10 Livros que você provavelmente não sabia que já foram proibidos

Via Spotniks

Mangás, teorias econômicas, romances e até livros infantis: conheça alguns dos livros mais perseguidos ao redor do mundo.

livros

Apesar do “direito à vida cultural” constar na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e em muitas constituições ao redor do mundo – incluindo a brasileira -, diversos foram os países onde esse direito existiu somente no papel. Por motivos religiosos, políticos ou morais, governos proibiram e censuraram livros durante séculos – e por mais medieval que isso soe, essa ainda é uma prática comum até nos dias de hoje.

Preparamos uma lista de alguns livros famosos e desconhecidos que um dia foram proibidos em alguma parte do mundo. Na semana em que se comemora a liberdade de ler, confira os 10 livros que você provavelmente não sabia que foram censurados.

Burger’s Daughter, Nadine Gordimer

Nadine Gordimer

Quando falamos em censura de livros por motivos políticos, logo nos vêm à cabeça obras filosóficas ou relatos reais de pessoas perseguidas por ditaduras. Burger’s Daughter (“A filha de Burger”, numa tradução livre), porém, é um dos diversos livros de ficção que foram banidos por governos. O livro da britânica Nadine Gordimer conta a história de um grupo de ativistas brancos sul-africanos que lutam contra o apartheid.

Na época em que foi lançado (1979), a obra foi considerada “uma ameaça à segurança da África do Sul” pelas autoridades, que rapidamente proibiram sua importação. A proibição, porém, saiu pela culatra e ajudou o livro a se tornar uma das mais conhecidas e celebradas obras sul africanas, sobretudo por ativistas anti-apartheid.

O Senhor dos Anéis, J. R. R. Tolkien

The_Lord_of_the_Rings_First_Copies

A famosa trilogia fantástica escrita por Tolkien percorreu um longo caminho antes de chegar aos videogames e ao cinema. A história foi criticada por grupos religiosos pelo seu conteúdo considerado pagão.

Em 2001, membros de uma igreja do Novo México, nos Estados Unidos, chegaram a queimar cópias da publicação  – algumas comunidades cristãs locais proibiram o livro. Os religiosos acusaram a trilogia de fazer apologia ao satanismo, apesar de nenhuma menção a figuras satânicas ser feita durante o enredo – sem contar o fato de Tolkien ser cristão. Mais tarde, o filme também sofreria críticas de grupos antitabagistas, que acusariam a obra cinematográfica de estimular crianças a fumarem.

Arquipélago Gulag, Alexander Solzhenitsyn

DSC00203

Arquipélago Gulag traz relatos reais de seu autor, Alexander Solzhenitsyn, sobre os campos de trabalho forçado da extinta URSS. Alexander esteve preso por 11 anos nesses campos e descreve o que viu e ouviu nas cerca de 600 páginas do livro. Além de sua própria visão, o livro também apresenta relatos de mais de duzentas pessoas que presenciaram o cotidiano dos campos de trabalho.

Após a publicação, a obra foi censurada na União Soviética. Lançada no ocidente em 1973, Arquipélago Gulag circulou ilegalmente por 16 anos nas repúblicas socialistas, até ser oficialmente aceito no governo de Mikhail Gorbachev. Hoje, tornou-se um dos livros mais famosos sobre as prisões soviéticas e é considerado elemento fundamental do currículo das escolas Russas desde 2009.

Alexander também teve seu romance “Um Dia na Vida de Ivan Denisovich” censurado pelo governo soviético. O romance narra um dia da vida de um prisioneiro de um campo de trabalho forçado soviético.

A Riqueza das Nações, Adam Smith

fig01-wealth-of-nations

Um dos livros responsáveis por teorizar as bases da economia moderna, escrito por um dos mais aclamados economistas de todos os tempos, também foi um dos mais criticados. Após concentrar sua defesa na liberdade de comércio e propriedade, o economista Adam Smith viu sua obra ser proibida pela aristocracia do século XVIII por suas críticas ao mercantilismo.

Anos mais tarde, o livro foi acusado de ser muito capitalista acabou banido das prateleiras dos países socialistas.

Death Note, Tsugumi Ohba

2810299899_4dd0730e7e_o

O famoso mangá japonês Death Note que deu origem ao anime homônimo também sofreu censuras. Na China o livro foi proibido pelas autoridades. O motivo? “Proteger a saúde física e mental” dos estudantes.

Os governantes também acusaram a obra de “enganar crianças inocentes e distorcer sua mente e seu espírito”.

1984, George Orwell

1984

A distopia (talvez não tão distópica) de Orwell já foi eleita pela TIME como um dos livros mais perseguidos ao redor do mundo – e não é pra menos. Em 1950, Joseph Stalin censurou o livro na União Soviética por considerar que a obra era uma crítica direcionada ao seu governo – ironicamente, um dos temas centrais do romance é a crítica à censura.

