Download: Coleção Primeiros Passos

Fonte: Arquivos Kronos

Mais uma lista organizada  pelo A. Kronos que temos a satisfação de compartilhar aqui na página. Boa leitura!

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ALVES, R. O que é religião
BERNARDET, J-C. O que é cinema
BORDENAVE, J. O que é comunicação
BORGES, V. O que é História
BRANDÃO, C. R. O que é educação
BRANDÃO, C. R. O que é folclore
BUARQUE, C. O que é apartação – o apartheid social no Brasil
CATANI, A. M. O que é capitalismo
CHACON, P. O que é rock
CHAUÍ, M. O que é ideologia
COELHO, T. O que é ação cultural
COELHO, T. O que é Indústria Cultural
COLI, J. O que é arte
COVRE, M. L. O que é cidadania
DE MARIA, L. O que é conto
DINIZ, D.; GILHEM, D. O que é bioética
FRAYZE-PEREIRA, J. O que é loucura
FRY, P. O que é homossexualidade
GEBARA, C. A. O que é cometa Halley
GHIRALDELLI JR., P. O que é pedagogia
HAMBURGER, E. O que é física
HEIDEGGER, M. O que é metafísica
KONDER, L. O que é dialética
LAPLANTINE; TRINDADE. O que é imaginário
LEBRUN, G. O que é poder
LYRA FILHO, R. O que é direito
MARTINS, C. B. O que é sociologia
NASCIMENTO, C. O que é filosofia medieval
OLIVEIRA, V. O que é educação física
PEREIRA, C. A. O que é contracultura
PRADO JR., C. O que é filosofia
RIBEIRO, J. O que é positivismo
RICHERS, R. O que é marketing
ROCHA, E. O que é etnocentrismo
ROCHA, E. O que é mito
ROLNIK, R. O que é cidade
SANTAELLA, L. O que é semiótica
SANTOS, J. L. O que é cultura
SANTOS, J. O que é pós-moderno
SPINDEL, A. O que é comunismo
TEIXEIRA, J. de F. O que é filosofia da mente
TELES, M. L. O que é psicologia
VALLS, A. O que é ética

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Sobre a Amizade

Antonio Ozaí da Silva Via Blog do Ozaí

“Entre amigos tudo é comum”, já diziam os gregos. Eles foram os primeiros a estabelecerem a separação público e privado. A esfera pública diz respeito ao que deve ser compartilhado, colocado em comum; já o âmbito do privado se refere ao que pertence a cada indivíduo, à sua singularidade. A amizade se tece na interface entre o público e o privado. Através dela publicizamos a nossa individualidade, compartilhamos nossos desejos e sonhos. Mas isto não se dá aleatoriamente, e sim em comunidade. Esta é a chave da amizade: os amigos formam uma comunidade de compartilhamento, sentem-se em comum. Não se trata, portanto, de uma relação restrita a dois indivíduos, mas a um fórum mais amplo que inclui os que constituem “os amigos”. Isto não quer dizer que tudo entre eles é “comum”, nem que a relação de igualdade suprima as diferenças A amizade supõe um certo igualitarismo, fundado no que é comum, e divergências.

A amizade pressupõe partilha, igualdade. Não pode haver amizade em relações de poder, em que um se sobrepõe ao outro e um dos pólos se submete. “Quando se é amigo, mesmo se existir discordância ou rivalidade, é-se igual. Para um grego, só é possível ter amizade por alguém que é, de alguma forma, um semelhante: um grego para com outro grego, um cidadão para com outro cidadão” (p.28). [1] A política do “inimigo meu inimigo teu” exige submissão ao indivíduo que se considera o líder ou se imagina a personificação do grupo. A homogeneidade do grupo não pode descartar a diferença. “Não há philía sem rivalidade, éris” (Id.). A amizade pressupõe conflitos e, portanto, uma relação democrática. Sem discussão não se tem amizade, mas sim submissão.

A amizade inclui os amigos, mas também os colegas. A diferença talvez esteja no grau de intensidade: se considero alguém meu amigo, sinto-me mais próximo dele e mais predisposto a compartilhar; já o colega é alguém mais distante, porém, como o amigo, compõe o círculo, a comunidade, isto é, constitui uma referência.

