A PM-SP revela sua ideologia em nota oficial

José Antonio Lima de Carta Capital

Polícia Militar realiza abordagens em bairros na zona norte de São Paulo durante a Operação Saturação, realizada em outubro de 2012

Para suprimir o debate sobre a desmilitarização, Polícia Militar adota discurso radical e insinua que críticos são comunistas

Em nota oficial enviada ao portal UOL e publicada nesta terça-feira 9, a Polícia Militar de São Paulo deixou claro que seu comando está alinhado ideologicamente com um dos discursos mais extremistas da política brasileira. É uma revelação espantosa, pelo conteúdo, que resvala com o autoritarismo, e pela forma como foi feita.

A nota oficial da PM-SP é uma resposta ao coronel reformado Adilson Paes de Souza, que em entrevista ao portal disse acreditar que a PM-SP trata parte da população brasileira como um potencial inimigo, assim como ocorria na ditadura. O comentário de Souza é uma referência aos altos índices de violência da Polícia Militar, em especial nas regiões periféricas das cidades brasileiras.

A PM-SP rebateu a afirmação de Souza com números de sua atuação (prisões, apreensões, atendimentos sociais e resgates) e afirmou ter uma organização de “polícia comunitária”. Disse possuir programas elogiados de tiro defensivo e combate às drogas e questionou a autoridade de Souza para debater o assunto. Para a PM-SP, o coronel reformado e outros especialistas que criticam a estrutura militar da corporação são comunistas. O termo não está presente no texto, mas fica claro nas entrelinhas. “Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião. Por fim, ruindo estruturas estatais, as instituições democráticas”, diz a PM-SP.

O raciocínio contido neste parágrafo é o mesmo presente nas declarações extremistas ouvidas durante as Marchas da Família do último mês de março, que defenderam um novo golpe militar no Brasil com base em um suposto “perigo comunista”. A mesma tese é defendida pelos parlamentares da família Bolsonaro, conhecidos radicais, e por seu ideólogo, Olavo de Carvalho, o messias da ideia de que o “marxismo cultural” constitui uma força hegemônica na sociedade e política brasileiras. A referência crítica, na nota da PM-SP, ao trabalho do pensador italiano Antonio Gramsci é a conexão óbvia com Carvalho.

Ao ironizar a condição de especialista de Souza e atribuir a ele e outros analistas a pecha de comunistas, o comando da PM-SP tem dois objetivos: deslegitimar seus críticos e suprimir o debate a respeito da desmilitarização da instituição, que entrou na pauta após a dura repressão ocorrida nas manifestações de junho.

O comando da Polícia Militar de São Paulo afirma que age contra policiais bandidos e tem exonerado centenas deles (349 em 2013). Está um tanto claro, entretanto, que este trabalho não é suficiente. Segundo o Núcleo de Estudos da Violência da USP, entre 1993 e 2011 ao menos 22,5 mil pessoas foram mortas em confronto com as polícias de São Paulo e Rio de Janeiro, uma média de três pessoas por dia. A população percebe essa situação. Em 2011, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, em nenhum região do País, mais de 6% da população diz “confiar muito” no trabalho das polícias. Na região Sudeste, o índice fica em 3%.

Há um consenso entre os especialistas, estes que a PM ironiza, de que as causas desses números são a estrutura militar da corporação, a tradição de policiamento agressivo existente no Brasil e a política de tratar problemas sociais, como a questão das drogas, como problema de polícia. Neste contexto, os policiais também são vítimas. Muitas vezes despreparados, como ficou claro nas manifestações de junho, eles vão às ruas para lidar com “inimigos”, exatamente como afirma o coronel Souza na entrevista que gerou indignação do comando da PM-SP.

Quem defende a desmilitarização da polícia, ou ao menos uma profunda reforma na instituição, não deseja acabar com a instituição, demitir todos os policiais e deixar a população desprotegida. Ao contrário, a intenção é justamente tornar mais efetivo e menos letal o policiamento na sociedade brasileira, especialmente quando este divide cidadãos em classes diferentes, com tratamento diversos. Se o comando da PM conseguisse ouvir e dialogar com seus críticos, e não trata-los como inimigos comunistas (o que apenas reforça o argumento do coronel Souza), todos teriam a ganhar.

