35 filmes para questionar o Capitalismo

Esse post, originalmente publicado por Antonio Santos no Diário Liberdade tem como título principal “Os 35 melhores filmes da esquerda”. A seleção é muito rica e por isso estou compartilhando, mas sobre o título, não compartilho da mesma ideia pois não acredito que os filmes tenham especificamente um viés de esquerda, uma ideologia completa em si. Eles contém sim um forte conteúdo social, econômico e político e infelizmente não perderam a sua validade no que tange as denúncias mostradas. Apenas um ponto a ressaltar, mas recomendo vivamente.

Anthony Cardoso

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Esta lista, inevitavelmente incompleta e truncada de injustiças, resgata da História do Cinema as melhores e mais belas encarnações dos ideais da esquerda.

35º Capitalismo, uma História de Amor (Capitalism, a Love Story)

País: Estados Unidos da América

Ano: 2009

Realizador: Michael Moore

Esta história de amor é o retrato da crise do capitalismo a partir do seu próprio berço. De Michael Moore, também poderíamos incluir Sicko ou Bowling for Columbine, mas Capitalismo corresponde ao zénite da evolução ideológica do realizador norte-americano, não acabasse o filme ao som da Internacional. Mas sobretudo, o documentário perfaz a lista pelos relatos dramáticos dos trabalhadores que pagam na pele o preço do amor dos EUA pelo capitalismo.

34º As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath)

País: Estados Unidos da América

Ano: 1940

Realizador: John Ford

O clássico de Steinbeck encontra uma justa homenagem nesta adaptação de John Ford. As Vinhas da Ira conta a história de uma família de camponeses que, expulsa pelos latifundiários das terras onde viviam e trabalhavam, é forçada a uma longa viagem rumo à Califórnia em busca de trabalho. Pelo caminho, encontram a fome e a discriminação, mas também a solidariedade, a consciência de classe e a dignidade.

33º Sambizanga

País: Angola

Ano: 1973

Realizador: Sarah Maldoror

Sambizanga arruma com o mito do “brando colonialismo português” numa clara e inequívoca afirmação da estética e cultura africanas. Domingos, militante do MPLA, é sequestrado pela PIDE e torturado durante vários dias. Entretanto, a sua família procura-o desesperadamente entre o desespero do povo angolano. Filmado no Congo com guerrilheiros do MPLA e do PAIGC na maioria dos papéis e baseado na obra de José Luandino Vieira, Sambizanga é um dos mais poderosos filmes anti-coloniais de todo o continente africano.

32º Clube de Combate (Fight Club)

País: Estados Unidos da América

Ano: 1999

Realizador: David Fincher

Quando o capitalismo não nos mata de fome, mata-nos de aborrecimento. O Narrador, magnificamente interpretado por Edward Norton, consome-se entre catálogos IKEA e a voragem da rotina. Alienado do seu próprio trabalho, da sociedade e de si próprio, conhece Tyler Durden um perigoso maníaco que pretender explodir o mundo financeiro.

Muita tinta já correu sobre o Clube de Combate, que tal como o livro homónimo, já foi acusado de proto-fascista, sexista e niilista. Mas como dizia Saramago, todas as histórias se podem contar de outra maneira.

31º Doutor Estranhoamor (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)

País: Estados Unidos da América

Ano: 1964

Realizador: Stanley Kubrick

Poucas etiquetas políticas cabem na lapela de Kubrick mas Doutor Estranhoamor é em si mesmo, um manifesto político. Rodada no auge da guerra fria, quando a sombra de um holocausto nuclear pairava sobre as cabeças de toda a humanidade, esta sátira expõe ao ridículo a lógica anti-comunista da América do senador McCarthy. Curiosamente, 50 anos mais tarde, os EUA estão de novo no centro de uma escalada de provocações nucleares. A única diferença, é que ainda não acusaram os coreanos de querer envenenar o abastecimento de água dos EUA.

30º Machuca

País: Chile

Ano: 2004

Realizador: Andrés Wood

Chile, 1973. Dois rapazes são unidos pela amizade e separados pelas classes sociais. Este é um filme sobre a adolescência, com toda a esperança e violência que ela comporta e, por isso mesmo, a melhor lente sobre a História recente do Chile. Mas Machuca é muito mais do que uma rara janela para a experiência socialista de Allende e uma crítica à podridão da burguesia que engendrou Pinochet. É por direito, um dos melhores filmes chilenos alguma vez produzidos.

29º Inside Job – A Verdade da Crise (Inside Job)

País: Estados Unidos da América

Ano: 2010

Realizador: Charles Ferguson

Inside Job – A Verdade da Crise, obra prima de Ferguson, é um documentário que todos deveríamos ver. Num momento em que os desejos e caprichos do Deus-Mercado são cada vez mais descritos como insondáveis e ininteligíveis pelos comuns mortais, este filme explica as origens da crise capitalista que hoje vivemos de uma forma brilhante. Ferguson entrevista os maiores responsáveis directos pela crise, encosta-os à parede e faz o nosso sangue ferver.

28º A Batalha do Chile (La Batalla de Chile)

País: Chile

Ano: 1978-1980

Realizador: Patricio Guzmán

A Batalha do Chile é justamente considerado o melhor documentário latino-americano de todos os tempos. Justamente. No total, são quatro horas e meia de História com H grande, centrada na luta dos trabalhadores, nas conquistas da sua revolução e na resistência ao fascismo. Mas nenhuma das três partes que compõem A Batalha do Chile são filmes de arquivo: tudo foi filmado no momento e no local. O operador de câmara Jorge Müller Silva foi sequestrado pela polícia de Pinochet durante as filmagens e é um dos 3000 chilenos que continuam desaparecidos.

27º Norma Rae

País: Estados Unidos da América

Ano: 1979

Realizador: Martin Ritt

Tal como todos na sua família e nesta pequena cidade da Carolina do Norte, Norma Rae (uma impecável Sally Field) trabalha na fábrica de algodão. Recebe o salário mínimo e parece condenada a aceitar todas as condições que o patrão lhe impõe. Até que um dia, chega Reuben Warshowsky (Ron Leibman), um sindicalista decidido a organizar os trabalhadores da fábrica. Baseado em factos reais, Norma Rae é uma homenagem despretensiosa à operária americana como ela é e à luta que tem em comum com os trabalhadores do mundo.

26º Cinco Dias, Cinco Noites

País: Portugal

Ano: 1996

Realizador: José Fonseca e Costa

José Fonseca e Costa consagrou-se neste filme como um dos mais competentes realizadores portugueses. Cinco Dias, Cinco Noites é uma espantosa e fidedigna viagem ao Portugal dos anos 40. Conta a viagem de um preso político evadido que procura cruzar a fronteira com a ajuda de um intratável “passador”. A antipatia entre os dois homens dá lugar a uma bela amizade nesta excelente adaptação ao cinema do romance homónimo de Manuel Tiago, pseudónimo de Álvaro Cunhal.

25º O Fim de São Petersburgo (Конец Санкт-Петербурга)

País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Ano: 1927

Realizador: Vsevolod Pudovkin

Um camponês desempregado chega a São Petersburgo à procura de trabalho. Sem querer, acaba por denunciar um velho amigo à polícia, que o envia para a frente de batalha da I Guerra Mundial. O Fim de São Petersburgo é poesia celuloide em estado puro, 80 minutos de beleza intensa e golpes poderosos. É o irmão gémeo do famoso Outubro de Eisenstein mas ao contrário deste, que se centra nas massas, Pudovkin dedica-se ao indivíduo e à sua importância na revolução, sem nunca no entanto o demitir da sociedade, da sua classe e do seu partido.

24º Os Edukadores (Die Fetten Jahre sind Vorbe)

País: Alemanha e Áustria

Ano: 2004

Realizador: Hans Weingartner

Uma estudante universitária tem um pequeno acidente de carro. Até aqui tudo bem. Acontece que não tinha seguro. Menos bem. E a isto acresce que o tipo do carro da frente, não é nem mais nem menos que um dos maiores bilionários do país e que os danos provocados valem dezenas de milhares de euros. Condenada em tribunal a pagá-los por inteiro, a jovem é forçada a deixar os estudos e a aceitar empregos precários por salários de miséria. Mas quando não se tem nada, também não se tem nada a perder. Os Edukadores correspondem o terror dos capitalistas na mesma medida. Como? A) Entrar furtivamente nas mansões dos ricos B) Criar pirâmides com toda a mobília e alterar toda a configuração da casa. C) Deixar uma nota: “Os vossos dias de abastança acabaram”.