A amizade pressupõe igualdade e partilha, mas não em qualquer circunstância e com qualquer um. Na verdade, escolhemos com quem compartilhar, quem é o nosso igual. A amizade é eletiva e seletiva. “As pessoas que escolhemos, aqueles com quem temos afinidades são aquelas que nos inspiram uma confiança total. Existe nisso algo da ordem da escolha, da avaliação; o “nós” não existe necessariamente apenas porque trabalhamos no mesmo setor ou porque temos as mesmas idéias” (p.30). É preciso sentir-se em comunidade. “E não existe comunidade sem philía, sem o sentimento de que, entre o outro e nós, alguma coisa circula, a qual os gregos podiam representar sob a forma de um daímõn alado, que voa de um para o outro” (p.31).

“Existimos com e pelos outros, que, ao mesmo tempo, são e não são como nós” (p.35). A amizade não é um percurso harmonioso, fácil de percorrer. Implica conflitos, transformações do eu e do outro. “É assim que se tece a amizade, por meio de percursos mais ou menos difíceis, de fracassos, de contra-sensos, de retomadas… Não existe imediato no homem. Tudo acontece por meio de construções simbólicas” (Id.).

A amizade pressupõe a luta por sua construção; ela não está dada a priori, tem que ser tecida. Se ela pressupõe fidelidade, como o amor, pode ocorrer a necessidade do rompimento, que se corte o tecido para ser fiel a si mesmo. Há indivíduos que precisam romper com os outros e com eles mesmos. “Só conseguem ser eles mesmos cortando não só o tecido que os une aos outros, como também aquele que os une a si mesmos” (p.37). Um exemplo dessa dupla ruptura é as cisões políticas e/ou religiosas. Muitos não conseguem consolidar o rompimento sem que se transforme no oposto do que eram.


* Anotações de leitura da obra Entre Mito e Política, de Jean-Pierre VERNANT (São Paulo: Edusp, 2002).

 

[1] Todas as citações são da obra supracitada.

Futebol Filosófico – Alemanha X Grécia

Anthony Cardoso

O futebol é um dos esportes (senão o único) mais popular no mundo. Por isso, o grupo de humoristas Monty Phyton fizeram um paródia mesclando o futebol de dois países jogado por grandes nomes da Filosofia ocidental.

O resultado é divertido, com as “seleções” pensando em uma maneira de ganhar o jogo através de suas contribuições filosóficas. Tal vídeo é um clássico e vale a pena ver e rever.

Entrevista – Pensamento Pop

A Filosofia pode se tornar mais “pop” sem perder a complexidade de raciocínio. Charles Feitosa defende que ela se misture às artes e fuja dos temas mais tradicionais

FOTOS: Silvia Costanti
“A ´Filosofia Pop´ não precisa se subordinar às ciências, mas se deixa contagiar estruturalmente pelas artes. Gosto da expressão porque ela incomoda e atrai, mas poderia também ser chamada de ´Filosofia híbrida´, ´pensamento finito´ ou, ainda, ´racionalidade afetiva”

Muitas vezes um filósofo precisa reaprender a pensar não filosoficamente. É o que defende Roberto Charles Feitosa de Oliveira, que irá ministrar um curso sobre “Filosofia Pop” na Casa do Saber, segundo ele, uma Filosofia dirigida mais ao povo do que aos eruditos. Mas Feitosa ressalta que um pensamento “pop” não é raso e simples, como sugere a conotação que o termo ganhou a partir da década de 1990. É apenas mais híbrido, mais aberto a influências de outras áreas, como da dança e do teatro. A “Filosofia Pop” não prioriza os temas e autores mais tradicionais, mas também não perde a complexidade ou banaliza o pensamento. “Pode ser muito importante investigar, por exemplo, a questão do poder no uso do controle remoto nas famílias urbanas contemporâneas”, diz o professor da Universidade Federal do Eestado do Rio de Janeiro (Unirio), doutor em Filosofia pela Albert-Ludwigs Universität Freiburg, da Alemanha, e pós-doutor em Filosofia pela Universidade de Potsdam, também alemã. Para Feitosa, um estudo como o mencionado acima pode ser tão fértil quanto discutir as relações entre moralidade e eticidade na obra de Hegel. Foi abordando temas cotidianos, como amor, morte e arte, que escreveu o livro Explicando a Filosofia com Arte (Ediouro, 2004), com o qual ganhou o prêmio Jabuti na categoria didático e paradidático de ensino fundamental ou médio, em 2005. Para ele, a “Filosofia Pop” procura contagiar-se pelas artes, deixar que conceitos sejam guiados por imagens e não o contrário – o que, a princípio, pode desorientar um pouco o pensamento, mas enriquece a compreensão de mundo. Gostou das ideias? É apenas uma parte do que ele nos conta nesta entrevista.