Confira a íntegra da nota da PM, divulgada pelo UOL:

A PM e o Zepelim?

Mais uma vez, somos questionados por um órgão de imprensa sobre o nosso modelo de polícia, o militar. O ponto de início da matéria a ser construída obedece a alguns entendimentos já pacíficos por parte da reportagem e subsidiados pela opinião de “especialistas”. Vejamos:

A Polícia Militar trata parte da população brasileira como potencial inimigo;

O sistema de segurança pública é o mesmo da ditadura, guiado pela Lei de Segurança Nacional;

A ditadura ainda está na cabeça dos governantes e principalmente das polícias;

A PM que está aí atira para matar. Ela está servindo a outros interesses.

Como diria o colunista Reinaldo Azevedo, este é mesmo “o ano de satanização dos militares”.

É triste ver como a desinformação parece habitar algumas mentes neste nosso Brasil de tantos Brasis. Pior: é mais triste ver como alguns sentimentos se tentam materializar, migrando da quimera à teoria; daí à crença; por fim, daí à “verdade”.

Ninguém deveria se ocupar do julgamento do pretérito, especialmente com os olhos do presente, mas não é o que ocorre neste país… Conseguimos anistiar pessoas, mas não conseguimos libertar o passado, que parece um espírito confuso, agarrando-se a um corpo jacente.

Falar em inimigos, em Lei de Segurança Nacional, que a PM atira para matar, se não fosse terrível, seria cômico, porque denota, sim, a construção de um pensamento que se pretende coletivo, a partir de pessoas que se sentem intelectuais.

Seria mais simples pensar o mundo a partir de fatos, mas alguns propagadores de opinião preferem as ideologias, o partidarismo e, até, o oportunismo.

Na maioria das vezes, as polícias militares se desviam do posicionamento político (na essência da palavra); nossos contumazes detratores, não. E essa desigualdade se reflete no açoite cotidiano à categoria que se imbui de receber sobre si todos os pecados do mundo.

Talvez seja oportuno então alertarmos a sociedade quanto ao Brasil que alguns sonham construir, numa versão romântica, e bastante suspeita.

Antes disso, porém, talvez devêssemos informar que, desde 1997, a Polícia Militar de São Paulo se estrutura a partir de conceitos de polícia comunitária.

Pode-se mencionar também que o Método Giraldi de Tiro Defensivo para a Preservação da Vida, criado por um oficial da PM paulista e nela desenvolvido, é recomendado pela Cruz Vermelha Internacional como efetivamente aplicável ao treinamento das polícias.

Nosso Programa Estadual de Resistência às Drogas (Proerd), em vinte anos de atividade, já formou mais de sete milhões de crianças, ensinando-lhes caminhos seguros para fugir ao contato com esse mal que assombra nossa sociedade. Isso significa dizer que já educamos um número de jovens que representa 16% dos 43 milhões de paulistas, segundo estimativa do IBGE para o ano de 2013.

E não seria demais também lembrar que, no ano passado, atendemos 2.450.098 ocorrências, prendemos 183.952 pessoas, apreendemos mais de 80 toneladas de drogas, 13.828 armas de fogo em poder de criminosos, prestamos 2.506.664 atendimentos sociais e resgatamos 619.231 pessoas.

Seria tudo isso fruto de nossa vocação para enxergar a população como inimiga? Seria a ditadura que ainda está em nossa cabeça? A influência da Lei de Segurança Nacional? Ou ainda nossa compulsão de atirar para matar?!

Em que mundo esses “especialistas” fundamentam suas teorias?

Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião. Por fim, ruindo estruturas estatais, as instituições democráticas. Assim é o discurso desses chamados “intelectuais orgânicos”, como costumam se denominar, em consonância com as ideias revolucionárias do italiano Antonio Gramsci, que ecoaram pelo mundo a partir da década de 1930.

Tão assombrosa quanto esse discurso anacrônico, ou mais, é a teorização formulada por quem, em vez de servir a uma instituição, prefere servir-se dela, desqualificando-a, conspurcando-a. Nesse caso, o problema talvez não esteja na ideologia, mas na conveniência da oportunidade de mercado.

