Darcy Ribeiro: brasileiro e desenvolvimentista

Paulo Kliass via Carta Maior

Se ainda estivesse vivo em 26 de outubro passado, Darcy Ribeiro teria completado 91 anos de idade. Lamentavelmente, porém, ele nos deixou em fevereiro de 1997, ainda com 74 anos. Uma grande perda, de alguém que deixou um expressivo legado para as futuras gerações, contribuições elaboradas ao longo de um vida de muita luta e de muita criação. Entre livros acadêmicos, romances e os resultados de sua ação na esfera política e governamental, o mestre plantou sementes essenciais para a conformação da brasilidade.

Considerado como um dos mais importantes antropólogos brasileiros – sua vocação inicial, embora ele atuasse em áreas variadas -, Darcy fez parte de uma geração de brasileir@s que deixaram como marca de sua passagem por esse mundo uma engajada militância em torno de um projeto diferente de País. As décadas de 1950 e 60 foram um período em que se abriu uma tênue possibilidade de mudança do padrão histórico de se fazer política no Brasil.

O período coincidiu com a afirmação do terceiro mundo e a descolonização da África e da Ásia, no impulso desenvolvimentista do pós Segunda Guerra. O amadurecimento intelectual e ideológico a respeito de uma via brasileira, rumo a uma sociedade mais justa e menos desigual combinou-se a um aprofundamento da luta política e social. Em especial, o segundo governo Vargas e o mandato de João Goulart abriram a possibilidade de que algumas dessas propostas viessem a ser implementadas por meio de políticas públicas no plano federal. Pode-se dizer, sem exagero que ao período de substituição de importações na esfera industrial correspondeu uma espécie de “substituição de pensamento” na esfera das ciências sociais em boa parte da periferia do mundo.

Desde as idéias de Celso Furtado na economia, passando pelas experiências inovadoras na área da cultura (com o Centro Popular de Cultura, o Teatro de Arena, o Cinema Novo) esbarrando no encaminhamento da Reforma Agrária, tangenciando as importantes evoluções no setor da saúde, até as mudanças na área educacional. Como pano de fundo para todo esse processo de transformação, um embate duro em torno do desenho de um projeto nacional e desenvolvimentista. E isso implicava o abandono da forma antiga com que as elites sempre haviam tratado o Estado brasileiro, impedindo que ele se colocasse a favor de uma direção que levasse em conta os interesses e as necessidades da maioria de seu povo.

Esse período de acelerada efervescência política e intelectual conheceu vários processos em que uma parcela expressiva da população buscava conhecer melhor a essência mesma daquilo que seria uma alma brasileira, a forma brasileira de ser e os caminhos da transformação mais profunda da sociedade brasileira. O reconhecimento da natureza dependente de nosso modelo econômico frente ao modelo imperialista e à divisão internacional do trabalho sugeria a necessidade de adoção de um caminho que incorporasse graus mais elevados de autonomia e soberania. A identificação da profundidade dos desníveis sociais e econômicos verificados entre os diferentes setores e classes apontava para a urgência de reformas de base, que removesse obstáculos à uma modernização democrática

O caminho da mudança era árduo e as tarefas exigiam muita força política para se viabilizarem. Darcy percebeu que não poderia se negar a travar as batalhas também no interior do Estado. Aceitou o convite do Presidente recém-eleito Jânio Quadros para criar um projeto educacional inovador, que se materializaria na Universidade de Brasília em 1961. Não apenas o poder se interiorizaria, mas o saber buscaria nova legitimidade, fora do sul-sudeste litorâneo.

Em razão de seu envolvimento com a matéria, acabou por ser nomeado o primeiro reitor da UnB. Na seqüência foi indicado para chefiar o Ministério da Educação em 1962, ainda no breve período do parlamentarismo, que se seguiu à renúncia de Jânio. E quando João Goulart vence o plebiscito restaurador do regime presidencialista, Darcy passa a ocupar o estratégico cargo de Ministro Chefe da Casa Civil. Foi um período de intensa luta política, em razão da tentativa de implementação das reformas de base. As forças da reação não aceitavam tal marca progressista do governo de Jango. Essa trajetória será interrompida em 1 de abril de 1964, com o golpe militar, a cassação e o exílio.