Além da URSS, os Estados Unidos e o Reino Unido quase deram uma de “Ministério da Verdade”, censurando o livro durante a crise dos mísseis de 1960. A ideia de censurar a publicação, no entanto, acabou ficando só no papel. Apesar disso, apelos regionais para que o livro fosse proibido aconteceram, como no Condado de Jackson, na Florida, onde o livro foi amplamente chamado de “pró-comunista”.

The Peaceful Pill Handbook, Philip Nitschke e Fiona Stewart

532880504_7080029909_o

Publicado em maio de 2007, “O Livro da Pílula da Paz”, numa tradução livre, traz instruções de como cometer um suicídio. O foco da publicação são as formas não violentas e indolores de tirar a própria vida, que recebem uma classificação de quão “pacíficas” são de acordo com um ranking estabelecido pelos autores.

A Austrália foi o primeiro país a proibir a circulação da versão impressa, seguida pela Nova Zelândia. Como forma de burlar as restrições, versões em ebook foram disponibilizadas na Austrália em 2008. A medida irritou tanto o governo do país, que foi cogitado um plano para restringir o acesso aos sites que disponibilizavam a versão do livro.

Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll

Alice

Apesar de ser um livro clássico e amplamente distribuído no Ocidente, Alice no País das Maravilhas sofreu uma série de censuras na China por volta da década de 1930. Na província de Hunan, o General Ho Chien censurou a obra por considerar que seus personagens antropomórficos (animais com características humanas) feriam a moral e insultariam os seres humanos “chamando-os de animais”.

A Revolução dos Bichos, George Orwell

orwell

Outro livro de Orwell que sofreu repressões, A Revolução dos Bichos (Animal Farm, no original), teve problemas já em 1943, logo após finalizado, quando nenhuma editora britânica se dispôs a publicar o livro temendo sofrer repressões do governo, então aliado da URSS. Após conseguir publicar as primeiras edições, Orwell teve sua obra rapidamente proibida na União Soviética e em outros países socialistas.

O livro também sofreu proibições no Quênia, em 1991, por sua crítica a políticos corruptos, e nos Emirados Árabes Unidos, em 2002, por conter imagens e textos contrários à moral islâmica – principalmente pela existência de um porco com características humanas. Até hoje o livro é censurado em Cuba, na Coreia do Norte e na China.

And Tango Makes Three, Henry Cole

Tango-makes-3

A obra infantil de 32 páginas figura entre as publicações mais censuradas do mundo, de acordo com o The Guardian. O livro conta a história real de dois pinguins do Zoológico do Central Park de Nova York, que formaram um casal homossexual durante 6 anos. Os dois pinguins demonstram um comportamento afetivo, tentando chocar pedras em formato de ovos.

Ao perceberem as relações afetivas entre os pinguins e sua vontade de ter um filhote, os zeladores do zoológico deram aos animais um ovo de verdade, obtido de um cruzamento heterossexual entre outros dois pinguins impossibilitados de chocá-lo. Os pinguins homossexuais deram origem a uma pinguim fêmea chamada de Tango pelos zeladores.

O livro gerou uma série de polêmicas nos Estados Unidos e foi acusado de ser “ilusório”. Em vários estados, pais de alunos protestaram para que as escolas retirassem a obra das bibliotecas. Em 2006, a cidade de Charlotte removeu o livro das bibliotecas escolares, após decisão do Superintendente de Escolas da cidade. Em 2008, foi a vez do condado de Loudoun, quando o Superintendente de Escolas Públicas, Edgar Hatrick, ordenou a remoção do livro das bibliotecas das escolas públicas do condado. Recentemente, em julho desse ano, o Comitê Nacional de Bibliotecas de Singapura confirmou a destruição de livros infantis com temas pró-LGBT, incluindo o livro que conta a história de Tango.

Bônus: o cordel que o INSS censurou

davi

O cordelista pernambucano Davi Teixeira teve seu cordel “A Lei da Previdência” censurado pela INSS ano passado. O cordel chegou até o Grupo de Proteção de Imagens das Autarquias e Fundações Públicas Federais, que levou a publicação até o INSS. O INSS apurou que a obra passava um conteúdo depreciativo à imagem do Instituto e coagiu Davi a muda-la.

O cordelista, que vendia seus cordeis como fonte de renda, chegou a queimar 600 exemplares, com medo de ser preso. A obra só foi liberada para circulação depois que Davi pediu auxílio de um advogado, que entrou com uma ação na justiça. Só então, com o aval do juiz da 3ª Vara Federal, os poemas que criticavam o sistema da previdência puderam ser novamente vendidos pelo autor.