FILOSOFIA – O senhor vai dar um curso sobre “Filosofia Pop” na Casa do Saber. O que é a “Filosofia Pop”?
Roberto Feitosa – Já tentei responder a essa pergunta em um ensaio, com ares de manifesto, publicado em 2001, sob o título O que é isto: a Filosofia Pop?. Provavelmente não há uma única maneira de fazer “Filosofia Pop”. Essa expressão aparece rapidamente em duas ou três passagens de Deleuze, sem maiores aprofundamentos. Eu mesmo prefiro me guiar pelo título de uma canção do compositor Wilson Moreira, interpretada por Candeia, chamada Ao povo em forma de arte. Então, tal como eu a imagino, a “Filosofia Pop” não precisa se subordinar às ciências, seja como rainha das ciências, metaciência ou ciência auxiliar, mas se deixa contagiar estruturalmente pelas artes. Além disso, é endereçada ao povo e não apenas aos eruditos, com a importante ressalva de que “povo” não existe em si, nem é definido por raça, solo, língua ou classe. “Povo” se constitui, sempre e de cada vez, quando singulares compartilham a experiência do pensar. Gosto da expressão porque ela incomoda e atrai, mas poderia também ser chamada de “Filosofia híbrida”, “pensamento finito” ou, ainda, “racionalidade afetiva”. Na orelha do meu livro Explicando a Filosofia com Arte defino “Filosofia Pop” como um projeto que envolve a associação de conceitos com imagens, em uma linguagem acessível e bem-humorada, sem perder o rigor e a densidade inerentes à Filosofia. Acrescentaria que é um pensar que visa a resistir e embaralhar as hierarquias tradicionais da cultura, por isso é “pop” e não “popular”, já que este me parece ser um termo demasiadamente comprometido com a dicotomia e a oposição contra o culto ou o letrado.

A cultura popular parece estar condenada a dois julgamentos extremos: ou é menosprezada ou celebrada como se fosse a única autêntica

FILOSOFIA – O senhor diz que é uma “Filosofia Pop” e não uma “Filosofia Popular”. Qual seria a diferença entre a Filosofia “pop” e a popular?
Feitosa – Como eu disse, prefiro o termo “pop” em vez de “popular” porque este conceito é muito problemático, tendo sido provavelmente cunhado pelos eruditos para tentar demarcar tudo aquilo que escapa ao erudito mesmo. A cultura popular parece estar condenada a dois julgamentos extremos: ou é menosprezada ou é celebrada como se fosse a única autêntica. Gostaria de escapar desse dualismo elitismo x romantismo por meio da ideia de uma “Filosofia Pop”, ou seja, híbrida, transdisciplinar. Dentro dessa lógica eu diria que a “Filosofia Pop” não quer ser erudita, mas também não quer ser popular a qualquer preço. É o difícil caminho do “entre”. De um lado, a Filosofia acadêmica, altamente codificada, perdendo cada vez mais a conexão com seu lugar e seu momento. De outro lado, existem hoje alguns projetos que fazem da Filosofia apenas mais uma receita de bolo, uma forma de explorar comercialmente a inquietação das pessoas diante de um mundo em que não se sentem em casa. É preciso sair dessas duas situações extremas. A esse respeito costumo citar o falecido artista plástico Keith Haring (1958-1990), famoso pelos seus desenhos e grafites. Ele dizia que em toda sua obra há uma preocupação em mostrar para as novas gerações que a Arte não é uma atividade restrita às elites, qualquer um com um pouco de imaginação e coragem pode reorganizar seu mundo, criar novas formas, belas e instigantes. Fico pensando que uma “Filosofia Pop” no Brasil deveria ser assim também. Sem descuidar do conteúdo, mas também sem transformá-lo em uma espécie de mistério sagrado, acessível apenas a alguns iniciados.

