O negacionismo como narrativa catártica e perversa nos corações e mentes dos brasileiros.

Ilustração: Daniel Medina

Estamos vivendo uma época ímpar no Brasil e no mundo. Em meio à uma pandemia de Covid-19, trancados em nossas casas, buscamos na ciência uma solução para o combate ao vírus. Dia após dia, vemos notícias de médicos e enfermeiros na linha de frente para salvar vidas. Nos bastidores, temos os cientistas de diversos ramos da Biologia, Infectologia entre outros na corrida por remédios e vacina. Cada vez mais, artigos científicos são publicados em revistas especializadas e notícias esparsas de testes e mais testes são veiculadas nos canais de comunicação. Enquanto o remédio e/ou vacina não chega, qual é a recomendação? Isso já estamos cansados de ouvir: ficar em casa e só sair se estritamente necessário. Os únicos lugares permitidos são os chamados “essenciais” como supermercados, farmácias e hospitais, para quem tem algum procedimento de emergência, por exemplo.

Uma grande parte da população não dispõe dessa vantagem, pois precisa trabalhar. Seja porque o trabalhador não possui vínculo empregatício fixo e se ele não sair para ganhar seu sustento, não coloca comida em casa; seja porque ele possui, sim, registro em carteira, mas a empresa não o permite ficar em casa, e os motivos são diversos, mas não me aprofundarei aqui. Do outro lado, existem aqueles que mesmo no conforto dos seus lares e com algumas condições financeiras e mentais, preferem ecoar o discurso da negação. Ou seja, tal epidemia não é o bicho papão que estão pintando, afinal, já temos doenças que matam muito mais e que existe um plano muito bem estruturado pelo governo (aí você decide de qual esfera estou falando) de prender as pessoas em casa e retirar o direito constitucional de “ir e vir” (seja lá o que signifique isso).

Existem outras narrativas mais, que transformaria esse singelo escrito em uma tese de doutorado, mas vou me ater em alguns temas e no final, tentarei explicar o motivo de tal insistência nossa em negar certas realidades.

Negação no cinema

Parte do meu interesse em escrever sobre o negacionismo teve a ajuda valiosa de um filme estreado em 2016 de nome Negação. A película é baseada em fatos reais[1] e mostra o caso da historiadora e escritora Deborah Lipstadt, que em 1993 publicou o livro Denying the Holocaust: The Growing Assault on Truth and Memory (Negando o Holocausto: O Crescente Ataque à Verdade e à Memória). Nesse livro, a autora expõe casos de pessoas sustentando a teoria de que o massacre perpetuado pelo governo nazista aos judeus na Segunda Guerra Mundial simplesmente não aconteceu. Não só isso: os números são bem menores do que 6 milhões de judeus mortos, entre outros argumentos. Deborah cita, por exemplo, o caso do escritor britânico David Irving; segundo ele, até aquele presente momento (anos 90), não tinha sido encontrado nenhum documento escrito por Adolf Hitler autorizando o extermínio sistemático de judeus. As câmaras de gás de Auschwitz não tinham a função de matar e sim, a de fumegar cadáveres; além disso, o Zyklon B (composto poderosíssimo usado originalmente para eliminar ratos) foi usado, segundo ele, para eliminar os piolhos causadores de tifo.

Irving, ao ser exposto, resolve processar Deborah por difamação e, pasmem, todo o processo decorre do fato da historiadora ter a missão de provar para o juiz que o holocausto realmente aconteceu, pois, no Reino Unido, não existe a presunção da inocência. Caso ela não tivesse respondido o processo, Irving teria ganho o caso.

Todo o processo correu por longos seis anos. O filme mostra como Deborah e sua equipe de advogados tiveram que ser extremamente habilidosos em relação a reunir documentos confiáveis e não caírem na armadilha falaciosa de Irving, pois, no que tange a processos judiciais, argumentos mal construídos podem levar a derrotas irrecuperáveis.

