Nas mãos de Deus

Sempre vemos as questões religiosas colocadas em um pedestal, cada uma com seus valores morais e sendo que todas se dizem digna de ser praticada.

Não podemos misturar as coisas!

De fato, a necessidade de muitos por um amparo sentimental e psicológico levam a ter nas religiões um apoio e para muitos uma resposta as suas aflições. E há muitos que aproveitam desse momento de fragilidade humana para adquirir riqueza, subtraindo de seus seguidores, quantias e bens materiais farsantes todo o recebimento da família.

Isso é vergonhoso!

Seja qual for a sua crença religiosa, apontamos que um deus ou deuses, não precisam de nenhuma riqueza ou bem material. Desafiamos qualquer religião a abrir mão de suas posses terrenas e continuarem a sua prática religiosa. Afinal de contas, não é necessária para deus ou deuses essas coisas mundanas. Como entes divinos podem viver pela onipresença, onisciência e onipotência. À nós, mortais, ficamos com suas intervenções e ações.

A crença sincera é o bastante, não é necessário pagar com bens materiais isso.

Não seja enganado, quem pedir isso em nome de deus ou deuses é uma mentira que não pode ser mantida. Nem 1 centavo para essa mentira!

Contra a exploração e opressão, mesmo que religiosa, lutamos!

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Esse é um texto de um grupo anarquista, o [anarkio.net][1]. Á primeira vista, um cristão poderia criticar veementemente a posição desse grupo, alegando que eles não tem moral e fundamento o suficiente para questionar a prática difundida nas igrejas do nosso mundo moderno. Porém, (com exceção daqueles que não querem abrir os olhos para os fatos – muito menos para o evangelho) não há como negar a lucidez com que analisaram a problemática da teologia da prosperidade, que arranca o conteúdo cognitivo dos fiéis com fins de acumular cada vez mais os lucros, um dos princípios primários do capitalismo. Roubam seu dinheiro e só não digo que roubam seu espírito pois eles não precisam disso; só a fantasia de bem estar colocada pelos líderes é mantida, transformando-se em um vazio que cedo ou tarde o indivíduo percebe.

É triste ver que essa clara visão não parte dos cristãos e sim daqueles que se propuseram a estudar um pouco mais e sempre questionar, sempre usar a palavra “por que?”, uma palavra que traz medo naqueles que veem o risco de seu status quo ir por água abaixo. A visão da verdade é assaz perigosa nas mãos de quem não sabem conduzi-la ou poderosa demais para aqueles que a usam para fins próprios.

Enquanto houver a soberania da mentalidade tacanha da grande liderança religiosa, totalmente combinada com o atual modo de produção, conectada com a crescente promessa de felicidade e ataraxia pelo acúmulo de bens materiais, as pessoas continuarão a viver nesse paradoxo de solidão e de constante confusão, gerando a busca infinita pelo descanso e prazer individual.

Independentemente da ideologia, não podemos deixar de prestar atenção na mensagem. Ela é válida e desafiadora.

Anthony Cardoso

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[1]Disponível em: http://anarkio.net/

Marx estava certo… sobre o capitalismo

Foto: Getty

Marx pode ter errado sobre o comunismo, mas estava certo sobre o capitalismo, diz Gray

Como efeito colateral da crise financeira, mais e mais pessoas estão começando a pensar que Karl Marx estava certo. O grande filósofo, economista e revolucionário alemão do século 19 acreditava que o capitalismo era radicalmente instável.

Ele tem uma tendência intrínseca de produzir avanços e fracassos cada vez maiores, e no longo prazo, ele estava destinado a se autodestruir.

Marx saudava a autodestruição do capitalismo. Ele era confiante que uma revolução popular ocorreria e daria origem um sistema comunista que seria mais produtivo e muito mais humano.

Marx estava errado sobre o comunismo. Aquilo sobre o que ele estava profeticamente certo era a sua compreensão da revolução do capitalismo. Não era somente a instabilidade endêmica do capitalismo que ele compreendia, embora neste sentido ele fosse muito mais perspicaz do que a maioria dos economistas da sua época e da nossa.

