociabilidade é aparente, uma vez que não se impõe ao indivíduo, tampouco contribui para a estruturação de uma ordem coletiva. Encontra séria barreira na individualidade que emerge na relutância perante a lei que o contraria. A isso também está ligada a satisfação no saber aparente, cujo fim está em si mesmo e, por isso, deixa de ser aplicado em um objetivo concreto. A mudança de atividade torna-se constante, por buscar a satisfação pessoal. As profissões liberais se aproximam dessas características, tanto por permitirem a manifestação individual quanto por prestarem-se ao saber de fachada. É a opção dos membros da classe dominante em função da crise das velhas instituições agrárias, por prescindirem do trabalho direto sobre as coisas, que lembra a condição servil.
A força adquirida pelo positivismo também pode estar relacionada a esse contexto. Uma confiança consistente às ideias, mesmo quando inaplicáveis, ajuda a entender o liberalismo que, no Brasil, se constituía como uma oposição à autoridade incômoda. Da mesma forma, tratou-se de importar a democracia e acomodá-la aos privilégios aristocráticos, sendo que, em outros países, elas eram conflitantes.
O capítulo 7, “Nossa revolução”, mais compacto, sugere que a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas na estrutura social, que surtirão efeitos nas instituições e ideias políticas. A passagem do rural para o urbano representa a passagem da tradição ibérica, baseada em instituições agrárias, para um modo vida próprio, americano. Está ligada a esse momento a passagem da exploração da cana de açúcar, como produto principal de exportação, para o café. Os modelos políticos do passado se adaptam aos novos tempos. Isso é possível através da combinação não harmoniosa entre leis formalmente perfeitas e uma organização administrativa ideal com o mais extremo personalismo. A Abolição tornou inviável a velha sociedade agrária, o que foi o início da “nossa revolução”. Trata-se de superar o passado, adotar o ritmo urbano e propiciar, ao mesmo tempo, a ruptura do predomínio das oligarquias e a emergência das camadas oprimidas da população, únicas com capacidade para revitalizar a sociedade, tornando viável uma vida democrática no Brasil. Contra essa tendência, poderia surgir uma resistência saudosa do antigo modelo, que, de acordo com a intensidade de sua força, poderia se traduzir em formas que comprometam as esperanças de qualquer transformação profunda. O caudilhismo, expressão maior do personalismo que intervém no processo democrático, é um exemplo dessa resistência. A repulsa pela hierarquia e a relativa ausência dos preconceitos de raça e cor são elementos que permitem a convergência rumo à democracia.
Raízes do Brasil escapa ao dogmatismo e abre o campo para a meditação dialética. O autor baseou sua análise na psicologia e na história social, com um senso agudo de estruturas, vinculando dessa forma o conhecimento do passado aos problemas atuais. Propôs que a liquidação das raízes era um imperativo para o desenvolvimento histórico. Perder as características ibéricas era o caminho para a evolução moderna brasileira, cuja trajetória não incluiu um louvor ao autoritarismo, como solução para sua organização. Sérgio Buarque afirmou, em 1936, estar na fase aguda da decomposição da sociedade tradicional. Em 1937 veio o golpe de Estado e o advento da fórmula rígida e conciliatória, que encaminhou a transformação das estruturas econômicas pela industrialização. Era o primeiro passo para a modernização.

Bibliografia:

CANDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. 26ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

O que é Feminismo

Marcia Tiburi

Publicado originariamente em Revista Cult

Uma conversa sobre o feminismo enquanto tal, uma conversa que procure lançar luz sobre sua definição, me parece necessária diante da multiplicidade de vozes feministas, bem como do desentendimento bastante visível na esfera pública, quanto ao que é feminismo. Pairam preconceitos misóginos sobre o próprio termo e fica prejudicada, neste sentido, a proposta geral do feminismo. Daí a necessidade de uma conversa conceitual que possa abrir nossas mentes e percepções para a questão. Abaixo lanço algumas ideias sobre as quais pretendo escrever nos próximos tempos.

O que o feminismo não é

Na intenção de definir o feminismo em seu sentido mais conceitual, podemos começar tendo em vista o que o feminismo não é e, assim, limpar o terreno dos vícios que tem prejudicado não apenas a compreensão mais ampla, mas a própria ação feminista, bem como a ampliação do que podemos chamar de projeto feminista na cultura como um todo.

Tendo isso em vista, podemos começar por afirmar que o feminismo não é uma ideologia no sentido positivo – e a-crítico – de conjunto de ideias, muito menos é uma ideologia no sentido negativo de “falsa consciência” que serviria para acobertar a disputa de poder entre homens e mulheres, quando buscar-se-ia uma supremacia de gênero – no caso o feminino contra o masculino – e uma mera inversão de jogo no sistema da dominação masculina. O feminismo não é uma inversão ideológica. Não é uma inversão do poder. Uma inversão pressuporia sua manutenção. Em outras palavras, o feminismo não é uma manutenção do poder patriarcal com roupagem nova ou invertida que se alcança por uma ideologia de puro oposicionismo.