No presente momento em que diversos grupos supostamente democráticos fazem coro para desmilitarizar a nossa polícia, vemos pessoas que aqui passaram a maior parte de sua vida se colocando como arautos das mudanças que urgem. Esse tipo de voz ecoa muito mais pelo inusitado do que pela qualidade de seus argumentos pseudocientíficos. É a chamada crítica à moda Brás Cubas. Saca-se alguém de um determinado meio e essa pessoa recebe chancela de legitimidade por falar de algo que, em tese, conhece por vivência.

É inadmissível que um profissional, que deveria ter compromisso com a verdade, pois assim assumiu em juramento, falar em premiações, medalhas a policiais que matam, como se isso fosse uma prática corrente, cultural. Somos a instituição que mais depura seu público interno, sujeita a regulamentos, códigos rígidos de conduta e com uma corregedoria implacável contra agressores de policiais e contra policiais bandidos. Exoneramos centenas. Só em 2013, foram 349. Como dizer que toleramos o erro? Onde está a responsabilidade no que é dito.

Enfim, parece ser oportuno criticar um modelo de polícia que suporta o tempo e as circunstâncias adversas. Temos história, uma cultura, valores morais, coisa rara nos dias de hoje.

Critica-se, mas, no momento da agrura, sabemos qual é a última instância salvadora, quem pode nos socorrer: “o policial ditador, que nos vê como inimigos, que age conforme a L.S.N., que atira para matar…”. É como soava no refrão de Chico Buarque: “… Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir…”. Vem o sufoco, a salvação; passa o sufoco, torna-se ao linchamento. Será que a sociedade prescinde um dia de nós? Uma manhã? Uma hora?

Ainda somos uma democracia, é bom que nos lembremos sempre disso. Se um dia tivermos de mudar nosso modelo, que seja pelo desejo do povo, não de “especialistas”.

Centro de Comunicação Social da Polícia Militar de São Paulo

Rolezinho, mais simples do que parece

Rolezinho

 Por Gil Marçal via Outras Palavras

Ao mercado cabe experimentar seu próprio veneno. Aos governos, se inteligentes, aproveitar a potencialidade de quem mobiliza milhares para encontro despretensioso e barato

É próprio da juventude, principalmente na adolescência, a busca por identidade. A cultura, sobretudo por meio da música, tem um papel fundamental nessa construção. Podemos citar o rock progressivo nos anos 60, o movimento punk nos anos 80, o hip hop na virada dos 80 pros 90, o movimento clubber ou o grunge nos anos 90 e, por que não, o funk na atualidade. De qualquer forma, não podemos negar a importância da cultura e das tendências comportamentais, para a juventude, na constituição de sua identidade. São referências catalisadoras de um sentimento contemporâneo num contexto temporal.

Os shoppings centers também se colocaram para esta juventude como um espaço de constituição de identidade, neste caso uma identidade individualista, afirmada a partir de marcas e grifes, promovidas e vendidas cotidianamente por uma ideologia de consumo – daí a máxima “consumo, logo existo”. Os jovens da classe média com meios financeiros para comprar essa identidade são acolhidos por essa lógica, enquanto os jovens das classes baixas se esforçam para adquirir, no mínimo, um tênis e um boné “de marca”, muitas vezes por meio de pesada pressão em cima dos pais – frequentemente mães solteiras –, para inserir-se socialmente por meio do consumo.

É fácil criticar o funk, principalmente o que ficou conhecido como funk ostentação, que se afirma pela posse de bens como correntes e relógios de ouro, carros importados e marcas famosas. Mas é comum que não se leve em consideração o comercial do carro importado a partir de 70 mil reais, apresentado exaustivamente na TV aberta, sagradamente no horário nobre de cada dia, mas que não é para todos, é para quem pode se destacar, para quem pode ser “diferente”.

É nessa confluência entre a identidade coletiva, promovida pela cultura, e a identidade individualista, promovida pelo consumo, que reside o choque entre o rolezinho e o shopping center.

O capital força o governo a não cercear o mercado, restringindo seu papel apenas ao incentivo, principalmente com a redução dos impostos, como no caso do IPI aplicado aos automóveis e eletrodomésticos de linha branca. Mas quando se discute o caos em que as grandes metrópoles se encontram, com a superlotação por veículos individuais, atribui-se a culpa ao Estado pela falta de transporte público eficiente e de qualidade. Quando o Estado tenta responder a esta demanda criando corredores de ônibus, é atacado de forma violenta pelos meios de comunicação, que chegam a influenciar outros poderes, como é o caso da ampliação dos corredores de ônibus, que está sendo coibida por juízes a serviço dos empresários do ramo automobilístico. Um sistema que impede a tributação mais justa do IPTU, em nome da economia de migalhas para uma classe média gananciosa, em detrimento da justiça social.