Mais profundamente, Marx compreendeu como o capitalismo destrói a sua própria base social – o meio de vida da classe média. A terminologia marxista de burguês e proletário tem um tom arcaico.

Mas quando ele argumentava que o capitalismo iria arrastar as classes médias a algo parecido com a existência precária dos sobrecarregados trabalhadores de sua época, Marx previu uma mudança na maneira como vivemos à qual só agora estamos lutando para nos adaptarmos.

 Karl Marx

Marx escreveu o Manifesto Comunista com Friedrich Engels

Ele via o capitalismo como o sistema econômico mais revolucionário da história, e não pode haver dúvida de que ele se diferencia daqueles que vieram antes dele.

Os caçadores e coletores persistiram nesta forma de vida por milhares de anos, enquanto as culturas escravagistas permaneceram assim por quase o mesmo tempo, e as sociedades feudais sobreviveram por muitos séculos. Em contraste, o capitalismo transforma tudo que ele toca.

Não são só as marcas que estão mudando constantemente. As empresas e as indústrias são criadas e destruídas em um fluxo incessante de inovação, enquanto as relações humanas são dissolvidas e reinventadas em novas formas.

O capitalismo foi descrito como um processo de destruição criativa, e ninguém pode negar que ele foi prodigiosamente produtivo. Praticamente qualquer um que esteja vivo na Grã-Bretanha hoje tem uma renda real maior do que eles teriam se o capitalismo nunca tivesse existido.

Retorno negativo

O problema é que entre as coisas que foram destruídas no processo está o estilo de vida do qual o capitalismo dependia no passado.

Defensores do capitalismo argumentam que ele oferece a todos os benefícios que, na época de Marx, eram desfrutados somente pela burguesia, a classe média estabelecida que possuía capital e tinha um razoável nível de segurança e liberdade em suas vidas.

No capitalismo do século 19, a maioria das pessoas não tinha nada. Elas viviam de vender o seu trabalho, e quando os mercados entravam em queda, eles enfrentavam tempos difíceis. Mas à medida que o capitalismo evolui, seus defensores dizem, um número crescente de pessoas pode se beneficiar dele.

Foto: AFP

Os mercados apresentam muita volatilidade

Carreiras bem-sucedidas não serão mais a prerrogativa de uns poucos. As pessoas não terão dificuldades todo mês para subsistir com base em um salário inseguro. Protegidos pelas economias, pela casa que possume e uma pensão decente, eles serão capazes de planejar suas vidas sem medo.

Com o crescimento da democracia e a distribuição da riqueza, ninguém precisará ser privado da vida burguesa. Todo mundo poderá ser da classe média.

Na verdade, na Grã-Bretanha, nos EUA e em muitos outros países desenvolvidos nos últimos 20 ou 30 anos, o contrário vem ocorrendo. A segurança do emprego não existe, as atividades e as profissões do passado em grande parte acabaram e as carreiras que duram uma vida inteira são meramente lembranças.

Se as pessoas têm qualquer riqueza, isto está nas suas casas, mas os preços dos imóveis nem sempre crescem. Quando o crédito fica restrito como agora, eles podem ficar estagnados por anos. Uma minoria cada vez menor pode contar com uma pensão com a qual pode viver confortavelmente, e não são muitos os que tem economias significativas.

Mais e mais pessoas vivem um dia de cada vez, com pouca noção do que o futuro pode reservar. AS pessoas da classe média costumavam imaginar as suas vidas desdobradas em uma progressão ordenada. Mas não é mais possível olhar para uma vida como uma sucessão de estágios em que cada um é um passo dado a partir do último.

No processo da destruição criativa, a escada foi afastada, e para um número cada vez maior de pessoas, uma existência de classe média não é mais sequer uma aspiração.

Assumindo riscos

Enquanto o capitalismo avançava, ele devolveu as pessoas a uma nova versão da existência precária do proletariado de Marx. As nossas rendas são muito maiores, e em algum grau nós estamos protegidos contra os choques por aquilo que resta do Estado de bem-estar social do pós-guerra.

Mas nós temos muito pouco controle efetivo sobre o curso das nossas vidas, e a incerteza na qual vivemos está sendo piorada pelas políticas voltadas para lidar com a crise financeira.