Se não é ideologia, o feminismo também não é uma forma de ver o mundo. Ele não é uma cosmovisão que se cria de modo estanque em relação à sociedade e que propõe mudanças idiossincráticas em abstrato. O feminismo não pode ser confundido com algo que surge abstratamente como uma pura estética ou metafísica em que a atuação das mulheres – sujeitos do feminismo clássico – seria suficiente para mudar o cenário ético e político da dominação masculina.
O feminismo é o contrário disso tudo. Vejamos o que ele pode ser.

Dialética negativa

Podemos dizer que o feminismo é uma teoria prática que surge das condições concretas das relações humanas, enquanto essas relações são baseadas em relações de linguagem que são relações de poder. Um poder constituído com base no que se pode chamar de paradigma masculinista. O feminismo é uma crítica concreta da sociedade que tem base em uma ação teórica inicial e que é constitutiva da prática enquanto crítica da dominação masculina. Feminista é alguém que pensa criticamente, enquanto essa crítica se dá na direção de uma releitura do mundo que tira os véus desse mesmo mundo organizado pela dominação masculina. Mas a dominação masculina não é apenas atitude dos homens, embora seja fácil para os homens, sujeitos concretos que autorizam a si mesmos como agentes da dominação masculina. A dominação masculina é estrutura de poder ao nível dos dispositivos do poder. Engana-se quem pensa que o “machismo”, nome vulgar da dominação masculina, será desmanchado apenas por meio de uma dominação feminina que seria, aliás, um erro capaz de destruir o feminismo.

O feminismo é, por isso, uma proposição dialética, não uma nova dominação, em que a alteridade preservada e defendida – alteridade que evita toda dominação – faz parte do processo de constituição da teoria e da prática.

Ao mesmo tempo, o feminismo é um projeto filosófico que visa mudar o mundo. Ele relê a história a contrapelo, analisa a história pelo espelho retrovisor buscando a tradição das mulheres, esquecidas e oprimidas, como uma história que tem algo a nos ensinar. Neste sentido, se pode dizer que o feminismo é a filosofia que tem como base um impulso ético e um efeito político.

Quando dizemos que o feminismo é uma teoria prática, definimos seu caráter concreto, mas é preciso saber que a especificidade dessa teoria prática é reflexiva, no sentido de crítica e autocrítica e, portanto, filosófica. Por ser uma teoria prática que parte de uma reflexão crítica o feminismo constitui uma ação crítica.

Por ser necessariamente reflexivo, o feminismo é uma filosofia em seu sentido específico de crítica da linguagem e da crítica ontológica e, a partir daí, da crítica social. O feminismo é, por definição, crítica da linguagem enquanto discurso do preconceito masculinista, crítica das teorias da linguagem baseadas na dominação masculina, crítica da filosofia clássica e de todas as teorias científicas e religiosas que sustentaram a dominação masculina. O feminismo é crítica do discurso masculinista, de suas práticas, de seu sistema. Mas também é autocrítica, inclusive no sentido de evitar imitar o que ele mesmo nega. O feminismo é, neste sentido, uma dialética negativa.

Francesca Woodman

Pluralidade

Feminismo é, sob qualquer aspecto, um termo que se deve usar tendo em vista seu caráter plural. A pluralidade do feminismo não se refere apenas aos múltiplos coletivos, grupos e movimentos que se definem como feministas ou aos diversos modos pelos quais pessoas se definem como feministas. No caso do feminismo, não se trata de falar da pluralidade das tendências apenas, mas de perceber que a pluralidade é própria ao conceito de feminismo, enquanto a pluralidade implica a singularidade que se relaciona com o seu outro.

Em que sentido a pluralidade é inerente ao feminismo?

Poderíamos sugerir o feminismo como universalismo, mas neste caso, teríamos que falar em algo como um universalismo verdadeiro. Pois o universalismo é uma posição na qual todas as singularidades precisam ser assumidas, mas não na interioridade de um universal em sentido masculinista, patriarcal, capitalista, branco, europeu, de classes sociais e culturais favorecidas. O universalismo pode ser precário diante do feminismo se ele não levar em conta o caráter rebelde, sublevado e inadequado do feminismo quando se trata de pensa-lo como aspecto do sistema patriarcal/capitalista. O feminismo é um projeto que não se transforma na totalização que ele mesmo combate. Todo feminismo pode ser democracia, mas, certamente, seu impulso é anárquico no sentido de ser contrário ao poder. O que pode um poder que não combina com o poder?

Eis o espírito do feminismo.

Por isso, podemos dizer que só há sentido em falar em feminismo se transbordamos o seu sentido. Só há sentido em falar em feminismo se nos deixarmos desmanchar nas margens, se expandimos as margens do feminismo na direção de uma eliminação do sistema baseado na identidade. Refiro-me ao sistema patriarcal/capitalista que precisa ser modificado em atos teórico-práticos.

Marginalizar o feminismo: tirá-lo do clima puramente acadêmico, do clima de qualquer pureza, branca, de classe média ou alta, de corpos autorizados, de crenças em identidades estanques e propostas como naturais pelo sistema da razão que administra a não-identidade evitando que ela floresça.