A interrupção violenta do projeto transformador, por meio da repressão e da ditadura, não arrefeceu o ânimo de Darcy nem da maioria dos integrantes dessa geração de nacionalistas e democratas. Havia a percepção nítida da necessidade de articular a resistência e de continuar a luta por outras vias. Assim, o antropólogo brasileiro – e a essa altura educador, político e agitador cultural –  foi prestar assessoria para governos de outros países latino-americanos, cujos governos estavam buscando um caminho que os militares haviam impedido de continuar por aqui. Darcy cooperou com as experiências, também nacionalistas e desenvolvimentistas, de Allende no Chile e de Velasco Alvarado no Peru. Não por acaso, ambos foram alijados do poder por golpes militares de orientação direitista e conservadora, com forte apoio dos Estados Unidos.

Com os primeiros sinais da tendência de redemocratização no País, Darcy retorna e continua seu percurso – a eterna busca de conciliar a produção intelectual com a materialização de projetos pela via da política. Nas eleições de 1982, é eleito vice-governador do Rio de Janeiro, na chapa com Leonel Brizola, com quem estreitou afinidades no exílio. Ao longo dessa experiência vai concretizar um pouco de seu sonho mudancista na educação. Data dessa época o modelo do CIEPs (Centro Integrado de Ensino e Pesquisa), no qual se pretendia oferecer escola pública de qualidade, com horário integral e potencial de se prestarem serviços também à comunidade.

Em 1990, Darcy completa sua última etapa no ciclo político, ao se eleger Senador pelo Rio de Janeiro, sempre pelo PDT. Exerceu seu mandato até o final da vida, tendo conseguido aprovar, entre muitos outros, um importante projeto. Foi de sua autoria como Relator a versão definitiva da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 20 de dezembro de 1996, 3 meses antes de sua morte.

Darcy é autor de algumas dezenas de livros. Mas muitos analistas consideram “O povo brasileiro”, publicado em 1995, como sua obra síntese. Ali ele busca as raízes da formação popular da nacionalidade e, na tradição do pensamento crítico, os vetores básicos para a construção de um projeto desenvolvimentista inclusivo e soberano. Algo que ele chamava, com graça e vigor, de “socialismo moreno”.

Paulo Kliass é Doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.

Ao jovem que pretende fazer Ciências Sociais

Leonardo de Lucas da Silva Domingues Via Espaço Acadêmico

De repente você está lá com os seus 17/18 anos e se depara com a decisão crucial sobre o futuro de sua vida: qual curso superior escolher? É um momento em que se misturam anseios distintos e indecisões juvenis com pressões familiares e preocupações financeiras. Tudo acontece ao mesmo tempo. O candidato a uma vaga no ensino superior dificilmente faz um questionamento prévio sobre todas essas questões. Mas, enfim, você tem que escolher alguma coisa. E aí, sabe-se lá por que cargas d’água, razões, decisões ou motivações você escolhe fazer o quê? Ciências Sociais.

Não é simples identificar o que faz alguém escolher um determinado curso. Fatores subjetivos podem se sobrepor aos objetivos, tornando a explicação ainda mais complexa do que aparenta ser. No caso de uma escolha para o curso de Ciências Sociais, pode-se dizer que talvez a pessoa já tenha alguma inclinação para a área desde pequena ou talvez apenas a escolha por não se enquadrar em nenhuma das outras categorias disponíveis. As constatações podem ser as mais diversas.

Atualmente, há muitos recursos cibernéticos para buscar informações sobre a área de Ciências Sociais. Na internet, encontram-se textos e mais textos, livros digitalizados, vídeos educativos, páginas eletrônicas dos cursos de graduação e de pós-graduação, entre outros. A inserção da Sociologia como matéria obrigatória para o ensino médio também ajuda imensamente o aluno a já ter um contato com o mundo acadêmico, com as leituras e com outros aspectos que são próprios desse universo.

É claro que tudo isso ajuda, mas o certo é que você só vai saber mesmo o que é fazer Ciências Sociais, quando já o estiver fazendo. Tal fato não é nenhuma anomalia, se comparado aos outros cursos. Há uma surpresa com a escolha tão bem pensada. Talvez, só depois de terminada a graduação é que você vai perceber o que aquela escolha realmente significou para seu futuro. Quando essas mediações não estão bem construídas na cabeça do estudante em fim de curso, esse choque de realidade, abrupto, pode ser um problema. Antes de adentrar nesse campo, como você pode chegar e o que vai fazê-lo chegar a escolher esse curso?

