O Futebol como reprodução do Status Quo educacional brasileiro

Anthony Cardoso

Não há como negar que no Brasil, o futebol é o esporte mais acompanhado, mais jogado e o mais desejado, desde crianças até os mais idosos. O homem que pelo menos uma vez na vida não jogou bola na rua ou no campinho, ou então nunca escolheu seu time ou seleção preferida no video game  que atire a primeira pedra. Nos dias de hoje, mesmo as mulheres vem adquirindo um interesse pelo esporte; é verdade que tanto os times profissionais quanto a Seleção Brasileira não dão o devido apoio, seja por falta de interesse ou sobretudo pela cultura machista imponente que ainda paira em nosso território, afinal, “mulher não sabe nem o que é um impedimento”.

Mas a questão não é essa. Quando eu assisto um jogo de futebol ou algum programa esportivo, os jogadores geralmente dizem a mesma coisa. Um exemplo básico:

O time A está ganhando do time B; no intervalo, o repórter lança a pergunta (que costuma ser a mesma também) para o jogador A, que responde:

-Vamos continuar nesse ritmo para ganhar os 3 pontos.

O repórter lança uma pergunta um pouco diferente, pelo fato da derrota provisória para o jogador B, que diz:

-Vamos voltar para o 2° tempo para fazer os gols e empatar ou ganhar.

Ao final do jogo, o time A mantém a vitória sobre o B. O mesmo repórter se aproxima do jogador A. Resposta:

-Agora é trabalhar para manter o ritmo.

Resposta do jogador do time B:

-Agora é trabalhar para recuperar os pontos perdidos.

Seja na vitória, no empate ou na derrota, nos treinos, entrevistas em geral, como testemunha ocular diária eu digo: o jogador de futebol adquiriu um vício por falar a mesma coisa. Porque?

O que me chama a atenção é pelo fato do futebol não ser somente o esporte em si, onde o aprimoramento físico e tático é o principal objetivo. Ele envolve vários aspectos. Pela visibilidade que o esporte alcançou ao longo das décadas, o papel social e porque não, político que ele exerce é significativo. Na final da década de 60, Pelé juntamente com o time do Santos promoveu um jogo em prol do fim da guerra civil no Congo. Na ditadura militar, a Seleção Brasileira amainou por uns dias o horizonte negro que pairava no país com a conquista da Copa do Mundo.

Hoje em dia, alguns jogadores participam de jogos beneficentes no período de férias para arrecadar fundos direcionados a instituições de caridade. Volta e meia também vemos clubes realizarem doações para essas mesmas ONG’s. Ou seja, mesmo não sendo o objetivo de tais grupos, mas o empenho de cunho social praticado no futebol em uma escala global é louvável, no entanto, porque esse poder de engajamento não se transformou em esclarecimento lógico-comunicativo nos jogadores brasileiros?

Mesmo o futebol alcançando tal repercussão no país e os jogadores sendo obrigatoriamente formadores de opinião, graças a exposição rotineira e cansativa da mídia, não cabe ao esporte formar ativistas prontos a defender um ponto de vista, um ideal politico em seu clube. Eu vejo a parca comunicação dos atletas como um reflexo da educação que temos no país. Elementos como falta de professores nas escolas, baixos salários, consequente desinteresse do profissional diante das más condições de trabalho como locais distantes, falta de educação dos alunos e negligência da direção em relação a problemas com drogas e de abusos sexuais etc. Todos essas barreiras podem ser encaradas por aquele aluno apenas como uma fase, em que o único objetivo é obter o diploma, sair desse lugar e alcançar o sonho de ser jogador de futebol.

É interessante que muitos pais ao descobrirem o desejo dos filhos de ingressarem no futebol, os veem como uma oportunidade de ascensão social. No entanto, assim como em diversas profissões, existem o bom profissional e o mal profissional e se em uma profissão há uma procura excessiva, poucos são os destaques e muitas as decepções. E assim, aquele jovem que sonhava com os holofotes e as facilidades que o futebol proporciona, ao receber o “não” na peneira, não vê outra saída senão se sujeitar a trabalhos com baixo salário e alta exploração, tal como a lógica capitalista nos presenteia. É possível que se tivéssemos uma educação qualificada, disposta  realmente a inserir no adolescente tanto o conhecimento como forma de se entender e entender os mecanismos da sociedade quanto formá-lo profissionalmente, o cenário seria diferente. Não é à toa que no final da carreira, alguns jogadores procuram uma qualificação acadêmica como forma de expandir o leque profissional, para além das quatro linhas.

No futebol em geral, obviamente o trabalho e dedicação constantes de uma equipe geram bons frutos ao final da temporada, seja ela o título ou a vaga para uma competição internacional; todavia, fatores como uma bola desviada do time adversário que termina na rede, o craque do time se machuca, ou uma péssima arbitragem influenciam no projeto final.

Na educação é a mesma coisa. Não basta o Estado ter dinheiro e não investir no lugar certo ou investir mal, assim como não adianta haverem bons professores se não há condições suficientes para darem uma aula de qualidade. Tem de haver uma mudança de mentalidade do Estado, priorizar a educação e entendê-la como um dos pilares para a evolução de um país. Porque, como resultado desses problemas, o Brasil amarga o Z-4 do ranking global de qualidade na educação. Periga ficar nas divisões inferiores por um bom tempo; por isso, é necessário nos dizeres dos jogadores, “trabalhar para recuperar os pontos perdidos”

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