Os empresários apresentam o shopping center como espaço de conforto e segurança de certo padrão de comportamento, onde jovens não podem marcar encontros em grande escala, perturbando a “ordem” e causando “constrangimento”. E delegam ao Estado (governos) a responsabilidade de promover espaços que acolham estes jovens com lazer e entretenimento. Os shoppings condensam dentro de um só espaço o suprassumo da vida urbana, como os games e os cinemas, as tendências da moda e da tecnologia, a alimentação e por consequência o convívio. Tudo o que é importante para a juventude.

Os shopping centers se caracterizam por serem espaços privados de acesso público. Ao negarem que são espaços de acesso público, perdem o direito de acionar os serviços públicos, como no caso a segurança urbana por meio das forças policias. Os jovens têm, pois, total direito de realizar seus encontros nesses espaços, uma vez que o interesse é público. Não poderiam ser coibidos, constrangidos ou agredidos, tendo em vista que, frente a qualquer necessidade real de acionar as forças públicas, a conta seria paga com dinheiro do próprio povo. As estações de metrô conectadas aos shoppings centers são exemplos desta mesma lógica. Que interesse haveria nesta conexão se o acesso não fosse, de fato, público?

O rolezinho é parte das necessidades inerentes da juventude: necessidades de convívio, de diversão, de encontro. Mas o rolezinho no shopping center é fruto do sistema capitalista, que relaciona afetividade e consumo – haja vista alguns comerciais que praticamente nos fazem chorar de emoção e, ao terminar, apresentam marcas de refrigerantes, eletrodomésticos, carros e outros produtos, pondo à venda a felicidade humana a preços elevados.

Teóricos de direita, esquerda e jornalistas apresentam suas teses sobre o fenômeno. Os de direita vendem a ideia de uma juventude desinteressada e marginal, sendo que, na totalidade dos rolezinhos, não houve arrastão nem roubo de mercadorias. Sugerem ainda que os rolezinhos ocorram em bibliotecas e que os jovens busquem informação e emprego – mas, estes encontros não têm ocorrido justamente nos finais de semana? Os de esquerda evocam o apartheid não institucional no Brasil e as questões de raça e cor, e se manifestam contra a sociedade de consumo e a segregação social. Mas estes jovens, como já dito, estão calçando tênis da marca em voga, ainda que a duras penas. A imprensa fala em baderna e perturbação da ordem, principalmente do MEDO gerado por estas concentrações. Mas pânico e correria, ao que parece, foram decorrência da ação dos seguranças e da polícia militar. Ir e vir, só se for para consumir.

Os rolezinhos são apontados como espaços de uso de drogas e geração de violência, como se não houvesse trotes violentos e drogas nas escolas particulares e universidades de grande reconhecimento. Além disso, fora os títulos sensacionalistas, não é o que a própria mídia impressa apresentou sobre as experiências ocorridas no último mês. Em suma, os eventos ocorreram de forma pacífica, sem roubos ou violência. O que realmente pega é que os rolezinhos atrapalharam o que há de mais sagrado para a sociedade de consumo: as vendas. E a ideia de proteção e segurança, que tem a maior importância para nossa sociedade.

Essa geração reconhece o shopping como espaço de referência e de segurança, o que contribui para a tranquilidade de seus pais, vendo a rua como local inseguro. Vale lembrar que, quando estes jovens se encontram nas ruas, também são coibidos, por meio da força, para dispersar. O poder das redes sociais ainda é pouco assimilado pelos adultos. E a reflexão deste momento não pode deixar de fora o genocídio da juventude pobre, negra e periférica – tão discutida pelos jovens ativistas da periferia.