Você fez seu ensino médio e viu que só as matérias de humanas lhe interessaram. História, Filosofia e Sociologia foram os pontos altos no boletim. Você se vê como uma pessoa engajada, interessada nos destinos do mundo; parece que a maioria de seus outros amigos não consegue ao menos entender os verdadeiros problemas humanos que você levanta em conversas e bate-papos. Você já deve ter defendido os palestinos, os tibetanos, os cubanos, os indígenas, os haitianos, os sem-terra, os sem-teto, os animais em extinção… Certamente participou de passeatas e de todo tipo de manifestação. Talvez já tenha visto filmes-cabeça, dos quais mais ninguém gosta. Geralmente esse tipo de contexto e de trajetória de vida, mais outros tantos elementos não destacados aqui, é que levam alguém a escolher Ciências Sociais.

Essa não é uma condição necessária. Fora os que escolhem por esse lado mais politizado, há também aqueles que, por várias razões, têm uma inclinação para um viver chamado de alternativo. Nessa categoria inserem-se roqueiros, hippies, punks, straight edge, poetas e “malucos” de toda estirpe. Em qualquer universidade de médio ou grande porte, é possível notar que os alunos de Ciências Sociais são tidos como uns dos mais estranhos e acabam, muitas vezes, recebendo nomes muito “carinhosos” da “comunidade” universitária como os “bicho-grilo”.

Essa representação caricatural pode se explicar, em termos, e com o devido distanciamento crítico, pelo visual diferente dos alunos. Dreadlocks, barbas compridas, piercings, cabelos coloridos, vestimentas de tendências distintas e adereços diversos adornam a alteridade do grupo.

O que em cursos como Design Gráfico, Comunicação, Jornalismo, Marketing e Propaganda é visto muitas vezes como uma demanda de mercado, o “ser alternativo” (ter estilo despojado, criativo), lá nas Sociais é uma realidade não-fabricada (com seu grau de autenticidade que o afasta da gravitação mercadológica). Talvez nenhum outro curso o coloque tão próximo da diversidade, em seu sentido mais amplo e pleno. Por trás de cada uma dessas pessoas existe uma complexa teia de relações com os submundos da cultura não-convencional. Vozes díspares e antagônicas vão querer falar e você vai aprender a conviver com elas, a ouvi-las e a interagir com elas.

Depois de todas essas etapas, você quer saber, afinal, que curso é esse? O que ele representa? Qual a atuação das pessoas que passam por esse tipo de formação? Calma, a história é longa. Até você entender o que é um cientista social vai algum tempo (o que faz, então, demora mais ainda). Talvez, até lá você já vai ter passado por boas crises existenciais e por muitas experiências inesquecíveis. Você vai se deparar, em algum momento dessa empreitada, com célebres perguntas: até que ponto suporta seguir? É realmente intelectual o bastante para ser um acadêmico? Quais opções existem sem ser a vida universitária? Trabalhar como cientista social profissional, ser professor ou se engajar em alguma causa? Dinheiro…dinheiro…dinheiro….

Vai perceber que tudo aquilo que demora a compreender, será ainda mais complicado para explicar aos outros, principalmente aos que o rodeiam. Se, para descobrir a diferença entre Serviço Social e Ciências Sociais bastam algumas semanas, para todo o resto leva quase a totalidade de uma existência. Enfim, essa não é uma tarefa fácil. Descobrir o universo que representa esse curso de graduação leva muito mais do que seus quatro anos de duração.

Na sua consistência bruta, Ciências Sociais é um daqueles cursos dentre os quais a leitura é um hábito indispensável. Gostando ou não, querendo ou não, o certo é que você vai se cansar de ler. No início isso pode ser muito tortuoso. As leituras são difíceis, os temas algumas vezes são indecifráveis, assim como os termos e o linguajar próprios.

Apesar dos pesares, decifrar as teorias pode ser muito prazeroso. Além de ler, também é essencial fazer leituras críticas. Não se importe em gastar o tempo que for necessário para entender um trabalho intelectual. Sua confecção pode ter demorado anos ou, às vezes, até décadas. Nesse caminho, você pode encontrar matérias que não o agradam, temas que não tem nada a ver com suas pesquisas ou intenções futuras, mas isso não o impede de aproveitar o mínimo possível e o mentalmente necessário dessa experiência incomum.