Anúncios

A PM-SP revela sua ideologia em nota oficial

José Antonio Lima de Carta Capital

Polícia Militar realiza abordagens em bairros na zona norte de São Paulo durante a Operação Saturação, realizada em outubro de 2012

Para suprimir o debate sobre a desmilitarização, Polícia Militar adota discurso radical e insinua que críticos são comunistas

Em nota oficial enviada ao portal UOL e publicada nesta terça-feira 9, a Polícia Militar de São Paulo deixou claro que seu comando está alinhado ideologicamente com um dos discursos mais extremistas da política brasileira. É uma revelação espantosa, pelo conteúdo, que resvala com o autoritarismo, e pela forma como foi feita.

A nota oficial da PM-SP é uma resposta ao coronel reformado Adilson Paes de Souza, que em entrevista ao portal disse acreditar que a PM-SP trata parte da população brasileira como um potencial inimigo, assim como ocorria na ditadura. O comentário de Souza é uma referência aos altos índices de violência da Polícia Militar, em especial nas regiões periféricas das cidades brasileiras.

A PM-SP rebateu a afirmação de Souza com números de sua atuação (prisões, apreensões, atendimentos sociais e resgates) e afirmou ter uma organização de “polícia comunitária”. Disse possuir programas elogiados de tiro defensivo e combate às drogas e questionou a autoridade de Souza para debater o assunto. Para a PM-SP, o coronel reformado e outros especialistas que criticam a estrutura militar da corporação são comunistas. O termo não está presente no texto, mas fica claro nas entrelinhas. “Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião. Por fim, ruindo estruturas estatais, as instituições democráticas”, diz a PM-SP.

O raciocínio contido neste parágrafo é o mesmo presente nas declarações extremistas ouvidas durante as Marchas da Família do último mês de março, que defenderam um novo golpe militar no Brasil com base em um suposto “perigo comunista”. A mesma tese é defendida pelos parlamentares da família Bolsonaro, conhecidos radicais, e por seu ideólogo, Olavo de Carvalho, o messias da ideia de que o “marxismo cultural” constitui uma força hegemônica na sociedade e política brasileiras. A referência crítica, na nota da PM-SP, ao trabalho do pensador italiano Antonio Gramsci é a conexão óbvia com Carvalho.

Ao ironizar a condição de especialista de Souza e atribuir a ele e outros analistas a pecha de comunistas, o comando da PM-SP tem dois objetivos: deslegitimar seus críticos e suprimir o debate a respeito da desmilitarização da instituição, que entrou na pauta após a dura repressão ocorrida nas manifestações de junho.

O comando da Polícia Militar de São Paulo afirma que age contra policiais bandidos e tem exonerado centenas deles (349 em 2013). Está um tanto claro, entretanto, que este trabalho não é suficiente. Segundo o Núcleo de Estudos da Violência da USP, entre 1993 e 2011 ao menos 22,5 mil pessoas foram mortas em confronto com as polícias de São Paulo e Rio de Janeiro, uma média de três pessoas por dia. A população percebe essa situação. Em 2011, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, em nenhum região do País, mais de 6% da população diz “confiar muito” no trabalho das polícias. Na região Sudeste, o índice fica em 3%.

Há um consenso entre os especialistas, estes que a PM ironiza, de que as causas desses números são a estrutura militar da corporação, a tradição de policiamento agressivo existente no Brasil e a política de tratar problemas sociais, como a questão das drogas, como problema de polícia. Neste contexto, os policiais também são vítimas. Muitas vezes despreparados, como ficou claro nas manifestações de junho, eles vão às ruas para lidar com “inimigos”, exatamente como afirma o coronel Souza na entrevista que gerou indignação do comando da PM-SP.

Quem defende a desmilitarização da polícia, ou ao menos uma profunda reforma na instituição, não deseja acabar com a instituição, demitir todos os policiais e deixar a população desprotegida. Ao contrário, a intenção é justamente tornar mais efetivo e menos letal o policiamento na sociedade brasileira, especialmente quando este divide cidadãos em classes diferentes, com tratamento diversos. Se o comando da PM conseguisse ouvir e dialogar com seus críticos, e não trata-los como inimigos comunistas (o que apenas reforça o argumento do coronel Souza), todos teriam a ganhar.

Confira a íntegra da nota da PM, divulgada pelo UOL:

A PM e o Zepelim?

Mais uma vez, somos questionados por um órgão de imprensa sobre o nosso modelo de polícia, o militar. O ponto de início da matéria a ser construída obedece a alguns entendimentos já pacíficos por parte da reportagem e subsidiados pela opinião de “especialistas”. Vejamos:

A Polícia Militar trata parte da população brasileira como potencial inimigo;

O sistema de segurança pública é o mesmo da ditadura, guiado pela Lei de Segurança Nacional;

A ditadura ainda está na cabeça dos governantes e principalmente das polícias;

A PM que está aí atira para matar. Ela está servindo a outros interesses.

Como diria o colunista Reinaldo Azevedo, este é mesmo “o ano de satanização dos militares”.

É triste ver como a desinformação parece habitar algumas mentes neste nosso Brasil de tantos Brasis. Pior: é mais triste ver como alguns sentimentos se tentam materializar, migrando da quimera à teoria; daí à crença; por fim, daí à “verdade”.