Manchar o feminismo, sujar o feminismo, intensificando a sua capacidade de transformação social e política na contramão das opressões de sexualidade, gênero, raça, crença e classe social.

O que o feminismo pode é transformar a sociedade em bases abertas e ao mesmo tempo revolucionárias na direção de um mundo de direitos assegurados, de respeito à diferença e à singularidade.
Esse poder do feminismo é o próprio feminismo.

Beijo proibido

blog da Revista Espaço Acadêmico

MARCELO GRUMAN*

“Que legal!”, exclamou minha esposa lá da sala. “Marcelo, vem ver o comercial d’O Boticário pro Dia dos Namorados!”. Na peça publicitária de meio minuto, aparecem quatro pessoas, dois homens e duas mulheres, presenteando seus respectivos namorados e namoradas. O inusitado, para muitos telespectadores, acontece quando a porta da casa de cada um dos presenteados se abre, quando o segredo é revelado: dois dos casais são formados por indivíduos do mesmo sexo, um feminino, outro masculino. No dia seguinte, leio que a campanha de Dia dos Namorados do Boticário virou alvo de protestos e ameaça de boicote à marca nas redes sociais e até de denúncia ao Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária – Conar, que abriu um processo para julgar a propaganda após receber mais de vinte reclamações de consumidores que consideraram a peça “desrespeitosa à sociedade e à família”. Internautas registraram protestos no Reclame Aqui

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Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro

Conversando sobre um amigo – digamos apenas que ele é da ˜área de humanas˜ – que se encontra em apuros financeiros, meu marido perguntou:

– Mas afinal, o que ele faz?

Minha resposta foi imediata, sem censura e sem rodeios:

– Ah, você sabe como é, faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

E foi aí que me ocorreu.

Quase todos os meus amigos podem ser definidos exatamente assim: gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro.

Tenho pouquíssimos amigos que construíram uma sólida e tediosa carreira de sucesso em alguma respeitável multinacional.

Meus amigos, quase todos, fazem, fizeram ou farão trampos de:

design gráfico, tradução, revisão, revisão ABNT, programação, decoração, consultoria de moda, webdesign, transcrição, preparação de originais, editoração, legendagem, publicidade, jornalismo, aula de inglês, de francês, aula em faculdade, em cursinho, mestrado, doutorado, com bolsa, sem bolsa, consultoria/assessoria/gerenciamento de redes sociais, assessoria de imprensa, produção de eventos, crítica de arte, de música, de cinema, cenografia, curadoria, agitação cultural, mapa astral.

Escritores, roteiristas, resenhistas, romancistas, colunistas, cronistas e poetas. Professores, palestrantes, repórteres, artistas e fotógrafos. Produtores, atores e diagramadores. Bailarinos, músicos e psicanalistas. Pós-graduandos em ciências sociais, antropologia e história. Estudantes de graduação em filosofia. Ou, para resumir com termos que nossos tiozões reaças entendem bem: “tudo puta, bicha e maconheiro” ❤

Um monte de coisas. Que não dão dinheiro. Nenhuma delas. Nem se juntar tudo.

E eu, que sempre me senti tão sem turma, tão sempre trabalhando quietinha e sozinha em casa, tão avessa ao mundo real repleto de gente com uma CLT na mão e o firme propósito de ganhar dinheiro na cabeça. Eu, que sempre me senti oprimida por aquela propaganda no metrô que mostra um jovem sorridente “decolando na carreira” depois de concluir seu MBA em administração. Eu, finalmente, sorri e me dei conta:

Gente de humanas que faz um monte de coisa que não dá dinheiro – esse é o meu clube, essa é a minha vida.

Somos bichinhos estranhos, nós que somos gente de humanas e fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro. Pulamos de frila em frila sempre achando que o de agora vai durar e que o contratante vai pagar em dia. Ignoramos solenemente o fato de que o frila de 2009 pagava exatamente o mesmo que o frila de 2013. Acima de tudo, baseamos toda a nossa vida na convicção de que o próximo frila será melhor, mais interessante e mais bem pago que o atual.

Escrevemos, traduzimos, cantamos e sapateamos. Nosso talentos são múltiplos. Nossa versatilidade é incomparável. Nossa paciência é infinita. Nosso único defeito: não somos uma categoria unida. Se unidos fôssemos, estaríamos nos anúncios do metrô agora mesmo: “venha ser gente de humanas e fazer um monte de coisa que não dá dinheiro você também!” Mas não. Em vez disso, estamos aqui, cada qual surtando com seu próprio prazo e seu próprio cliente inadimplente – ou, no meu caso, tentando escrever mais um texto acadêmico e, em vez disso, escrevendo besteira no blog.

Tenho uma teoria de que nós, gente de humanas que fazemos um monte de coisa que não dá dinheiro, só teremos nosso valor devidamente reconhecido pela sociedade o dia em que o governo quiser subsidiar a vinda de tradutores, fotógrafos, poetas e psicanalistas cubanos. Aí sim seremos importantes – aí sim seremos potência.

Até lá, continuaremos fazendo um monte de coisa – e fingindo para a nossa família e nossos amigos com carteira assinada que ganhamos algum dinheiro.

Camila via Recordar, repetir e elaborar