O futebol como reprodução do status quo educacional brasileiro

Não há como negar que no Brasil, o futebol é o esporte mais acompanhado, mais jogado e o mais desejado, desde crianças até os mais idosos. Muitos garotos, pelo menos uma vez na vida já jogaram bola na rua ou no campinho, ou criaram uma simpatia por um time ou seleção, seja na vida real ou no video game. Nos tempos atuais, as mulheres vêm adquirindo algum, porém, importante espaço e visibilidade com a criação de competiçoes regionais, nacionais e internacionais, e aliada à aquisição de direitos de transmissão por grandes canais de televisão e pelo público em geral, acaba despertando interesses; é verdade que trata-se de um grande caminho a trilhar, pois a nossa cultura machista ainda não enxerga o futebol como sendo um esporte plenamente ideal para ser praticado pelas mulheres, o que deve ser combatido sempre.

Fonte: Dna Esporte

Entretanto, a questão vai além. Quando eu assisto um jogo de futebol ou algum programa esportivo, os jogadores geralmente dizem a mesma coisa. Um exemplo básico:

O time A está ganhando do time B; no intervalo, o repórter lança a pergunta (que costuma ser a mesma também) para o jogador A, que responde:

-Vamos continuar nesse ritmo para ganhar os 3 pontos.

O repórter lança uma pergunta um pouco diferente, pelo fato da derrota provisória para o jogador B, que diz:

-Vamos voltar para o 2° tempo para fazer os gols e empatar ou ganhar.

Ao final do jogo, o time A mantém a vitória sobre o B. O mesmo repórter se aproxima do jogador A. Resposta:

-Agora é trabalhar para manter o ritmo.

Resposta do jogador do time B:

-Agora é trabalhar para recuperar os pontos perdidos.

Seja na vitória, no empate ou na derrota, nos treinos, entrevistas em geral, como testemunha ocular diária eu digo: o jogador de futebol adquiriu um vício por falar a mesma coisa nessas ocasiões. Porque?

O que me chama a atenção é pelo fato do futebol não ser somente o esporte em si, onde o aprimoramento físico e tático é o principal objetivo. Ele envolve vários aspectos. Pela visibilidade que o esporte alcançou ao longo das décadas, o papel social e porque não, político que ele exerce é significativo. Por exemplo, na final da década de 60, Pelé, sabendo do seu status midiático, juntamente com o time do Santos, aceitaram o convite do governo da República Democrática do Congo e participaram de uma partida de futebol em meio a uma guerra civil. Na ditadura militar, a Seleção canarinho serviu como bode expiatório para simular um ambiente de descontração e alegria em detrimento da sucessiva omissão de notícias acerca de prisões, torturas e mortes que ocorriam, através da conquista do tri, em 1970.

Porém, mesmo o futebol alcançando tal repercussão no país e o mundo acabamos nos surpreendendo quando ouvimos de um jogador de futebol um comentário sobre política, sobre raça, sobre qualquer assunto que fuja das quatro linhas. Infelizmente, o futebol serve à lógica capitalista, desde uniformes, bolas, até reprodução de penteados (vide Ronaldo na copa de 2002) e gestos (Gabigol comemorando um gol, com os braços semi erguidos, simulando um sinal de força) os jogadores são transformados em produtos, situados na categoria de entretenimento e isso retira do esporte, um potencial agregador no quesito educacional. Como reflexo, temos a parca comunicação dos atletas, na maioria das vezes não obtendo respostas para perguntas simples dos repórteres.

Na realidade do sistema educacional, elementos como falta de professores, baixos salários, consequente desinteresse do profissional diante das más condições de trabalho como locais distantes, negligência da direção em relação a problemas com drogas e de abusos sexuais, uso do esporte apenas como um “placebo”, ou seja, um aliviador de tensões no ambiente escolar, dentre outros problemas podem ser encarados pelos alunos apenas como uma fase, em que o único objetivo é chegar ao último ano, sair deste lugar e alcançar o sonho de ser jogador de futebol.