Diante desse filme, poderíamos questionar: se um assunto exaustivamente abordado como o Holocausto, mesmo assim é alvo de revisionismos em seus acontecimentos e ainda por cima, ganha a atenção e adesão das pessoas ao redor do mundo, por que isso acontece? Qual o interesse por trás daqueles que defendem a tese contrária à do genocídio das minorias na Alemanha? E por que algumas pessoas validam esse argumento sem questionar?

Vacinas

Atualmente, no século XXI, já temos provas contundentes que a vacina é um composto capaz de prevenir diversas doenças. A consequência da aplicação das vacinas é que um bom número de doenças tinham sido erradicadas (como a febre amarela e o sarampo). E por que não é mais?

Desde tempos remotos, populações eram contra em um primeiro momento a adesão da vacina. O medo do desconhecido sempre permeou nossas mentes. Um exemplo claro foi a Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, no Rio de Janeiro[2]. Na época, a cidade, mesmo sendo capital do Brasil, não era muito desenvolvida. O sistema de saúde era precário e o presidente Rodrigues Alves resolveu adotar uma série de reformas sanitárias, além de modernizar a cidade, claro.

Quando os cariocas viram que várias determinações arbitrárias foram tomadas como demolições de prédios, estabelecimentos fechados porque não atendiam os requisitos sanitários, o estopim foi um projeto de lei que obrigava a vacinação compulsória contra a varíola, o que acarretou em protestos, onde as pessoas depredavam delegacias e prédios públicos, tombavam bondes etc. O cenário mudou quando o governo voltou atrás quando optou por conscientizar a população dos benefícios da vacina, o que não era pregado na época.

Entretanto, ainda hoje vemos céticos propagarem inverdades sobre a vacina, dizendo que ela seria a causadora do autismo[3]. Personalidades como o ator Jim Carrey aderiu à campanha nos Estados Unidos.

Cada lugar com seu louco de estimação. Aqui no Brasil, temos como maldição o astrólogo Olavo de Carvalho. O mesmo, em 2006 publicou no seu blog Midia sem Máscara

Não tenho a menor convicção pessoal quanto às vacinas. Já li provas científicas eloquentes de que são úteis e de que são perniciosas, e me considero humildemente em dúvida até segunda ordem. Alguns de meus oito filhos tomaram vacinas, outros não. Todos foram abençoados com saúde, força e vigor extraordinários, e nenhum deles deve isso aos méritos da ciência estatal, mas a Deus e a ninguém mais. Tenho o direito às minhas dúvidas, tanto quanto Júlio Severo tem direito às suas certezas. O Estado e sua burocracia científica que vão para o diabo, que é pai dos dois.[4]

O atual guru ideológico do governo Bolsonaro confessa que alguns de seus filhos tomaram a vacina, mas não atribui a saúde dos mesmos ao vírus enfraquecido e sim, “a Deus e ninguém mais”.

Opiniões como essa podem soar como inofensivas, mas alimenta a ignorância daqueles céticos no poder da ciência, que procuram alguém para concordar com sua visão de mundo. A inserção de entidades religiosos como única ferramenta para validar a boa saúde, boas condições financeiras entre outras benesses, nega e põe em risco o trabalho de anos e anos dos cientistas para eliminar doenças há muito já superadas. Não à toa, de acordo com a ONU, a média brasileira de vacinados contra o sarampo tinha diminuído de 99% entre 2010 e 2017 para 84% em 2018.[5]

Outras narrativas como – que a propósito já aconteceu em outras épocas de epidemias e vem acontecendo como a do ‘vírus chinês’ – a de que as vacinas “são um plano arquitetado por governos para ganharem rios de dinheiro e alavancarem a economia local em consequência do próprio vírus que eles criaram” são muito poderosas e geram medo, além de provocar reações extremadas como a xenofobia.