As taxas de juros a zero em meio a preços crescentes querem dizer que as pessoas estão tendo um retorno negativo de seu dinheiro, e ao longo do tempo o seu capital está se erodindo.

A situação de muitas das pessoas mais jovens é ainda pior. Para adquirir os talentos de que precisa, a pessoa tem de se endividar. Já que em algum ponto será necessário se reciclar, é preciso tentar economizar, mas se a pessoa está endividada desde o começo, esta é a última coisa que ela poderá fazer.

Não importa a sua idade, a perspectiva que a maioria das pessoas enfrenta é de uma vida de insegurança.

Ao mesmo tempo em que privou as pessoas da segurança da vida burguesa, o capitalismo criou o tipo de pessoa que vive a obsoleta vida burguesa. Nos anos 80, havia muita conversa sobre valores vitorianos, e propagandistas do livre mercado costumavam argumentar que ele traria de volta para nós os íntegros valores de outrora.

Para muitos, as mulheres e os pobres, por exemplo, estes valores vitorianos podem ser bastante ilógicos em seus efeitos. Mas o fato mais importante é que o livre mercado funciona para corroer as virtudes que mantêm a vida burguesa.

Quando as economias estão se perdendo, ser econômico pode ser o caminho para a ruína. É a pessoa que toma pesados empréstimos e não tem medo de declarar a insolvência que sobrevive e consegue prosperar.

Quando o mercado de trabalho está altamente volátil, não são aqueles que se mantém obedientemente fiéis a sua tarefa que são bem-sucedidos, e sim as pessoas que estão sempre prontas para tentar algo novo e que parece mais promissor.

Em uma sociedade que está sendo continuamente transformada pelas forças do mercado, os valores tradicionais são disfuncionais, e qualquer um que tentar viver com base neles está arriscado a acabar no ferro-velho.

Vasta riqueza

Olhando para um futuro no qual o mercado permeia cada canto da vida, Marx escreveu no ‘Manifesto Comunista’: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Para alguém que vivia na Grã-Bretanha no início do período vitoriano – o Manifesto foi publicado em 1848 -, isto era uma observação incrivelmente perspicaz.

Naquela época, nada parecia mais sólido que a sociedade às margens daquela em que Marx vivia. Um século e meio depois, nos encontramos no mundo que ele previu, onde a vida de todo mundo é experimental e provisória, e a ruína súbita pode ocorrer a qualquer momento.

 Foto: AFP

Medidas de austeridade para reduzir dívida grega acabaram em revoltas

Uns poucos acumularam uma vasta riqueza, mas mesmo isso tem uma característica evanescente, quase espectral. Na época vitoriana, os muito ricos podiam relaxar, desde que eles fossem conservadores com a maneira como eles investiam seu dinheiro. Quando os heróis dos romances de Dickens finalmente recebem sua herança, eles nunca mais fazem nada na vida.

Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos.

Este estado de inquietação perpétua é a revolução permanente do capitalismo, e eu acho que ele vai ficar conosco em qualquer futuro que seja realisticamente imaginável. Nós estamos apenas no meio do caminho de uma crise financeira que ainda deixará muitas coisas de cabeça para baixo.

As moedas e os governos provavelmente ficarão de ponta-cabeça, junto de partes do sistema financeiro que nós acreditávamos estar a salvo. Os riscos que ameaçavam congelar a economia mundial apenas três anos atrás não foram enfrentados. Eles foram simplesmente deslocados para os Estados.

Não importa o que políticos nos digam sobre a necessidade de controlar o déficit. Dívidas do tamanho das que foram contraídas não podem ser pagas. Elas quase que certamente serão infladas – um processo que está destinado a ser doloroso e empobrecedor para muitos.

O resultado só pode ser mais revoltas, em uma escala ainda maior. Mas isto não será o fim do mundo, ou mesmo do capitalismo. Aconteça o que acontecer, nós ainda teremos que aprender a viver com a energia mercurial que o mercado emitiu.