23º Os Santos Inocentes (Los Santos Inocentes)

País: Espanha

Ano: 1984

Realizador: Mario Camus

Ver Os Santos Inocentes é como entrar num museu cheio de Goyas. As cenas lúgubres, cinzentas e magistralmente bem compostas podem-nos fazer duvidar do século em que o filme tem lugar, mas esta família espanhola sobrevive sem água nem electricidade nos vizinhos anos 60. O arcaísmo do latifúndio como ele é: um sistema medieval onde os caprichos dos senhores valem mais que a vida dos camponese.; Mas até nesta enorme prisão a céu aberto que reduz mulheres e homens a cães de caça (literalmente), todas as criaturas têm um limite.

22º Queimada

País: Itália

Ano: 1969

Realizador: Gillo Pontecorvo

Um provocador inglês enviado à ilha fictícia de Queimada para incitar uma revolta de escravos contra o colonialismo português. Os ingleses servem-se dos sentimentos independentistas dos escravos para se apropriarem eles próprios do comércio do açúcar, mas a revolta dos escravos ganha pernas próprias e prova-se difícil de controlar. Marlon Brando é irrepreensível no papel de William Walker, um cínico mercenário inglês que compreende demasiado bem a lógica do lucro e a desumanidade do colonialismo para lhes ser indiferente.

21º Matewan

País: Estados Unidos da América

Ano: 1987

Realizador: John Sayles

Este filme é uma refrescante surpresa de Hollywood, que com um elenco salpicado de estrelas (Chris Cooper, James Earl Jones, Mary McDonnell, etc.) e numa linguagem típica dos blockbusters, narra a Batalha de Matewan, na Virgína Ocidental, com acuidade histórica e destemido comprometimento político. O argumento centra-se na chegada de Joe Kenehan, sindicalista e comunista à pequena comunidade mineira de Matewan, onde se dará uma batalha de classes pela dignidade contra o racismo, o capitalismo e a exploração do homem pelo homem.

20º Também a Chuva (También la Lluvia)

País: Espanha, México, Bolívia e França

Ano: 2010

Realizador: Icíar Bollaín

Um dos filmes mais inteligentes dos últimos anos, cheio de subtilezas e resultado da colaboração de pesos pesados da sétima arte como o guionista Paul Laverty e os actores Gael García Bernal e Luis Tosar. Com apurada sensibilidade, Icíar Bollaín apresenta-nos uma equipa de rodagem espanhola que ruma à Bolívia para, ao mais baixo preço, filmar um documentário sobre a chegada de Cristóvão Colombo à América. Paulatinamente, o guião do documentário, que narra a história do genocídio e resistência dos indígenas, inspira e reflecte uma luta de vida ou morte contra a privatização da água, em que os índigenas contratados como extras se decidem a ser, de uma vez por todas, protagonistas da sua própria História. Uma bela história, sobre um povo ajoelhado que aprende a caminhar.

19º Os Diários de Motocicleta (Diarios de motocicleta)

País: Argentina, Chile, EUA, Peru, França. Alemanha e Reino Unido

Ano: 1969

Realizador: Walter Salles

Baseado nos diários do Guerilheiro Heroico, este filme biográfico consegue a proeza rara de contar a travessia trans-americana do jovem Ernesto de acordo com a máxima do mesmo: duramente, mas sem perder a ternura. Produção internacional de uma rara beleza, Os Diários de Motocicleta mostram uma América explorada e ajoelhada, mas igualmente o profundo amor dos comunistas à humanidade, ao ponto de morrer por ela e também de nos fazer chorar.

18º A Greve (Стачка)

País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Ano: 1925

Realizador: Sergei M. Eisenstein

A primeira longa-metragem de Eisenstein faz os filmes mudos coevos parecerem anémicos. A Greve é uma obra de arte tão original como arriscada, que define já a finura de Eisenstein e, por corolário lógico, a genética do cinema moderno. Ao contrário de muitos outros filmes mudos da época, os actores não precisam de exagerar as expressões faciais para compensar com histrionismo a incapacidade de falar. Eisentein consegue tudo por todos os meios. Através de colagens, ângulos de câmara loucos, rápidas sequências entrecortadas e efeitos especiais, ficamos a conhecer a miséria dos operários russos, as suas reivindicações, a sua corajosa luta e, por fim, a sua brutal supressão.

17º A Melhor Juventude (La meglio gioventù)

País: Itália

Ano: 2003

Realizador: Marco Tullio Giordana

Seis horas de filme não é brincadeira. Mas em A Melhor Juventude não há nem um minuto em excesso e o resultado final prima pelo brilhante exercício de economia. É que Giordanna está a contar-nos a história de um grupo de amigos ao longo de 50 anos e qualquer grupo de amigos a sério tem muito que contar. As actuações são brilhantes e o argumento é tocante. Mas o que mais sobressai, é a honestidade com que se aborda a história recente de Itália, das lutas dos estudantes universitários às Brigadas Vermelhas até à diluição dos ideais socialistas. Um filme que todos deveriam conhecer.

16º Che

País: Espanha, França, EUA

Ano: 2008

Realizador: Steven Soderbergh

O Che dizia que numa revolução, se for verdadeira, ou se triunfa ou se morre. As duas partes deste filme revelam a crueza da guerra revolucionária, para lá de quaisquer fantasias esquerdistas. Benicio del Toro converte-se em Guevara com tanta arte que nada nas suas palavras, nos seus trejeitos ou mesmo na sua aparência física o denuncia. Che é uma sublime e original lição de humanidade, que salpica com generosidade e comunismo os mais ínfimos detalhes de uma guerra tão sangrenta e brutal como cada vez mais necessária.

15º Estado de Sítio (État de Siège)

País: França e Itália

Ano: 1972

Realizador: Costa-Gavras

Costa-Gavras foi um dos realizadores mais politicamente comprometidos do século passado. E também um dos melhores. Em Estado de Sítio, o génio grego explora as brutais consequências do imperialismo norte-americano nos regimes sul-americanos. Com Yves Montand e Renato Salvatori nos papéis principais, o filme segue o grupo de guerrilha urbana durante o sequestro e interrogatório de um dirigente da CIA. Baseado no sequestro de Dan Mitrioni pelos Tupamaros uruguaios, Estado de Sítio foi apedrejado pelos críticos de cinema dos EUA que o acusaram de propagandear mentiras sobre o envolvimento dos EUA na promoção de ditaduras na América do Sul. Um ano mais tarde, a CIA oferecia o Chile para abate a Pinochet.

14º Brisa de Mudança (The Wind that Shakes the Barley)

País: Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Itália, Espanha, França, Bélgica e Suíça

Ano: 2006

Realizador: Ken Loach

Da Irlanda à Colômbia, passando pelo País Basco ou pelo Vietname, há um sentimento que predispõe povos pacíficos a se levantarem em armas para matarem os seus irmãos. É do antiquíssimo sentimento de humilhação que trata este filme. É pesado, triste e duro de se ver, mas indispensável para quem pretender compreender a luta dos irlandeses pela liberdade. Com trabalhos de fotografia e direcção de primeira classe, Ken Loach traz-nos aos anos vinte do século XX irlandês, para conhecer o trágico percurso de dois irmãos no IRA.

 

13º Apocalyspe Now

País: Estados Unidos da América

Ano: 1979

Realizador: Francis Ford Coppola

Um dos clássicos do cinema americano e provavelmente a melhor adaptação ao cinema de qualquer livro. Baseado no Coração das Trevas de Joseph Conrad, Apocalypse Now substitui o colonialismo belga no Congo pelo imperialismo norte-americano no Vietname, denunciando a monstruosidade da guerra e a desumanização dos soldados. Fotografado com a mestria de Coppola, Apocalypse Now é uma poderosa metáfora sobre a natureza humana e o mais competente dos ensaios cinematográficos sobre a guerra.

12º Outubro (Октябрь (Десять дней, которые потрясли мир))

País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Ano: 1927

Realizador: Sergei M. Eisenstein

Estreado no quadro das comemorações do 10º aniversário da Revolução de Outubro, o filme Outubro é uma revolução em si próprio: a abordagem à teoria da montagem de Eisenstein desconstrói a formalidade narrativa do cinema convencional e introduz a edição e a pós-produção como meios de alcançar a dialética. Esteticamente tão arrojador como o período histórico que retrata, Outubro definiu para sempre o imaginário mundial da revolução socialista russa.

 

11º Eu Sou Cuba (Soy Cuba)

País: Cuba e União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Ano: 1964

Realizador: Mikhail Kalatozov

Eu sou Cuba é o impensável resultado da colaboração entre um poeta e um realizador soviéticos, e um escritor cubano, que contam a História de Cuba na primeira pessoa. Uma nação arrastada pelos rodapés de historiografias estrangeiras levanta-se do chão e consegue a verdadeira independência. Eu Sou Cuba é inacreditável, uma viagem sideral filmada num preto e branco belissimamente fotografado. Os ângulos de câmara são acrobáticos, os cortes são psicadélicos e a música é autenticamente cubana.