As fake news dos “Caixões Vazios” e a negação da Covid-19

Nessa onda negacionista, alavancada por vozes dentro do governo federal e suas ramificações nos outros poderes, temos uma arauta da desgraça. Ninguém menos do que a deputada Carla Zambelli. Dentre várias mentiras pregadas durante seu curto e inexpressivo mandato, recentemente no mês passado, em uma entrevista com José Luiz Datena, Zambelli alega ter recebido informações de que no Ceará, caixões estavam sendo enterrados vazios. Na origem dessa “informação”, diz ter visto “uma foto” de uma menina carregando um caixão “com um dedinho”, e questiona esse fato. Datena apenas fica quieto. Talvez um jornalista sério teria perguntado onde ela recebeu tal informação.[6]

Como consequência dessa fake news, em Manaus, famílias estavam abrindo caixões para conferir se seus parentes estavam realmente lá, mesmo correndo riscos altíssimos de exposição ao Coronavírus.[7] Também houveram agressões a médicos que colocavam como causa mortis a Covid-19, pois as famílias simplesmente não aceitavam tal resultado.

Conclusão

Os negacionistas são pessoas que sempre estão defendendo uma narrativa contrária àquela mostrada pelos especialistas. No início, quando o que tínhamos ainda era uma epidemia, os negacionistas diziam que o coronavirus era apenas “uma gripe leve” e a OMS e imprensa eram culpados por disseminar o medo entre a população. Ao chegar no Brasil, a culpa foi transferida aos governadores e prefeitos, que impuseram a quarentena e limitaram a movimentação das pessoas, causando revolta nesse grupo. Ou seja, eles nunca são responsáveis pelo seus atos, e pior, alguns deles fazem questão de ir às ruas e colocar em risco a saúde deles e das outras pessoas, como bem explanou o jornalista Leonardo Sakamoto.[8]

Outra forma de entender a negação das pessoas em encarar a atual realidade venha do fato do vírus ter se espalhado em uma velocidade tão repentina e feroz, além de uma imposição em ficar em casa contra a nossa vontade, por isso, talvez “a ficha ainda não tenha caído”

O negacionismo claramente é endossado por pessoas de má índole, principalmente aquelas que colocam a economia acima da saúde da população e incita o ataque aos profissionais que estão trabalhando na linha de frente de combate a Covid-19. Tal discurso encontra nas mentes mais ignorantes um terreno fértil para disseminação das mentiras e um retorno a “vida normal”. Sabemos que na “vida normal” o vírus veio justamente por causa de violações extremadas a natureza e a vida animal. Será que queremos esse retorno?

Fontes:

[1] Como uma pesquisadora foi parar no tribunal para provar que o Holocausto aconteceu – Revista Época. https://epoca.globo.com/como-uma-pesquisadora-foi-parar-no-tribunal-para-provar-que-holocausto-aconteceu-23086662. Acesso em 19/05/2020.

[2] Revolta da Vacina – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=SlsHN-OWCkw. Acesso em 20/05/2020

[3] Teorias da Conspiração – Nerdologia. https://www.youtube.com/watch?v=meLRzQr8e6s. Acesso em 20/05/2020

[4] Vacinas – Blog do Júlio Severo. http://juliosevero.blogspot.com/2006/07/olavo-de-carvalho-fala-sobre-questo.html. Acesso em 20/05/2020

[5] A Volta do Sarampo: por que as taxas de vacinação diminuíram?. http://www.enf.ufmg.br/index.php/noticias/1590-a-volta-do-sarampo-por-que-as-taxas-de-vacinacao-diminuiram. Acesso em 20/05/2020

[6] Diário do Centro do Mundo. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-no-datena-zambelli-espalha-fake-news-de-que-caixoes-estao-sendo-enterrados-vazios/#disqus_thread. Acesso em 22/05/2020

[7] Yahoo Notícias. https://br.noticias.yahoo.com/familias-abrem-caixoes-a-beira-das-covas-coletivas-para-ter-certeza-de-que-estao-enterrando-seus-parentes-em-manaus-161006292.html. Acesso em 22/05/2020

[8] COVID-19: como pensa um negacionista?https://www.youtube.com/watch?v=DClKHI29Ct4. Acesso em 22/05/2020