Ninguém deveria se ocupar do julgamento do pretérito, especialmente com os olhos do presente, mas não é o que ocorre neste país… Conseguimos anistiar pessoas, mas não conseguimos libertar o passado, que parece um espírito confuso, agarrando-se a um corpo jacente.

Falar em inimigos, em Lei de Segurança Nacional, que a PM atira para matar, se não fosse terrível, seria cômico, porque denota, sim, a construção de um pensamento que se pretende coletivo, a partir de pessoas que se sentem intelectuais.

Seria mais simples pensar o mundo a partir de fatos, mas alguns propagadores de opinião preferem as ideologias, o partidarismo e, até, o oportunismo.

Na maioria das vezes, as polícias militares se desviam do posicionamento político (na essência da palavra); nossos contumazes detratores, não. E essa desigualdade se reflete no açoite cotidiano à categoria que se imbui de receber sobre si todos os pecados do mundo.

Talvez seja oportuno então alertarmos a sociedade quanto ao Brasil que alguns sonham construir, numa versão romântica, e bastante suspeita.

Antes disso, porém, talvez devêssemos informar que, desde 1997, a Polícia Militar de São Paulo se estrutura a partir de conceitos de polícia comunitária.

Pode-se mencionar também que o Método Giraldi de Tiro Defensivo para a Preservação da Vida, criado por um oficial da PM paulista e nela desenvolvido, é recomendado pela Cruz Vermelha Internacional como efetivamente aplicável ao treinamento das polícias.

Nosso Programa Estadual de Resistência às Drogas (Proerd), em vinte anos de atividade, já formou mais de sete milhões de crianças, ensinando-lhes caminhos seguros para fugir ao contato com esse mal que assombra nossa sociedade. Isso significa dizer que já educamos um número de jovens que representa 16% dos 43 milhões de paulistas, segundo estimativa do IBGE para o ano de 2013.

E não seria demais também lembrar que, no ano passado, atendemos 2.450.098 ocorrências, prendemos 183.952 pessoas, apreendemos mais de 80 toneladas de drogas, 13.828 armas de fogo em poder de criminosos, prestamos 2.506.664 atendimentos sociais e resgatamos 619.231 pessoas.

Seria tudo isso fruto de nossa vocação para enxergar a população como inimiga? Seria a ditadura que ainda está em nossa cabeça? A influência da Lei de Segurança Nacional? Ou ainda nossa compulsão de atirar para matar?!

Em que mundo esses “especialistas” fundamentam suas teorias?

Muito provavelmente a resposta esteja em outro século e em outro continente, nascida da cabeça de alguém que pregou a difusão de um modelo hegemônico, que se deve construir espalhando intelectuais em partidos, universidades, meios de comunicação. Em seguida, minando estruturas básicas e sólidas de formação moral, como família, escola e religião. Por fim, ruindo estruturas estatais, as instituições democráticas. Assim é o discurso desses chamados “intelectuais orgânicos”, como costumam se denominar, em consonância com as ideias revolucionárias do italiano Antonio Gramsci, que ecoaram pelo mundo a partir da década de 1930.

Tão assombrosa quanto esse discurso anacrônico, ou mais, é a teorização formulada por quem, em vez de servir a uma instituição, prefere servir-se dela, desqualificando-a, conspurcando-a. Nesse caso, o problema talvez não esteja na ideologia, mas na conveniência da oportunidade de mercado.

No presente momento em que diversos grupos supostamente democráticos fazem coro para desmilitarizar a nossa polícia, vemos pessoas que aqui passaram a maior parte de sua vida se colocando como arautos das mudanças que urgem. Esse tipo de voz ecoa muito mais pelo inusitado do que pela qualidade de seus argumentos pseudocientíficos. É a chamada crítica à moda Brás Cubas. Saca-se alguém de um determinado meio e essa pessoa recebe chancela de legitimidade por falar de algo que, em tese, conhece por vivência.

É inadmissível que um profissional, que deveria ter compromisso com a verdade, pois assim assumiu em juramento, falar em premiações, medalhas a policiais que matam, como se isso fosse uma prática corrente, cultural. Somos a instituição que mais depura seu público interno, sujeita a regulamentos, códigos rígidos de conduta e com uma corregedoria implacável contra agressores de policiais e contra policiais bandidos. Exoneramos centenas. Só em 2013, foram 349. Como dizer que toleramos o erro? Onde está a responsabilidade no que é dito.

Enfim, parece ser oportuno criticar um modelo de polícia que suporta o tempo e as circunstâncias adversas. Temos história, uma cultura, valores morais, coisa rara nos dias de hoje.

Critica-se, mas, no momento da agrura, sabemos qual é a última instância salvadora, quem pode nos socorrer: “o policial ditador, que nos vê como inimigos, que age conforme a L.S.N., que atira para matar…”. É como soava no refrão de Chico Buarque: “… Ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir…”. Vem o sufoco, a salvação; passa o sufoco, torna-se ao linchamento. Será que a sociedade prescinde um dia de nós? Uma manhã? Uma hora?