Ao longo dos anos, dificilmente irá se manter o mesmo. Certamente, o estudante do início do curso não se confunde com o que se forma. E tal mutação não se dá só por uma questão heraclitana do fluir do rio ou de alguma outra coisa parecida, vai muito além disso. Não há naturalidade nesse processo (aliás, o natural, como verá, não existe na sociedade). Essa graduação o fará pensar e repensar muitas coisas: certezas se reduzirão a pó em pouco tempo e um novo leque de possibilidades se abrirá diante de seus olhos. A leitura sobre as teorias será a bagagem fundamental a ser utilizada nessa viagem sem destino fixo ou provável.

Somando-se a isso, provavelmente você vai começar fazendo disciplinas muito diferentes entre si, lendo livros, algumas vezes, com séculos de distância uns dos outros. Vai ser uma salada de compreensões e de reflexões. Nesse ponto, a melhor saída é recorrer à Filosofia. Para estudar Ciências Sociais é preciso ter alguma base sobre as correntes do pensamento filosófico.

E tudo isso vai gerar muita mudança. Talvez essa seja uma das marcas indeléveis de alguém que passa pelo processo de graduação em Ciências Sociais. Há mudança porque, na realidade, há um mudar em diversos sentidos. Mesmo para os alunos que não tenham lá tanta simpatia com o curso ou que estejam mais interessados somente no diploma irão ser provocados a saírem do lugar.

Isso acontece principalmente se você passa a viver numa cidade universitária distante de sua família. Todo esse ambiente de novidade estimula ainda mais a necessária desconexão com o mundo diário dos problemas corriqueiros. Ainda que tenha de trabalhar para se manter nessa nova morada, como boa parte dos alunos acaba fazendo, isso não vai alterar sua jornada de reconstrução do mundo social que o cerca por meio das diversas orientações teóricas.

Talvez tal fato até potencialize seu distanciamento crítico em relação ao emaranhado de relações entre pessoas e coisas que se pulverizam numa apreensão imediata do cotidiano. O certo é que, de uma maneira ou de outra, independente de sua origem social, de seu credo e todas as outras coisas que nos distinguem/diferenciam uns dos outros, a despeito disso tudo, você vai repensar sua vida; vai questionar seu mundo; vai parar, nem que for por alguns instantes, para pensar sobre coisas que, por circunstancias das mais diversas (e que irá estudar sobre elas), dificilmente pensaria.

É lógico que cada um terá o seu modo de vivenciá-la. Alguns viverão essas mudanças de modo extremamente intenso, outros já irão percorrer o caminho com moderação. Em todo caso, tudo será novo. Por isso é interessante estudar em uma cidade distante da sua de origem. Também é importante escolher uma universidade com muitos cursos diferentes; esse contato com grupos distintos é fundamental.

Paris, maio de 1968

No que diz respeito especificamente ao curso de Ciências Sociais, as mudanças incluem não só o contato com novas visões de mundo, mas, também, a conexão com uma miríade de formas de vida alternativa. Se sua sala for realmente representativa nesses quesitos, uma genuína classe de Sociais, prepare-se para tomar contato com vegetarianos, marxistas, hinduístas, feministas, crentes (padres, pastores), anarquistas, liberais, dentre outros. Em paralelo às mudanças de rotas, uma série de crises se sucederá, uma atrás a outra: existenciais, psicológicas, teórico-metodológicas, religiosas, financeiras…. Não há quem não passe por elas (a que trata da existência material será, certamente, a mais problemática).

Muitas dúvidas podem surgir. Todo questionamento vai levá-lo ao movimento. Não há nada mais básico em um trabalho de reflexão. Não importa o quanto isso vá contra seus próprios pensamentos ou convicções, duvide, questione, problematize. O conforto no campo das ideias não é para os que lidam com os problemas do pensamento, muito menos para os que refletem sobre a realidade social.

Criticar parece ser uma resposta simples para problemas complexos. Não é bem assim. A crítica é um elemento fundamental nesse processo (assim como a autocrítica). Lembre-se que os pensamentos só servem para fazê-lo pensar e para continuar pensando. Não cultue os pensamentos de modo a se fixar inflexivelmente em certas ideias, principalmente as que abstratamente (no campo lógico) pareçam perfeitas. Pense agindo concretamente, transformando sua realidade.