 

10º Reds

País: Estados Unidos da América

Ano: 1981

Realizador: Warren Beatty

Esta mega-produção de Hollywood entra no décimo lugar da lista pela porta grande da sétima arte. Não sei o que neste filme é mais apaixonante: as inspiradoras actuações de Jack Nicholson, Diane Keaton, Maureen Stapleton e, sobretudo Warren Beatty no papel de John Reed (o jornalista americano que no calor da Revolução de Outubro escreveu “Os Dez Dias que Abalaram o Mundo”)? Ou o brilhante guião que nos transporta aos loucos anos 20, às eternas discussões e contradições da esquerda e ao mais relevante acontecimento histórico do século XX? Ou as adoráveis entrevistas a uns improváveis e brilhantes velhinhos americanos?

9º Às Segundas ao Sol (Los Lunes al Sol)

País: Espanha

Ano: 2002

Realizador: Fernando León de Aranoa

Um monumento à classe operária como ela é e não como nós gostaríamos que ela fosse. A história dos operários navais de Vigo, na Galiza, a quem o capitalismo roubou o trabalho, a vida e a esperança mas nunca a dignidade. Um filme que só não fará chorar os ricos e os corações empedernidos que nos fala das pequenas misérias e prazeres do povo trabalhador: a operária de peixaria que não se consegue libertar do fedor; o imigrante de leste que conta aos amigos que na URSS era cosmonauta; o desempregado de meia-idade que se recusa a aceitar que ninguém lhe dá trabalho por ser velho demais; o antigo operário que lutou, fez greves e manifestações que perdeu e voltaria a fazer tudo outra vez; o cínico que traiu a sua classe por uns trocos. O retrato perfeito de quem sobrevive num eterno domingo.

8º Tempos Modernos (Modern Times)

País: Estados Unidos da América

Ano: 1936

Realizador: Charlie Chaplin

A arte de Charlie Chaplin é agarrar um argumento sem nada de especial e num conjunto de cenas cómicas do mais simples que há e criar uma das obras primas do cinema: uma peça de arte de valor cinematográfico, artístico e histórico transcendente, que ressoa através do tempo e chega aos nossos com a mesma autoridade. O protagonista é um trabalhador que apenas quer levar uma vida honesta e ganhar para o pão, mas por alguma razão, tudo lhe corre mal e essa razão chama-se capitalismo.

7º Horizontes de Glória (Paths of Glory)

País: Estados Unidos da América

Ano: 1957

Realizador: Stanley Kubrick

Horizontes de Glória é talvez a obra cinematográfica que melhor personifica os ideias anti-belicistas da esquerda. A película leva-nos às trincheiras fratricidas da I Guerra Mundial, onde seres humanos são jogados contra a lógica no campo de batalha pelos burocratas da morte. Quando um batalhão se recusa a avançar para uma morte certa, quatro soldados são escolhidos para ser fuzilados como bodes-expiatórios, pondo em marcha um debate marcante sobre o nacionalismo burguês, a autoridade e o valor da vida.

 

6º O Ódio (La Haine)

País: França

Ano: 1995

Realizador: Mathieu Kassovitz

O Ódio é um murro no estômago. Nesta Paris já não mora Amélie Poulain. Nesta França não há gente bonita a sonhar acordada entre os cafés dos anos sessenta, os jardins renascentistas e os apartamentos Haussmann. O Ódio é uma viagem com os excluídos da sociedade francesa, os que cheiram mal e não gostavam da escola. Não paternaliza nem idealiza, limita-se a seguir e a escutar os embaixadores da racaille, que cometem pequenos crimes, enfrentam os neonazis e o desprezo da sociedade, mantêm alguns dos diálogos mais autênticos do cinema francês e, contra todas as expectativas, sonham.

 

5º Harlan County, USA

País: Estados Unidos da América

Ano: 1976

Realizador: Barbara Kopple

Como cantam os mineiros no filme, “Dizem que em Harlan County / por lá não há neutrais. / Ou és um sindicalista / ou um arruaceiro para o J. H. Blair. / De que lado estás, rapaz? / De que lado estás?” Este documentário está para os anos setenta como Outubro de Eisenstein está para os anos 20: é um autentico manual de organização de greves e um indescritível testemunho da coragem dos mineiros americanos. Os protagonistas desta luta, especialmente as mulheres, são tão genuínos que reduzem as personagens de qualquer obra de ficção a meras caricaturas. Nunca ouvi falar de quem terminasse o filme com os olhos secos.

4º O Sal da Terra (The Salt of the Earth)

País: Estados Unidos da América

Ano: 1954

Realizador: Herbert J. Biberman

“Como posso começar a minha história que não tem começo? O meu nome é Esperanza, Esperanza Quintero. Sou a mulher de um mineiro. Esta é a nossa casa. A casa não é nossa. Mas as flores… as flores são nossas. Esta é a minha aldeia. Quando eu era uma criança, chamava-se São Marcos. Os “anglos” mudaram o nome para Zinc Town. Zinc Town, Novo México. As nossas raízes neste lugar são profundas. Mais profundas que os pinheiros, mais profundas que a mina”. Assim começa O Sal da Terra, que esteve banido nos Estados Unidos até aos anos 60. Todos os envolvidos na sua produção foram adicionados à infame lista negra do cinema norte-americano; a protagonista foi deportada para o México e o argumentista passou mais de um ano na prisão. Porquê? Porque este filme é perigoso por ser simultaneamente tão belo e tão corajoso. A luta dos mineiros norte-americanos vista de uma perspectiva de classe em que as mulheres e os imigrantes são líderes e iguais.

3º A Batalha de Argel (La battaglia di Algeri)

País: Argélia e Itália

Ano: 1966

Realizador: Gillo Pontecorvo

A Batalha de Argel, banido em dezenas de países e censurado em quase todos. A magnum opus de Pontecorvo não se comociona com o falso humanismo burguês nem cede à vertigem infanto-militarista do esquerdismo. Num corte de direcção geniais e com actores tão hábeis que muitos espectadores acreditaram tratar-se de um documentário, mergulhamos numa das mais sangrentas revoluções da História e somos forçados a colocarmo-nos de um dos lados desta brutal barricada, opção que os oprimidos nunca tiveram. Nenhuma outra narrativa cinematográfica descreve de forma tão vívida e detalhada a revolta dos povos colonizados e as questões que A Batalha de Argel coloca são tão válidas para a Argélia dos anos 50 como para o Afeganistão dos nossos dias.

2º O Couraçado de Potemkin (Броненосец «Потёмкин»)

País: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Ano: 1925

Realizador: Sergei M. Eisenstein

Aos 88 anos, este filme mudo ainda não perdeu o pio. Pelo contrário, O Couraçado de Potemkin é uma lufada de frescura e ousadia no sapal por onde hoje paira o cinema comercial. A obra-prima de Eisenstein, não é nem mais nem menos que a obra fundadora do cinema moderno, tão bela como inspiradora, tão transgressora formal e esteticamente como revolucionária politicamente. Eisenstein domina a celuloide como Miguel Ângelo domina a pedra ou Matisse domina a cor e consegue levar-nos a cada emoção, a cada surpresa, a cada momento de indignação e solidariedade com tanta subtileza que só nos apercebemos do caminho percorrido chegados ao fim da jornada. Esta é a história verídica dos marinheiros que se recusaram a comer carne podre, porque eram gente. Esta é a história da luta de vida ou morte que se seguiu pela dignidade dos trabalhadores de Odessa, porque também eram gente. Esta é a história do massacre policial que se seguiu e das vozes que não puderam estrangular, porque, como dizia Adriano Correia de Oliveira, ninguém pode vencer um povo que resiste.

1º 1900 (Novecento)

País: Itália, França e Alemanha Ocidental

Ano: 1976

Realizador: Bernardo Bertolucci

1900 é inigualável. Os campos da Emília-Romanha são a tela para a metáfora acabada do que foi o século XX, onde dois rapazes e duas classes sociais crescem e aprendem, separados por interesses inconciliáveis. Cada fotografia deste filme é um quadro repleto de beleza; todas as actuações, de Gérard Depardieu a Robert de Niro, são brilhantes; a música, de Ennio Morricone, é sublime. 1900 fala sobre a génese do fascismo, a vida dos que trabalham e a luta pelo socialismo na linguagem comum de toda a humanidade: o amor, o ódio, a compaixão e a solidariedade.

Antonio Santos Via Diário Liberdade

Aos Homens da Inglaterra

Homens da Inglaterra, por que arar
para os senhores que vos mantêm na miséria?
Por que tecer com esforço e cuidado
as ricas roupas que vossos tiranos vestem?
Por que alimentar, vestir e poupar
do berço até o túmulo,
esses parasitas ingratos que
exploram vosso suor – ah, que bebem vosso sangue?