O capitalismo levou a uma revolução, mas não a que Marx esperava. O feroz pensador alemão odiava a vida burguesa e queria que o comunismo a destruísse. E assim como ele previu, o mundo burguês foi destruído.

Mas não foi o comunismo que conseguiu esta proeza. Foi o capitalismo que eliminou a burguesia.

John Gray – filósofo político e escritor

Via BBC Brasil

“Não é crise. É que não te quero mais”

Manuel Castells diz que, diante das novas turbulências financeiras, é preciso propor grandes mudanças — entre elas, reinvenção da democracia

Por Manuel CastellsLa Vangardia | Tradução Cauê Seigner Ameni

Quando milhares de [jovens] indignados, [que ocuparam as praças da Espanha], tiram de foco a “crise” e atacam diretamente o sistema que produz tantos desarranjos, estão sustentando algo importante. Querem dizer que é preciso ir à raiz dos problemas, olhar para suas causas. Porque se elas persistirem, continuarão produzindo as mesmas consequências.

Mas de que sistema falamos? Muitos diriam capitalismo, mais é algo pouco útil: há muitos capitalismos. Precisamos analisar o que vivemos como crise para entender que não se trata de uma patologia do sistema,mas do resultado deste capitalismo. Além disso, a critica se estende à gestão política. E surge no contexto de uma Europa desequilibrada por um sistema financeiro destrutivo que provoca a crise do euro e suscita a desunião europeia.

Nas ultimas décadas, constituiu-se um capitalismo global, dominado por instituições financeiras (os bancos são apenas uma parte) que vivem de produzir dívida e ganhar com ela. Para aumentar seus lucros, as instituições financeiras criam capital virtual por meio dos chamados “derivativos” [ou, basicamente, apostas na evolução futura de todo tipo de preço]. Emprestam umas às outras, aumentando o capital circulante e, portanto, os juros [e comissões] a receber. Em média, os bancos dispõem, nos Estados Unidos ou na Europa, de apenas 3% do capital que devem ao público. Se este percentual chega a 5%, são considerados solventes, [em boa saúde financeira]. Enquanto isso, 95% [do dinheiro dos depositantes] não está disponível: alimenta incessantemente operações que envolvem múltiplos credores e devedores, que estabelecem relações num mercado volátil, em grande parte desregulado.

Diz-se que umas transações compensam umas às outras e o risco se dilui. Para cobrir os riscos, há os seguros – mas as seguradoras também emprestam o capital que deveriam reservar para fazer frente a sinistros. Ainda assim, permanecem tranquilos, porque supõem que, em ultima estancia, o Estado (ou seja, nós) vai salvá-los das dívidas – desde que sejam grandes o suficiente [para ameaçar toda a economia]… O efeito perverso deste sistema, operado por redes de computadores mediadas por modelos matemáticos sofisticados, é: quanto menos garantias tiverem, mais rentáveis (para as instituições financeiras e seus dirigentes) as operações serão. E aqui entra outro fator: o modelo consumista que busca o sentido da vida comprando-a em prestações….

Como o maior investimento das pessoas são suas próprias casas, o mercado hipotecário (alimentado por juros reais negativos) criou um paraíso artificial. Estimulou uma industria imobiliária especulativa e desmesurada, predadora do meio ambiente, que se alimenta de trabalhadores imigrantes e dinheiro emprestado a baixo custo. Diante de tal facilidade, poucos empreendedores apostaram em inovações. Mesmo empresas de desenvolvimento tecnológico, grandes ou pequenas, passaram a buscar a autovalorização no mercado financeiro, ao invés de inovar. O que importava não eram as habilidades e virtudes da empresa, mas seu valor no mercado de capitais. O que muitos “inovadores” desejavam, na verdade, é que sua empresa fosse comprada por uma maior. A chave desta piramide especulativa era o entrelaçamento de toda essa divida: os passivos se convertiam em ativos para garantir outros empréstimos. Quando os empréstimos não puderam mais ser pagos, começou a insolvência de empresas e pessoas. As quebras propagaram-se em cadeia, até chegar no coração do sistema: as grandes seguradoras.

Diante do perigo do colapso de todo o sistema, os governos salvaram bancos e demais instituições financeiras.