Voltemos à nossa adolescência e evoquemos o que motivava nossos 14, 15 ou 16 anos. Tentemos olhar este fenômeno contemporâneo de forma genuína. Observemos então o que estes jovens têm dito sobre seus encontros, e perceberemos que o que os motiva são as “curtições”, “se divertir”, “pegar geral”, “beijar” “sem alastrar”, “sem fazer arrastões” ou cometer “vandalismos”. Talvez então possamos ter propostas de troca ou interação com essa galera, que se apresenta como sujeitos de uma necessidade de convívio, e não como pequenos marginais que acabam com a “ordem”. São sobretudo adolescentes e jovens que moram nas periferias da cidade, que estudam em escolas públicas, falidas, e que buscam o direto de serem adolescentes e jovens – apenas isso.

A coibição destes encontros pode até politizar o “movimento”, dentro dos moldes conhecidos por nossa forma de fazer política. Mas como consequência, e não como ponto de partida. Aqui, o mais próximo do que chamamos de política está no simples encontro: no conhecer outras pessoas, no beijo.

Ao mercado cabe experimentar um pouco das consequências de sua própria forma de ser, experimentar seu próprio veneno. Aos governos, se forem inteligentes, cabe aproveitar a potencialidade dessa galera de 16 anos, que mobiliza mais de mil pessoas para um encontro despretensioso e economicamente barato. Esse poder de mobilização para a cultura é um prato cheio, enquanto teatros e bibliotecas estão vazios.

*Gil Marçal tem 34 anos, nascido e criado na região do M’Boi Miriam na periferia da Zona Sul da cidade; na adolescência começou a fazer produção cultural, depois foi Coordenador do Programa VAI e atualmente dirige a área de Cidadania Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Humilhado por racistas, Touré deu a resposta que fez a Fifa tremer.

Cosme Rímoli via R7

1afp6 Humilhado por racistas, Touré deu a resposta que fez a Fifa tremer. Ameaçou liderar um boicote de negros à Copa da Rússia. Blatter imediatamente agiu. Sabe que não há Mundial sem negros, amarelos, brancos, mestiços. As punições serão duras aos clubes e aos racistas...

O presidente Joseph Blatter nunca soube lidar com o racismo.

Fazia de conta que não percebia.

O comandante da Fifa já disse absurdos.

Como um enorme.

Insistiu que qualquer ofensa racial dentro do campo não deve ser levada a sério.

“Depois tudo se acerta após o jogo, com um aperto de mãos.”

Foi massacrado pela imprensa internacional.

A postura do presidente da Fifa incentivava o preconceito.

O Leste Europeu se tornou especialista em atos racistas.

Vários foram os casos nos últimos anos.

Com torcedores imitando macacos, jogando banana para atletas negros.

Faixas com frases que envergonham a humanidade.

Muitos jogadores negros já passaram pelas humilhantes situações.

Paulinho, ex-Corinthians, chorou ao se lembrar do que passou na Lituânia.

“Vou levar as lembranças ruins para o resto da minha vida. Sofri muito com preconceito e com racismo na Lituânia. Logo na minha primeira partida começaram a imitar macaco, jogar moedas e algumas outras coisas. Quando ia passar com a minha esposa nas ruas, algumas pessoas ficavam esbarrando para que a gente revidasse de alguma forma, querendo arrumar algum tipo de briga ou discussão. Esses episódios me deixaram mal e me fizeram pensar na possibilidade de desistir do futebol. O racismo me derrubou, me arrebentou.”

Paulinho ficou traumatizado.

Tinha apenas 17 anos.

Relembrou o que sofreu ao Lance!

E por causa dessa angústia, não estava com pressa para voltar à Europa.

Até que representantes do Tottenham o convenceram.

Não passaria o mesmo na Inglaterra.

Foi, mas avisou que romperia o contrato se sofresse racismo outra vez.

Na Rússia, Roberto Carlos ficou transtornado.

O ex-lateral da Seleção passou muita vergonha.

As torcidas do Krylya Sovetov e do Zenit mostraram seu lado racista.

Imitavam macaco cada vez que ele pegava na bola.

E chegaram até a jogar bananas em sua direção.

Infelizmente, a Rússia vem se especializando na intolerância.

O caso mais recente, no entanto, foi com o jogador errado.

Na partida entre CSKA e Manchester City, o alvo dos torcedores foi logo escolhido.

Yaya Touré, jogador negro que nasceu na Costa do Marfim.