FILOSOFIA – Você comenta que o mundo atual mistura as dicotomias e hierarquias, como “culto” e “popular”, “rural” e “urbano”, “moderno” e “tradicional”, e afirma ser necessário que a Filosofia também se torne híbrida. A Filosofia também tem suas dicotomias e hierarquias?
Feitosa – A Filosofia, tal qual a conhecemos no Ocidente, tem se pautado por diversas dicotomias hierárquicas: ser x devir, corpo x mente, sujeito x objeto, identidade x diferença, indivíduo x sociedade, etc.. Costumo dizer que essas dicotomias se apresentam na forma de “versões” ou de “inversões”. Por “versões” entendo as hierarquias mais tradicionais (do tipo “o belo é melhor do que o feio”), que costumam privilegiar o idêntico em detrimento do diferente. Por “inversões” nomeio as diversas tentativas epocais de superar as hierarquias pela mera reação ou reversão dos polos, sem um questionamento da dicotomia ou da hierarquia nelas mesmas (do tipo “o feio é melhor do que o belo”). O problema dessas dicotomias é que elas determinam previamente o horizonte do pensamento, criando muitas vezes dilemas impossíveis de serem resolvidos, já que partem de premissas incompatíveis. Uma “Filosofia Pop”, tal como eu a entendo, deve procurar a “ex-versão” das dicotomias e das hierarquias. “Ex-verter” é um neologismo que inventei para traduzir o termo heideggeriano Herausdrehen (algo como “girar para fora, desparafusar”). Como pensar a obra de arte, por exemplo, para além do binômio beleza/feiura?

FILOSOFIA – Você diz que a hibridização é necessária na Filosofia para que se possa compreender adequadamente o que está acontecendo na sociedade neste momento histórico. Em que sentido a Filosofia pode se tornar híbrida? E como isso a ajudaria a compreender nosso tempo?
Feitosa – Nestor Canclini, no seu livro Culturas Híbridas, dizia que precisamos de “ciências nômades”, capazes de romper com a divisão da cultura em camadas estanques: culto, popular e massivo. A “Filosofia Pop” é híbrida justamente por se colocar em relação com a não Filosofia, deixando assim que diferentes saberes (artes, tecnologias, mídias) se interfiram entre si. Do mesmo jeito que o não filósofo pode aprender a pensar, o filósofo tem às vezes que reaprender a pensar não filosoficamente. Acredito que a tarefa do pensamento, em uma era de culturas híbridas, é deixar que a Filosofia se torne “pop”. Esse termo ganhou uma conotação de raso, fácil e leve somente a partir da década de 1990. Nas décadas de 1960 e 1970, ao contrário, “pop” era o nome para o projeto de reavaliação do mundo por meio dos movimentos da contracultura: liberação sexual, crítica à ética protestante do trabalho, resistência às hierarquias e às autoridades. Arrisco dizer que há um desenvolvimento (ou uma regressão) de certo “pop I” (alternativo, lúdico, híbrido) para um “pop II” (comercial, industrial, homogeneizante). Não dá para voltar à época da Pop Art, de Andy Warhol, então temos de inventar novas formas do pop – III, IV, etc.

FILOSOFIA – Em que sentido caminhariam esses novos “pops”? Já se traça algum novo sentido?
Feitosa – Costumo brincar que o “pop III” já foi inventado, trata-se de um protocolo para troca de e-mails na internet. Já me perguntaram como eu imagino o “pop IV” ou “pop V”, mas não sou futurólogo. Minhas apostas vão sempre à busca de colaboração entre filósofos e artistas e na escuta muito atenta dos não filósofos (colegas de outras áreas, profissionais diversos, alunos, amigos, sejam antigos ou futuros). É um projeto a ser realizado em grupos, apontando para várias direções. A propósito, acabo de fundar uma rede social na internet, aberta a todos que queiram conhecer, participar e divulgar suas próprias propostas. O endereço é: filosofiapop.ning.com. Estou trabalhando no momento no processo de instauração de um laboratório de estudos transdisciplinares de “Filosofia Pop” (POP-LAB), na Unirio. A ideia é constituir um espaço de liberdade, em que pesquisas teóricas e práticas, que conjuguem o tradicional com o contemporâneo, o universal e o regional, o erudito e o cotidiano, possam ser desenvolvidas. Além disso, orgulho-me de anunciar que a Unirio irá oferecer, a partir do primeiro semestre de 2010, uma nova graduação em Filosofia, com foco no pensamento contemporâneo e transdisciplinar em torno da cultura brasileira. Provavelmente será a única licenciatura em Filosofia do Brasil com uma orientação “pop” no seu currículo. Por enquanto, eu espero.