Quando secou o credito às empresas, a crise financeira converteu-se em crise industrial e de emprego. Os governos assumiram o custo de evitar o desemprego em massa e tentar reanimar a economia moribunda. Como pagar a conta? Aumentar os impostos não dá votos. Por isso, recorreram aos próprios mercados financeiros, aumentando sua já elevada dívida pública. Quanto mais especulativas eram as economias (Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha) e quanto mais os governos pensavam apenas no curto prazo, maior eram o gasto público e o aumento da dívida. Como ela estava lastreada por uma modea forte – o euro –, os mercados continuaram emprestando. Contavam com a força e o crédito da União Europeia. O resultado foi uma crise financeira de vários Estados, ameaçados de falência. Esta crise fiscal converteu-se, em seguida, numa nova crise financeira: porque colocou em perigo o euro e aumentou o risco de países suspeitos de futura insolvência.

Mas quem quebraria, se fossem à falência os países em condições financeiras mais precárias, eram os bancos alemães e franceses. Para salvar tais bancos, era, portanto, preciso resgatar os países devedores. A condição foi impor cortes nos gastos dos Estados e a redução de empregos em empresas e no setor público. Muitos países – incluindo a Espanha – perderam sua soberania econômica. Assim chegaram as ondas de demissões, o aumento do desemprego, a redução de salários e os cortes nos serviços sociais. Coexistem com lucros recordes para o setor financeiro. Claro que alguns bancos perderam muito, e terão de sofrer intervenção do Estado – para serem, em seguida, reprivatizados. Por isso, os “indignados” afirmam que o sistema não está em crise. O capital financeiro continua ganhadondo, e transfere os prejuízos à sociedade e aos Estados. Assim se disciplinam os sindicatos e os cidadãos. Assim, a crise das finanças torna-se crise política.

Por que a outra característica-chave do sistema não é econômica, mas política. Trata-se da ruptura do vinculo entre cidadão e governantes. “Não nos representam”, dizem muitos. Os partidos vivem entre si e para si. A classe política tornou-se uma casta que compartilha o interesse comum de manter o poder dividido entre si mesma, através de um mercado político-midiatico que se renova a cada quatro anos. Auto-absolvendo-se da corrupção e dos abusos, já que tem o poder de designar a cúpula do Poder Judiciário.

Protegido desta forma, o poder Político, pactua com os outros dois poderes: o Financeiro e o Midiático, que estão profundamente imbricados. Enquanto a dívida econômica puder ser rolada, e a comunicação controlada, as pessoas tocarão suas vidas passivamente. Esse é o sistema. Por isso, acreditavam-se invencíveis. Até que a surgiu a comunicação autônoma e as pessoas, juntas, perderam o medo e se indignaram. Adonde ván? Cada um tem sua ideia, mas há temas em comuns. Que os bancos paguem a crise. Controle sobre os políticos. Internet livre. Uma economia da criatividade e um modo de vida sustentável. E, sobretudo, reinventar a democracia, a partir de valores como participação, transparência e prestação de contas aos cidadãos. Porque como dizia um cartaz dos indignados: “Não é que estamos em crise.Es que ya no te quiero”.

Via Outras Palavras

Hosni Mubarak: O Luis XVI do século XXI?

A REVOLUÇÃO DO MUNDO ÁRABE

A revolta árabe do começo do século XXI nos fez desempoerarmos dos nossos livros de história uma palavra em especial que se encontrava um tanto obsoleta após o fim da União Soviética: revolução. Tunísia, Egito, Iêmen, Marrocos, Líbia, Jordânia, Síria: todos eles foram, ou continuam, sacudidos com a chamada Primavera Árabe que deformou, e continua deformando, a configuração da região e que consequentemente afetara o mundo todo.

Dentre os países que estão passando pelo processo transformador o Egito tem sua relevância mais acentuada. O país que é chamado por alguns como o “coração do mundo árabe” tem uma importância econômica, diplomática e geopolítica fundamental para os rumos do Oriente e do Ocidente.[1]

Apesar das bandeiras defendidas pelos povos revoltosos aspirarem reivindicações semelhantes – como democracia, liberdades civis, emprego, desenvolvimento – do Egito se emana também conceitos e diretrizes determinantes para diversos assuntos: do conflito Israel-Palestina a própria contestação do Estado judaico como superpotência da região ao Irã nuclear; da influência americana no Oriente Médio até uma advertência teórica a países estrangeiros sobre uma visão fossilizada do imobilismo político dos povos árabes.