Era só a bola cair no seu pé e lá vinha a imitação de macacos na arquibancada.

A partida era válida pela Champions League.

O marfinense ficou revoltado.

Mas não seguiu o caminho fácil de apenas reclamar na imprensa.

Parou o jogo, mostrou ao árbitro e pediu que a partida fosse encerrada.

2afp3 Humilhado por racistas, Touré deu a resposta que fez a Fifa tremer. Ameaçou liderar um boicote de negros à Copa da Rússia. Blatter imediatamente agiu. Sabe que não há Mundial sem negros, amarelos, brancos, mestiços. As punições serão duras aos clubes e aos racistas...

Não foi.

Touré tomou uma decisão que fez Blatter acordar de vez para a questão.

Foi claro.

“Esse tipo de situação tem de acabar até o Mundial de 2018.

Se não acabar, vou ajudar a organizar um boicote dos negros.

Não teremos tranquilidade para jogar.

Não iremos para a Rússia.

Nem nós e nem os torcedores dos países que jogamos.”

Declarou sem medo.

Bastou para Blatter.

Misturar em uma só frase boicote e Mundial é seu pesadelo.

Ainda mais saída da boca de um ídolo do futebol inglês.

Seria inimaginável uma Copa sem negros.

Impossível.

Sem Balotelli, Touré, sem Neymar…

Sem as Seleções Africanas.

A proposta do marfinense é forte e factível.

Os exemplos de casos de racismo na Europa são vergonhosos.

Blatter sentiu o baque.

E também a pressão da UEFA de Platini.

2reproducao11 Humilhado por racistas, Touré deu a resposta que fez a Fifa tremer. Ameaçou liderar um boicote de negros à Copa da Rússia. Blatter imediatamente agiu. Sabe que não há Mundial sem negros, amarelos, brancos, mestiços. As punições serão duras aos clubes e aos racistas...

Percebeu o quanto a postura da Fifa é branda, quase conivente.

Não adianta apenas multar e obrigar os clubes a jogar com portões fechados.

Aqueles que possuem racistas entre seus torcedores precisam pagar caro.

Depois da ameaça de Touré, Blatter encomendou mudança nas regras.

Ele vai atender à reivindicação do jogador do Manchester City.

E na, próxima temporada, os imitadores de macacos e lançadores de banana que se preparem.

A ideia da Fifa é pressionar que eles sejam proibidos de assistir aos jogos.

Pressionar que as polícias os identifiquem e indiciem.

E os proíbam de ir para os estádios nos dias em que seus times estiverem jogando.

Aos clubes, as punições serão muito mais severas.

Em vez de multas, perda de pontos.

E, em caso de reincidência, até mesmo eliminação de campeonatos.

Touré fez Blatter parar de fingir que não enxerga.

Nunca mais foi pelo caminho da hipocrisia.

A de aceitar que os jogadores se ofendam do que for.

E depois tudo seja esquecido com mero aperto de mão.

Chamar o adversário de ‘macaco’ não será mais ‘coisa de jogo’.

Como defendem vários treinadores.

Inclusive Felipão, quando estava no Palmeiras.

Quando Danilo xingou Manoel de macaco.

E ainda lhe deu uma cusparada no rosto.

O STJD aplicou a suspensão de 11 jogos.

O que seria um exemplo acabou em vexame.

O tribunal acabou liberando o zagueiro de quase metade da punição.

Ele só teve de cumprir seis jogos.

Decisão vergonhosa.

E que só premiou o ato racista, preconceituoso de Danilo.

A Fifa pretende evitar essa situação.

E deverá também exigir punições graves aos jogadores.

Não tolerará palavrões e gestos preconceituosos.

Como o que fez Antônio Carlos com Jeovânio.

O zagueiro atuava no Juventude e o volante no Grêmio.

Depois de discutirem, o ex-jogador da Seleção se irritou.

E passando a mão no próprio braço.

Quis mostrar a ‘razão’ do problema.

3reproducao4 Humilhado por racistas, Touré deu a resposta que fez a Fifa tremer. Ameaçou liderar um boicote de negros à Copa da Rússia. Blatter imediatamente agiu. Sabe que não há Mundial sem negros, amarelos, brancos, mestiços. As punições serão duras aos clubes e aos racistas...

O seu rival ser negro.