Ainda somos uma democracia, é bom que nos lembremos sempre disso. Se um dia tivermos de mudar nosso modelo, que seja pelo desejo do povo, não de “especialistas”.

Centro de Comunicação Social da Polícia Militar de São Paulo

Sobre a Amizade

Antonio Ozaí da Silva Via Blog do Ozaí

“Entre amigos tudo é comum”, já diziam os gregos. Eles foram os primeiros a estabelecerem a separação público e privado. A esfera pública diz respeito ao que deve ser compartilhado, colocado em comum; já o âmbito do privado se refere ao que pertence a cada indivíduo, à sua singularidade. A amizade se tece na interface entre o público e o privado. Através dela publicizamos a nossa individualidade, compartilhamos nossos desejos e sonhos. Mas isto não se dá aleatoriamente, e sim em comunidade. Esta é a chave da amizade: os amigos formam uma comunidade de compartilhamento, sentem-se em comum. Não se trata, portanto, de uma relação restrita a dois indivíduos, mas a um fórum mais amplo que inclui os que constituem “os amigos”. Isto não quer dizer que tudo entre eles é “comum”, nem que a relação de igualdade suprima as diferenças A amizade supõe um certo igualitarismo, fundado no que é comum, e divergências.

A amizade pressupõe partilha, igualdade. Não pode haver amizade em relações de poder, em que um se sobrepõe ao outro e um dos pólos se submete. “Quando se é amigo, mesmo se existir discordância ou rivalidade, é-se igual. Para um grego, só é possível ter amizade por alguém que é, de alguma forma, um semelhante: um grego para com outro grego, um cidadão para com outro cidadão” (p.28). [1] A política do “inimigo meu inimigo teu” exige submissão ao indivíduo que se considera o líder ou se imagina a personificação do grupo. A homogeneidade do grupo não pode descartar a diferença. “Não há philía sem rivalidade, éris” (Id.). A amizade pressupõe conflitos e, portanto, uma relação democrática. Sem discussão não se tem amizade, mas sim submissão.

A amizade inclui os amigos, mas também os colegas. A diferença talvez esteja no grau de intensidade: se considero alguém meu amigo, sinto-me mais próximo dele e mais predisposto a compartilhar; já o colega é alguém mais distante, porém, como o amigo, compõe o círculo, a comunidade, isto é, constitui uma referência.

A amizade pressupõe igualdade e partilha, mas não em qualquer circunstância e com qualquer um. Na verdade, escolhemos com quem compartilhar, quem é o nosso igual. A amizade é eletiva e seletiva. “As pessoas que escolhemos, aqueles com quem temos afinidades são aquelas que nos inspiram uma confiança total. Existe nisso algo da ordem da escolha, da avaliação; o “nós” não existe necessariamente apenas porque trabalhamos no mesmo setor ou porque temos as mesmas idéias” (p.30). É preciso sentir-se em comunidade. “E não existe comunidade sem philía, sem o sentimento de que, entre o outro e nós, alguma coisa circula, a qual os gregos podiam representar sob a forma de um daímõn alado, que voa de um para o outro” (p.31).

“Existimos com e pelos outros, que, ao mesmo tempo, são e não são como nós” (p.35). A amizade não é um percurso harmonioso, fácil de percorrer. Implica conflitos, transformações do eu e do outro. “É assim que se tece a amizade, por meio de percursos mais ou menos difíceis, de fracassos, de contra-sensos, de retomadas… Não existe imediato no homem. Tudo acontece por meio de construções simbólicas” (Id.).

A amizade pressupõe a luta por sua construção; ela não está dada a priori, tem que ser tecida. Se ela pressupõe fidelidade, como o amor, pode ocorrer a necessidade do rompimento, que se corte o tecido para ser fiel a si mesmo. Há indivíduos que precisam romper com os outros e com eles mesmos. “Só conseguem ser eles mesmos cortando não só o tecido que os une aos outros, como também aquele que os une a si mesmos” (p.37). Um exemplo dessa dupla ruptura é as cisões políticas e/ou religiosas. Muitos não conseguem consolidar o rompimento sem que se transforme no oposto do que eram.


* Anotações de leitura da obra Entre Mito e Política, de Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002).

 

[1] Todas as citações são da obra supracitada.

Futebol Filosófico – Alemanha X Grécia

Anthony Cardoso

O futebol é um dos esportes (senão o único) mais popular no mundo. Por isso, o grupo de humoristas Monty Phyton fizeram um paródia mesclando o futebol de dois países jogado por grandes nomes da Filosofia ocidental.

O resultado é divertido, com as “seleções” pensando em uma maneira de ganhar o jogo através de suas contribuições filosóficas. Tal vídeo é um clássico e vale a pena ver e rever.