Fonte: Revista Digital

É interessante que muitos pais ao descobrirem o desejo dos filhos de ingressarem no futebol, os veem como uma oportunidade de ascensão social. No entanto, assim como em diversas profissões, existem o bom profissional e o mal profissional e se em uma profissão há uma procura excessiva, poucos são os destaques e muitas as decepções. E assim, aquele jovem que sonhava com os holofotes e as facilidades que o futebol proporciona, ao receber o “não” na peneira, não vê outra saída senão se sujeitar a trabalhos com baixo salário e alta exploração, tal como a lógica capitalista demanda. É possível que se tivéssemos uma educação qualificada, disposta  realmente a inserir na criança e no adolescente tanto o conhecimento como forma de se entender e entender os mecanismos da sociedade quanto formá-lo profissionalmente através do futebol e outros esportes, o cenário seria diferente. Não é à toa que no final da carreira ou próximo, alguns jogadores procuram uma qualificação acadêmica ou tentar uma aventura em outro ramo dos negócios como forma de expandir o leque profissional, como forma de compensar aquilo que ele não teve ao longo da vida.

No futebol em geral, obviamente o trabalho e dedicação constantes de uma equipe geram bons frutos ao final da temporada, seja ela o título ou a vaga para uma competição internacional; todavia, fatores como uma bola desviada do time adversário que termina na rede, o craque do time se machuca, ou uma péssima arbitragem influenciam no projeto final.

Na educação é a mesma coisa. Não basta o Estado ter dinheiro e não investir no lugar certo ou investir mal, assim como não adianta haver bons professores se não há condições suficientes para dar uma aula de qualidade. Tem de haver uma mudança de mentalidade do Estado, priorizar a educação e entendê-la como um dos pilares para a evolução de um país. Porque, como resultado desses problemas, o Brasil amarga o Z-4 do ranking global de qualidade na educação. Periga ficar nas divisões inferiores por um bom tempo; por isso, é necessário nos dizeres dos jogadores, “trabalhar para recuperar os pontos perdidos”

O negacionismo como narrativa catártica e perversa nos corações e mentes dos brasileiros.

Ilustração: Daniel Medina

Estamos vivendo uma época ímpar no Brasil e no mundo. Em meio à uma pandemia de Covid-19, trancados em nossas casas, buscamos na ciência uma solução para o combate ao vírus. Dia após dia, vemos notícias de médicos e enfermeiros na linha de frente para salvar vidas. Nos bastidores, temos os cientistas de diversos ramos da Biologia, Infectologia entre outros na corrida por remédios e vacina. Cada vez mais, artigos científicos são publicados em revistas especializadas e notícias esparsas de testes e mais testes são veiculadas nos canais de comunicação. Enquanto o remédio e/ou vacina não chega, qual é a recomendação? Isso já estamos cansados de ouvir: ficar em casa e só sair se estritamente necessário. Os únicos lugares permitidos são os chamados “essenciais” como supermercados, farmácias e hospitais, para quem tem algum procedimento de emergência, por exemplo.

Uma grande parte da população não dispõe dessa vantagem, pois precisa trabalhar. Seja porque o trabalhador não possui vínculo empregatício fixo e se ele não sair para ganhar seu sustento, não coloca comida em casa; seja porque ele possui, sim, registro em carteira, mas a empresa não o permite ficar em casa, e os motivos são diversos, mas não me aprofundarei aqui. Do outro lado, existem aqueles que mesmo no conforto dos seus lares e com algumas condições financeiras e mentais, preferem ecoar o discurso da negação. Ou seja, tal epidemia não é o bicho papão que estão pintando, afinal, já temos doenças que matam muito mais e que existe um plano muito bem estruturado pelo governo (aí você decide de qual esfera estou falando) de prender as pessoas em casa e retirar o direito constitucional de “ir e vir” (seja lá o que signifique isso).

Existem outras narrativas mais, que transformaria esse singelo escrito em uma tese de doutorado, mas vou me ater em alguns temas e no final, tentarei explicar o motivo de tal insistência nossa em negar certas realidades.

Negação no cinema

Parte do meu interesse em escrever sobre o negacionismo teve a ajuda valiosa de um filme estreado em 2016 de nome Negação. A película é baseada em fatos reais[1] e mostra o caso da historiadora e escritora Deborah Lipstadt, que em 1993 publicou o livro Denying the Holocaust: The Growing Assault on Truth and Memory (Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória). Nesse livro, a autora expõe casos de pessoas sustentando a teoria de que o massacre perpetuado pelo governo nazista aos judeus na Segunda Guerra Mundial simplesmente não aconteceu. Não só isso: os números são bem menores do que 6 milhões de judeus mortos, entre outros argumentos. Deborah cita, por exemplo, o caso do escritor britânico David Irving; segundo ele, até aquele presente momento (anos 90), não tinha sido encontrado nenhum documento escrito por Adolf Hitler autorizando o extermínio sistemático de judeus. As câmaras de gás de Auschwitz não tinham a função de matar e sim, a de fumegar cadáveres; além disso, o Zyklon B (composto poderosíssimo usado originalmente para eliminar ratos) foi usado, segundo ele, para eliminar os piolhos causadores de tifo.

