Leitura de hoje: 1984

Anthony Cardoso

“Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”

A Oceania é um país mergulhado na filosofia do “IngSoc” em novilíngua (a língua oficial do país) ou “socialismo inglês”, aqui sendo tal nomenclatura política mais uma vez desvirtuada de seu significado, pois na Oceania, a liberdade é motivo de escravidão; a intelectualidade e, menos ainda, o questionamento é podado em detrimento da manutenção da ignorância, mais segura e psiquicamente equilibrada; além disso, a guerra é um motivo para manutenção da paz. Uma terra onde seus habitantes são constantemente levados a se orgulhar de estarem nela, pois, ao contrário do que as contradições acima levam a crer, a mortalidade infantil ano após ano vem decrescendo; a economia alcança superávitis além do esperado; não há fome nem miséria; segurança e saúde são exemplos para o resto do mundo, tudo isso graças a política de vanguarda do partido, comandado pela figura onipresente do Grande Irmão (Big Brother), “um rosto de uns quarenta e cinco anos, de bigodão preto e feições rudemente agradáveis” (p. 11). Ninguém nunca o viu, mas isso não importa, ele está de olho em você e te protege.

Tal cenário serve como pano de fundo para a aventura de Winston Smith em busca da verdade, afinal, seu apartamento “cheirando a repolho cozido e a velhos capachos de pano traçado” (p. 11), suas roupas velhas, sua saúde, seus vizinhos, seu bairro e, sobretudo, sua vida, demonstram o contrário. No entanto, essa caminhada pode levar a trajetos sem volta.

George Orwell (1903-1950) era membro do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) onde lutou na revolução espanhola, contra a ditadura de Francisco Franco nos anos 30. Alguns dizem que dotado da teoria da práxis marxista, Orwell talvez teria publicado 1984 com base nas suas constatações ao culto à personalidade de Stálin dos soviéticos, além de um possível desvirtuamento da retórica de Marx por parte do líder comunista ao não ultrapassar a linha da ditadura do proletariado e eliminar qualquer oposição, trazendo o poder para si. Tal fato se confirmaria 8 anos depois da publicação de 1984 no famoso discurso de Kruschev, denunciando os crimes contra a humanidade que Stálin cometeu. Ou seja, o livro seria uma espécie de desilusão sobre o modo de produção adotado pela URSS, confirmado pelo seu caráter altamente pessimista da realidade e do futuro.

No entanto, ligar a figura do Grande Irmão à Stálin seria puro reducionismo. O ambiente totalitário aplicado pelo partido não fica preso as paredes da Oceania, nem da Lestásia ou da Eurásia, muito menos na União Soviética. O clima da opressão também pode se referir a nós mesmos.

Fonte: ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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