FILOSOFIA – O hibridismo de que o senhor fala tem algo a ver com a transdisciplinaridade, tão em voga hoje em dia?
Feitosa – Acredito que sim. A “Filosofia Pop” busca a transdisciplinaridade, não a pluri, nem a interdisciplinaridade. Por pluridisciplinaridade entendo o estudo de um mesmo objeto por várias disciplinas, sem que haja conexão entre elas a não ser o objeto em comum. Interdisciplinaridade é a interação entre duas ou mais disciplinas, como por exemplo, na associação da Física com a Medicina. Mas muitas vezes essas associações acabam por resultar em uma nova disciplina, que sintetiza as características de áreas distintas, como por exemplo, a Medicina Nuclear ou a Geografia Cultural. A prática interdisciplinar tende a reafirmar o poder da disciplina. Na transdisciplinaridade não são formadas novas disciplinas, mas são realizadas alianças estratégicas e provisórias, que modificam cada uma das partes envolvidas e que produzem resultados inesperados. Trata-se muito mais de uma atitude do que de um campo definido. Acho importante ressaltar que a Filosofia costuma ser chamada para combater a fragmentação e a especialização dos saberes na academia, mas ela mesma, do jeito que vem sendo praticada nas universidades, parece sofrer dos mesmos problemas para os quais se vê solicitada a resolver. Basta observar a divisão atual entre a Filosofia analítica e a Filosofia continental nos nossos departamentos. Além disso, a produção em Filosofia revela uma crescente especialização. Profissionais dedicam toda sua vida ao estudo de apenas um autor, às vezes de apenas uma fase da vida desse autor. Essa superespecialização, essa erudição infinita, é valorizada e premiada na academia, interpretada como índice de um trabalho denso e rigoroso. Ao passo que aqueles que se dedicam a pesquisas mais temáticas, são por vezes acusados de falta de seriedade ou diletantismo.

É preciso conhecer a tradição filosófica para ultrapassá-la. Sou contra qualquer banalização da complexidade do pensamento

FILOSOFIA – Você aproxima a Filosofia de temas cotidianos, como o amor, a arte, a morte, e consegue usar, em seu livro Explicando a Filosofia com Arte, uma linguagem bem coloquial para explicar a visão filosófica a respeito de tais temas. Mas comenta na introdução do livro ser esta uma “seleção estratégica de alguns problemas filosóficos, entre muitos possíveis”. Existem questões filosóficas mais e menos “pops”?
Feitosa – No contexto do livro, a frase tinha apenas o sentido de avisar o leitor de que não se tratava de uma enciclopédia, em que todos os assuntos da Filosofia seriam esgotados. As questões da Filosofia não estão aí disponíveis em uma espécie de céu ou mar de problemas. Uma Filosofia híbrida se caracteriza por um desrespeito ao cânone tradicional de temas e autores da tradição. Para a “Filosofia Pop” pode ser muito importante investigar, por exemplo, a questão do poder no uso do controle remoto nas famílias urbanas contemporâneas. Essa investigação pode ser tão fértil quanto discutir as relações entre moralidade e eticidade na obra de Hegel. Não há questões mais ou menos filosóficas para a “Filosofia Pop”. Mas tudo depende também do modo como essas questões são tratadas. De nada adianta estudar filosoficamente a internet ou as mídias de massa partindo do pressuposto de que ali não há sabedoria alguma. Em vez de evitá-las, a academia precisa ocupar e reinventar as mídias e as tecnologias. Vale enfatizar que é preciso conhecer muito bem, de forma muito rigorosa, a tradição filosófica para ser capaz de ultrapassá-la. Sou contra qualquer simplificação ou reducionismo que banalize a complexidade do pensamento.