A imagem é chocante e marcou o final da carreira de Antônio Carlos.

Impediu, por exemplo, que fosse trabalhar como treinador no Vasco.

As torcidas fizeram uma enorme campanha contra ele.

O Vasco foi o primeiro clube do Brasil a admitir negros jogando no seu time.

E Roberto Dinamite teve de voltar atrás e não contratá-lo.

Inesquecível a postura de Grafite em relação a Desábato.

O atacante do São Paulo revelou que o zagueiro do Quilmes o chamou de macaco.

Velho costume de atletas do futebol argentino quando enfrentam brasileiros.

Desábato acabou sendo preso em pleno Morumbi.

Mas Grafite resolveu retirar a acusação.

E nada aconteceu contra o adversário.

O brasileiro foi muito criticado por recuar.

Principalmente por várias entidades que lutam pelo direito dos negros.

Assim como também fez a CBF.

No Sul-Americano Sub-20 em 2011, no Peru.

Jogavam Brasil e Bolívia.

E a torcida peruana começou a imitar macacos.

Bastava Diego Maurício pegar na bola.

O jovem jogador ficou abalado.

Mas a CBF resolveu ignorar as ofensas.

Para não criar problemas com a organização do torneio.

Infelizmente há centenas de outros casos pelo mundo.

Tudo ainda estava muito solto em relação ao racismo.

Foi preciso Touré ameaçar levar à frente um boicote.

E a Fifa despertou para a seriedade da questão.

Não há Copa sem negros.

Sem brancos, sem amarelos, sem mestiços.

Mas há futebol com racismo.

E isso só irá acabar com leis rígidas.

Contra os torcedores e os clubes destes racistas.

O Leste Europeu e o resto do mundo estão alertados.

Pelo menos no futebol o preconceito custará caro.

Fora dele, ainda vai imperar a hipocrisia…
1reproducao22 Humilhado por racistas, Touré deu a resposta que fez a Fifa tremer. Ameaçou liderar um boicote de negros à Copa da Rússia. Blatter imediatamente agiu. Sabe que não há Mundial sem negros, amarelos, brancos, mestiços. As punições serão duras aos clubes e aos racistas...

Matamos Amarildo

Matheus Pichonelli via Carta Capital

Tropa de Elite
Quando a plateia vibrou com a cena final de Tropa de Elite, ela não percebeu que a escopeta estava voltada para ela

Quando o Capitão Nascimento, com o coturno na garganta do traficante “Baiano”, entregou a escopeta nas mãos do Soldado Mathias e determinou a execução do bandido com um balaço no rosto, as salas de cinema do Brasil vibraram como torcida em final de campeonato. Como em uma arquibancada, houve quem se levantasse e aplaudisse a cena de pé, algo inusitado para uma sessão de cinema. O Brasil que pedia direitos humanos para humanos direitos estava vingado.

José Padilha precisou praticamente desenhar, em Tropa de Elite 2, que aquela escopeta estava voltada, na verdade, para o rosto da plateia. Mas a plateia, em sua sanha punitiva, parecia incapaz de refletir e entender que a tortura, os sacos plásticos e a justiça por determinação própria eram a condenação, e não a redenção, de um país de tragédias cotidianas. Nos dois filmes, todos estavam de alguma forma envolvidos na criminalidade – corruptos e corruptores, produtores e consumidores, eleitos e eleitores – mas só alguns iam para o saco de tortura. As consequências dessa indignação seletiva estavam subentendidas, mas muitos não as captaram: nas camadas superficiais da opinião pública, o apelo a soluções simples é sempre tentador. (Em uma das cenas do segundo filme, Nascimento é aplaudido de pé ao chegar a um restaurante de bacanas após comandar o massacre em um presídio. Padilha mostrava ali que a que violência denunciada em Tropa de Elite não era só caso de policia, mas uma chaga aberta e diariamente cutucada por quem recorre, no discurso ou na ação, a soluções arbitrárias contra um caos legitimado).