Irving, ao ser exposto, resolve processar Deborah por difamação e, pasmem, todo o processo decorre do fato da historiadora ter a missão de provar para o juiz que o holocausto realmente aconteceu, pois, no Reino Unido, não existe a presunção da inocência. Caso ela não tivesse respondido o processo, Irving teria ganho o caso.

Todo o processo correu por longos seis anos. O filme mostra como Deborah e sua equipe de advogados tiveram que ser extremamente habilidosos em relação a reunir documentos confiáveis e não caírem na armadilha falaciosa de Irving, pois, no que tange a processos judiciais, argumentos mal construídos podem levar a derrotas irrecuperáveis.

Diante desse filme, poderíamos questionar: se um assunto exaustivamente abordado como o Holocausto, mesmo assim é alvo de revisionismos em seus acontecimentos e ainda por cima, ganha a atenção e adesão das pessoas ao redor do mundo, por que isso acontece? Qual o interesse por trás daqueles que defendem a tese contrária à do genocídio das minorias na Alemanha? E por que algumas pessoas validam esse argumento sem questionar?

Vacinas

Atualmente, no século XXI, já temos provas contundentes que a vacina é um composto capaz de prevenir diversas doenças. A consequência da aplicação das vacinas é que um bom número de doenças tinham sido erradicadas (como a febre amarela e o sarampo). E por que não é mais?

Desde tempos remotos, populações eram contra em um primeiro momento a adesão da vacina. O medo do desconhecido sempre permeou nossas mentes. Um exemplo claro foi a Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, no Rio de Janeiro[2]. Na época, a cidade, mesmo sendo capital do Brasil, não era muito desenvolvida. O sistema de saúde era precário e o presidente Rodrigues Alves resolveu adotar uma série de reformas sanitárias, além de modernizar a cidade, claro.

Quando os cariocas viram que várias determinações arbitrárias foram tomadas como demolições de prédios, estabelecimentos fechados porque não atendiam os requisitos sanitários, o estopim foi um projeto de lei que obrigava a vacinação compulsória contra a varíola, o que acarretou em protestos, onde as pessoas depredavam delegacias e prédios públicos, tombavam bondes etc. O cenário mudou quando o governo voltou atrás quando optou por conscientizar a população dos benefícios da vacina, o que não era pregado na época.

Entretanto, ainda hoje vemos céticos propagarem inverdades sobre a vacina, dizendo que ela seria a causadora do autismo[3]. Personalidades como o ator Jim Carrey aderiu à campanha nos Estados Unidos.

Cada lugar com seu louco de estimação. Aqui no Brasil, temos como maldição o astrólogo Olavo de Carvalho. O mesmo, em 2006 publicou no seu blog Midia sem Máscara

Não tenho a menor convicção pessoal quanto às vacinas. Já li provas científicas eloquentes de que são úteis e de que são perniciosas, e me considero humildemente em dúvida até segunda ordem. Alguns de meus oito filhos tomaram vacinas, outros não. Todos foram abençoados com saúde, força e vigor extraordinários, e nenhum deles deve isso aos méritos da ciência estatal, mas a Deus e a ninguém mais. Tenho o direito às minhas dúvidas, tanto quanto Júlio Severo tem direito às suas certezas. O Estado e sua burocracia científica que vão para o diabo, que é pai dos dois.[4]

O atual guru ideológico do governo Bolsonaro confessa que alguns de seus filhos tomaram a vacina, mas não atribui a saúde dos mesmos ao vírus enfraquecido e sim, “a Deus e ninguém mais”.

Opiniões como essa podem soar como inofensivas, mas alimenta a ignorância daqueles céticos no poder da ciência, que procuram alguém para concordar com sua visão de mundo. A inserção de entidades religiosos como única ferramenta para validar a boa saúde, boas condições financeiras entre outras benesses, nega e põe em risco o trabalho de anos e anos dos cientistas para eliminar doenças há muito já superadas. Não à toa, de acordo com a ONU, a média brasileira de vacinados contra o sarampo tinha diminuído de 99% entre 2010 e 2017 para 84% em 2018.[5]

Outras narrativas como – que a propósito já aconteceu em outras épocas de epidemias e vem acontecendo como a do ‘vírus chinês’ – a de que as vacinas “são um plano arquitetado por governos para ganharem rios de dinheiro e alavancarem a economia local em consequência do próprio vírus que eles criaram” são muito poderosas e geram medo, além de provocar reações extremadas como a xenofobia.