FILOSOFIA – A imagem aparece em seus estudos como sendo importante para explicar a Filosofia. Esta é uma estratégia para se adaptar ao mundo atual, que se tornou muito mais imagético e com pouca paciência para textos longos, ou o valor da imagem é atemporal na Filosofia e poderia ter sido usado em outras épocas? Como a imagem ajuda a compreender a Filosofia?
Feitosa – Existe na Filosofia uma tirania do conceito sobre a imagem. As imagens, especialmente as das artes, ou são negligenciadas ou são instrumentalizadas, forçadas a trabalhar em prol do a ver com o aparente excesso de imagens no mundo atual. Embora vivamos em um tempo em que em um minuto mais imagens são produzidas do que em todo o século passado, ainda não sabemos como lidar com elas. Em geral, tratamos logo de olhar para elas do mesmo modo como se lê um texto, buscando uma linearidade, um encadeamento causal. Essa incompetência imagética é muito antiga e só será superada com o questionamento das dicotomias hierárquicas que separam e opõem o invisível ao visível, o imaterial ao material, o sentido aos sentidos.

FILOSOFIA – A imagem aparece em seus estudos como sendo importante para explicar a Filosofia. Esta é uma estratégia para se adaptar ao mundo atual, que se tornou muito mais imagético e com pouca paciência para textos longos, ou o valor da imagem é atemporal na Filosofia e poderia ter sido usado em outras épocas? Como a imagem ajuda a compreender a Filosofia?
Feitosa – Existe na Filosofia uma tirania do conceito sobre a imagem. As imagens, especialmente as das artes, ou são negligenciadas ou são instrumentalizadas, forçadas a trabalhar em prol do movimento do conceito. A “Filosofia Pop” busca outros caminhos, deixando que os conceitos se guiem pelas imagens, mesmo que isso às vezes acarrete certa desorientação do pensamento. Nossa compreensão de mundo pode ser enriquecida por meio dessas desorientações. No entanto, essa estratégia nada tem a ver com o aparente excesso de imagens no mundo atual. Embora vivamos em um tempo em que em um minuto mais imagens são produzidas do que em todo o século passado, ainda não sabemos como lidar com elas. Em geral, tratamos logo de olhar para elas do mesmo modo como se lê um texto, buscando uma linearidade, um encadeamento causal. Essa incompetência imagética é muito antiga e só será superada com o questionamento das dicotomias hierárquicas que separam e opõem o invisível ao visível, o imaterial ao material, o sentido aos sentidos.

FILOSOFIA – Sua vida acadêmica, como pesquisador, é ligada ao teatro, à dança e às artes de forma geral. O que a Filosofia pode buscar na Arte?
Feitosa – A Filosofia costuma ter um grande preconceito em relação à Arte. Acredita-se que a experiência artística seja voltada prioritariamente, quando não exclusivamente, para o corpo, para a percepção sensorial, para os afetos. Não é à toa que a disciplina oficial que cuida desses temas se chama Estética (do grego aisthesis = “percepção sensível”). Tudo se passa como se não houvesse pensamento ou racionalidade nos sentidos e nos afetos e, consequentemente, nas obras de arte. Segundo Nietzsche, toda a história da Filosofia pode ser resumida como uma má interpretação do corpo. Isso talvez ajude a explicar essa má vontade da Filosofia em relação às artes e, em especial, às artes cênicas (dança, teatro, performance), em que o corpo do artista é a matéria da obra. Na dança, por exemplo, se mostra toda a inteligência do corpo. O homem só é capaz de dançar porque existe no modo de um corpo que pensa. Enquanto se dança o corpo não é uma “coisa extensa” cartesiana ou um instrumento da alma ou da mente, enquanto se dança não temos nem alma, nem mente. Gosto de dizer que dançar é uma das formas mais efetivas de superação da Metafísica.