Rolezinho, mais simples do que parece

Rolezinho

 Por Gil Marçal via Outras Palavras

Ao mercado cabe experimentar seu próprio veneno. Aos governos, se inteligentes, aproveitar a potencialidade de quem mobiliza milhares para encontro despretensioso e barato

É próprio da juventude, principalmente na adolescência, a busca por identidade. A cultura, sobretudo por meio da música, tem um papel fundamental nessa construção. Podemos citar o rock progressivo nos anos 60, o movimento punk nos anos 80, o hip hop na virada dos 80 pros 90, o movimento clubber ou o grunge nos anos 90 e, por que não, o funk na atualidade. De qualquer forma, não podemos negar a importância da cultura e das tendências comportamentais, para a juventude, na constituição de sua identidade. São referências catalisadoras de um sentimento contemporâneo num contexto temporal.

Os shoppings centers também se colocaram para esta juventude como um espaço de constituição de identidade, neste caso uma identidade individualista, afirmada a partir de marcas e grifes, promovidas e vendidas cotidianamente por uma ideologia de consumo – daí a máxima “consumo, logo existo”. Os jovens da classe média com meios financeiros para comprar essa identidade são acolhidos por essa lógica, enquanto os jovens das classes baixas se esforçam para adquirir, no mínimo, um tênis e um boné “de marca”, muitas vezes por meio de pesada pressão em cima dos pais – frequentemente mães solteiras –, para inserir-se socialmente por meio do consumo.

É fácil criticar o funk, principalmente o que ficou conhecido como funk ostentação, que se afirma pela posse de bens como correntes e relógios de ouro, carros importados e marcas famosas. Mas é comum que não se leve em consideração o comercial do carro importado a partir de 70 mil reais, apresentado exaustivamente na TV aberta, sagradamente no horário nobre de cada dia, mas que não é para todos, é para quem pode se destacar, para quem pode ser “diferente”.

É nessa confluência entre a identidade coletiva, promovida pela cultura, e a identidade individualista, promovida pelo consumo, que reside o choque entre o rolezinho e o shopping center.

O capital força o governo a não cercear o mercado, restringindo seu papel apenas ao incentivo, principalmente com a redução dos impostos, como no caso do IPI aplicado aos automóveis e eletrodomésticos de linha branca. Mas quando se discute o caos em que as grandes metrópoles se encontram, com a superlotação por veículos individuais, atribui-se a culpa ao Estado pela falta de transporte público eficiente e de qualidade. Quando o Estado tenta responder a esta demanda criando corredores de ônibus, é atacado de forma violenta pelos meios de comunicação, que chegam a influenciar outros poderes, como é o caso da ampliação dos corredores de ônibus, que está sendo coibida por juízes a serviço dos empresários do ramo automobilístico. Um sistema que impede a tributação mais justa do IPTU, em nome da economia de migalhas para uma classe média gananciosa, em detrimento da justiça social.

Os empresários apresentam o shopping center como espaço de conforto e segurança de certo padrão de comportamento, onde jovens não podem marcar encontros em grande escala, perturbando a “ordem” e causando “constrangimento”. E delegam ao Estado (governos) a responsabilidade de promover espaços que acolham estes jovens com lazer e entretenimento. Os shoppings condensam dentro de um só espaço o suprassumo da vida urbana, como os games e os cinemas, as tendências da moda e da tecnologia, a alimentação e por consequência o convívio. Tudo o que é importante para a juventude.

Os shopping centers se caracterizam por serem espaços privados de acesso público. Ao negarem que são espaços de acesso público, perdem o direito de acionar os serviços públicos, como no caso a segurança urbana por meio das forças policias. Os jovens têm, pois, total direito de realizar seus encontros nesses espaços, uma vez que o interesse é público. Não poderiam ser coibidos, constrangidos ou agredidos, tendo em vista que, frente a qualquer necessidade real de acionar as forças públicas, a conta seria paga com dinheiro do próprio povo. As estações de metrô conectadas aos shoppings centers são exemplos desta mesma lógica. Que interesse haveria nesta conexão se o acesso não fosse, de fato, público?

O rolezinho é parte das necessidades inerentes da juventude: necessidades de convívio, de diversão, de encontro. Mas o rolezinho no shopping center é fruto do sistema capitalista, que relaciona afetividade e consumo – haja vista alguns comerciais que praticamente nos fazem chorar de emoção e, ao terminar, apresentam marcas de refrigerantes, eletrodomésticos, carros e outros produtos, pondo à venda a felicidade humana a preços elevados.