As fake news dos “Caixões Vazios” e a negação da Covid-19

Nessa onda negacionista, alavancada por vozes dentro do governo federal e suas ramificações nos outros poderes, temos uma arauta da desgraça. Ninguém menos do que a deputada Carla Zambelli. Dentre várias mentiras pregadas durante seu curto e inexpressivo mandato, recentemente no mês passado, em uma entrevista com José Luiz Datena, Zambelli alega ter recebido informações de que no Ceará, caixões estavam sendo enterrados vazios. Na origem dessa “informação”, diz ter visto “uma foto” de uma menina carregando um caixão “com um dedinho”, e questiona esse fato. Datena apenas fica quieto. Talvez um jornalista sério teria perguntado onde ela recebeu tal informação.[6]

Como consequência dessa fake news, em Manaus, famílias estavam abrindo caixões para conferir se seus parentes estavam realmente lá, mesmo correndo riscos altíssimos de exposição ao Coronavírus.[7] Também houveram agressões a médicos que colocavam como causa mortis a Covid-19, pois as famílias simplesmente não aceitavam tal resultado.

Conclusão

Os negacionistas são pessoas que sempre estão defendendo uma narrativa contrária àquela mostrada pelos especialistas. No início, quando o que tínhamos ainda era uma epidemia, os negacionistas diziam que o coronavirus era apenas “uma gripe leve” e a OMS e imprensa eram culpados por disseminar o medo entre a população. Ao chegar no Brasil, a culpa foi transferida aos governadores e prefeitos, que impuseram a quarentena e limitaram a movimentação das pessoas, causando revolta nesse grupo. Ou seja, eles nunca são responsáveis pelo seus atos, e pior, alguns deles fazem questão de ir às ruas e colocar em risco a saúde deles e das outras pessoas, como bem explanou o jornalista Leonardo Sakamoto.[8]

Outra forma de entender a negação das pessoas em encarar a atual realidade venha do fato do vírus ter se espalhado em uma velocidade tão repentina e feroz, além de uma imposição em ficar em casa contra a nossa vontade, por isso, talvez “a ficha ainda não tenha caído”

O negacionismo claramente é endossado por pessoas de má índole, principalmente aquelas que colocam a economia acima da saúde da população e incita o ataque aos profissionais que estão trabalhando na linha de frente de combate a Covid-19. Tal discurso encontra nas mentes mais ignorantes um terreno fértil para disseminação das mentiras e um retorno a “vida normal”. Sabemos que na “vida normal” o vírus veio justamente por causa de violações extremadas a natureza e a vida animal. Será que queremos esse retorno?

Fontes:

[1] Como uma pesquisadora foi parar no tribunal para provar que o Holocausto aconteceu – Revista Época. https://epoca.globo.com/como-uma-pesquisadora-foi-parar-no-tribunal-para-provar-que-holocausto-aconteceu-23086662. Acesso em 19/05/2020.

[2] Revolta da Vacina – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=SlsHN-OWCkw. Acesso em 20/05/2020

[3] Teorias da Conspiração – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=meLRzQr8e6s. Acesso em 20/05/2020

[4] Vacinas – Blog do Júlio Severo. http://juliosevero.blogspot.com/2006/07/olavo-de-carvalho-fala-sobre-questo.html. Acesso em 20/05/2020

[5] A Volta do Sarampo: por que as taxas de vacinação diminuíram?. http://www.enf.ufmg.br/index.php/noticias/1590-a-volta-do-sarampo-por-que-as-taxas-de-vacinacao-diminuiram. Acesso em 20/05/2020

[6] Diário do Centro do Mundo. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-datena-zambelli-espalha-fake-news-de-que-caixoes-estao-sendo-enterrados-vazios/#disqus_thread. Acesso em 22/05/2020

[7] Yahoo Notícias. https://br.noticias.yahoo.com/familias-abrem-caixoes-a-beira-das-covas-coletivas-para-ter-certeza-de-que-estao-enterrando-seus-parentes-em-manaus-161006292.html. Acesso em 22/05/2020

[8] COVID-19: como pensa um negacionista?https://www.youtube.com/watch?v=DClKHI29Ct4. Acesso em 22/05/2020

Leitura de Hoje: O Diabo

Olá, leitores!

Retomando um post sobre leituras que comecei há muito tempo, ironicamente nesta quarentena estou lutando contra o não hábito da leitura, pois nunca fui muito adepto a ler em casa. Meu ritmo sempre foi casa-trabalho e, como trabalho longe, aproveitava esse percurso para ler no transporte público, eu consigo me concentrar mais. Porém, agora a rotina é outra e estamos num período de adaptação.

Pois bem, como retomada, escolhi um livro curto (apenas 64 páginas) de nome “O Diabo” de Leon Tolstói, da editora L&PM Pocket. Acredito que eles nem façam mais esse tipo de publicação, pois nunca mais vi nas bancas ou nas feiras de livros. Outro motivo pela escolha é que eu sempre fui fã dos autores russos mais famosos. Mantenho dentre minhas leituras preferidas Tolstói e Dostoiévski. O modo como eles retratam aspectos da sociedade da época e o sentimento humano sempre me tocaram, mesmo sendo as vezes numa linguagem um pouco complicada de decifrar.

Segue um resumo do conto, publicado no site da Editora L&PM:

Poucos escritores penetraram tão fundo na alma dos seus personagens quanto Leon Tolstói, dono de uma técnica narrativa certeira­ e cristalina. É o que pode ser visto em “O diabo”, conto escrito em 1898. De origem autobiográfica – e provavelmente em razão disso –, o texto só foi publicado postumamente, em 1916, já que Tolstói­ o escondera por considerá-lo escandaloso. “O diabo”­ trata de questões caras ao autor de Guerra e paz: o papel do casamento,­ do sexo e das relações amorosas, bem como a responsabilidade moral dos indiví­duos. Na história, Evguêni, um bacharel em direito,­ se envolve com uma bela camponesa da região, num caso que teria tudo para ser esquecido e relegado às loucuras de juventude. Mas Evguêni é jovem, e não percebe que está criando armadilhas para si mesmo…

Tolstoi coloca o protagonista como uma pessoa de perfil conservador, que mantém planos de gerir bem a herança deixada pelo pai (que fez o contrário, por sinal), ter um emprego de destaque e, claro, casar-se. Ou seja, mesmo sendo jovem, Evguêni tinha pensamentos para um futuro a longo prazo, mas isso não significava que ele não queria aproveitar a vida, no sentido afetivo. Por isso, seu objetivo era se envolver com camponesas, porém, sem nada fixo, pois o matrimonio não era seu objetivo naquele momento.

Após um encontro com Stepanida, uma camponesa esposa de um militar que estava em serviço, Evguêni se sente atraído pela mesma, pedindo cada vez mais encontros através de um intermediário, porém, ele mantinha seu controle emocional, sabia que aquilo era momentâneo. Tanto que após um tempo, ele resolveu se casar e esqueceu Stepanida.

Anos haviam se passado e Evguêni estava com uma vida próspera e com a vinda de um filho, as coisas iam “de vento em popa”, até que em um dia comum de faxina na casa, Liza, sua mulher resolve contratar duas mulheres para fazer o serviço completo, uma delas era justamente Stepanida… e isso acaba deixando Evguêni com sentimentos controversos.

Não vou colocar spoilers, mas adianto que esse conto ainda possui dois finais e ambos são publicados. O que achei interessante no livro foi como por trás da roupagem conservadora da burguesia, que procura mostrar que são pessoas corretas e moralmente responsáveis (muitas delas carregando uma base de cunho religioso), na realidade, muitos aspectos são bem diferentes. Recomendo a leitura!

Anthony Almeida

O Jair que há em nós

Créditos da foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Capitão do Exército expulso da corporação por organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.

Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.

Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.

No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.

Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.

O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.

O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.

Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.

Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. Como aquele desejo do menino piromaníaco que era obcecado pelo fogo e pela ideia de queimar tudo a sua volta, reprimido pelo controle dos pais e da sociedade. Reprimido por anos, um dia ele se manifesta num projeto profissional que faz do homem adulto um bombeiro, permitindo-lhe estar perto do fogo de uma forma socialmente aceitável.

Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.

Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.

Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.

Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.

O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.

Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.

O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício.

Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo.

Publicado originalmente aqui.