Nos 18 dias da Praça Tahrir que depuseram o ditador Hosni Mubarak (há 30 anos no poder) em 11 de fevereiro, sucederam-se acontecimentos e fatos que quebraram diversos paradigmas e fizeram os cientistas políticos e sociólogos repensarem conceitos e valores herdados entre o século XVIII e XX.

Principalmente a partir da Revolução Francesa os movimentos políticos procuraram sua legitimidade e força nos movimentos de massa. E essencialmente após a Revolução Russa de 1917, a presença de um líder, como foi Lênin, norteou as revoluções a partir dali. Já a Revolução Egípcia rasgou todos esses estatutos e reinscreveu modos e formas de revolução – que sem sombra de dúvida guiarão todo o século XXI.

Sem líderes populares ou intelectuais, com uma movimentação de massas vista poucas vezes de forma tão obstinada e concisa. Organizadas por redes sociais, sem bandeiras ou slogans socialistas (como foi praticamente todo o século XX após a Revolução Russa) nem palavras explícitas em aversão ao capitalismo; nenhuma organização partidária à frente do movimento (nem de vanguarda ou congêneres). Tradições e linhas de pensamento que foram deixadas para trás na Praça Tahrir que a partir de agora fazem parte do antigo capítulo da História – pois o novo já está escrito.

FRANÇA E EGITO: UMA TRISTE SEMELHANÇA PARA O AUTORITARISMO

Diante de toda a ebulição citada acima, no próximo dia 3 de agosto o Egito fará história novamente. Começara o julgamento do ex-líder do país que após três décadas de poder soberano em apenas 18 dias sucumbiu à força das massas. Diante do cenário e das circunstâncias o autocrata egípcio se aproxima estreitamente de um outro autocrata que também foi deposto, conheceu a fúria de seu povo, o julgamento e a condenação a morte: Luís XVI. (O que poderá acontecer com o ex-ditador egípcio também.)

O Oriente Médio do século XXI vivia uma configuração similar em termos de poder político da Europa dos tempos do monarca francês: déspotas com poderes ilimitados que exerciam sua vontade incontestavelmente. No entanto, apenas alguns dias de força popular foram suficientes para varrer de roldão séculos de poder – outra semelhança entre os dois.

Luís XVI, rei da monarquia mais opulenta e luxuosa da Europa, herdeiro de um trono secular de política influente no velho continente. Após 1789, sentiu a cólera dos seus subordinados com a queda da Bastilha, foi bombardeado politicamente pela Assembléia Nacional com seus decretos (como a Abolição dos Privilégios e a Declaração dos Direitos do Homem) e por fim, e não menos importante, humilhado moralmente quando preso em Varennes e condenado a morte, por entre outras coisas, trair a nação pondo fim a toda uma fase da História.

ADEUS, MUBARAK

Ao que a maioria das vezes as pessoas se enganam as revoluções não tem como sua força motriz e conquistadora a violência. As revoluções (todas elas) têm a sua pungente e blindagem contra os seus governos ilegítimos as “ideias”, e essas são a prova de balas, cassetetes, gás lacrimogêneo e todo o aparato repressivo e brutal do Estado. Após a vitória das idéias, o déspota Mubarak observa um novo Egito que vai passando por cima de um antigo Egito recalcado e subserviente a interesses alheios – como foi o país na sua direção.

Com a queda do governante, a limpeza política começou a punir e rechaçar tudo referente ao velho regime mubarakista. No dia 22 de maio um policial, Mohammed Al Soni, foi condenado à morte por matar 20 manifestantes que tentavam invadir uma delegacia. Além do julgamento dos repressores das revoltas, o antigo governo prestou suas contas a justiça: como foi o caso do ex-ministro das finanças, Yusef Butros Ghali, condenado a 30 anos de cárcere por abuso de poder e de ter utilizado recursos do ministério para as campanhas legislativas de 2010. Ao total 20 ministros ligados ao ditador estão sendo investigados.

O veredicto da história e a avaliação dos trinta anos do governo de Hosni Mubarak começará em 03 de agosto. Entre as acusações encontram-se as de enriquecimento ilícito, (segundo um relatório de supervisão administrativa do Egito os bens declarados pela família Mubarak não coincidem com a que foi declarada para a receita federal) abuso de poder e por morte premeditada dos manifestantes, que pode levá-lo a ser condenado à morte.

Todavia, independente do desfecho do julgamento as “idéias” no âmbito da sociedade egípcia já triunfaram, pois aos poucos a figura de Mubarak vai sendo varrida das mentes do povo como demonstra a sentença do Tribunal de Urgências do Cairo de 21 de Abril que ordenou a eliminação do nome de Hosni Mubarak de todos os locais públicos: como praças, bibliotecas, ruas, e mudança do nome de uma estação de metrô que levava o homônimo do ex-ditador.

Fabio Amorim é estudante de história da Universidade Nove de Julho – Uninove


[1] As causas da relevância do Egito como ator essencial da região serão explanadas em um outro artigo do mesmo autor: Quem tem Medo da Revolução Egípcia?

Um panorama da 2ª Marcha da Liberdade

Ontem fui na 2ª marcha da liberdade, realizada na avenida paulista, em São Paulo – SP; senti vontade de ir porque como estudante de Ciências Sociais, nunca tinha presenciado uma manifestação popular desse porte e por isso soou com uma obrigação em ir. Na semana que antecedeu o evento, conversando com um amigo por telefone, discutíamos a validade desse protesto. Citei pra ele uma reportagem da Folha, que colocava os jovens como “arroz de protesto”, onde a autora, a Sra. Anna Virgínia Balloussier, em poucas palavras e com duas jovens entrevistadas parecia ter diagnosticado o motivo real daqueles jovens estarem ali. Se essas duas jovens eram minoria eu não sei, porém enfatizei essa notícia para o meu amigo e salientei que diante da minha experiência ocular e embasado no que já li sobre a juventude no século XX, os jovens hoje em dia são quase estáticos quanto a situação política e social do Brasil.

Mas eu aprendi que pra dar uma opinião concreta, a presença no local é importante, a não ser que queiramos assumir um discurso retórico, e se transformar em um intelectual de gabinete, que construiu sua bagagem com livros e mais livros, internet e nunca saiu às ruas para ver com seus próprios olhos como a história é formada. Por isso, não fui influenciado o suficiente pela velha e leviana mídia que nunca relata o que realmente acontece em eventos desse porte e fui in loco.

Instigado pela oportunidade, fui a Avenida Paulista e chegando perto do Masp já vi o “Palocci” e a “Dilma” de mãos dadas a correr pelas calçadas. A polícia estimou em 2000 pessoas, mas achei que deveriam ter menos. As placas já estavam a mostra e a imprensa afoita, a busca da melhor foto, da melhor imagem. Às 16h10 saímos para o sentido consolação e começaram os coros de protestos que foram direcionados para diversos âmbitos; pela liberdade de auto-gestão dos corpos, no caso do aborto; contra a abusiva tarifa de ônibus de R$3, onde o excesso do valor não é convertido em qualidade e praticidade no transporte público; contra a construção da Usina de Belo Monte, no Pará; a favor de uma democracia direta; contra a homofobia e a favor da aprovação imediata da PL 122; contra o uso de armas letais pela polícia. A solidariedade aos bombeiros do Rio de Janeiro também estava presente. Até o apresentador Rafinha Bastos, do CQC, que no twitter, colocou que uma mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, foi alvo de xingamentos; e também uma representante das empregadas domésticas estava no local. Porém os gritos que dominaram a marcha da liberdade foram a favor da legalização da maconha.

Defendo que a livre manifestação deve ser exercida, conforme está estipulada na constituição brasileira, porém quase todos os gritos foram pró-maconha. Não ouvi nenhum coro a favor de uma reforma na saúde e na educação, apesar de (sejamos justos) ver algumas placas onde a critica do sucateamento educacional e a busca ensandecida por diplomas estavam escritas. Deve-se lembrar que a Marcha da Liberdade foi criada em conseqüência da repressão policial na Marcha da Maconha, em 21 de maio e num ato inteligente dos organizadores, uma nova marcha a favor de várias questões que estão sendo discutidas no país inteiro foram reunidas com um propósito de gritar contra a censura e a favor da liberdade de expressão.

Um fato que eu achei interessante foi o número de jovens que estavam no evento. Sem dúvida a maioria era de jovens e só o fato de estarem lá, ao contrário do que enfatizou a repórter da Folha, já mostra que ainda há uma parcela da sociedade que não se conforma com o status quo e por isso expressa a sua revolta na avenida mais expressiva de São Paulo.

Contornamos a avenida e depois de duas horas, finalmente chegamos a Praça Oswaldo Cruz, na região do paraíso, com a polícia nos acompanhando sempre e atenta.

Como estudante da sociedade, elogio esse ato e é importante que a juventude tome conhecimento dos assuntos que os cercam e saibam que ela é o motor para uma mudança nesse país. Torço para que esse movimento cresça consideravelmente e, acima de tudo, busquem uma unidade e reivindique uma sociedade mais justa, baseada na igualdade, no recíproco direito de livre expressão e contra a censura que em pleno século XXI ainda está em voga, em um Estado que parece laico, mas não é.

Anthony Cardoso

A esquizofrenia do espaço público e privado como espetáculo.

Lendo Richard Sennett e Guy Debord, percebo que sofremos de uma anomalia, que a princípio era pra ser uma solução. Diante do cenário urbano, somos atores de um espetáculo que nós mesmos criamos. Sennett faz uma análise histórica, que tem suas raízes desde o Império Romano. Mas o que pretendo discutir aqui é apenas o presente, o agora. Esse agora começou há pouco mais de 200 anos atrás, com a Revolução Industrial. O homem, inserido em um novo contexto, se via diante de um espaço público totalmente alterado. “Libertado” pela razão da Revolução Francesa, o Homem não mais adotava a prática religiosa como preceito único de vida, dogma da Idade Média. Éramos questionadores natos, prontos a discutir algum assunto que vinha a interferir a nossa vida social, vindo do governo, principalmente. Mas o capitalismo desenfreado, pôs uma nova lógica com a racionalização da técnica e a inserção da mentalidade consumidora, para uma atribuição de status. Hoje, a população mundial quer comprar mais, consumir mais, e isso se faz diante de um espaço público, pensando em um local como uma loja de conveniência, ou, porque não, um shopping.

Mas por que não percebemos esse espaço como público? Parece não haver dificuldade em descobrir. Porque o objetivo pelo qual procuramos esses espaços está unicamente para preencher nossos quesitos existenciais, privados. Como uma lógica “racional”, procuramos solucionar primeiro os nossos anseios, algo que a Psicologia Moderna não conseguiu realizar, com a descoberta do inconsciente, para depois reconhecer aquele espaço como público. A compulsão pelo consumismo como forma de aceitação, criou uma confusão entre a auto-aceitação do eu e a sua repercussão na sociedade. A sociedade coloca formas esteotipadas como símbolos positivos e o ser humano não tem outra coisa senão correr atrás desses símbolos. A verdade estipulada é a que a mídia propaga, voltada para interesses ideológicos e nisso, não procuramos contestar com a nossa “razão”

O que Richard Sennett e Debord diziam já era o que eu tinha visto, mas de uma outra perspectiva, voltada para um âmbito mais psicologico e marxista, através dos escritos de Erich Fromm, no seu livro “Ter ou Ser”.

Um bom ponto de partida para refletir é: onde foi parar a nossa razão?

Anthony Cardoso

Bibliografia recomendada:

DEBORD, G. A Sociedade do Espetaculo: Comentarios Sobre a Sociedade do Espetaculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002

FROMM, Erich. Do ter ao ser. São Paulo: Manole, 1992.

SENNETT, R. O Declinio do Homem Publico: As Tiranias da Intimidade. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2002.