É possível que este mesmo Brasil que transformou em heroi um personagem complexo e vacilante como o Capitão Nascimento, personagem interpretado por Wagner Moura, não tenha sequer franzido a testa, na vida real, pelo sumiço do ajudante de pedreiro Amarido de Souza, de 47 anos. Para quem não sabe, Amarildo desapareceu no dia 14 de julho após ser levado para a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Ninguém sabe ninguém viu o que aconteceu desde então (repita-se: em uma unidade PACIFICADORA). Isso porque as câmeras de monitoramento da região, estranhamente, não registraram a movimentação. Segundo um inquérito aberto pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil fluminense (e encaminhado ao Ministério Público do Rio), Amarildo, que era epilético, foi torturado, morto e seu corpo, ocultado. Foram indiciados dez policiais militares lotados à época na UPP, entre eles o ex-comandante da unidade, major Edson dos Santos.

Na Justiça, todos terão direito a se defender, e é bom que assim seja. Direito que o ajudante de pedreiro não chegou a vislumbrar – seu erro fatal, segundo a investigação, foi ter se negado a fornecer informações sobre traficantes do morro, a quem supostamente preparava churrascos. Sua versão da história será sempre um mistério: no método de depoimento informal aplicado supostamente pelos PMs – com direito a choques elétricos, de acordo com o inquérito – a verdade dos fatos é a primeira a morrer sufocada.

Amarildo não foi a primeira e fatalmente não será a última vítima. Nem da violência nem do descaso nem da ignorância. Os aplausos da plateia abobada de Tropa de Elite são reforçados todos os dias, inclusive quando o governador diz: “E daí? Antigamente havia muito mais Amarildos do que hoje”. Tanto Amarildo como o governador não são pontos fora da curva. São uma legião, porque são muitos.

No país das indignações seletivas, a aceitação da tortura é a manifestação inequívoca de um estado de guerra e barbárie permanente no qual a convivência humana é simplesmente inviável. No filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick criou uma alegoria para ilustrar a origem deste estado: quando um grupo de macacos identifica em uma ossada um arsenal de guerra e provoca uma dissidência; com os ossos na mão, passam a agir como base na violência, na coação, na briga pelo território, pelo privilégio, pela dominação de uns pelos outros. É quando os animais se humanizam.

Ao longo dos anos, esta humanidade barbarizada caminhou em direção ao que se chama civilização, em que pese o fato de alguns dos maiores morticínios terem sido praticados nos séculos XX e XXI (a morte por gás sarin não é menos dolorosa que um golpe de machado). Em outros termos, significa que entre um símio e outro há uma regra de conduta, baseada em lei, que impede o uso dessa arma para a imposição da força. Essa lei, em tese, é o que evita o aniquilamento humano. Inevitavelmente, esta cortina frágil é rasgada todos os dias por quem não consegue identificar a humanidade no outro. Voltamos um pouco ao estágio pré-civilizatório toda vez que testemunhamos um crime motivado por ciúmes, por território, por controle, por motivo fútil, por necessidade. Mas, em vez de distribuir ossos e oficializar o aniquilamento, optamos por criar o Estado, a legalidade e armamos a polícia, a detentora do monopólio legítimo da violência. Mais do que ninguém, ela é a força responsável por impedir que os símios espalhados pelo mundo ajam conforme seus instintos – e sejam punidos em casos de infração. Tem as armas para isso.

Quando aplaudimos a tortura policial, no entanto, a mensagem passada aos nossos supostos guardiões é que esta arma pode ser usada como bem entenderem, e não em favor de uma paz possível prevista em lei. É como se a plateia exultante de Tropa de Elite, iguais aos macacos de 2001, dissessem: “danem-se as leis, somos todos neandertais”.

O apelo à tortura como consequência da segurança é, portanto, a confissão e a aceitação de uma incapacidade ancestral. Em vez de segurança, o que ela produz é pânico: aceitamos que a polícia se comporte não como o agente público a nos proteger de símios ensandecidos com ossos na mão, mas exatamente igual aos animais retratados no filme.

Nesses termos, o estado completo de vulnerabilidade está criado. Ontem, mais precisamente em 14 de julho de 2013, foi a vez de Amarildo. Amanhã pode ser eu. Ou você. Enquanto aplaudimos as soluções arbitrárias, que aniquila tanto o bandido como o inocente, é a sorte, e não a lei, o elemento a impedir que um animal armado (fardado ou não) com arma na mão, pelo simples fato de acordar num belo dia de mau humor, coloque nossas cabeças em um saco plástico e nos sufoque até a morte.