FILOSOFIA – O senhor diz que há grande preconceito em relação às artes por imaginar-se que são exclusivamente ligadas a sentidos/afetos e não gozarem de racionalidade. Na aliança Filosofia-Arte, se buscaria a racionalidade existente na Arte ou outras formas de entender os sentidos/afetos? Que alianças podem ser essas entre Filosofia e Arte?
Feitosa – Nietzsche dizia tratar-se de um velho preconceito dos filósofos acreditar que toda música é música de sereias. A Arte é uma perigosa sedutora porque nasce e desperta afetos incontroláveis. Ora, todos sabem que a palavra “filosofia” já contém em si a ideia de um afeto, ainda que uma forma especial, chamada philía (amor, amizade). Minha questão é: por que a Filosofia não pode resgatar essa dimensão afetiva estruturante? Obviamente, por se tratar de um sentimento, o amor costuma ser associado mais à sensibilidade do que à reflexão. Essa concepção da Filosofia, purificada do corpo e de seus desejos, está presa a uma ontologia do humano como “animal racional”, quer dizer, um ser dividido entre duas partes estanques, a que pensa e a que sente, sendo que esta última seria a inferior. A Filosofia dos séculos XX e XXI (Heidegger, Merleau-Ponty, Deleuze, Derrida, Agamben, Flusser, entre outros) tem questionado essa imagem e proposto uma visão alternativa, em que fica demonstrado que, na existência humana, o pensamento está misturado e contaminado de maneira tão primordial com o sensível que não é mais lícito falar nem de mistura nem de contaminação. Contra a “dialética da pureza” e contra certa tendência da Filosofia tradicional para a anestesia (eliminação das percepções sensoriais e afetivas), impõe se não apenas reconhecer o copertencimento da percepção de sentido e dos sentidos, mas também praticá lo. Deixar o pensamento ser o que ele é: apaixonado, passivo, afetado. Nesse tipo de atitude, ficaria como que relativizada a rígida fronteira que separa a razão da sensibilidade e, consequentemente, enfraquecida qualquer fronteira rígida que delimita e separa a Arte da Filosofia. Permanece em aberto quais associações poderiam ser feitas entre Filosofia e Arte. Há de se tomar cuidado para que uma não use a outra apenas para a atestação de seus argumentos e projetos. Em todo caso, um tal pensar híbrido – sensível, sensual ou sensorial – me parece muito mais adequado ao modo finito como o ser humano existe no mundo. Um dos tópicos do curso que irá ministrar na Casa do Saber me deixou curiosa: “Por que os roqueiros gritam tanto?”. Irá usar essa pergunta para abordar que tema? O grito na arte sempre me fascinou, especialmente no rock, também chamado de scream music por alguns. Grita-se muito, seja de maneira harmônica e hipnotizante como nas canções do Led Zeppelin, seja de forma crua e agressiva como nos sons punks dos Sex Pistols. A pergunta “Por que se grita tanto no rock?” tem a intenção de refletir sobre as possíveis funções estéticas do grito nas artes contemporâneas em geral. Em última instância, estou interessado também em uma reabilitação ontológica da materialidade da voz humana, eclipsada pela nossa insistência em prestar atenção apenas ao que é dito (o sentido) e não aos múltiplos modos como o corpo se diz.

FOTOS: Silvia Costanti
“Para a ‘Filosofia Pop’ pode ser muito importante investigar a questão do uso do controle remoto nas famílias, o que pode ser tão fértil quanto discutir as relações entre moralidade e eticidade na obra de Hegel. Não há questões mais ou menos filosóficas para a ‘Filosofia Pop'”

Por Patricía Pereira via Portal Ciência e Vida – Revista Filosofia

Leitura de hoje – O Processo

O processo

Não é propaganda, mas recomendo essa versão da L&PM Pocket. Ela é de fácil leitura e os rodapés não atrapalham

O Processo conta o aterrorizante drama de Josef K., o respeitável funcionário de um banco que é preso de modo súbito e estranho e deve defender-se de uma acusação que nunca lhe é formalmente apresentada e sobre a qual ele não consegue obter informações. Aclamada em todo o mundo, esta história assombrosamente verossímil é uma das mais originais e importantes criações literárias do nosso tempo. Seja ela considerada um conto existencialista, uma paródia ou uma profecia, o fato é que que as insuperáveis imagens de Franz Kafka anteciparam os excessos da burocracia e dos regimes totalitários do século XX, assim como a angústia do homem moderno.