Por que, abelhas da Inglaterra, forjar
muitas armas, cadeias e açoites
para que esses vagabundos possam desperdiçar
o produto forçado de vosso trabalho?
Tendes acaso ócio, conforto, calma,
abrigo, alimento, o bálsamo gentil do amor?
Ou o que é que comprais a tal preço
com vosso sofrimento e com vosso temor?

A semente que semeais, outro colhe.
A riqueza que descobris, fica com outro.
As roupas que teceis, outro veste.
As armas que forjais, outro usa.
Semeai – mas que o tirano não colha.
Produzi riqueza – mas que o impostor não a guarde.
Tecei roupas – mas que o ocioso não as vista.
Forjai armas – que usareis em vossa defesa.

Poema de Shelley citado em Huberman, Leo, História da Riqueza do Homem, Zahar Editores, 17ª ed.

Manifesto Comunista em quadrinhos

Obra clássica de Karl Marx, escrita no calor da Revolução de 1848, situa o proletariado e a burguesia como as novas faces oriundas das antigas classes situadas na história. Os propósitos da Liga Comunista se encontram nesse opúsculo, onde ao lermos esse importante estudo, notamos que algumas situações ainda são evidentes ao nosso tempo

Disponível aqui: http://www.4shared.com/office/tYXsmX_c/Manifesto_comunista_quadrinhos.html?

Anthony Cardoso

A Guerra Fria do século XXI – a estruturação de uma nova ordem.

UMA GUERRA SIGILOSA

Falarmos de uma nova Guerra Fria, mesmo com ressalvas, pode parecer para alguns anacronismo puro. Mas quando olhamos o novo concerto mundial e seus detalhes mais minuciosos, que são os mais explicativos, fica claro e subentendido que o cenário internacional vive uma disputa entre potências. Não vivemos uma pós Guerra Fria, nem mesmo uma reedição, e tão pouco uma neo Guerra Fria; mas uma Guerra Fria aos moldes do século XXI, com traços e atores diferentes da época do mundo bipolarizado.

Afinal, o que se diferencia do antigo conflito capitalismo versus comunismo do atual? Se no século XX, havia duas propostas de modelo econômico, agora já não há. O que era bi tornou-se multipolarizado. No embate entre Estados Unidos e União Soviética não havia nenhum disfarce ou maquiagem da animosidade suscitada entre eles; no entanto, o tácito, o olhar desconfiado, o “tapinha nas costas” é a tônica mais significativa das relações internacionais entre as superpotências no seu atual acirramento.

Desde o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os Estados Unidos se firmaram como uma nação protagonista. Sua relevância política, militar, econômica, geopolítica e cultural se manteve (e se mantém) na atual conjuntura. Juntamente com os norte-americanos, as grandes potências européias – Alemanha, França, Inglaterra (principal aliada estadunidense) –, articuladas dentro da União Européia (EU), tem um poder relevante nos destinos de outras nações. Desta forma, construiu-se um “grande bloco ocidental” com instituições financeiras, bélica, político-diplomática, que asseguram e disseminam seus valores e diretrizes gerais: como o FMI (Fundo Monetário Internacional), Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), OMC (Organização Mundial do Comércio) e ONU (Organização das Nações Unidas) – apesar desta última conter países de todos os continentes, sua força-base é ocidental. Basta vermos os membros permanentes do conselho de segurança: EUA, Inglaterra, França, Rússia e China.

Fazendo um contra ponto, do Oriente levantam-se duas peças chaves do tabuleiro mundial, Rússia e China. Para qualquer país com pretensões de soberania, influência e liderança global, os dois gigantes asiáticos têm que estar no começo da agenda para a realização de tais planos – tamanho é o grau de importância dessas nações.

A verdade é que chineses e russos nunca falaram tão bem a mesma língua como agora, nem mesmo na época da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Pequim e Moscou vem criando uma aliança bem estruturada, deixando o Ocidente em alerta. O marco-símbolo dessa união se materializou na Organização de Cooperação de Xangai (SCO na sigla em inglês) fundada em 2001, que ainda têm como membros Cazaquistão, Uzbequistão, Quirquistão e Tadjiquistão – todos ex-membros da extinta União Soviética.

Sendo assim configura-se o quadro que pintaremos aqui – uma luta que se desenrola na atmosfera macro das relações internacionais, mas que nas micro situações, nos pontos mais diversos do globo, se reflete com clareza o que acontece no âmbito superior das potências-líderes, como podemos ver a seguir.

Russos e venezuelanos fecham há pelo menos meia década diversos contratos financeiros nas áreas militar, química e econômica, desagradando Washington, desafeto declarado do presidente da Venezuela Hugo Chavez; a insistente implantação de um escudo antimíssil por parte dos EUA nos países do Leste Europeu (República Tcheca, Polônia), vem contrariando. Moscou profundamente, com apóio dos membros da SCO; a intervenção na Líbia pela Otan e as sanções à Síria e Irã, ao qual China e Rússia se posicionam completamente contra, contrariando americanos e europeus; a tensão entre as coréias,em que EUAe EU, Rússia e China se colocam completamente divergentes, são apenas algumas das situações que veremos mais de perto ao longo do texto, onde fica claro que o mundo caminha para uma repartição – o que para alguns pode parecer exagerado, mas possível.

Outra questão caracterizadora desta nova guerra é a necessidade de alinhar-se e estreitar relações com países-chaves das suas regiões. Se antes as nações se aproximavam quase que naturalmente do bloco comunista ou capitalista, hoje as grandes potências é que vão ao seu encontro. Como no caso do Brasil, uma força continental; Índia, fundamental para os americanos a fim de conterem China e Rússia na região asiática; Paquistão: sua simpatia é disputada por EUA e China, primeiro por ser uma nação com armas nucleares, e segundo pela forte influência política que ela pode gerar para uma possível pacificação do vizinho Afeganistão; e Turquia, rota obrigatória para os dutos de energia que vem da Ásia Central direcionado a Europa, que Moscou e Washington disputam ferrenhamente.

Ou seja, o mundo está mudando, e cabe a nós estarmos atento para tanto. E quando conseguimos ver essa transformação de forma clara e nítida, sentimo-nos donos da história, agentes dela, pois ao compreendê-la temos mais força e precisão para guiarmos as nossas ações mais assertivamente e assim mudar o seu rumo.

A VOLTA DO GIGANTE RUSSO

No próximo mês de dezembro completara-se 20 anos do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, um império continental que tirou o sono por mais de 50 anos do lado ocidental da Europa e dos EUA. Sua política autoritária juntamente com seu poderio militar fizeram os soviéticos dividirem o mundo com os americanos. Mas 20 anos depois os russos já não invadem países (como na Hungria em 1956 e Tchecoslováquia em 1968) com seus tanques, muito menos impõem a outras nações diretrizes a serem seguidas à risca (como as do partido comunista soviético).

No campo da geopolítica, Moscou está com sua atenção voltada para suas fronteiras com a Ásia Central, lugar extremamente estratégico com fontes de energia consideráveis, onde para alguns especialistas será (ou já é) a área de disputa das grandes potências – o que Pepe Escobar chamou de o Grande Jogo da Eurásia. Mas assim como para achar o tesouro sempre tem que se vencer os desafios, as dificuldades para quem quiser desfrutar das riquezas e privilégios da região não são poucas.

Mesmo não sendo mais oficialmente parte da Rússia (antiga URSS), as ex-repúblicas soviéticas do centro asiático (Cazaquistão, Turcomenistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, Quirguistão) sofrem constantemente assédio político e econômico para se alinharem ao Kremlin. Com sua nítida intenção de hegemonia no chamado “estrangeiro próximo”, o gigante asiático vem costurando com esses países, exceto o Turcomenistão, por meio da Organização de Cooperação de Xangai uma forma de erradicar o poderio estadunidense da região – que insiste manter-se ali pela ocupação militar do Iraque e Afeganistão.

Com as diversas manobras de Moscou, os políticos responsáveis pela Eurásia e assuntos russos da Casa Branca foram reacordados de um bom período de tranquilidade. Ariel Cohen, especialista sobre o país asiático, taxou como uma “agenda expansionista” a política externa russa para a Ásia. Já Richard Morningstar, destinado a Eurásia, escancarou o fato com clareza: para ele o “Kremlin vê a energia como ferramenta para perseguir uma política exterior assertiva. A Rússia força países vizinhos a dirigir suas exportações de energia, via seu sistema de oleodutos e gasodutos.”[1]

As pretensões da Cooperação de Xangai não são modestas: como a possibilidade de ingresso do Paquistão e Índia, que vem deixando os políticos de Washington ensandecidos – além dos dois países citados acima, Irã e Mongólia são igualmente países observadores do grupo. Ou seja, sendo a Rússia a maior exportadora de energia do mundo, o grupo de Xangai coopera para uma aliança energética tendo o país como seu pivô.

Apenas o Turcomenistão das ex-republicas socialistas da Ásia Central não participa da SCO, porém este Estado vem sendo disputado pelas grandes potências ferozmente. No primeiro semestre do ano confirmou-se que o país está sobre a segunda maior reserva de gás natural do planeta, o que para a Rússia representou matar “dois coelhos com uma só cajadada”, nas palavras de M. K. Bhadrakumar. Para os americanos, direcionar essa energia para a Europa seria de suma importância, já que diminuiria a dependência do continente do gás russo e fecharia uma oportunidade de saciar o faminto dragão chinês, que inevitavelmente será nos próximos anos o maior consumidor de energia do planeta.

Porém, a tática de Moscou, de dois coelhos com um tiro, pareceu se concretizar. O primeiro sinal de êxito foi a inauguração do maior gasoduto do mundo, com uma extensão de 8.700 quilômetros o gás sai do Turcomenistão até o oeste da China. Sendo assim, o Kremlin manteve a dependência da Europa a sua energia e manteve o ouro negro dos turcomanos na região da Ásia. No entanto, o golpe de mestre sobre Washington para solapar seus anseios na Eurásia, passa por um plano ambicioso para unir e tecer uma aliança político-energética no tão conflituoso centro asiático. Com uma precisão de jogador de xadrez, os russos estão trabalhando para participar da construção do TAPI (gasoduto/oleoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia), que consolidaria a estratégia geoeconômica da Cooperação de Xangai de “expulsar” os norte-americanos e consolidar o grupo como ator hegemônico do continente. Como explicitou Richard Morningstar ao congresso: a Rússia está tentando “empurrar os EUA para fora da Ásia Central e conseguindo, com sucesso, limitar a participação dos EUA em novos projetos de energia no Cáspio, excluindo os EUA do Clube de Energia da Organização de Cooperação de Xangai (SCO)”.

Se no centro da Ásia, o conflito desenvolve-se no campo político-energético, na fronteira com a Europa, norte-americanos e russos parecem tornar mais real e sólido a repetição e o cenário de uma disputa que durou quase metade de um século na Guerra Fria – a animosidade bélica sobre os países do Velho Continente. Desde a administração de George W. Bush, a ideia de um escudo antimíssil no Leste Europeu, fez crescer os ânimos das diplomacias das duas nações – já que Moscou considera como uma ameaça à sua segurança a implementação do sistema.

Após o engavetamento na gestão Obama, o empreendimento de discórdia voltou ao cenário internacional. Espanha, Romênia, Polônia, Turquia, Japão e Coréia do Sul fazem parte da estratégia norte-americana para abrigar o escudo. Cansados da inflexibilidade estadunidense, o vice-ministro da Defesa russa, Anatoli Antonov, declarou no último 27 de setembro, lamentando que “infelizmente, o comprimento desses planos transgride consideravelmente o diálogo entre Rússia, Estados Unidos e a Otan sobre o tema”.

E o fogo diplomático do Kremlin continuou: “É possível que a Rússia tenha que dar uma resposta técnico-militar, em caso de uma falta de progresso no diálogo com o EUA sobre a Defesa anti-Míssil.” Disse em tom de advertência-alerta o vice-ministro de Relações Exteriores Serguei Ryabkov. Desde então, Moscou vem crescendo em uma escalada bélica considerável: em 03 de outubro os russos anunciaram a inauguração do sistema de navegação espacial via satélite GLONASS, com capacidade de localizar objetos terrenos com uma precisão de 5 metros; no dia seguinte foi retomado testes com mísseis balísticos intercontinentais; e por último o governo declarou que até o fim de 2011 criara uma nova divisão no exército, a Defesa Aeroespacial (DAE), tendo como seu propósito principal a exploração/defesa do espaço e garantia da segurança aérea do país.

Para Dmitri Rogozin, representante permanente da Rússia junto a Otan, a criação da DAE é um “movimento forçado”, referindo-se ao impasse com Washington, “mas que dará ao país um verdadeiro senso da sua segurança”. Como vemos a palavra “segurança” e “defesa” são mais que recorrentes nas bocas dos políticos, principalmente da Rússia. Todas as manobras técnico-militares norte-americanas são impossíveis de serem pensadas – no caso do escudo – para nações de médio e pequeno porte, como Irã ou Coréia do Norte. Logo, seu olhar direciona-se uma grande potência, que até pouco tempo era seu oponente no controle e hegemonia mundial.

A EXPANSÃO DO DRAGÃO CHINÊS

Desde o fim do bloco soviético, em 1991, um país não desafiava tão ostensivamente o poderio americano como hoje faz a China. Dona da segunda maior economia do mundo (em 14 de fevereiro de 2011 o Japão foi ultrapassado pelos chineses, posto que ocupavam desde 1968) o dragão chinês não parece ter um freio ou ponto de chegada no seu crescimento.

O que muitos dizem, e que seja até bem provável devido ao poder bélico de ambos os lados, é que China e Estados Unidos nunca travarão uma guerra direta, devido aos íntimos laços comerciais. Porém de uma forma mais abrangente a harmonia sino-americana se equilibra em uma linha muita fina e frágil e com pouca consistência. Um verdadeiro “conflito silencioso” se desenvolve nos quatro cantos do mundo entre os dois – na economia, geoestratégia, diplomacia e geopolítica.

Um dos pontos de maior tensão entre as duas nações se encontra no Oceano Pacífico. Após o fim da Segunda Guerra Mundial e a vitória estadunidense sobre os japoneses, os americanos se alojaram na região praticamente se auto-proclamando senhores e guardiões daquele oceano. Com o crescimento incontrolável chinês por todos os lados, inclusive para o mar ao leste de sua fronteira, as fricções com os americanos são inevitáveis e tensas.

O primeiro atrito tem sua demarcação mais gritante na península coreana, onde Coréia do Norte (“comunista”) e Coréia do Sul (capitalista), desde 1950 incendeiam e acirram as discordâncias das potências mundiais. Completamente isolada, e tendo apenas uma relação próxima com Rússia e China, a Coréia “comunista” desenvolve um polêmico programa nuclear totalmente desaprovado pelo Ocidente. Além disso, a animosidade entre os países da península praticamente demonstram os sintomas da guerra fria do nosso século entre as grandes potências da atualidade, como pode-se ver na divisão de opiniões das principais forças mundiais sobre o conflito.

O ponto alto da desarmonia China-Estados Unidos sobre o tema, foi em 22 de novembro de 2010 quando os norte-coreanos atacaram uma ilha sul-coreana matando dois civis e dois militares. Concomitantemente enquanto a Casa Branca reforçava o seu “inquebrantável” apoio a Seul, Pequim barrava no Conselho de Segurança das Nações Unidas uma condenação ao comportamento beligerante de Pyongyang. Após o ataque, americanos e sul-coreanos fizeram diversas manobras militares no Mar Amarelo próximo a fronteira entre os dois países.

A questão norte-coreana, tanto para chineses como para americanos, não se trata apenas de uma questão política ou ideológica, mas essencialmente de geopolítica. Para os chineses uma intervenção armada do país fronteiriço seria uma aproximação e uma semi-invasão do seu território. Para os norte-americanos, em um primeiro momento, reforçar-se-ia o argumento para uma permanência das tropas da sua marinha ao redor do Mar Amarelo – frontal a China – e apertaria ainda mais o cordão de isolamento-contenção ao gigante chinês, ao qual já fazem parte Taiwan, Japão, Austrália e Filipinas.

Outro ponto considerável é a questão de Taiwan. Após a Revolução Chinesa, vencida pelos comunistas em 1949, os líderes do Partido Nacionalista da China – Kuomintang –, liderados por Chiang-Kai-Shek fugiram para a pequena ilha. Reivindicando para si a legitimidade e governança da China, os dois partidos travaram uma luta diplomática em que os norte-americanos reconheceram apenas os refugiados da ilha como únicos representantes do povo chinês. Mesmo com a aproximação de Washington e Pequim, em 1971, o primeiro nunca renunciou o seu apoio ao governo insular. Com a repatriação de diversas áreas, como Macau em 1999 e Hong Kong em1997, aRepública Popular da China (RPC) vem pressionando diplomaticamente, com ameaças de uso da força caso Taiwan se declare independente, à anexação da ilha ao continente, contrariando categoricamente a Casa Branca que no mês de setembro deste ano anunciou a modernização dos caças F-16 da Força Aérea taiwanesa –  que rendeu uma convocação do embaixador dos EUA na China ao Ministério Chinês de Relações Exteriores para uma explicação sobre a decisão.

Devido ao seu atual estágio de desenvolvimento a China se encontra condicionada a certas medidas e ações inadiáveis: como a busca incessante e primordial por energia (petróleo e gás) para sustentar seu crescimento monstruoso – média de 8% ao ano. Logo, o Leste Asiático é o palco principal do choque com os norte-americanos – já que a região tem um dos maiores movimentos de embarcações do mundo.

Desde o final de 2010, chineses e vietnamitas vem travando uma guerra diplomática, com movimentações bélicas de ambos os lados, pelas ilhas de Paracel e Spratly em decorrência dos recursos naturais contidos ali. Após diversas declarações, elevando o clima de tensão, Hanói vem trabalhando tacitamente para levar o impasse e a discussão a outras nações, como Malásia, Brunei e Filipinas, para ganhar força frente à Pequim

Com o avultar da questão, no dia 04 de março de 2011 funcionários do Ministério das Relações Internacionais do Vietnã se reuniu com embaixadores chineses para discutir sobre as manobras da Marinha da República Popular no mês passado nas ilhas de Spratly. Três meses depois, com o crescimento das farpas trocadas, o primeiro-ministro vietnamita, Nguyen Tan Dung, assinou um decreto listando quem seria isento de ser convocado em uma suposta guerra.

Preocupados com a crescente relevância chinesa sobre o Leste Asiático, os EUA não ficaram parados ante os fatos. Primeiro declarou sua inclinação a favor das Filipinas e Vietnã sobre o litígio das ilhas, e logo depois a secretária de Estado, Hilary Clinton, ofereceu cooperação aos filipinos para modernizarem seu poderio naval. A resposta de China veio do vice-ministro das Relações Internacionais, Cui Tiankai: “Creio que alguns países estão brincando com fogo e espero que não saiam queimados”. Ou seja, apesar do estreitamento comercial entre Pequim e Washington, os fatos e detalhes mais minuciosos desta relação demonstram muito mais fricção do que harmonia. Nas manobras mais detalhadas e silenciosas das duas nações, explicita-se a atenção sobre o outro país e a preocupação de prever o próximo passo.

Indo muito além da mera retórica de fachada estadunidense, uma organização americana – Foreign Policy in Focus – avaliou a proposta de orçamento militar da Casa Branca para o ano de 2009, e constatou que os detalhes do relatório não tinham como finalidade o combate a redes terroristas ou Estados apoiadores. Incluía-se “a compra de 40 super-caças F-22 (considerado “o mais avançado avião de combate da atualidade”), por US$ 4,1 bilhão; a construção de um porta-aviões de novo tipo (o CVN-78), que deverá dar início á substituição dos navios da classe Nimitz e é equipado, entre outros, com o novo modelo de motor nuclear, um sistema eletromagnético para lançamento de aviões, radares avançados e outras inovações; e o lançamento de novas classes de destroyers e submarinos.” Em suma, para o grupo de forma alguma esses gastos refletem-se a uma guerra contra redes terroristas, mas sim para enfrentar “uma nova guerra fria”, frente a “uma potência capaz de representar uma ameaça ao poderio militar dos EUA.” Ainda segundo o relatório.

Se os Estados Unidos trabalham para cada vez mais aperfeiçoar seu complexo bélico, a República Popular não fica atrás. No final do ano de 2010, amaior autoridade americana no Oceano Pacífico advertiu ao seu governo sobre um míssil em fase de conclusão pelos chineses, capaz de afundar um porta-aviões George Washington – símbolo máximo do poderio naval do país. O DF21D é controlado por satélites e pode acertar um alvo a1.500 quilômetrosde distância. Considerado por especialistas na área como “uma nova muralha”, (referência a Muralha da China) Pequim parece estar disposta a desafiar a hegemonia dos EUA naquele oceano, fato inédito no contexto geopolítico no pós Segunda Guerra Mundial – como analisa o jornalista Rodrigo Bocardi, da Rede Globo: “pela primeira vez [as águas do Oceano Pacífico] estão sendo disputadas por outra potência, haja vista o número crescente de submarinos da China na região.”

Sobre o manto da SCO a China vem construindo uma aliança com diversas intenções e propósitos para o centro asiático, algumas delas são: montar o Clube de Energia da Organização de Cooperação de Xangai – como denominou Richard Morningstar; estabilizar a região e consolidar geopoliticamente a supremacia dos gigantes asiáticos (China e Rússia), e, sobretudo e mais importante, solapar a intenção norte-americana de montar uma base sólida do seu poder por ali. Diagnosticando assertivamente as ações da diplomacia chinesa sobre o lugar referido, o chinês Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais, afirmou categoricamente que “Criamos a SCO com o objetivo de resistir à intenção estratégica dos EUA de estender seu controle militar à Ásia Central. A intenção dos EUA de por a Ásia Central sob sua esfera de influência militar foi abortada. Com o SCO, as relações entre China e países da região melhoraram muito.”

A política de relações internacionais da China, seja no Oceano Pacífico ou na Eurásia, se configura e se guia pelo mesmo objetivo: buscar fontes de energia para sustentar sua expansão e desenvolvimento. Neste ponto, a Cooperação de Xangai já deu seus frutos em acordos comerciais de transferência de gás e petróleo ao país. Simbolicamente poderíamos dizer que seria como se os gasodutos costurassem uma união entre os países envolvidos nos pactos, que ao mesmo tempo constroem também laços políticos. Expressando o significado do empreendimento, o presidente turcomano, Gurbangulí Berdimujamédov, disse: “Este projeto tem não somente valor econômico ou comercial, mas também político.” Ou seja, além dos interesses econômicos, os dutos trazem também aproximação.

O ponto mais delicado da estratégia chinesa, onde o caminho fica mais intricado, é a questão iraniana. Quase que isolada, devido às sanções da ONU promovidas principalmente pelos Estados Unidos e União Européia, a República Islâmica do Irã tem na China seu maior parceiro econômico. Desde 2009 os acordos entre os dois países chegaram a 21,2 bilhões em trocas comerciais. Teerã hoje é o exportador número um de petróleo para Pequim, e a empresa de energia SINOPEC investirá 6,5 bilhões de dólares na construção de refinarias no país do Oriente Médio.

Mahmud Ahmadinejad, presidente do Irã, move-se perigosamente no cenário internacional: pregando abertamente a destruição do Estado de Israel e não deixando de hostilizar o maior aliado de Tel Aviv, Washington. O regime teocrático dos Aiatolás vive sobre a sombra da guerra. Cônscio da situação, Teerã luta para ingressar na SCO, o que garantiria proteção e blindagem contra ataques dos seus antagônicos – porém a organização lhe mantém apenas como observador oficial, já que o grupo não aceita nações que estejam sofrendo sanções da ONU.

Em uma fatídica invasão americana ao regime iraniano, o governo comunista da China estaria com o fornecimento de petróleo ameaçado. Em outras palavras, a estabilidade do Irã é fundamental para a energia de Pequim e para sua estratégia geoeconômica, materializada na construção da base naval em Gwadar no Paquistão, “aliado de todas as horas”.

Gwadar será um grande triunfo geopolítico/econômico. Após colocar o projeto IPC (oleoduto Irã-Paquistão-China) em prática, o porto terá uma posição estratégica do empreendimento, trazendo a segurança para o duto. Sendo os Estados Unidos o grande senhor dos mares, Gwadar traria também uma desconfortável presença de navios militares chineses para o Indico, aproximando-se do tão disputado Estreito de Ormuz – por onde são exportados 40% do petróleo mundial.

A estreita diplomacia China-Paquistão, alarma cada vez mais os americanos, pois “Pequim ajudou decisivamente o programa de armas nucleares de Islamabad. No próximo mês de agosto, a China colocará em órbita um satélite para o Paquistão. Cerca de 75% das armas do Paquistão são fabricadas na China. Em breve, 260 jatos chineses de combate serão incorporados à Força Área do Paquistão.”[2] No mês de agosto de 2011, Islamabad demonstrou a força do pacto entre os dois. Após a ação norte-americana no território paquistanês que matou o terrorista Osama Bin Laden, em maio deste ano, o país mulçumano sentiu-se com seus direitos de soberania nacional violados. Sua resposta feriu onde mais poderia doer no ego dos militares norte-americanos, sua tecnologia. O país da Ásia permitiu que autoridades da inteligência chinesa tirassem fotos e colhessem amostras do helicóptero que caiu durante a operação na captura e morte do arquiteto dos ataques de 11 de Setembro.

Por fim, seja no setor energético, militar, ou político, a simetria Pequim-Islamabad repele significativamente os alicerces americanos na Ásia Central, forçando e pressionando a retirada das suas tropas do devastado Afeganistão, como concluiu Pepe Escobar: se a união entre China e Paquistão progredir “será um sinal de importante derrota para Washington no novo Grande Jogo da Eurásia, com enormes repercussões geopolíticas e geoeconômicas.”

QUANDO CHINESES E RUSSOS FALAM A MESMA LÍNGUA

“Verdade é que, quando a grande economia que mais cresce no mundo e o país maior exportador de energia chegam a algum acordo, a coisa é sempre muito mais ampla que simples questão de cooperação bilateral.” Assim definiu M K Bradrakumar sobre o constante estreitamento de russos e chineses em diversos aspectos e diretrizes de questões mundiais e interestatais. Hoje nada é mais alarmante para os norte-americanos que a aliança Pequim-Moscou. O maior país em extensão territorial do planeta, a Rússia, e o mais populoso, a China, nunca estiveram tão afinados nos seus passos no cenário político-diplomático – nem mesmo na época da União Soviética, quando ambos, pelo menos teoricamente, falavam em nome do comunismo.

Após o movimento centrífugo das suas áreas de influência, o Kremlin tenta reaproximar-se dos seus antigos países-satélites sobre o guarda-chuva da Organização de Cooperação de Xangai, essencialmente os da Ásia Central. Para o Leste Europeu e Cáucaso, Moscou proclamou em 19 de outubro deste ano o nascimento do Espaço Econômico Unificado (EEU), que será inaugurado em 1 de janeiro de 2012, com Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia, Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão (sendo os três últimos do centro asiático).

Da mesma forma, a China pelo seu lado tenta fortalecer seus laços econômicos e políticos pela Ásia, como a proposta de criação de uma área de livre comércio no Leste Asiático, com as duas coréias, Japão, Mongólia, e o Extremo Oriente Russo. Juntamente, essas nações representam 20% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial. Em outras palavras, russos e chineses vêm trabalhando como catalisadores e pivôs de uniões que indubitavelmente representam mais que meros acordos comerciais. Um movimento espiral que suga para si Estados menores e mais frágeis, formando uma grande aliança em volta dos gigantes da Ásia.

“Aliança estratégica”, assim está ficando conhecido o pacto sino-russo no cenário internacional. O termo “estratégico” demonstra uma união muito além de acordos bilaterais ou afins, mas uma dupla necessidade de ambos: que é fortalecer suas políticas frente aos Estados Unidos e abarcar a Ásia sobre a sua égide. Economicamente, a Rússia para os chineses significam saciar o maior imperativo das próximas décadas para o seu crescimento: a necessidade de fontes energéticas (petróleo e gás). Já para os russos, uma China pró Moscou, representa ter a futura maior economia do mundo e a grande potencia da Ásia, não tendo que se preocupar em demarcações de interesses.

No campo diplomático, Moscou e Pequim tem desafiado as potências ocidentais principalmente quando o assunto é a Primavera Árabe. Assim exclamou o ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov: “Rússia e China decidiram trabalhar juntas sobre as questões criadas pelos levantes no Oriente Médio e Norte da África.” Desde o começo das revoltas árabes, que explodiram na Síria, contra o presidente Bashar al- Assad, há dez anos no poder, os gigantes asiáticos vem barrando as propostas de sanções demandadas por Estados Unidos e União Européia (Damasco é um comprador assíduo de armas tanto da Rússia quanto da China). No caso Líbio, os dois asiáticos se absteram sobre a votação da área de exclusão aérea e posteriormente não pouparam críticas a intervenção no país.

Desde janeiro desse ano, Moscou tem abastecido a China com 300 mil barris de petróleo por dia, pelo Grande Oleoduto Oriental saindo da Sibéria até a província de Daqing. Os acordos bilaterais estão sendo feitos também na área de energia renováveis, pesca, luta antiterrorista, cooperação financeira, extração e transporte de hidrocarbonetos, prospecção e exploração de jazidas, construção de refinarias, etc.[3]

Além da avalanche de acordos e parcerias nos setores econômicos e militares, chineses e russos se comprometeram no final de 2010 em Pequim a continuar cooperando dentro das várias instituições que ambos participam – como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), G-20 (composto pelos principais países desenvolvidos e os emergentes), Conselho de Segurança da ONU e a Organização de Cooperação de Xangai.

O MUNDO PÓS HEGEMÔNICO

Se na última década do século passado o mundo não tinha dúvidas da incontestável supremacia estadunidense sobre todos os outros países, já hoje, no segundo decênio do XXI, se tem a certeza que eles não detêm mais a unipolaridade suprema. Sua sombra em vários pontos ainda se perdurará por um longo tempo, como na cultura (cinema e música) e no setor militar. No entanto, outras nações despontam no cenário internacional rivalizando e desafinando seu concerto, antes regido pelos Estados Unidos com tranquilidade e desenvoltura.

Se alguns apenas desafiam a hegemonia norte-americana, – Cuba, Venezuela, Coréia do Norte, Irã e Paquistão – sem maior possibilidade de superá-la, já outros, como Rússia e China, tem não somente o poder de questioná-la, mas de superá-la por completo.

Tendo isso no horizonte de Washington desde a segunda metade da primeira década do nosso século, os americanos têm formado uma barreira militar-geopolítica para barrar, de forma não explícita, o avanço dos gigantes asiáticos. Para conter o dragão chinês no Oceano Pacífico os EUA mantêm uma forte aliança com mísseis e forças rápidas de intervenção no Japão e Coréia do Sul – além do incondicional apoio a ilha de Taiwan como complemento ao cerco.

Completando a contenção na Ásia-Pacífico, a Austrália tem uma posição fundamental. Desde 2003 os australianos vem cooperando com os americanos participando da ocupação do Iraque, com tropas pelo Golfo Pérsico e da construção do escudo antimísseis de alcance global. E se não bastasse, Camberra deixara os americanos construírem uma base que “será um ponto importante de ligação a uma nova rede de satélites militares internacionais, a serem utilizados pelos EUA e seus aliados em intervenções militares no médio Oriente e na Ásia.” Segundo um artigo de Mahdi Darius Nazemroaya.

Se essas manobras têm sido feitas de forma velada não mostrando realmente para quem estão sido apontadas, diversos analistas não medem meias palavras e enfatizam categoricamente seus fins: como crivou Isabel Reynolds, correspondente no Japão, em um artigo de 2007 para a Reuters, “que o ambiente securitário e militar vivido atualmente no Japão e na Austrália estão dirigidos contra a China e a Rússia.” E explicitando a questão, o especialista militar Tetsuya Ozeki, advertiu que “a China e a Rússia estão a trabalhar para serem países igualmente influentes na região.”

Em uma perspectiva mais ampla, a guerra fria do século XXI será uma disputa palmo a palmo dos rincões mais distantes e remotos dos continentes – como a região do Ártico em que vários países (Estados Unidos, Dinamarca, Rússia, Noruega) vêm disputando o controle sobre onde se desconfia que haja reservas de petróleo e gás. Tendo atores menores à frente das tensões, mas sempre com uma superpotência respaldando-a – como marionetes –, como já vem acontecendo com a Coréia do Norte, Taiwan, Vietnã, Síria, Israel, etc. Essa será a tônica dos conflitos do nosso tempo. Além disso, outros atores farão toda a diferença na nova harmonia geopolítica, como a Índia e o Brasil, por exemplo.

Esperamos que os que consideraram o desmoronamento da União Soviética “o fim da história” (Francis Fukuyama), estejam atentos e sagazes para ver que a roda da história não para de girar com o declínio ou o ponto final de um império, mas se renova e se reestrutura novamente. O mundo caminha a passos lentos para tensões e fricções marcantes em que novos valores surgirão e uma nova configuração moldará a simetria mundial, diminuindo a importância de velhos regentes e potências ocidentais.

Fábio Amorim é estudante de história da Universidade Nove de Julho – Uninove


[1] Discurso ao Congresso americano no mês de maio de 2011

[2] Artigo de Pepe Escobar para a emissora Al-Jazeera do Qatar

[3] Encontro ratificado em Pequim no dia 27 de setembro deste ano pelo presidente chinês, Hu Jintao, e o russo Dmitri Medvedev.

Marx estava certo… sobre o capitalismo

Foto: Getty

Marx pode ter errado sobre o comunismo, mas estava certo sobre o capitalismo, diz Gray

Como efeito colateral da crise financeira, mais e mais pessoas estão começando a pensar que Karl Marx estava certo. O grande filósofo, economista e revolucionário alemão do século 19 acreditava que o capitalismo era radicalmente instável.

Ele tem uma tendência intrínseca de produzir avanços e fracassos cada vez maiores, e no longo prazo, ele estava destinado a se autodestruir.

Marx saudava a autodestruição do capitalismo. Ele era confiante que uma revolução popular ocorreria e daria origem um sistema comunista que seria mais produtivo e muito mais humano.