Desde o primeiro momento na graduação, tente abarcar em suas inquietações o máximo de referenciais distintos. Leia sobre tudo. Converse muito com professores de matérias diametralmente opostas. Procure saber, já no primeiro ano, quais os projetos desenvolvidos nas pesquisas do corpo docente. Mergulhe no erro. Teste suas afinidades teóricas. Discuta. Quando sentir que as ideias não saem de certo limite de segurança, provoque-as, remova obstáculos; jogue os pensamentos contra si mesmos. A realidade não vai até onde se estende a racionalidade lógica de meros conceitos abstratos.

Se for instigado a pensar, fará do mundo uma grande experiência criativa. Verá que a mudança que se materializa em você se expressa antes na realidade que o cerca. Esse movimento o levará a investigar sobre o que está inscrito no universo social que nos rodeia. Por trás de explicações supostamente óbvias sobre cada coisa que existe no mundo, apreenderá o jogo contraditório das relações que constituem esse agora antagônico mundo.

Portanto, ao jovem que pretende ingressar nesse ramo do saber, nessa gama de experiências humanas, fica o alerta de que este pode ser um caminho sem volta: a realidade nunca mais será a mesma (ou melhor, sua percepção sobre essa realidade não será a mesma), depois que você passar por uma graduação em Ciências Sociais.

LEONARDO DE LUCAS DA SILVA DOMINGUES é Graduado em Ciências Sociais pela UEL e mestre em Sociologia pela UFRGS; membro do Laboratório de Divulgação de Ciência, Tecnologia e Inovação Social (LaDCIS/UFRGS). E-mail: leonardo_delucas@hotmail.com

O “Esquenta”, de Regina Casé, é o programa mais racista da TV?

Ela envia uma mensagem retrógrada com seus estereótipos dos negros.

Ela

Esquenta é o programa mais conservador da televisão brasileira. É uma versão barulhenta e colorida de velhos costumes. Num primeiro olhar, parece uma grande festa na periferia, na qual as gírias, danças e modas de regiões com IDH baixo e criminalidade alta são irradiadas para todo o país pela tevê.

Vemos meninos contorcendo as articulações em performances de passinho, meninas com minissaia e microvocabulário, rapazes negros com cabelos louros e óculos espelhados de cores berrantes rodando o salão felizes e eufóricos. A festa mistura samba, funk, estilo de vida despreocupado e despudorado, concurso de beleza, humor, artistas de novela, enfim, para usar um termo bem periférico, “tudo junto e misturado”.

Essas características, apenas, não me incomodam. Não sou quadrado, respeito e até admiro algumas formas de cultura vindas do gueto e abuso do direito de desligar a TV. O que me irrita, e muito, e faz com que chame o programa de conservador e escravocrata é a cor de pele predominante nessa festa maluca.

Certamente o Esquenta é o programa com o maior percentual de negros da TV aberta. Enquanto as novelas, seriados e telejornais são predominantemente caucasianos, quem manda ali são os negros e pardos.

É esse o ponto. O programa reforça o estereótipo dos negros brasileiros como indivíduos suburbanos, subempregados, mas ainda assim felizes, sempre com um sorriso no rosto, esquecendo-se das mazelas cotidianas por meio da dança, do remelexo, das rimas pobres do funk, do mau gosto de penteados e cortes de cabelo extravagantes.

Sou negro e não sei sambar, não pinto meu cabelo de louro, não uso cordões, não ando gingando nem falo em dialeto. Não sou exceção, felizmente. Sei que há muitos caras e moças como eu. Muitos são poliglotas, outros gostam de música clássica, vários gostam mais de livros do que de pessoas, outros reclamam do calor da Brasil, certamente há os que são introspectivos e de poucas palavras, e há os que nem sentem falta do feijão quando viajam para o exterior.

Embora o Esquenta não tenha a proposta de ser um programa sobre cultura negra, ele ajuda a construir um estereótipo. Por que as novelas não têm galãs negros ou musas negras? Faça a lista dos galãs e das musas televisivas e depois veja quantos são negros. O número será irrisório.

Esquenta ajuda a manter essa ordem. Em vez de rapazes elegantes, mostra dançarinos com cabelos bizarros. As moças, sempre de shorts minúsculos e prosódias vulgares, nunca serviriam de modelo para capas da Marie Claire ou da Claudia.