Anthony Cardoso

A melhor educação do mundo é 100% estatal, gratuita e universal

O documentário abaixo deveria ser assistido e discutido por todos os educadores, todas as escolas, todas as pessoas interessadas na educação no Brasil

A Finlândia tem a melhor educação do mundo. Lá todas as crianças tem direito ao mesmo ensino, seja o filho do empresário ou o filho do garçom. Todas as escolas são públicas-estatais, eficientes, profissionalizadas. Todos os professores são servidores públicos, ganham bem e são estimulados e reconhecidos. Nas escolas há serviços de saúde e alimentação, tudo gratuito.

Na Finlândia a internet é um direito de todos.

A Finlândia se destaca em tecnologia mais do que os Estados Unidos da América.

Sim, na Finlândia se paga bastante impostos: 50% do PIB.

O país dá um banho nos Estados Unidos da América em matéria de educação e de não corrupção.

Na Finlândia se incentiva a colaboração, e não a competição.

Mas os neoliberais-gerenciais, privatistas, continuam a citar os EUA como modelo.

Difícil o Brasil chegar perto do modelo finlandês? Quase impossível. Mas qual modelo devemos perseguir? Com certeza não pode ser o da privatização.

Veja o seguinte documentário, imperdível, elaborado por estadunidenses. Em inglês, com legendas em espanhol:

Leia abaixo matéria originalmente publicada no Diário do Centro do Mundo que trata da excelência do sistema de educação da Finlândia, reverenciado em todo o mundo.

Por que o sistema de educação da Finlândia é tão reverenciado

Acaba de sair um levantamento sobre educação no mundo feito pela editora britânica que publica a revista Economist, a Pearson.

É um comparativo no qual foram incluídos países com dados confiáveis suficientes para que se pudesse fazer o estudo.

Você pode adivinhar em que lugar o Brasil ficou. Seria rebaixado, caso fosse um campeonato de futebol. Disputou a última colocação com o México e a Indonésia.

Surpresa? Dificilmente.

Assim como não existe surpresa no vencedor. De onde vem? Da Escandinávia, naturalmente – uma região quase utópica que vai se tornando um modelo para o mundo moderno.

Foi a Finlândia a vencedora. A Finlândia costuma ficar em primeiro ou segundo lugar nas competições internacionais de estudantes, nas quais as disciplinas testadas são compreensão e redação, matemática e ciências.

A mídia internacional tem coberto o assim chamado “fenômeno finlandês” com encanto e empenho. Educadores de todas as partes têm ido para lá para aprender o segredo.

Se alguém leu alguma reportagem na imprensa brasileira, ou soube de alguma autoridade da educação que tenha ido à Finlândia, favor notificar. Nada vi, e também aí não tenho o direito de me surpreender.

Algumas coisas básicas no sistema finlandês:

1) Todas as crianças têm direito ao mesmo ensino. Não importa se é o filho do premiê ou do porteiro.

2) Todas as escolas são públicas, e oferecem, além do ensino, serviços médicos e dentários, e também comida.

3) Os professores são extraídos dos 10% mais bem colocados entre os graduados.

4) As crianças têm um professor particular disponível para casos em que necessitem de reforço.

5) Nos primeiros anos de aprendizado, as crianças não são submetidas a nenhum teste.

6) Os alunos são instados a falar mais que os professores nas salas de aula. (Nos Estados Unidos, uma pesquisa mostrou que 85% do tempo numa sala é o professor que fala.)

Isto é uma amostra, apenas.

Claro que, para fazer isso, são necessários recursos. A carga tributária na Finlândia é de cerca de 50% do PIB. (No México, é 20%. No Brasil, 35%.)

Já escrevi várias vezes: os escandinavos formaram um consenso segundo o qual pagar impostos é o preço – módico – para ter uma sociedade harmoniosa.

Não é à toa que, também nas listas internacionais de satisfação, os escandinavos apareçam sistematicamente como as pessoas mais felizes do mundo.

Para ver de perto o jeito finlandês de educar crianças, basta ver um fascinante documentário de 2011 feito por americanos (vídeo publicado acima).

Comecei a ver, e não consegui parar, como se estivesse assistindo a um suspense.

Todos os educadores, todas as escolas, todas as pessoas interessadas na educação, no Brasil, deveriam ver e discutir o documentário.

Fonte: Pragmatismo Político