Marx estava errado sobre o comunismo. Aquilo sobre o que ele estava profeticamente certo era a sua compreensão da revolução do capitalismo. Não era somente a instabilidade endêmica do capitalismo que ele compreendia, embora neste sentido ele fosse muito mais perspicaz do que a maioria dos economistas da sua época e da nossa.

Mais profundamente, Marx compreendeu como o capitalismo destrói a sua própria base social – o meio de vida da classe média. A terminologia marxista de burguês e proletário tem um tom arcaico.

Mas quando ele argumentava que o capitalismo iria arrastar as classes médias a algo parecido com a existência precária dos sobrecarregados trabalhadores de sua época, Marx previu uma mudança na maneira como vivemos à qual só agora estamos lutando para nos adaptarmos.

 Karl Marx

Marx escreveu o Manifesto Comunista com Friedrich Engels

Ele via o capitalismo como o sistema econômico mais revolucionário da história, e não pode haver dúvida de que ele se diferencia daqueles que vieram antes dele.

Os caçadores e coletores persistiram nesta forma de vida por milhares de anos, enquanto as culturas escravagistas permaneceram assim por quase o mesmo tempo, e as sociedades feudais sobreviveram por muitos séculos. Em contraste, o capitalismo transforma tudo que ele toca.

Não são só as marcas que estão mudando constantemente. As empresas e as indústrias são criadas e destruídas em um fluxo incessante de inovação, enquanto as relações humanas são dissolvidas e reinventadas em novas formas.

O capitalismo foi descrito como um processo de destruição criativa, e ninguém pode negar que ele foi prodigiosamente produtivo. Praticamente qualquer um que esteja vivo na Grã-Bretanha hoje tem uma renda real maior do que eles teriam se o capitalismo nunca tivesse existido.

Retorno negativo

O problema é que entre as coisas que foram destruídas no processo está o estilo de vida do qual o capitalismo dependia no passado.

Defensores do capitalismo argumentam que ele oferece a todos os benefícios que, na época de Marx, eram desfrutados somente pela burguesia, a classe média estabelecida que possuía capital e tinha um razoável nível de segurança e liberdade em suas vidas.

No capitalismo do século 19, a maioria das pessoas não tinha nada. Elas viviam de vender o seu trabalho, e quando os mercados entravam em queda, eles enfrentavam tempos difíceis. Mas à medida que o capitalismo evolui, seus defensores dizem, um número crescente de pessoas pode se beneficiar dele.

Foto: AFP

Os mercados apresentam muita volatilidade

Carreiras bem-sucedidas não serão mais a prerrogativa de uns poucos. As pessoas não terão dificuldades todo mês para subsistir com base em um salário inseguro. Protegidos pelas economias, pela casa que possume e uma pensão decente, eles serão capazes de planejar suas vidas sem medo.

Com o crescimento da democracia e a distribuição da riqueza, ninguém precisará ser privado da vida burguesa. Todo mundo poderá ser da classe média.

Na verdade, na Grã-Bretanha, nos EUA e em muitos outros países desenvolvidos nos últimos 20 ou 30 anos, o contrário vem ocorrendo. A segurança do emprego não existe, as atividades e as profissões do passado em grande parte acabaram e as carreiras que duram uma vida inteira são meramente lembranças.

Se as pessoas têm qualquer riqueza, isto está nas suas casas, mas os preços dos imóveis nem sempre crescem. Quando o crédito fica restrito como agora, eles podem ficar estagnados por anos. Uma minoria cada vez menor pode contar com uma pensão com a qual pode viver confortavelmente, e não são muitos os que tem economias significativas.

Mais e mais pessoas vivem um dia de cada vez, com pouca noção do que o futuro pode reservar. AS pessoas da classe média costumavam imaginar as suas vidas desdobradas em uma progressão ordenada. Mas não é mais possível olhar para uma vida como uma sucessão de estágios em que cada um é um passo dado a partir do último.

No processo da destruição criativa, a escada foi afastada, e para um número cada vez maior de pessoas, uma existência de classe média não é mais sequer uma aspiração.

Assumindo riscos

Enquanto o capitalismo avançava, ele devolveu as pessoas a uma nova versão da existência precária do proletariado de Marx. As nossas rendas são muito maiores, e em algum grau nós estamos protegidos contra os choques por aquilo que resta do Estado de bem-estar social do pós-guerra.

Mas nós temos muito pouco controle efetivo sobre o curso das nossas vidas, e a incerteza na qual vivemos está sendo piorada pelas políticas voltadas para lidar com a crise financeira.

As taxas de juros a zero em meio a preços crescentes querem dizer que as pessoas estão tendo um retorno negativo de seu dinheiro, e ao longo do tempo o seu capital está se erodindo.

A situação de muitas das pessoas mais jovens é ainda pior. Para adquirir os talentos de que precisa, a pessoa tem de se endividar. Já que em algum ponto será necessário se reciclar, é preciso tentar economizar, mas se a pessoa está endividada desde o começo, esta é a última coisa que ela poderá fazer.

Não importa a sua idade, a perspectiva que a maioria das pessoas enfrenta é de uma vida de insegurança.

Ao mesmo tempo em que privou as pessoas da segurança da vida burguesa, o capitalismo criou o tipo de pessoa que vive a obsoleta vida burguesa. Nos anos 80, havia muita conversa sobre valores vitorianos, e propagandistas do livre mercado costumavam argumentar que ele traria de volta para nós os íntegros valores de outrora.

Para muitos, as mulheres e os pobres, por exemplo, estes valores vitorianos podem ser bastante ilógicos em seus efeitos. Mas o fato mais importante é que o livre mercado funciona para corroer as virtudes que mantêm a vida burguesa.

Quando as economias estão se perdendo, ser econômico pode ser o caminho para a ruína. É a pessoa que toma pesados empréstimos e não tem medo de declarar a insolvência que sobrevive e consegue prosperar.

Quando o mercado de trabalho está altamente volátil, não são aqueles que se mantém obedientemente fiéis a sua tarefa que são bem-sucedidos, e sim as pessoas que estão sempre prontas para tentar algo novo e que parece mais promissor.

Em uma sociedade que está sendo continuamente transformada pelas forças do mercado, os valores tradicionais são disfuncionais, e qualquer um que tentar viver com base neles está arriscado a acabar no ferro-velho.

Vasta riqueza

Olhando para um futuro no qual o mercado permeia cada canto da vida, Marx escreveu no ‘Manifesto Comunista’: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Para alguém que vivia na Grã-Bretanha no início do período vitoriano – o Manifesto foi publicado em 1848 -, isto era uma observação incrivelmente perspicaz.

Naquela época, nada parecia mais sólido que a sociedade às margens daquela em que Marx vivia. Um século e meio depois, nos encontramos no mundo que ele previu, onde a vida de todo mundo é experimental e provisória, e a ruína súbita pode ocorrer a qualquer momento.

 Foto: AFP

Medidas de austeridade para reduzir dívida grega acabaram em revoltas

Uns poucos acumularam uma vasta riqueza, mas mesmo isso tem uma característica evanescente, quase espectral. Na época vitoriana, os muito ricos podiam relaxar, desde que eles fossem conservadores com a maneira como eles investiam seu dinheiro. Quando os heróis dos romances de Dickens finalmente recebem sua herança, eles nunca mais fazem nada na vida.

Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos.

Este estado de inquietação perpétua é a revolução permanente do capitalismo, e eu acho que ele vai ficar conosco em qualquer futuro que seja realisticamente imaginável. Nós estamos apenas no meio do caminho de uma crise financeira que ainda deixará muitas coisas de cabeça para baixo.

As moedas e os governos provavelmente ficarão de ponta-cabeça, junto de partes do sistema financeiro que nós acreditávamos estar a salvo. Os riscos que ameaçavam congelar a economia mundial apenas três anos atrás não foram enfrentados. Eles foram simplesmente deslocados para os Estados.

Não importa o que políticos nos digam sobre a necessidade de controlar o déficit. Dívidas do tamanho das que foram contraídas não podem ser pagas. Elas quase que certamente serão infladas – um processo que está destinado a ser doloroso e empobrecedor para muitos.

O resultado só pode ser mais revoltas, em uma escala ainda maior. Mas isto não será o fim do mundo, ou mesmo do capitalismo. Aconteça o que acontecer, nós ainda teremos que aprender a viver com a energia mercurial que o mercado emitiu.

O capitalismo levou a uma revolução, mas não a que Marx esperava. O feroz pensador alemão odiava a vida burguesa e queria que o comunismo a destruísse. E assim como ele previu, o mundo burguês foi destruído.

Mas não foi o comunismo que conseguiu esta proeza. Foi o capitalismo que eliminou a burguesia.

John Gray – filósofo político e escritor

Via BBC Brasil