Teóricos de direita, esquerda e jornalistas apresentam suas teses sobre o fenômeno. Os de direita vendem a ideia de uma juventude desinteressada e marginal, sendo que, na totalidade dos rolezinhos, não houve arrastão nem roubo de mercadorias. Sugerem ainda que os rolezinhos ocorram em bibliotecas e que os jovens busquem informação e emprego – mas, estes encontros não têm ocorrido justamente nos finais de semana? Os de esquerda evocam o apartheid não institucional no Brasil e as questões de raça e cor, e se manifestam contra a sociedade de consumo e a segregação social. Mas estes jovens, como já dito, estão calçando tênis da marca em voga, ainda que a duras penas. A imprensa fala em baderna e perturbação da ordem, principalmente do MEDO gerado por estas concentrações. Mas pânico e correria, ao que parece, foram decorrência da ação dos seguranças e da polícia militar. Ir e vir, só se for para consumir.

Os rolezinhos são apontados como espaços de uso de drogas e geração de violência, como se não houvesse trotes violentos e drogas nas escolas particulares e universidades de grande reconhecimento. Além disso, fora os títulos sensacionalistas, não é o que a própria mídia impressa apresentou sobre as experiências ocorridas no último mês. Em suma, os eventos ocorreram de forma pacífica, sem roubos ou violência. O que realmente pega é que os rolezinhos atrapalharam o que há de mais sagrado para a sociedade de consumo: as vendas. E a ideia de proteção e segurança, que tem a maior importância para nossa sociedade.

Essa geração reconhece o shopping como espaço de referência e de segurança, o que contribui para a tranquilidade de seus pais, vendo a rua como local inseguro. Vale lembrar que, quando estes jovens se encontram nas ruas, também são coibidos, por meio da força, para dispersar. O poder das redes sociais ainda é pouco assimilado pelos adultos. E a reflexão deste momento não pode deixar de fora o genocídio da juventude pobre, negra e periférica – tão discutida pelos jovens ativistas da periferia.

Voltemos à nossa adolescência e evoquemos o que motivava nossos 14, 15 ou 16 anos. Tentemos olhar este fenômeno contemporâneo de forma genuína. Observemos então o que estes jovens têm dito sobre seus encontros, e perceberemos que o que os motiva são as “curtições”, “se divertir”, “pegar geral”, “beijar” “sem alastrar”, “sem fazer arrastões” ou cometer “vandalismos”. Talvez então possamos ter propostas de troca ou interação com essa galera, que se apresenta como sujeitos de uma necessidade de convívio, e não como pequenos marginais que acabam com a “ordem”. São sobretudo adolescentes e jovens que moram nas periferias da cidade, que estudam em escolas públicas, falidas, e que buscam o direto de serem adolescentes e jovens – apenas isso.

A coibição destes encontros pode até politizar o “movimento”, dentro dos moldes conhecidos por nossa forma de fazer política. Mas como consequência, e não como ponto de partida. Aqui, o mais próximo do que chamamos de política está no simples encontro: no conhecer outras pessoas, no beijo.

Ao mercado cabe experimentar um pouco das consequências de sua própria forma de ser, experimentar seu próprio veneno. Aos governos, se forem inteligentes, cabe aproveitar a potencialidade dessa galera de 16 anos, que mobiliza mais de mil pessoas para um encontro despretensioso e economicamente barato. Esse poder de mobilização para a cultura é um prato cheio, enquanto teatros e bibliotecas estão vazios.

*Gil Marçal tem 34 anos, nascido e criado na região do M’Boi Miriam na periferia da Zona Sul da cidade; na adolescência começou a fazer produção cultural, depois foi Coordenador do Programa VAI e atualmente dirige a área de Cidadania Cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Darcy Ribeiro: brasileiro e desenvolvimentista

Paulo Kliass via Carta Maior

Se ainda estivesse vivo em 26 de outubro passado, Darcy Ribeiro teria completado 91 anos de idade. Lamentavelmente, porém, ele nos deixou em fevereiro de 1997, ainda com 74 anos. Uma grande perda, de alguém que deixou um expressivo legado para as futuras gerações, contribuições elaboradas ao longo de um vida de muita luta e de muita criação. Entre livros acadêmicos, romances e os resultados de sua ação na esfera política e governamental, o mestre plantou sementes essenciais para a conformação da brasilidade.

Considerado como um dos mais importantes antropólogos brasileiros – sua vocação inicial, embora ele atuasse em áreas variadas -, Darcy fez parte de uma geração de brasileir@s que deixaram como marca de sua passagem por esse mundo uma engajada militância em torno de um projeto diferente de País. As décadas de 1950 e 60 foram um período em que se abriu uma tênue possibilidade de mudança do padrão histórico de se fazer política no Brasil.

O período coincidiu com a afirmação do terceiro mundo e a descolonização da África e da Ásia, no impulso desenvolvimentista do pós Segunda Guerra. O amadurecimento intelectual e ideológico a respeito de uma via brasileira, rumo a uma sociedade mais justa e menos desigual combinou-se a um aprofundamento da luta política e social. Em especial, o segundo governo Vargas e o mandato de João Goulart abriram a possibilidade de que algumas dessas propostas viessem a ser implementadas por meio de políticas públicas no plano federal. Pode-se dizer, sem exagero que ao período de substituição de importações na esfera industrial correspondeu uma espécie de “substituição de pensamento” na esfera das ciências sociais em boa parte da periferia do mundo.