Regina Casé e seu programa parecem dizer aos jovens dos guetos: “Ei, isso mesmo, aprendam passinho, aprendam a rebolar até o chão, continuem com seu linguajar próprio, porque tudo isso é lindo, é legal, é Brasil, é tudo junto e misturado, continuem com seus empregos modestos, porque a vida é agora, é para ser vivida, curtida, com alegria, malemolência, sempre com um sorriso no rosto”.

E assim, aquela menina sentada no sofá vai continuar achando o máximo desfilar com pouca roupa e pelos das pernas pintados de loiros pela comunidade. Nunca vai pensar em aprender a falar alemão ou tentar entender os grafites de Banksy, da mesma forma que os rapazes nunca sonharão em trabalhar no Itamaraty e praticarão bullying contra os meninos polidos que não falam em dialeto e inventam de estudar violino, já que um programa televisivo de uma das principais emissoras do país legitima seu estilo de vida mal educado e de poucas perspectivas.

Como um coronel oligarca e cínico, o programa dá uma recado para a garotada negra e parda da periferia: “É isso, dancem, cantem, divirtam-se. Mas não saiam do seu lugar”.

Marcos Sacramento via DCM

Eu não aceito!

Quando o hígido Michel Temer vira poeta e Renan Calheiros – acusado pela Procuradoria Geral da República de peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso – é apossado (com voto secreto – o voto da covardia) na presidência do Senado Federal no posto número 3 da sucessão republicana  entra no papel dando uma aula de ética e com o apoio do PSDB, um lado meu pergunta ao outro se não estaria na hora de sumir do Brasil.

Se não seria o momento de pegar o meu chapéu e deixar de escrever, abandonar o ensino das antropologias, desistir do trabalho honesto, beber fel, tornar-me um descrente, aloprar-me, abandonar a academia (de ginástica, é claro) deixar-me tomar pela depressão, desistir de sonhar, aniquilar-me, andar de joelhos, dar um tiro no pé, filiar-me a uma seita de suicidas, mijar sentado, avagabundar-me, virar puxa-saco, fazer da mentira a minha voz; e – eis o sentimento mais triste – deixar de amar, de imaginar, de ambicionar e de acreditar. Abandonar-me a esse apavorante cinismo profissional que toma conta do país – esse inimigo da inocência -, porque minha cota de ingenuidade tem sido destroçada por esses eventos. Eu não posso aceitar viver num país que legaliza a ilegalidade, tornando-a um valor . Eu não posso aceitar um conluio de engravatados que vivem como barões à custa do meu árduo trabalho.

“A ética não é um objetivo em si mesmo. O objetivo em si mesmo é o Brasil, é o interesse nacional. A ética é obrigação de todos nós e é dever deste Senado”, professa Renan Calheiros, na sua preleção de po(s)se.

Para ele, a ética, o Brasil, o dever, o interesse e as obrigações são coisas externas. Algo como a gravata italiana que chega de fora para dentro e pode ou não ser usada. Façamos uma lei que torne todo mundo ético e, pronto!, resolvemos o problema da cena política brasileira – esse teatro de calhordices.

A ética não é a lei. A lei está escrita no bronze ou no papel, mas a ética está inscrita na consciência ou no coração – quando há coração… Por isso, ela não precisa de denúncias de jornais, nem de sermões, nem de demagogia, nem da polícia! A lei precisa da polícia, o moralismo religioso carece dos santarrões e as normas, de fiscais. A ética, porém, requer o senso de limites que obriga à mais dura das coragens: a de dizer não a si mesmo e, no caso deste Brasil impaludado de lulopetisto, a de negar o favor absurdo ou criminoso à namorada, ao compadre, ao companheiro, ao irmão, ao amigo.

“O Zé é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo!”, eis a cínica palavra de ordem de um sistema totalmente aparelhado e dominado pelo poder feito para enriquecer a quem o usa, sem compostura, o toma lá dá cá com tonalidades pseudoideológicas, emporcalhando a ideologia.

Quem é que pode acreditar na possibilidade de construir um mundo mais justo e igualitário no qual a esfera pública, tocada com honestidade, é um ideal, com tais atores? Justiça social, honestidade, retidão de propósito são valores que formam parte da minha ideologia; são desígnios que acredito e quero para o Brasil. Ver essa agenda ser destruída em nome dos que tentaram comprar apoio político e hoje se dizem vítimas de um complô fascista, embrulha o meu estômago. Isso reduz a pó qualquer agenda democrática para o Brasil.

O cínico – responde meu outro lado – precisa (e muito) de polícia; o ético tem dentro de si o sentido da suficiência moral. Ela ou ele sabem que em certas situações somente o sujeito pode dizer sim (ou não!) a si mesmo. Isso eu não faço, isso eu não aceito, nisso eu não entro. É simples assim. A camaradagem fica fora da ética, cujo centro é o povo como figura central da democracia.

O que vemos está longe disso. Um eleito condenado pelo STF é empossado deputado, Maluf – de volta ao proscênio – sorri altaneiro para os fotógrafos, um outro companheiro com um passado desabonado por acusações vai ser eleito presidente da Câmara; a presidente age como a rainha Vitória. E o Direito: o correto e o honesto viram “direita”. Entrementes, a “esquerda” tenta desmoralizar a Justiça porque não aceita limites nem admite abdicar de sua onipotência. Articula-se objetivamente, com uma desfaçatez alarmante, uma crise entre poderes exatamente pela mais absoluta falta de ética, esse espírito de limite ausente dos donos do poder neste Brasil de conchavos vergonhosos e inaceitáveis. Você, leitor pode aceitar e até considerar normal. Eu não aceito!

Roberto DaMatta. em, Estadão

Professores frente à mercantilização

Na segunda parte da série de reportagens sobre o ensino superior privado, a desvalorização do trabalho docente, o beneficiamento das universidades com o financiamento público, e a urgência da organização estudantil

 19/12/2012

Aline Scarso e Michelle Amaral

da Redação               

 

Dilma, o então ministro da Educação, Fernando Haddad, e o senador José Sarney, durante comemoração de concessão de 1 milhão de Bolsas do ProUni – Foto: José Cruz/Abr

Redução da carga horária, demissões. Essas são as práticas utilizadas pelas instituições privadas para cortar gastos na folha de pagamento dos docentes. No início do segundo semestre de 2011, os alunos do último ano do curso de Jornalismo da Universidade Mogi das Cruzes (UMC), em São Paulo, foram surpreendidos com a notícia de que alguns professores tinham sido demitidos. Eles estavam desenvolvendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e entre os docentes dispensados estava justamente o responsável pela disciplina que coordenava a realização dos trabalhos.

Para os estudantes, restou o ônus da nova dinâmica do curso. “Houve uma reformulação dos professores. Nós, alunos, ficamos vários dias sem aulas”, conta o ex-aluno Denis Nunes. Os professores que permaneceram na instituição foram incumbidos de mais funções. Já os profissionais contratados tiveram que se adaptar ao projeto pedagógico em curso e assumiram a orientação dos trabalhos que estavam sendo desenvolvidos.

A justificativa para a demissão dos professores foi a redução da carga horária do curso. Aos docentes chegou a ser ofertada a permanência na instituição desde que com menos horas de aula. Na prática, o que houve na UMC foi a troca de professores antigos por outros mais novos para que a instituição pudesse economizar na folha de pagamento.

O caso da UMC, no entanto, não é isolado. Outras universidades particulares Brasil afora passam pelo mesmo processo. Isto porque, segundo analisa o professor Rafael Souza (nome fictício), estas instituições são regidas pelas leis do mercado, com a priorização do lucro em detrimento da qualidade do ensino. “As direções estão querendo que cada vez mais cursos sejam oferecidos, porém com uma carga horária menor, porque, com isso, conseguem trabalhar com menos professores”, pondera.

Além disso, ao substituir um professor mais antigo por um novo profissional, a instituição reduz gastos na folha de pagamento, já que as vantagens que o primeiro recebia por seu tempo de serviço não serão pagas ao recém-contratado. “Chega um determinado momento em que a instituição acha esses funcionários muito caros, aí começa a substituí-los por mais novos, obviamente contratados com um valor mais baixo”, explica Souza. No final de 2011, a Universidade Camilo Castelo Branco (Unicastelo), em São Paulo, demitiu 16 professores que se negaram a aceitar um novo plano de carreira imposto pela instituição, que reduziria em cerca de 60% o valor da hora/aula. Os novos professores foram contratados com o valor rebaixado, entre R$ 22 e R$ 38 a hora/aula.

Outra prática comum é a troca de docentes com maior titulação por outros com menor. O motivo é a diferença no salário pago conforme a formação do docente, alega o vice-presidente do Sindicato dos Professores de Instituições Particulares de Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana (Sinpes), Valdyr Arnaldo Lessnau Perrini. “Contratam profissionais novos e já não querem mais pagar a gratificação de titulação”, afirma. Do total de docentes nas universidades particulares apenas 15% têm doutorado. Já nas públicas, cerca de 50% dos professores são doutores. Os dados são do Censo do Ensino Superior 2010, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação (MEC).

Instabilidade

Perrini explica que os professores das universidades privadas vivem sob constante pressão devido à instabilidade no emprego gerada pela política de rotatividade adotada para reduzir custos. “Os professores se sentem mais acuados, mais temerosos de expressar suas opiniões e isso acaba refletindo na qualidade do ensino, porque se você não estiver naquela linha do empregador, corre o risco de perder o seu emprego”, relata. Diferentemente das universidades públicas, em que os professores têm maior liberdade e independência, “inclusive, ideológica, na medida em que têm estabilidade no emprego e não estão sujeitos ao mau humor do empregador”, analisa Perrini. Dos mais de 378 mil professores do ensino superior do Brasil, 227 mil estão na rede privada, enquanto 150 mil são da rede pública.

Ainda em comparação com as públicas, as instituições particulares investem pouco em pesquisa e extensão. Segundo Perrini, mesmo nas universidades privadas, em que há a obrigação legal de restringir um terço do corpo docente para professores com contratos de regime integral, as horas que deveriam ser utilizadas para pesquisa são usadas com atividades próprias de setores administrativos. “Controles de diversas atividades que deveriam ser feitos por servidores não docentes acabam sendo transferidas para os professores”, diz o sindicalista.

Já os professores contratados com cargas horárias menores, caso queiram participar das atividades de pesquisa e extensão, devem fazê-lo fora do horário de trabalho. “Se esses professores buscam titulação ou se aperfeiçoar, é uma questão pessoal deles e que independe da instituição”, completa o professor Rafael Souza. Ele relata que nos noves anos de seu exercício docente em universidades particulares, nenhuma instituição o incentivou a procurar por mais especialização ou titulação. “Se eu quiser estudar, se quiser produzir artigos para publicar, se quiser participar de congressos, tudo sai do meu bolso”, conta.

Além da falta de apoio, a remuneração paga por essas instituições aos docentes também é insuficiente. Conforme reforça Perrini, presidente do Sinpes, o salário é muito baixo para o que se exige do professor, porque ele não tem apenas que ir trabalhar, tem que se preparar, comprar livros, se titular.

Não existe, entretanto, um piso salarial para os docentes do ensino superior privado. Dessa forma, os valores pagos pela hora/aula variam de acordo com a instituição e a titulação dos professores. Segundo a assessoria de imprensa do Sindicato dos Professores de São Paulo (Sinpro), com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) das instituições privadas de São Paulo referentes ao ano de 2010, a média salarial dos professores da graduação foi de R$ 3.799,17. Nas universidades públicas, os docentes de período integral recebem cerca de R$ 7 mil.

Fonte: Brasil de Fato

O dia em que Mario Balotelli zombou da Alemanha e do racismo

O certo é que a parte racista da Itália terá de engolir a própria língua, se quiser ver a “Squadra Azzurra” campeã da Eurocopa

Por Rita Zanon

Em qual lugar a Itália (principalmente a do norte) guardará o seu racismo, depois dos dois maravilhosos gols marcados pelo Mario Balotelli contra a Alemanha, na semifinal da Eurocopa? Difícil responder, porque na Itália (assim como na maioria dos países da Comunidade Européia) o racismo se tornou algo normal, que faz parte do cotidiano. “A minha pátria é a língua portuguesa”, escreveu Fernando Pessoa. Mario Balotelli, nascido na Itália, filho de imigrantes ganeses e adotado por um casal italiano, escolheu a língua de Dante como sua pátria aos 18 anos de idade.

Ao final da partida, enquanto todos os jogadores do banco italiano correram para dentro do campo, Mario Balotelli permaneceu imóvel e sereno. Alvo de inúmeras demonstrações de racismo ao longo de sua carreira, desde os tempos em que defendeu a Inter de Milão, Mario se contrapõe ao racismo de maneira altiva, tal qual Muhammad Ali.

O certo é que a parte racista da Itália terá de engolir a própria língua, se quiser ver a Squadra Azzurra campeã da Eurocopa.

Via Outras Palavras