Desde as idéias de Celso Furtado na economia, passando pelas experiências inovadoras na área da cultura (com o Centro Popular de Cultura, o Teatro de Arena, o Cinema Novo) esbarrando no encaminhamento da Reforma Agrária, tangenciando as importantes evoluções no setor da saúde, até as mudanças na área educacional. Como pano de fundo para todo esse processo de transformação, um embate duro em torno do desenho de um projeto nacional e desenvolvimentista. E isso implicava o abandono da forma antiga com que as elites sempre haviam tratado o Estado brasileiro, impedindo que ele se colocasse a favor de uma direção que levasse em conta os interesses e as necessidades da maioria de seu povo.

Esse período de acelerada efervescência política e intelectual conheceu vários processos em que uma parcela expressiva da população buscava conhecer melhor a essência mesma daquilo que seria uma alma brasileira, a forma brasileira de ser e os caminhos da transformação mais profunda da sociedade brasileira. O reconhecimento da natureza dependente de nosso modelo econômico frente ao modelo imperialista e à divisão internacional do trabalho sugeria a necessidade de adoção de um caminho que incorporasse graus mais elevados de autonomia e soberania. A identificação da profundidade dos desníveis sociais e econômicos verificados entre os diferentes setores e classes apontava para a urgência de reformas de base, que removesse obstáculos à uma modernização democrática

O caminho da mudança era árduo e as tarefas exigiam muita força política para se viabilizarem. Darcy percebeu que não poderia se negar a travar as batalhas também no interior do Estado. Aceitou o convite do Presidente recém-eleito Jânio Quadros para criar um projeto educacional inovador, que se materializaria na Universidade de Brasília em 1961. Não apenas o poder se interiorizaria, mas o saber buscaria nova legitimidade, fora do sul-sudeste litorâneo.

Em razão de seu envolvimento com a matéria, acabou por ser nomeado o primeiro reitor da UnB. Na seqüência foi indicado para chefiar o Ministério da Educação em 1962, ainda no breve período do parlamentarismo, que se seguiu à renúncia de Jânio. E quando João Goulart vence o plebiscito restaurador do regime presidencialista, Darcy passa a ocupar o estratégico cargo de Ministro Chefe da Casa Civil. Foi um período de intensa luta política, em razão da tentativa de implementação das reformas de base. As forças da reação não aceitavam tal marca progressista do governo de Jango. Essa trajetória será interrompida em 1 de abril de 1964, com o golpe militar, a cassação e o exílio.

A interrupção violenta do projeto transformador, por meio da repressão e da ditadura, não arrefeceu o ânimo de Darcy nem da maioria dos integrantes dessa geração de nacionalistas e democratas. Havia a percepção nítida da necessidade de articular a resistência e de continuar a luta por outras vias. Assim, o antropólogo brasileiro – e a essa altura educador, político e agitador cultural –  foi prestar assessoria para governos de outros países latino-americanos, cujos governos estavam buscando um caminho que os militares haviam impedido de continuar por aqui. Darcy cooperou com as experiências, também nacionalistas e desenvolvimentistas, de Allende no Chile e de Velasco Alvarado no Peru. Não por acaso, ambos foram alijados do poder por golpes militares de orientação direitista e conservadora, com forte apoio dos Estados Unidos.

Com os primeiros sinais da tendência de redemocratização no País, Darcy retorna e continua seu percurso – a eterna busca de conciliar a produção intelectual com a materialização de projetos pela via da política. Nas eleições de 1982, é eleito vice-governador do Rio de Janeiro, na chapa com Leonel Brizola, com quem estreitou afinidades no exílio. Ao longo dessa experiência vai concretizar um pouco de seu sonho mudancista na educação. Data dessa época o modelo do CIEPs (Centro Integrado de Ensino e Pesquisa), no qual se pretendia oferecer escola pública de qualidade, com horário integral e potencial de se prestarem serviços também à comunidade.

Em 1990, Darcy completa sua última etapa no ciclo político, ao se eleger Senador pelo Rio de Janeiro, sempre pelo PDT. Exerceu seu mandato até o final da vida, tendo conseguido aprovar, entre muitos outros, um importante projeto. Foi de sua autoria como Relator a versão definitiva da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 20 de dezembro de 1996, 3 meses antes de sua morte.

Darcy é autor de algumas dezenas de livros. Mas muitos analistas consideram “O povo brasileiro”, publicado em 1995, como sua obra síntese. Ali ele busca as raízes da formação popular da nacionalidade e, na tradição do pensamento crítico, os vetores básicos para a construção de um projeto desenvolvimentista inclusivo e soberano. Algo que ele chamava, com graça e vigor, de “socialismo moreno”.

Paulo Kliass é Doutor em economia pela Universidade de Paris 10 (Nanterre) e integrante da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal.